{"id":44475,"date":"2010-04-05T11:21:40","date_gmt":"2010-04-05T11:21:40","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/05\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-sexta-feira-santa\/"},"modified":"2010-04-05T11:21:40","modified_gmt":"2010-04-05T11:21:40","slug":"homilia-do-arcebispo-de-braga-na-sexta-feira-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-sexta-feira-santa\/","title":{"rendered":"Homilia do Arcebispo de Braga na Sexta-feira Santa"},"content":{"rendered":"<p><strong>O sil&ecirc;ncio da morte exige uma palavra viva <\/strong><\/p>\n<p>A Igreja celebra a Paix&atilde;o e a morte de Jesus Cristo. Experimenta-se o dramatismo do sofrimento e a ang&uacute;stia da morte. Contudo, ancorados na intelig&ecirc;ncia da f&eacute;, n&atilde;o aceitamos estagnar neste momento crucial da hist&oacute;ria da humanidade. A morte de Cristo &eacute; pre&acirc;mbulo de uma nova vida a acolher e a fazer com que outros a acolham.<\/p>\n<p>Sabemos que Jesus morreu como parte integrante do Mist&eacute;rio pascal e, por isso mesmo, lan&ccedil;amos o nosso olhar na Ressurrei&ccedil;&atilde;o, apesar de muitos quererem aprisionar Deus no aguilh&atilde;o da morte. &Eacute;, ent&atilde;o, sobre esta morte de Deus que nos concentramos. Deus sempre teve os Seus inimigos, que reclamavam a Sua n&atilde;o exist&ecirc;ncia ou combatiam aqueles e aquelas que acreditavam n&rsquo;Ele como o vivente. Hoje, o cen&aacute;rio &eacute; diferente. As diversas for&ccedil;as parecem conjugar energias para O afastar, provocando a morte ou vivendo como se Ele n&atilde;o existisse. N&atilde;o podemos ter ilus&otilde;es.<\/p>\n<p>Vivemos a Quaresma na l&oacute;gica da justi&ccedil;a, que d&aacute; a cada um o que &eacute; &ldquo;seu&rdquo;. Reconhecemos, por&eacute;m, que o Homem moderno pode necessitar de muitas coisas mas, &ldquo;mais do que p&atilde;o, ele, de facto, precisa de Deus&rdquo;. &Eacute; que, prescindindo de Deus, o ser humano esvazia-se; negando os valores saud&aacute;veis, perde-se numa encruzilhada desconhecida e com um futuro carregado de perplexidades.<\/p>\n<p>Muitos acreditam na ilus&atilde;o emotiva do presente. S&oacute; que tudo desaparece, e as m&atilde;os cheias de nada est&atilde;o a gerar imensos conflitos entre grupos partid&aacute;rios que deveriam orientar-se, na diversidade de solu&ccedil;&otilde;es, para a prossecu&ccedil;&atilde;o do bem comum. Coabitamos com escandalosas atitudes de desrespeito e aproveitamento dos bens alheios, com inseguran&ccedil;as misturadas com gestos de corrup&ccedil;&atilde;o e oportunismos, numa total desconsidera&ccedil;&atilde;o pelas normas m&iacute;nimas de uma conviv&ecirc;ncia sadia. Deparamo-nos com uma educa&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o forma para valores, antes reduz-se &agrave; avidez de conhecimentos desintegrados de um aut&ecirc;ntico projecto de humanismo, com ataques a institui&ccedil;&otilde;es estruturantes da sociedade, como &eacute; a fam&iacute;lia, atrav&eacute;s de propostas de alternativas enganadoras.<\/p>\n<p>S&atilde;o tudo sinais de uma desorienta&ccedil;&atilde;o generalizada que o hedonismo imp&ocirc;s e o ego&iacute;smo exacerbado justificou. Muitos poder&atilde;o pensar que estes sinais de aut&ecirc;ntica morte s&atilde;o fortuitos. Nada mais enganador. A sociedade n&atilde;o quis dar ao Homem o que lhe pertencia de mais &iacute;ntimo &ndash; Deus &ndash; e est&aacute; a perder-se numa desorienta&ccedil;&atilde;o que atemoriza. Quando o Papa nos recordava o aut&ecirc;ntico sentido da justi&ccedil;a em S. Agostinho, estava a colocar o dedo na ferida. Ele afirmava: &ldquo;a justi&ccedil;a &eacute; a virtude que distribui a cada um o que &eacute; seu&hellip; n&atilde;o &eacute; justi&ccedil;a do homem aquela que subtrai o homem ao verdadeiro Deus&rdquo; (<em>De civitate Dei, XIX, 21<\/em>).<\/p>\n<p>Perante a celebra&ccedil;&atilde;o da morte de Jesus, interroguemo-nos e levemos para os nossos ambientes esta pergunta crucial. O que &eacute; que os governos est&atilde;o a &ldquo;distribuir&rdquo; aos cidad&atilde;os? S&atilde;o premissas de vida aut&ecirc;ntica ou sementes de morte a acontecer mais tarde ou mais cedo? E para quem deseja dar uma resposta a tantos males, n&atilde;o ser&aacute; que a causa destas realidades, que todos condenam, reside na orquestra&ccedil;&atilde;o bem delineada de subtrair Deus ao concreto das pessoas e &agrave;s coordenadas de uma sociedade armadilhada por tantos estrategas da destrui&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Perante a cruz de Jesus, reconhecemos que Cristo pagou por n&oacute;s um pre&ccedil;o verdadeiramente exorbitante. N&atilde;o foi com palavras ou discursos oportunistas mas com o Seu sangue. Como crentes, n&atilde;o podemos alhear-nos a esta entrega. Importa, portanto, que nos convertamos e acreditemos no Evangelho, reconhecendo que &ldquo;precisamos de um Outro&rdquo; para sermos verdadeiramente n&oacute;s mesmos, que necessitamos &ldquo;de sair da ilus&atilde;o da auto-sufici&ecirc;ncia para descobrir e aceitar a pr&oacute;pria indig&ecirc;ncia &ndash; indig&ecirc;ncia dos outros e de Deus&rdquo;. A morte de Cristo est&aacute; a pedir-nos isto.<\/p>\n<p>A cruz de Cristo recorda-nos, ainda, aquilo que o Papa Bento XVI reflectia na <em>Caritas in Veritate<\/em>. &ldquo;Al&eacute;m do crescimento material, o desenvolvimento deve incluir o espiritual, porque a pessoa humana &eacute; &ldquo;um ser uno, composto de corpo e alma&rdquo;, nascido do amor criador de Deus e destinado a viver eternamente. O ser humano desenvolve-se quando cresce no esp&iacute;rito, quando a sua alma se conhece a si mesma e apreende as verdades que Deus nela imprimiu em g&eacute;rmen, quando dialoga com o seu Criador. Longe de Deus, o Homem vive inquieto, infeliz.<\/p>\n<p>As aliena&ccedil;&otilde;es sociais, psicol&oacute;gicas e as in&uacute;meras neuroses que caracterizam as sociedades opulentas devem-se tamb&eacute;m a causas de ordem espiritual. Uma sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida mas opressora para a alma, n&atilde;o est&aacute;, por si mesma, orientada para o aut&ecirc;ntico desenvolvimento. As novas formas de escravid&atilde;o da droga e o desemprego em que caem tantas pessoas t&ecirc;m uma explica&ccedil;&atilde;o n&atilde;o s&oacute; sociol&oacute;gica e psicol&oacute;gica, mas especialmente espiritual. O vazio em que a alma se sente abandonada, embora no meio de tantas terapias para o corpo e para a mente, gera sofrimento. &ldquo;N&atilde;o h&aacute; desenvolvimento pleno nem bem comum universal sem o bem espiritual e moral das pessoas, consideradas na sua totalidade de alma e corpo.&rdquo; (CV 76)<\/p>\n<p>O quanto &eacute; desafiante para os nossos contempor&acirc;neos &ldquo;ver o que nunca lhes tinham contado e observar o que nunca tinham ouvido&rdquo; (Is 52, 16). E n&oacute;s, crist&atilde;os, estamos em condi&ccedil;&otilde;es de proporcionar esta experi&ecirc;ncia desde que sejamos capazes, n&oacute;s pr&oacute;prios, de ver. &ldquo;Aquele que viu &eacute; que d&aacute; testemunho e o seu testemunho &eacute; verdadeiro. Ele sabe que diz a verdade, para que tamb&eacute;m v&oacute;s digais&rdquo; (Jo 19, 42).<\/p>\n<p>O sil&ecirc;ncio contemplativo da morte de Cristo &eacute; oportunidade para renovar o empenho de acolher em autenticidade a Sua Palavra e, atrav&eacute;s da autenticidade da vida, a colocarmos no cora&ccedil;&atilde;o da hist&oacute;ria dos nossos contempor&acirc;neos e conterr&acirc;neos. Ela, no momento oportuno, florescer&aacute; como modelo e paradigma de uma sociedade nova.<\/p>\n<p>Braga, 02 de Abril de 2010,<\/p>\n<p>Sexta-feira Santa,<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O sil&ecirc;ncio da morte exige uma palavra viva A Igreja celebra a Paix&atilde;o e a morte de Jesus Cristo. Experimenta-se o dramatismo do sofrimento e a ang&uacute;stia da morte. Contudo, ancorados na intelig&ecirc;ncia da f&eacute;, n&atilde;o aceitamos estagnar neste momento crucial da hist&oacute;ria da humanidade. 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