{"id":44452,"date":"2010-04-04T10:56:32","date_gmt":"2010-04-04T10:56:32","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/04\/homilia-do-papa-na-vigilia-pascal-2\/"},"modified":"2010-04-04T10:56:32","modified_gmt":"2010-04-04T10:56:32","slug":"homilia-do-papa-na-vigilia-pascal-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-papa-na-vigilia-pascal-2\/","title":{"rendered":"Homilia do Papa na Vig\u00edlia Pascal"},"content":{"rendered":"<p>Amados irm&atilde;os e irm&atilde;s,<\/p>\n<p>Uma antiga lenda judaica, tirada do livro ap&oacute;crifo &ldquo;A vida de Ad&atilde;o e Eva&rdquo;, conta que Ad&atilde;o, durante a sua &uacute;ltima enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva &agrave; na regi&atilde;o do Para&iacute;so buscar o &oacute;leo da miseric&oacute;rdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. Aos dois, depois de muito rezar e chorar &agrave; procura da &aacute;rvore da vida, aparece o Arcanjo Miguel para dizer que n&atilde;o conseguiriam obter o &oacute;leo da &aacute;rvore da miseric&oacute;rdia e que Ad&atilde;o deveria morrer. Em seguida, os leitores crist&atilde;os adicionaram a esta comunica&ccedil;&atilde;o do arcanjo, uma palavra de consola&ccedil;&atilde;o. O Arcanjo teria dito que, depois de 5500 anos, viria o ben&eacute;volo Rei Cristo, o Filho de Deus, e ungiria com o &oacute;leo da sua miseric&oacute;rdia todos aqueles que acreditassem nele. &ldquo;O &oacute;leo da miseric&oacute;rdia para toda a eternidade ser&aacute; dado a quantos dever&atilde;o renascer da &aacute;gua e do Esp&iacute;rito Santo. Ent&atilde;o, o Filho de Deus rico de amor, Cristo, descer&aacute; &agrave;s profundezas da terra e conduzir&aacute; o teu pai ao Para&iacute;so, para junto da &aacute;rvore da miseric&oacute;rdia&rdquo;. Nesta lenda, faz-se palp&aacute;vel toda a afli&ccedil;&atilde;o do homem diante do destino de enfermidade, dor e morte que nos foi imposto. Torna-se evidente a resist&ecirc;ncia que o homem oferece &agrave; morte: em algum lugar &ndash; repetidamente pensaram os homens &ndash; deveria existir a erva medicinal contra a morte. Mais cedo ou mais tarde, deveria ser poss&iacute;vel encontrar o rem&eacute;dio n&atilde;o somente contra as diversas doen&ccedil;as, mas contra a verdadeira fatalidade &ndash; contra a morte. Deveria, em suma, existir o rem&eacute;dio da imortalidade. Tamb&eacute;m hoje, os homens andam &agrave; procura de tal subst&acirc;ncia curativa. A ci&ecirc;ncia m&eacute;dica atual, incapaz de excluir a morte, procura, contudo, eliminar o maior n&uacute;mero poss&iacute;vel das suas causas, adiando-a sempre mais; procura uma vida sempre melhor e mais longa. Mas, pensemos um pouco: caso se conseguisse qui&ccedil;&aacute; n&atilde;o excluir totalmente a morte mas adi&aacute;-la indefinidamente, como seria chegar a uma idade de v&aacute;rias centenas de anos? Isto seria bom? A humanidade envelheceria numa medida extraordin&aacute;ria; n&atilde;o haveria lugar para a juventude. A capacidade de inova&ccedil;&atilde;o se apagaria e uma vida intermin&aacute;vel n&atilde;o seria um para&iacute;so, mas uma condena&ccedil;&atilde;o. A verdadeira erva medicinal contra a morte deveria ser diversa. N&atilde;o deveria levar simplesmente a uma prolonga&ccedil;&atilde;o indefinida desta vida atual. Deveria transformar a nossa vida a partir do interior. Deveria criar em n&oacute;s uma vida nova, verdadeiramente capaz de eternidade: deveria transformar-nos de tal modo que n&atilde;o terminasse com a morte, mas com ela iniciasse em  plenitude. A novidade impressionante da mensagem crist&atilde;, do Evangelho de Jesus Cristo era, e ainda &eacute;, dizer-nos isto: sim, esta erva medicinal contra a morte, este aut&ecirc;ntico rem&eacute;dio da imortalidade existe. Foi encontrado. &Eacute; acess&iacute;vel. No Batismo, este medicamento nos &eacute; dado. Uma vida nova come&ccedil;a em n&oacute;s, uma vida nova que amadurece na f&eacute; e n&atilde;o &eacute; cancelada pela morte da vida velha, mas s&oacute; ent&atilde;o se tornar&aacute; plenamente vis&iacute;vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ouvindo isto alguns, qui&ccedil;&aacute; muitos, responder&atilde;o: a mensagem sim, eu escuto, mas falta-me a f&eacute;. E, mesmo quem quer acreditar perguntar&aacute;: mas, &eacute; verdadeiramente assim? Como devemos imagin&aacute;-la? Como se realiza esta transforma&ccedil;&atilde;o da vida velha, de tal modo que nela se forme a vida nova que n&atilde;o conhece a morte? Mais uma vez, um antigo escrito judaico pode nos ajudar a ter uma id&eacute;ia daquele processo misterioso que tem in&iacute;cio em n&oacute;s no Batismo. Neste escrito se conta que o patriarca Henoc foi arrebatado at&eacute; ao trono de Deus. Mas, ele se atemorizou &agrave; vista das gloriosas potestades ang&eacute;licas e, na sua fraqueza humana, n&atilde;o p&ocirc;de contemplar a Face de Deus. &ldquo;Ent&atilde;o Deus disse a Miguel &ndash; assim continua o livro de Henoc &ndash; &#8216;Toma Henoc e tira-lhe as vestes terrenas. Unge-o com o &oacute;leo suave e reviste-o com vestes de gl&oacute;ria! &#8216; E, Miguel tirou as minhas vestes, ungiu-me com &oacute;leo suave; este &oacute;leo possu&iacute;a algo mais que uma luz radiosa&#8230; O seu esplendor era semelhante aos raios do sol. Quando me vi, eis que eu era como um dos seres gloriosos&rdquo; (Ph. Rech, <em>Inbild des Kosmos<\/em>, II 524).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isto mesmo &ndash; ser revestidos com a nova veste de Deus &ndash; verivica-se Batismo; assim nos ensina a f&eacute; crist&atilde;. &Eacute; verdade que esta mudan&ccedil;a das vestes &eacute; um percurso que dura toda a vida. Aquilo que acontece no Batismo &eacute; o in&iacute;cio de um processo que abarca toda a nossa vida &ndash;torna-nos capazes de eternidade, de tal modo que, na veste de luz de Jesus Cristo, podemos aparecer diante de Deus e viver com Ele para sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No rito do Batismo, h&aacute; dois elementos nos quais este evento se expressa e torna vis&iacute;vel, tamb&eacute;m como exig&ecirc;ncia para o resto da nossa vida. Em primeiro lugar, temos o rito das ren&uacute;ncias e das promessas. Na Igreja Antiga, o batizando virava-se para ocidente, s&iacute;mbolo das trevas, do p&ocirc;r do sol, da morte e, portanto, do dom&iacute;nio do pecado. O batizando virava-se para aquela dire&ccedil;&atilde;o e pronunciava um tr&iacute;plice &ldquo;n&atilde;o&rdquo;: ao diabo, &agrave;s suas pompas e ao pecado. Com a estranha palavra &ldquo;pompas&rdquo;, ou seja, o fausto do diabo, indicava-se o esplendor do antigo culto dos deuses e do antigo teatro, onde a divers&atilde;o era ver pessoas vivas sendo dilaceradas pelas feras. Portanto, isto era o rep&uacute;dio de um tipo de cultura que acorrentava o homem &agrave; adora&ccedil;&atilde;o do poder, ao mundo da cobi&ccedil;a, &agrave; mentira, &agrave; crueldade. Era um ato de liberta&ccedil;&atilde;o da imposi&ccedil;&atilde;o de uma forma de vida que se apresentava como prazer e, contudo, levava &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o daquilo que no homem s&atilde;o as suas qualidades melhores. Esta ren&uacute;ncia &ndash; com um comportamento menos dram&aacute;tico &ndash; constitui ainda hoje uma parte essencial do Batismo. Assim removemos as &ldquo;vestes velhas&rdquo;, com as quais n&atilde;o se pode estar diante de Deus. Melhor dito: come&ccedil;amos a dep&ocirc;-las. Com efeito, esta ren&uacute;ncia &eacute; uma promessa na qual damos a m&atilde;o a Cristo, para que Ele nos guie e revista. Quais sejam as &ldquo;vestes&rdquo; que depomos e qual seja a promessa que pronunciamos fica claro quando lemos, no quinto cap&iacute;tulo da <em>Carta aos G&aacute;latas<\/em>, aquilo que Paulo denomina &ldquo;obras da carne&rdquo; &ndash; termo que significa precisamente as vestes velhas que devem ser depostas. Paulo as designa assim: &ldquo;fornica&ccedil;&atilde;o, libertinagem, devassid&atilde;o, idolatria, feiti&ccedil;aria, inimizades, contendas, ci&uacute;mes, iras, intrigas, disc&oacute;rdias, fac&ccedil;&otilde;es, invejas, bebedeiras, orgias e coisas semelhantes a essas&rdquo; (<em>Gal<\/em> 5, 19ss). S&atilde;o estas as vestes que depomos; s&atilde;o vestes da morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em seguida, o batizando na Igreja Antiga se virava para oriente &ndash; s&iacute;mbolo da luz, s&iacute;mbolo do novo sol da hist&oacute;ria, novo sol que se levanta, s&iacute;mbolo de Cristo. O batizando determina a nova dire&ccedil;&atilde;o da sua vida: a f&eacute; em Deus trino, a quem ele se oferece. Assim, o pr&oacute;prio Deus nos veste com o traje de luz, com a veste da vida. Paulo chama a estas novas &ldquo;vestes&rdquo; &ldquo;fruto do Esp&iacute;rito&rdquo; e as descreve com as seguintes palavras: &ldquo;caridade, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, lealdade, mansid&atilde;o, contin&ecirc;ncia&rdquo; (<em>Gal<\/em> 5, 22).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na Igreja Antiga, depois o batizando era verdadeiramente despojado das suas vestes. Descia &agrave; fonte batismal e era imerso por tr&ecirc;s vezes &ndash; um s&iacute;mbolo da morte que significa toda a radicalidade deste despojamento e desta mudan&ccedil;a de veste. Esta vida, que em todo o caso j&aacute; est&aacute; voltada &agrave; morte, o batizando a entrega &agrave; morte, junto com Cristo, e por Ele se deixa arrastar e elevar para a vida nova, que o transforma para a eternidade. Depois subindo das &aacute;guas batismais, os ne&oacute;fitos eram revestidos com a veste branca, a veste luminosa de Deus, e recebiam a vela acesa como sinal da vida nova na luz que Deus mesmo acendera neles. Eles sabiam que tinham obtido o rem&eacute;dio da imortalidade, que agora, no momento de receber a sagrada Comunh&atilde;o, tomava a sua forma plena. Na Comunh&atilde;o, recebemos o Corpo do Senhor ressuscitado e n&oacute;s mesmos somos atra&iacute;dos para este Corpo, de tal modo que ficamos j&aacute; guardados por Aquele que venceu a morte e nos conduz atrav&eacute;s da morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No decorrer dos s&eacute;culos, os s&iacute;mbolos tornaram-se mais escassos, mas o acontecimento essencial do Batismo continue sendo o mesmo. Este n&atilde;o &eacute; apenas um lavacro, e menos ainda uma recep&ccedil;&atilde;o um pouco complicada numa nova associa&ccedil;&atilde;o. O Batismo &eacute; morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o, renascimento para a nova vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sim, a erva medicinal contra a morte existe. Cristo &eacute; a &aacute;rvore da vida, que se fez novamente acess&iacute;vel. Se aderimos a ele, ent&atilde;o estamos na vida. Por isso, nesta noite da ressurrei&ccedil;&atilde;o, cantaremos com todo o cora&ccedil;&atilde;o o aleluia, o canto da alegria que n&atilde;o tem necessidade de palavras. Por isso Paulo pode dizer aos Filipenses: &ldquo;alegrai-vos sempre no Senhor; eu repito, alegrai-vos!&rdquo; (<em>Fl<\/em> 4, 4). N&atilde;o se pode comandar a alegria. Somente pode ser dada. O Senhor ressuscitado nos d&aacute; a alegria: a verdadeira vida. J&aacute; estamos protegidos para sempre guardados no amor daquele a quem foi dado todo o poder no c&eacute;u e na terra (cf. <em>Mt <\/em>28,18). Assim, seguros de ser escutados, pe&ccedil;amos como diz a ora&ccedil;&atilde;o sobre as oferendas que a Igreja eleva nesta noite: Acolhei, &oacute; Deus, com estas oferendas as preces do vosso povo, para que a nova vida, que brota do mist&eacute;rio pascal, seja por vossa gra&ccedil;a penhor da eternidade. Am&eacute;m.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amados irm&atilde;os e irm&atilde;s, Uma antiga lenda judaica, tirada do livro ap&oacute;crifo &ldquo;A vida de Ad&atilde;o e Eva&rdquo;, conta que Ad&atilde;o, durante a sua &uacute;ltima enfermidade, teria mandado o filho Set juntamente com Eva &agrave; na regi&atilde;o do Para&iacute;so buscar o &oacute;leo da miseric&oacute;rdia, para ser ungido com este e assim ficar curado. 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