{"id":44764,"date":"2010-04-20T12:01:41","date_gmt":"2010-04-20T12:01:41","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/20\/sociabilidades-crentes-na-eclesiosfera-catolica\/"},"modified":"2010-04-20T12:01:41","modified_gmt":"2010-04-20T12:01:41","slug":"sociabilidades-crentes-na-eclesiosfera-catolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sociabilidades-crentes-na-eclesiosfera-catolica\/","title":{"rendered":"Sociabilidades crentes na eclesiosfera cat\u00f3lica"},"content":{"rendered":"<p>Alfredo Teixeira <!--more--> <\/p>\n<p>Mesmo se a sociabilidade paroquial j&aacute; n&atilde;o condensa a diversidade das identidades na eclesiosfera cat&oacute;lica, ela permanece como um laborat&oacute;rio privilegiado para a observa&ccedil;&atilde;o das muta&ccedil;&otilde;es do catolicismo na sociedade portuguesa. Na passagem de regimes de sociabilidade &laquo;comunit&aacute;ria&raquo; para regimes de sociabilidade &laquo;societ&aacute;ria&raquo;, as formas pr&aacute;ticas de articula&ccedil;&atilde;o do crer e do pertencer conheceram significativas muta&ccedil;&otilde;es. Se a par&oacute;quia &eacute; comunidade, teologicamente definida como resposta a um chamamento que a precede, tal condi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deve conduzir ao esquecimento da complexidade da sua textura humana. Do centro para as periferias do campo cat&oacute;lico, de um catolicismo confessante at&eacute; &agrave;s franjas de um catolicismo cultural, diversificaram-se os modos de exprimir a identidade crente, diferen&ccedil;as bem patentes nas pr&aacute;ticas paroquiais.<\/p>\n<p>Podemos falar de um primeiro tipo de sociabilidade cat&oacute;lica, marcada pela ocasionalidade e pela sazonalidade &ndash; as duas caracter&iacute;sticas n&atilde;o s&atilde;o redut&iacute;veis. Incluem os praticantes dos rituais paroquiais, concernentes ao pr&oacute;prio, aos seus familiares, aos seus amigos, ou motivados por raz&otilde;es de civilidade ou representatividade social. Mas outras pr&aacute;ticas podem estar em causa, numa altura em que a institui&ccedil;&atilde;o paroquial cat&oacute;lica diversifica os modos de inscri&ccedil;&atilde;o social. Trata-se de uma sociabilidade de intercep&ccedil;&atilde;o: os diferentes dispositivos paroquiais cruzam-se com itiner&aacute;rios diversificados de praticantes marcados por motiva&ccedil;&otilde;es muito individualizadas ou por uma religiosidade familiar (que pode subsistir com vincada autonomia).<\/p>\n<p>Devemos falar tamb&eacute;m de uma sociabilidade paroquial regular enraizada num dos contextos de interac&ccedil;&atilde;o mais identificadores da geografia confessional crist&atilde;: as assembleias dominicais. Este contexto, onde se tecem os la&ccedil;os caracter&iacute;sticos deste tipo de sociabilidade, pode conduzir a solidariedades regulares, umas dizendo respeito &agrave; prepara&ccedil;&atilde;o da ac&ccedil;&atilde;o lit&uacute;rgica, outras decorrendo da pr&oacute;pria ac&ccedil;&atilde;o lit&uacute;rgica (como os espa&ccedil;os de convivialidade pr&eacute;vios ou consecutivos). Outras podem ser eminentemente &laquo;seculares&raquo;. Este tipo de sociabilidade paroquial aproxima-se da figura cl&aacute;ssica dos cat&oacute;licos observantes, mas num quadro social novo. Estes praticantes est&atilde;o presentes com regularidade nas assembleias dominicais, no quadro de uma iniciativa individual ou familiar, porque a&iacute; se sentem bem, porque descobrem nessa pr&aacute;tica algo de importante para a sua realiza&ccedil;&atilde;o pessoal, porque essa pr&aacute;tica &eacute; representada como resultado da coer&ecirc;ncia com que se representam a si pr&oacute;prios. A sua pr&aacute;tica &eacute; auto-representada preponderantemente a partir de uma l&oacute;gica electiva e menos segundo o imp&eacute;rio do dever. Este car&aacute;cter electivo parece acompanhar as marcas de uma &laquo;identidade de resist&ecirc;ncia&raquo;, no sentido proposto por Manuel Castells, na medida em que estes praticantes tendem a valorizar daquilo que os distingue (ou at&eacute; os discrimina) na cultura dominante &ndash; neste contexto, desenvolve-se uma nova consci&ecirc;ncia cat&oacute;lica marcada por alguns dos tra&ccedil;os da experi&ecirc;ncia social das minorias.<\/p>\n<p>Num terceiro registo, podemos falar de uma sociabilidade de tipo associativo. Encontramos aqui um conjunto diverso de grupos, equipas, organismos com objectivos espec&iacute;ficos, com l&oacute;gicas de ac&ccedil;&atilde;o espec&iacute;ficas (catequese, evangeliza&ccedil;&atilde;o de adultos, prepara&ccedil;&atilde;o dos rituais identificadores, anima&ccedil;&atilde;o lit&uacute;rgica, visita aos doentes, ac&ccedil;&otilde;es nas escolas do ensino b&aacute;sico, etc.). H&aacute; um segundo c&iacute;rculo associativo constitu&iacute;do por &laquo;movimentos eclesiais&raquo;. Mesmo se possam dar origem a sociabilidades espec&iacute;ficas, t&ecirc;m uma rela&ccedil;&atilde;o simbi&oacute;tica com o habitat paroquial. Pode, ainda, falar-se de um terceiro c&iacute;rculo constitu&iacute;do por aqueles cuja actividade se desenvolve em contextos de coopera&ccedil;&atilde;o com o meio social envolvente. Situam-se na interface que organiza a comunica&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o paroquial com o seu territ&oacute;rio, como &eacute; o caso dos dispositivos paroquiais de ac&ccedil;&atilde;o social. Estes s&atilde;o os crentes que, de forma mais acentuada, vivem a par&oacute;quia como centro de actividades, como suporte simb&oacute;lico para aquilo que identificam como sendo a espiritualidade que sustenta a sua ac&ccedil;&atilde;o e como experi&ecirc;ncia de comunitariza&ccedil;&atilde;o de valores.<\/p>\n<p>&Eacute; necess&aacute;rio falar de um quarto tipo de sociabilidade, patente nos quadros de ac&ccedil;&atilde;o dos &oacute;rg&atilde;os institucionais paroquiais. Refira-se, a t&iacute;tulo de exemplo, o Conselho Pastoral Paroquial, &oacute;rg&atilde;o consultivo e de concerta&ccedil;&atilde;o, e o Conselho Econ&oacute;mico, &oacute;rg&atilde;o de gest&atilde;o, ou as equipas (por vezes, secretariados) de &laquo;anima&ccedil;&atilde;o pastoral&raquo;. Encontramos aqui os crentes mais implicados na organiza&ccedil;&atilde;o paroquial. Estes crentes mant&ecirc;m fortes rela&ccedil;&otilde;es entre si, podendo apresentar um elevado n&iacute;vel de conhecimento interpessoal. Mas n&atilde;o constituem um conjunto homog&eacute;neo. Podem identificar-se, neste grupo, muitas clivagens quanto &agrave;s l&oacute;gicas e objectivos da ac&ccedil;&atilde;o que orientam a vida paroquial: entre os que defendem formas de comunidade paroquial mais exclusivistas ou mais inclusivistas; os que p&otilde;em &agrave; cabe&ccedil;a as quest&otilde;es sociais e a rela&ccedil;&atilde;o com o meio e os que v&ecirc;m na comunidade paroquial um abrigo espiritual; os que apostam na organiza&ccedil;&atilde;o da par&oacute;quia cultual e os que d&atilde;o prioridade aos dinamismos de recristianiza&ccedil;&atilde;o. Este &eacute; o terreno em que os fi&eacute;is leigos se encontram frequentemente em situa&ccedil;&otilde;es diversas de coopera&ccedil;&atilde;o com os cl&eacute;rigos. O protagonismo destes leigos tende a pronunciar-se nas situa&ccedil;&otilde;es em que se diversificam as din&acirc;micas paroquiais, se afirmam responsabilidades especificamente laicais ou ainda &ndash; em raz&atilde;o diminui&ccedil;&atilde;o do clero dispon&iacute;vel &ndash; se exigem novas miss&otilde;es num contexto de recomposi&ccedil;&atilde;o do sistema paroquial.<\/p>\n<p>Tradu&ccedil;&otilde;es dessa identidade socialmente descompactada, estes regimes de sociabilidade cat&oacute;lica n&atilde;o se transcrevem em posi&ccedil;&otilde;es religiosas imut&aacute;veis. Podem descrever polaridades que organizam traject&oacute;rias e itiner&aacute;rios determinados biograficamente &ndash; uma micro-hist&oacute;ria da identidade crente.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Alfredo Teixeira, te&oacute;logo e antrop&oacute;logo (UCP)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alfredo Teixeira<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[127,199,314,321],"class_list":["post-44764","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-catequese","tag-espiritualidade","tag-solidariedade","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44764","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44764"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44764\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44764"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44764"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44764"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}