{"id":44447,"date":"2010-04-02T16:42:37","date_gmt":"2010-04-02T16:42:37","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/04\/02\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-sexta-feira-santa\/"},"modified":"2010-04-02T16:42:37","modified_gmt":"2010-04-02T16:42:37","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-na-sexta-feira-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-na-sexta-feira-santa\/","title":{"rendered":"Homilia do Cardeal-Patriarca na Sexta-feira Santa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>&#8220;A Igreja aos p&eacute;s da Cruz&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>1. &ldquo;Aos p&eacute;s da Cruz de Jesus, estavam sua M&atilde;e, a irm&atilde; de sua M&atilde;e, Maria, mulher de Cl&eacute;ofas e Maria de Magdala&rdquo; (Jo. 19,25-26). Junto a Maria, a M&atilde;e de Jesus, estava Jo&atilde;o, o disc&iacute;pulo amado. O estar com Maria ajudou-o a ficar at&eacute; ao fim, quando todos os outros se tinham dispersado.<\/p>\n<p>Hoje, aos p&eacute;s da Cruz, est&aacute; a Igreja, a comunidade de todos os disc&iacute;pulos amados. Juntemo-nos ao grupo, pois precisamos que Maria esteja connosco. Foi na Cruz que Jesus a declarou nossa M&atilde;e. S&oacute; ela nos pode conduzir para estarmos aos p&eacute;s da Cruz com verdade. N&oacute;s acreditamos que Jesus venceu a morte, porque o Pai O ressuscitou dos mortos; n&oacute;s sabemos que &eacute; a for&ccedil;a da Sua ressurrei&ccedil;&atilde;o que nos d&aacute; for&ccedil;a para estarmos, hoje, aos p&eacute;s da Cruz. Mas a ressurrei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o anulou a Cruz, cujo sentido permanece perene, para ajudar a Igreja a passar da morte &agrave; vida. A sua actualidade &eacute; a da nossa cruz, que, se for vivida em uni&atilde;o &agrave; Cruz de Cristo, nos permite esperar a ressurrei&ccedil;&atilde;o do nosso pr&oacute;prio corpo. Aos p&eacute;s da Cruz do Senhor revivemos o nosso baptismo. O Ap&oacute;stolo Paulo, que encontra o sentido da sua vida na Cruz do Senhor, ensina-nos: &ldquo;N&atilde;o sabeis que todos n&oacute;s, que fomos baptizados em Jesus Cristo, fomos baptizados na sua morte? Pelo baptismo fomos sepultados com Ele na morte, para que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos por meio da gl&oacute;ria do Pai, assim tamb&eacute;m n&oacute;s possamos caminhar numa vida nova&rdquo; (Rom. 6,3-4). Juntemo-nos, pois, ao grupo que est&aacute; aos p&eacute;s da Cruz de Jesus com este desejo de viver o nosso baptismo e caminhar na vida nova, que &eacute; j&aacute; participa&ccedil;&atilde;o na ressurrei&ccedil;&atilde;o do Senhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Aos p&eacute;s da Cruz procuremos mergulhar no sofrimento inocente de Cristo. O elemento novo ali n&atilde;o &eacute; a dureza do sofrimento, infelizmente comum naquele tempo e em todos os tempos, mas sim o sofrimento de um inocente. Ele n&atilde;o conheceu o pecado; nada fez perante Deus e perante os homens que justificasse aquele sofrimento. A inoc&ecirc;ncia de Cristo significa a pureza do seu cora&ccedil;&atilde;o e de todo o seu ser, o cora&ccedil;&atilde;o de Filho. S&oacute; a pureza do cora&ccedil;&atilde;o leva a viver o sofrimento como express&atilde;o de amor, permitindo-lhe toda a fecundidade. Um cora&ccedil;&atilde;o puro sofre amando, e aceita o sofrimento como miss&atilde;o. Escut&aacute;vamos h&aacute; pouco na Carta aos Hebreus: &ldquo;Apesar de ser Filho, aprendeu, de quanto sofrera, o que &eacute; obedecer&rdquo; (He. 5,8). Jesus sabia que era assim ao proclamar bem-aventurados os que t&ecirc;m um cora&ccedil;&atilde;o puro, os mansos e humildes de cora&ccedil;&atilde;o (cf. Mt. 5,5.7). Aos p&eacute;s da Cruz s&oacute; Maria tem esse cora&ccedil;&atilde;o puro. Como o de seu Filho, o seu &eacute; um sofrimento inocente, oferecido por amor. &Eacute;, como o de Cristo, um sofrimento redentor.<\/p>\n<p>Ao contemplar o sofrimento inocente, podemos intuir como os nossos pecados, passados e presentes, nos impedem de viver o sofrimento com sentido redentor. O sofrimento &eacute; uma realidade dram&aacute;tica na humanidade de todos os tempos. O nosso pecado impede-nos de o abra&ccedil;ar e de o oferecer com amor. Que for&ccedil;a de transforma&ccedil;&atilde;o do mundo &eacute;, assim, desperdi&ccedil;ada, porque os homens perderam a inoc&ecirc;ncia do cora&ccedil;&atilde;o! A contempla&ccedil;&atilde;o do sofrimento inocente de Cristo e de Maria pode fazer brotar do nosso &iacute;ntimo uma prece: Senhor, d&aacute;-nos um cora&ccedil;&atilde;o puro, n&atilde;o para evitar o sofrimento, mas para o poder oferecer e amar. E entreguemos essa prece ao Cora&ccedil;&atilde;o de Maria, ela que est&aacute; aos p&eacute;s da Cruz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Aos p&eacute;s da Cruz poderemos perceber a gravidade do pecado da humanidade, que exigiu uma interven&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica de Deus, sacrificando o seu pr&oacute;prio Filho. Aprenderemos, talvez, a n&atilde;o banalizar o pecado e a identific&aacute;-lo nas express&otilde;es da nossa liberdade. &Agrave; exclama&ccedil;&atilde;o da Liturgia, &ldquo;oh, feliz culpa que mereceste tal redentor&rdquo;, temos de acrescentar: &oacute; grave culpa que exigiste tal redentor.<\/p>\n<p>Uma das caracter&iacute;sticas preocupantes do nosso tempo &eacute; o facto de se perder a consci&ecirc;ncia do pecado. A humanidade vai perdendo a no&ccedil;&atilde;o do que Cristo a libertou. N&oacute;s os crist&atilde;os benefici&aacute;mos, pelo nosso baptismo, desse efeito recriador da reden&ccedil;&atilde;o: foi-nos restitu&iacute;da a inoc&ecirc;ncia do cora&ccedil;&atilde;o. Naquela Cruz, Cristo sente o peso de todos os pecados do mundo, mas deve ter sentido, de forma mais dolorosa, os pecados dos seus disc&iacute;pulos, desde a nega&ccedil;&atilde;o de Pedro, ao pecado dos crist&atilde;os que n&atilde;o foram fi&eacute;is &agrave; pureza baptismal. Os pecados da Igreja ferem, de modo particular, o cora&ccedil;&atilde;o inocente de Cristo e de sua M&atilde;e, a Imaculada. Estamos aos p&eacute;s da Cruz num momento em que os pecados da Igreja, mesmo os pecados dos sacerdotes, indignam o mundo e ofuscam a imagem do Reino de Deus. Aos p&eacute;s da Cruz, compensemos com amor renovado a tristeza provocada pelos pecados da Igreja, e recorramos humildemente &agrave; Cruz como &ldquo;trono da gra&ccedil;a&rdquo;, amor que nos redime. Com amor e humildade pe&ccedil;amos, por intercess&atilde;o de Maria: Senhor, perdoai os pecados da vossa Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. Talvez a humildade dessa prece nos fa&ccedil;a reconhecer a infinita fecundidade da Cruz de Cristo. Esta fecundidade era j&aacute; uma certeza na f&eacute; de Isa&iacute;as no C&acirc;ntico do Servo: &ldquo;Aprouve ao Senhor esmag&aacute;-lo pelo sofrimento. Mas se oferecer a sua vida como sacrif&iacute;cio de expia&ccedil;&atilde;o, h&aacute;-de ver a sua descend&ecirc;ncia, ter&aacute; longos dias e, gra&ccedil;as a ele, se cumprir&aacute; o des&iacute;gnio do Senhor (&hellip;). O meu servo que &eacute; justo justificar&aacute; muitos diante de mim (&hellip;). Por isso dar-lhe-ei as multid&otilde;es como pr&eacute;mio&rdquo; (Is. 53,10-12). A fecundidade da Cruz de Cristo, contemplemo-la com a certeza de que nela est&aacute; a salva&ccedil;&atilde;o do mundo, a for&ccedil;a para a transforma&ccedil;&atilde;o da nossa vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. Aos p&eacute;s da Cruz, deixemo-nos envolver pelo sil&ecirc;ncio, t&atilde;o profundo como j&aacute; n&atilde;o se tinha experimentado desde a cria&ccedil;&atilde;o do mundo, porque &eacute; o sil&ecirc;ncio de Deus.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;  O evangelista S&atilde;o Mateus relata esse sil&ecirc;ncio, que envolve o pr&oacute;prio universo c&oacute;smico: &ldquo;Desde o meio-dia at&eacute; &agrave;s tr&ecirc;s horas da tarde houve escurid&atilde;o sobre a terra&rdquo; (Mt. 27,45). S&oacute; Jesus quebra esse sil&ecirc;ncio, ou melhor, n&atilde;o o quebra, porque &eacute; o sil&ecirc;ncio de Deus, e as suas Palavras no alto da Cruz s&atilde;o o eco das Palavras de Deus no sil&ecirc;ncio do caos inicial, dizendo a palavra criadora: fa&ccedil;a-se a luz (cf. Gen. 1,1-2). Sobre uma humanidade destru&iacute;da pelo pecado, as Palavras de Jesus s&atilde;o criadoras do mundo novo: &ldquo;Mulher, eis o teu filho&rdquo;; &ldquo;Tenho sede&rdquo;, &ldquo;Tudo est&aacute; consumado&rdquo;. A sua sede de uma humanidade renovada &eacute; partilhada por sua M&atilde;e. Aquela palavra &ldquo;tudo est&aacute; consumado&rdquo; &eacute; o eco da palavra criadora de Deus, que achou que eram boas todas as coisas criadas.<\/p>\n<p>Deixemo-nos invadir por este sil&ecirc;ncio, porque s&oacute; nele poderemos escutar a Palavra que reacende a nossa esperan&ccedil;a. Aos p&eacute;s da Cruz, deixemos que desse sil&ecirc;ncio brote a nossa adora&ccedil;&atilde;o. Ponhamos o nosso olhar em Maria, que agora &eacute; nossa M&atilde;e, e digamos: n&oacute;s vos adoramos Senhor Jesus, porque acreditamos que sois o Filho de Deus; em V&oacute;s adoramos a Trindade Sant&iacute;ssima, porque sentimos que a vossa morte, por nosso amor, &eacute; a manifesta&ccedil;&atilde;o do infinito amor de Deus por n&oacute;s. Continuamos a precisar do vosso amor redentor, por causa dos nossos pecados. Perdoai os pecados da vossa Igreja. Ao sentirmo-nos t&atilde;o amados, do nosso cora&ccedil;&atilde;o desabrocha o desejo de corresponder a esse amor e sermos o Povo que V&oacute;s desejais e amais com amor de esposo. Na vossa Cruz aprofunda-se a nossa esperan&ccedil;a. Ensinai-nos a sofrer convosco queremos participar, convosco, na reden&ccedil;&atilde;o do mundo. O ter-nos dado como M&atilde;e a vossa pr&oacute;pria M&atilde;e, suscita em n&oacute;s a confian&ccedil;a e a esperan&ccedil;a de sermos capazes de Vos seguir. Louvado sejais Senhor pela M&atilde;e que nos destes, porque com ela n&oacute;s seremos capazes de abra&ccedil;ar o mundo com amor.<\/p>\n<p>S&eacute; Patriarcal, 2 de Abril de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger;<\/em><em> JOS&Eacute;, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n<p align=\"center\">&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A Igreja aos p&eacute;s da Cruz&rdquo; 1. &ldquo;Aos p&eacute;s da Cruz de Jesus, estavam sua M&atilde;e, a irm&atilde; de sua M&atilde;e, Maria, mulher de Cl&eacute;ofas e Maria de Magdala&rdquo; (Jo. 19,25-26). Junto a Maria, a M&atilde;e de Jesus, estava Jo&atilde;o, o disc&iacute;pulo amado. 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