{"id":44626,"date":"2010-04-13T13:25:17","date_gmt":"2010-04-13T13:25:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/13\/topicos-de-um-percurso-teologico\/"},"modified":"2010-04-13T13:25:17","modified_gmt":"2010-04-13T13:25:17","slug":"topicos-de-um-percurso-teologico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/topicos-de-um-percurso-teologico\/","title":{"rendered":"T\u00f3picos de um percurso teol\u00f3gico"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Duque <!--more--> <\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Perdoem-me os leitores, antes de tudo, a presun&ccedil;&atilde;o de falar do rico percurso teol&oacute;gico de Joseph Ratzinger\/Bento XVI em t&atilde;o poucos par&aacute;grafos. &Eacute; um atrevimento que, em realidade, n&atilde;o ter&aacute; desculpa poss&iacute;vel. Mas h&aacute; circunst&acirc;ncias que atenuam os atrevimentos. E, assumida esta desculpa inicial, j&aacute; poderei, com alguma despreocupa&ccedil;&atilde;o, referir ao de leve aquilo que considero ser o essencial desse percurso. Que sirva, simplesmente, de aliciante para que o leitor possa mergulhar nos recantos mais fundos dessa teologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Antes de mais, conv&eacute;m n&atilde;o perder o horizonte do in&iacute;cio, pois a&iacute; se lan&ccedil;am as bases de tudo. E, nesse in&iacute;cio, encontra-se sobretudo a consci&ecirc;ncia da import&acirc;ncia do pensamento hist&oacute;rico em teologia. Por influ&ecirc;ncia de Agostinho e de Boaventura, essa reapropria&ccedil;&atilde;o da dimens&atilde;o hist&oacute;rica da revela&ccedil;&atilde;o e da correspondente teologia foi, sem d&uacute;vida, um dos mais importantes passos da renova&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica do s&eacute;c.XX, influenciada pela Nouvelle Th&eacute;ologie francesa (Dani&eacute;lou, De Lubac&#8230;) e conducente ao Conc&iacute;lio do Vaticano II. &Eacute; preciso ter no&ccedil;&atilde;o de que, com essa perspectiva teol&oacute;gica, recuperava-se, de forma nova, um modo de rela&ccedil;&atilde;o com a Escritura e com os escritos da hist&oacute;ria do cristianismo, sobretudo dos primeiro s&eacute;culos, que a denominada Teologia Neo-escol&aacute;stica tinha praticamente abandonado. Basicamente, reafirmava-se uma rela&ccedil;&atilde;o intr&iacute;nseca entre a verdade crist&atilde; e as transforma&ccedil;&otilde;es da hist&oacute;ria, contra uma vis&atilde;o l&oacute;gico-est&aacute;tica e eterna dessa verdade. Os trabalhos acad&eacute;micos do jovem te&oacute;logo Joseph Ratzinger s&atilde;o importantes contributos para essa renova&ccedil;&atilde;o. E foram, por isso mesmo, controversos na academia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Esta perspectiva aproximou Ratzinger do esp&iacute;rito do Conc&iacute;lio Vaticano II, com o qual naturalmente se entusiasmou. Mais tarde, contudo, tornou-se c&eacute;ptico em rela&ccedil;&atilde;o a determinados modos de aplica&ccedil;&atilde;o e recep&ccedil;&atilde;o desse conc&iacute;lio. Sempre que a rela&ccedil;&atilde;o entre verdade da f&eacute; crist&atilde; e hist&oacute;ria humana foi interpretada como relativiza&ccedil;&atilde;o dessa verdade, que passa a ser constru&iacute;da, em cada circunst&acirc;ncia hist&oacute;rica, a partir dos dados do mundo, como se n&atilde;o tivesse uma tradi&ccedil;&atilde;o pr&oacute;pria ou como se essa tradi&ccedil;&atilde;o fosse falsa &ndash; sempre que uma corrente teol&oacute;gica ou uma tend&ecirc;ncia pastoral, at&eacute; mesmo lit&uacute;rgica, enveredou por essa perspectiva de ruptura, Ratzinger teve dificuldade em aceitar os &iacute;mpetos da nova teologia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Isso aconteceu j&aacute; em T&uuml;bingen, na altura em que se desenvolveram importantes projectos de Teologia Pol&iacute;tica e de Teologia da Esperan&ccedil;a, sob forte influ&ecirc;ncia da tradi&ccedil;&atilde;o neo-marxista. N&atilde;o negando elementos v&aacute;lidos a esses projectos teol&oacute;gicos, Ratzinger foi, sobretudo, duro cr&iacute;tico do seu caminho de fundamenta&ccedil;&atilde;o da verdade crist&atilde; fora da grande tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, recorrendo a intui&ccedil;&otilde;es e argumentos pr&oacute;prios de filosofias pol&iacute;ticas que, al&eacute;m do mais, considerava duvidosas. Foi nessa atitude cr&iacute;tica que escreveu a &laquo;Introdu&ccedil;&atilde;o ao Cristianismo&raquo; e, sobretudo, a &laquo;Escatologia&raquo; (esta, elaborada j&aacute; no contexto menos pol&eacute;mico de Regensburg, mas mantendo o mesmo gesto cr&iacute;tico em rela&ccedil;&atilde;o aos projectos escatol&oacute;gicos seus contempor&acirc;neos). Essas obras, que apresentam uma releitura do cristianismo e dos seus grandes temas em termos contempor&acirc;neos, mas numa linha de perfeita continuidade com a tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, sem ced&ecirc;ncias f&aacute;ceis a certas modas filos&oacute;ficas, marcar&atilde;o o n&uacute;cleo da sua perspectiva, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; teologia actual: uma perspectiva renovadora mas, ao mesmo tempo, cr&iacute;tica em rela&ccedil;&atilde;o ao que ele considerava uma aventura perigosa, por terrenos teol&oacute;gicos que poderiam levar &agrave; pr&oacute;pria deturpa&ccedil;&atilde;o da doutrina crist&atilde;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Parece-me, na minha humilde opini&atilde;o, ter sido esta leitura da teologia dos anos 70 e 80 do s&eacute;c. XX (sempre com base numa atitude pol&eacute;mica) que determinou a sua atitude como Cardeal Prefeito da Congrega&ccedil;&atilde;o da Doutrina da F&eacute;. Assim como, j&aacute; enquanto Arcebispo de Munique, se tinha assumido como defensor de uma rela&ccedil;&atilde;o estreita com a tradi&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica do cristianismo, contra rupturas mais ou menos atrevidas, assim agora, com muito mais raz&otilde;es, assumiu essa posi&ccedil;&atilde;o, em rela&ccedil;&atilde;o a toda a Igreja Cat&oacute;lica. Seja na leitura que fez da Teologia da Liberta&ccedil;&atilde;o, seja, mais recentemente, em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Teologia das Religi&otilde;es n&atilde;o crist&atilde;s, a perspectiva de fundo &eacute; de vigil&acirc;ncia, para evitar a ruptura com os elementos considerados fundamentais da tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde; e que poder&iacute;amos identificar com a verdade do cristianismo, na rela&ccedil;&atilde;o aos diversos momentos da hist&oacute;ria, mas sem se deixar determinar, em absoluto, pelo relativismo do historicismo total, ou pelo fasc&iacute;nio de correntes filos&oacute;fico-pol&iacute;ticas de moda.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Poderemos dizer que esta preocupa&ccedil;&atilde;o essencial tem determinado o pontificado de Bento XVI. Os seus escritos principais s&atilde;o, de facto, escritos teol&oacute;gicos sobre o que considera serem os pilares do cristianismo, num mundo em que corremos o risco de relativizar tudo. Assumindo, agora, um tom afirmativo e conciliador, diferentemente do tom pol&eacute;mico dos escritos anteriores, n&atilde;o deixa de se situar no mesmo registo fundamental. Ao mesmo tempo, vai abandonando a radicalidade de certa perspectiva cr&iacute;tica, reconhecendo elementos importantes nas tentativas teol&oacute;gicas a que anteriormente se tinha oposto. N&atilde;o porque tenha mudado de perspectiva, mas porque, entretanto, o debate teol&oacute;gico fundamental se alterou significativamente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Exemplo disso &eacute; o caso feliz de certas coincid&ecirc;ncias (sem encobrir reais diferen&ccedil;as), sobretudo quanto &agrave; centralidade da refer&ecirc;ncia a Deus, entre a sua teologia e a teologia de Johann Baptist Metz, tido como fundador da Nova Teologia Pol&iacute;tica e que foi, sem d&uacute;vida, um dos alvos da sua cr&iacute;tica, na fase de T&uuml;bingen. Por um lado, Metz &eacute; hoje mais c&eacute;ptico e cr&iacute;tico em rela&ccedil;&atilde;o ao rumo que a nossa cultura foi tomando, sendo tamb&eacute;m forte opositor do actual relativismo dito &laquo;p&oacute;s-modernista&raquo;. Ao mesmo tempo, Bento XVI, sobretudo nas Enc&iacute;clicas <em>Spe Salvi<\/em> e <em>Caritas in Veritate<\/em>, avalia de modo mais vasto a dimens&atilde;o pol&iacute;tica da esperan&ccedil;a e da pr&oacute;pria actividade teol&oacute;gica. Nesse sentido, parece-me que podemos encontrar, no percurso teol&oacute;gico de Ratzinger\/Bento XVI, independentemente do seu m&uacute;nus de Bispo de Roma, um dos maiores e mais equilibrados contributos para a renova&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica na cultura actual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Jo&atilde;o Duque, Prof. Teologia na UCP, Secr. Com. Episcopal Doutrina da F&eacute; e Ecumenismo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Duque<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,192,321],"class_list":["post-44626","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-ecumenismo","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44626","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44626"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44626\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44626"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44626"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44626"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}