{"id":44624,"date":"2010-04-13T13:05:06","date_gmt":"2010-04-13T13:05:06","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/13\/o-pensamento-politico-de-bento-xvi\/"},"modified":"2010-04-13T13:05:06","modified_gmt":"2010-04-13T13:05:06","slug":"o-pensamento-politico-de-bento-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-pensamento-politico-de-bento-xvi\/","title":{"rendered":"O pensamento pol\u00edtico de Bento XVI"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Caetano, presidente do CADC <!--more--> <\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Foi como fil&oacute;sofo pol&iacute;tico e te&oacute;logo filos&oacute;fico que Joseph Ratzinger, no per&iacute;odo anterior &agrave; sua elei&ccedil;&atilde;o como Papa, reflectiu sobre os conceitos pol&iacute;ticos mais importantes do mundo ocidental: democracia, liberdade, governo e Estado, entre outros. F&ecirc;-lo em m&uacute;ltiplas obras e interven&ccedil;&otilde;es, durante dezenas de anos, revelando uma coer&ecirc;ncia not&aacute;vel, que se reflecte na sua actua&ccedil;&atilde;o como Papa, sobretudo na Carta Enc&iacute;clica &ldquo;Deus &eacute; Amor&rdquo;, de 2005.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">N&atilde;o &eacute; contudo correcto classificar o percurso do actual Papa como pol&iacute;tico, porque ele nunca formulou um programa de ac&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica nem agiu politicamente. Foi como homem de f&eacute; e de pensamento que procurou determinar o significado da pol&iacute;tica e da democracia, e, por essa via, do direito, circunscrevendo a sua reflex&atilde;o aos fundamentos da conviv&ecirc;ncia humana. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">&Agrave; semelhan&ccedil;a de Jo&atilde;o Paulo II, o actual Papa v&ecirc; a democracia como a forma mais adequada de organizar a pol&iacute;tica, mas assinala-lhe contradi&ccedil;&otilde;es e limita&ccedil;&otilde;es graves no tempo presente, provocadas pela falta de conhecimento e observa&ccedil;&atilde;o, pelos agentes pol&iacute;ticos, de fundamentos morais s&oacute;lidos, que ele identifica como os valores absolutos do cristianismo. Segundo ele, tanto a organiza&ccedil;&atilde;o como a actividade pol&iacute;tica devem fundamentar-se nos valores crist&atilde;os, porque foram eles que permitiram criar os la&ccedil;os sociais das sociedades ocidentais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">A sua reflex&atilde;o &eacute; actual e pertinente, n&atilde;o se afastando, no dom&iacute;nio dos factos, do que &eacute; aceite pela maioria dos fil&oacute;sofos pol&iacute;ticos contempor&acirc;neos. Mas Ratzinger acrescenta um elemento, que decorre da sua condi&ccedil;&atilde;o de homem de f&eacute;, embora sempre numa atitude filos&oacute;fica. A moralidade social tem como postulado, desde Kant, a exist&ecirc;ncia de Deus, e este &eacute; um elemento que n&atilde;o pode ser ignorado. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">As democracias puramente formais vigentes, baseadas na regra da maioria e da minoria, criam &ldquo;um direito governado pela estat&iacute;stica&rdquo;. Mas a maioria n&atilde;o tem o direito de, s&oacute; porque &eacute; maioria, definir o que &eacute; verdadeiro e justo, de acordo com os valores do momento e muito menos contra o sentimento verdadeiro das pessoas. Mas &eacute; isso que acontece realmente, e por isso denuncia aquilo a que chama &ldquo;idolatria da democracia&rdquo;, em que a legitimidade invocada pelos agentes pol&iacute;ticos para as suas decis&otilde;es &eacute; apenas a da maioria, sem qualquer v&iacute;nculo externo ou conte&uacute;do moral.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Bento XVI perspectiva a rela&ccedil;&atilde;o entre a democracia e o cristianismo do seguinte modo: n&atilde;o existe verdadeira democracia sem fundamentos morais consensuais que permitam uma determina&ccedil;&atilde;o livre da vontade das pessoas. Os fundamentos morais do cristianismo s&atilde;o, no plano racional, o que possibilita a harmonia social, pois s&atilde;o absolutos, pelo que devem ser assumidos explicitamente pelos ordenamentos pol&iacute;tico-jur&iacute;dicos. De resto, a pol&iacute;tica &eacute; o reino do relativo, justificando-se a exist&ecirc;ncia de diversidade de opini&otilde;es sobre a maior parte das mat&eacute;rias. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Bento XVI duvida da exist&ecirc;ncia de uma efectiva liberdade de escolha nos Estados democr&aacute;ticos contempor&acirc;neos, porque, segundo ele, a vontade dos eleitores &eacute; manipulada atrav&eacute;s da propaganda veiculada pela comunica&ccedil;&atilde;o social, que faz parte de uma oligarquia que determina o que &eacute; moderno e progressista, o que devem pensar as pessoas. Essa oligarquia engloba a comunica&ccedil;&atilde;o social, assim como grandes empresas e associa&ccedil;&otilde;es de interesses &ndash; os poderes f&aacute;cticos da sociedade &ndash;, cujas actividades, ao contr&aacute;rio do que aconteceu em s&eacute;culos precedentes, n&atilde;o s&atilde;o controladas pelas pessoas e p&otilde;em em causa a representa&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Diante dos interesses organizados, o bem comum &eacute; hoje uma miragem, o que leva Ratzinger, hoje Papa, a perguntar se o sistema da maioria e da minoria ser&aacute; verdadeiramente um sistema de liberdade. A democracia funda-se na liberdade, que n&atilde;o &eacute; no entanto o direito de fazer o que se deseja mas o pressuposto de uma racional auto-determina&ccedil;&atilde;o da vontade. O Papa &eacute; contra a &ldquo;tirania da irracionalidade&rdquo;, ao mesmo tempo que nega que o homem saiba sempre o que quer. O que vale para a liberdade vale, segundo ele, tamb&eacute;m para a democracia. N&atilde;o existe democracia sem uma sentida e compreendida rela&ccedil;&atilde;o de interdepend&ecirc;ncia entre os membros da colectividade pol&iacute;tica, o que explica o conceito de autoridade e lhe confere conte&uacute;do, por exemplo em mat&eacute;ria social.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Segundo o Papa, n&atilde;o &eacute; conforme &agrave; natureza humana uma ac&ccedil;&atilde;o ou decis&atilde;o fundada no ego&iacute;smo e que separa o indiv&iacute;duo, nas suas rela&ccedil;&otilde;es, da vontade dos outros. O homem em sociedade quer mais do que pode e nem sempre quer bem. Sob pena de se autodestruir, o homem deve aprender a harmonizar a sua vontade com a sua natureza racional. Ora a vontade da maioria n&atilde;o expressa sempre a vontade individual, por for&ccedil;a da referida manipula&ccedil;&atilde;o das consci&ecirc;ncias e das modas ou da pr&oacute;pria press&atilde;o do mercado, sofrendo o homem contempor&acirc;neo que se julga livre &ldquo;a influ&ecirc;ncia da multid&atilde;o&rdquo;. &ldquo;A subtil voz da consci&ecirc;ncia &ndash; escreveu Ratzinger quando era cardeal &ndash; &eacute; sufocada pelos gritos da multid&atilde;o. A indecis&atilde;o, o respeito humano conferem for&ccedil;a ao mal&rdquo;. Existe uma &ldquo;ditadura da apar&ecirc;ncia&rdquo;, que se manifesta na actividade pol&iacute;tica, &ldquo;na qual em muitos casos o que realmente conta &eacute; o que &ldquo;aparece&rdquo; dos factos &ndash; aquilo que &eacute; afirmado, escrito, mostrado &ndash;, mais do que os factos em si mesmos&rdquo;. N&atilde;o existe hoje uma transfer&ecirc;ncia do poder das pessoas para as institui&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas, que n&atilde;o passam de &ldquo;um poder indeterminado e sem rosto&rdquo;. Diante da dissolu&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os consolidados nas sociedades pol&iacute;ticas, ao longo de mil&eacute;nios, por influ&ecirc;ncia do cristianismo, as democracias s&atilde;o hoje &ldquo;grandes sistemas an&oacute;nimos&rdquo; que capturaram a liberdade de auto-determina&ccedil;&atilde;o das pessoas. A democracia baseada na maioria &eacute; uma &ldquo;forma de relativismo moral&rdquo;, que desemboca &ldquo;na anarquia ou no totalitarismo&rdquo;, se n&atilde;o houver uma s&oacute;lida forma&ccedil;&atilde;o da consci&ecirc;ncia moral das pessoas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: windowtext;\">Este &eacute; o desafio que Bento XVI, como Papa que pensa, de modo inovador, a organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, nos deixa para j&aacute;, esperando-se mais desenvolvimentos no futuro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Jo&atilde;o Carlos Relv&atilde;o Caetano, Presidente do CADC<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Caetano, presidente do CADC<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120],"class_list":["post-44624","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44624","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44624"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44624\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44624"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44624"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44624"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}