{"id":44369,"date":"2010-03-30T16:39:42","date_gmt":"2010-03-30T16:39:42","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/30\/semana-santa-no-sardoal-memorias\/"},"modified":"2010-03-30T16:39:42","modified_gmt":"2010-03-30T16:39:42","slug":"semana-santa-no-sardoal-memorias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/semana-santa-no-sardoal-memorias\/","title":{"rendered":"Semana Santa no Sardoal &#8211; Mem\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">Guardo na mem&oacute;ria muitas recorda&ccedil;&otilde;es dos meus tempos de &ldquo;menino e mo&ccedil;o&rdquo; relacionadas com a Prociss&atilde;o dos Passos do Senhor e com a Semana Santa na Vila de Sardoal, t&atilde;o vivas como se tivessem acontecido ontem, apesar de j&aacute; terem passado mais de 50 anos sobre os acontecimentos que as motivaram.<\/p>\n<p>A Prociss&atilde;o dos Passos era, ent&atilde;o, realizada na tarde da sexta-feira que precedia o 2&ordm; domingo antes da P&aacute;scoa e que coincidia com o in&iacute;cio das f&eacute;rias escolares, o que, por si s&oacute;, j&aacute; constitu&iacute;a um acontecimento, at&eacute; porque j&aacute; n&atilde;o havia aulas, sendo a manh&atilde; destinada &agrave;s confiss&otilde;es dos alunos, um acto quase obrigat&oacute;rio, em que a maioria usava toda a esp&eacute;cie de artimanhas para poder ser confessado pelo saudoso Padre Matias, de Santiago de Montalegre, cujas confiss&otilde;es eram as mais r&aacute;pidas e que era o sacerdote mais generoso na aplica&ccedil;&atilde;o das penit&ecirc;ncias e em que se realizavam aut&ecirc;nticos concursos para ver quem era mais r&aacute;pido a rezar os &ldquo;Padre Nossos e Ave-marias&rdquo; que lhes eram aplicados no confession&aacute;rio.<\/p>\n<p>Nesse tempo ainda se realizavam, nas aldeias do concelho de Sardoal, muitos sorteios de &ldquo;Comadres e Compadres&rdquo; e era em Quinta-Feira Santa que os rapazes ofereciam as am&ecirc;ndoas &agrave;s respectivas &ldquo;Comadres&rdquo; e seria muito curioso dispor, hoje, de elementos documentais que permitissem determinar as quantidades vendidas pelo com&eacute;rcio da Vila de Sardoal nesse dia, normalmente de forma avulsa, que as &ldquo;am&ecirc;ndoas francesas empacotadas eram um luxo a que a maioria das bolsas n&atilde;o tinha acesso&#8230;<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m a venda de velas era feita em grande quantidade, uma vez que eram raras as pessoas, especialmente mulheres e crian&ccedil;as, que n&atilde;o utilizavam uma para acompanhar a Prociss&atilde;o do Senhor da Miseric&oacute;rdia, hoje mais conhecida por &ldquo;Prociss&atilde;o dos Fogar&eacute;us&rdquo;, designa&ccedil;&atilde;o que tanto se pode ficar a dever ao facto de as partituras musicais usadas pela Filarm&oacute;nica Uni&atilde;o Sardoalense serem iluminadas pela luz dos archotes, como &agrave; grande quantidade de velas que acompanhavam a Prociss&atilde;o, com um efeito est&eacute;tico inesquec&iacute;vel, aumentado quando se incendiavam os resguardos de papel que protegiam a chama dos efeitos do vento ou, ainda, ao grande n&uacute;mero de lanternas colocadas nas varandas, janelas e sacadas, ao longo de todo o percurso.<\/p>\n<p>Das Cerim&oacute;nias Lit&uacute;rgicas de Quinta-Feira Santa, Dia de Endoen&ccedil;as, da minha meninice, a imagem mais n&iacute;tida que guardo &eacute; da Cerim&oacute;nia do Lava-P&eacute;s, talvez porque n&atilde;o entendesse a raz&atilde;o de o Sacerdote lavar um p&eacute; aos Irm&atilde;os do Sant&iacute;ssimo, circunspectos e imponentes com as suas opas vermelhas.<\/p>\n<p>S&oacute; muitos anos depois fui capaz de entender a simbologia daquela cena, estranha para mim na altura, em que se pretende vincar a humildade de Jesus Cristo, Filho de Deus, feito Homem.<\/p>\n<p>Outra imagem desse dia que guardei ao longo dos anos foi a do Serm&atilde;o do Mandato, proferido na Igreja de Santa Maria da Caridade, em que, anualmente, s&oacute; entrava nesse dia e em Sexta-Feira Santa, quando por l&aacute; passa a Prociss&atilde;o do Enterro do Senhor, sendo o t&uacute;mulo de D. Gaspar Barata de Mendon&ccedil;a, 1.&ordm; Arcebispo da Ba&iacute;a e Primaz do Brasil, o enigm&aacute;tico monumento funer&aacute;rio que durante dias seguidos alimentava a minha imagina&ccedil;&atilde;o infantil. O corpo ainda l&aacute; estaria? Como estaria vestido? E, se ele abrisse o t&uacute;mulo e se levantasse durante o Serm&atilde;o, qual seria a reac&ccedil;&atilde;o das pessoas?<\/p>\n<p>De Sexta-Feira Santa, guardei fragmentos da Cerim&oacute;nia do Enterro do Senhor: o toque a Trevas, o acto do Enterro e, de forma mais n&iacute;tida e persistente, o momento em que se cobriam as Imagens e tapavam as janelas com panejamentos roxos ou negros, tradi&ccedil;&atilde;o que foi profundamente alterada com o Conc&iacute;lio Vaticano II.<\/p>\n<p>A associa&ccedil;&atilde;o deste cen&aacute;rio de obscuridade e recolhimento, com a luminosidade e colorido da Matriz, em Domingo de P&aacute;scoa, causava-me, ent&atilde;o, uma indescrit&iacute;vel sensa&ccedil;&atilde;o de alegria e liberdade que nunca fui capaz de compreender bem.<\/p>\n<p>Mais tarde, naquele per&iacute;odo da adolesc&ecirc;ncia em que procuramos respostas para todas as d&uacute;vidas, coloquei muitas vezes, a mim mesmo, a quest&atilde;o de conhecer as raz&otilde;es que motivavam tantas pessoas a deslocarem-se a quil&oacute;metros de dist&acirc;ncia, quase sempre a p&eacute;, com o regresso durante a noite, para participarem, com venera&ccedil;&atilde;o e recolhimento, nos actos de culto da Semana Santa do Sardoal. Foi ent&atilde;o que descobri, com a ajuda de Santo Agostinho e S. Tom&aacute;s de Aquino, o significado da palavra F&eacute; e percebi que os sentimentos religiosos s&atilde;o uma parte intr&iacute;nseca da natureza humana, indissoci&aacute;vel da vida dos homens, independentemente do grau e dimens&atilde;o das suas cren&ccedil;as, como percebi, tamb&eacute;m, que a solid&atilde;o se pode sentir, mesmo quando estamos rodeados por uma multid&atilde;o, quando interiorizamos o ambiente m&iacute;stico que nos envolve e nos alheamos de todo o cen&aacute;rio, teatral ou n&atilde;o, funcionando como o &uacute;nico actor, interlocutor e espectador de um mon&oacute;logo que s&oacute; &agrave;s vezes se transforma em di&aacute;logo, neste palco espiritual, em que se sente a presen&ccedil;a de uma for&ccedil;a superior que emana de Deus ou de um outro ser sobrenatural em que acreditemos.<\/p>\n<p>Para mim &eacute; neste aspecto m&iacute;stico e espiritual que se podem encontrar as raz&otilde;es que motivam, ainda hoje, centenas ou milhares de pessoas, a participarem nos actos religiosos da Semana Santa, de uma forma afectiva e efectiva, apesar de as motiva&ccedil;&otilde;es religiosas e sociais serem substancialmente diferentes do que eram h&aacute; cerca de quarenta anos.<\/p>\n<p>E se esta n&atilde;o for a explica&ccedil;&atilde;o correcta desafio cada um dos leitores a tentar descobrir outra. Para a encontrar ter&atilde;o de se deslocar &agrave; Vila do Sardoal, nestes dias em que a F&eacute; e a Tradi&ccedil;&atilde;o, demonstradas ao longo de s&eacute;culos, marcam presen&ccedil;a, sentindo, tamb&eacute;m, que at&eacute; nos momentos de profunda espiritualidade e religiosidade, motivadores de uma viv&ecirc;ncia colectiva singular, &ldquo;no Sardoal ningu&eacute;m &eacute; de fora!&rdquo;.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Lu&iacute;s Manuel Gon&ccedil;alves<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guardo na mem&oacute;ria muitas recorda&ccedil;&otilde;es dos meus tempos de &ldquo;menino e mo&ccedil;o&rdquo; relacionadas com a Prociss&atilde;o dos Passos do Senhor e com a Semana Santa na Vila de Sardoal, t&atilde;o vivas como se tivessem acontecido ontem, apesar de j&aacute; terem passado mais de 50 anos sobre os acontecimentos que as motivaram. 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