{"id":44226,"date":"2010-03-23T12:46:34","date_gmt":"2010-03-23T12:46:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/23\/catequese-do-bispo-da-guarda-no-5-o-domingo-da-quaresma\/"},"modified":"2010-03-23T12:46:34","modified_gmt":"2010-03-23T12:46:34","slug":"catequese-do-bispo-da-guarda-no-5-o-domingo-da-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/catequese-do-bispo-da-guarda-no-5-o-domingo-da-quaresma\/","title":{"rendered":"Catequese do Bispo da Guarda no 5.\u00ba Domingo da Quaresma"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong>V DOMINGO DA QUARESMA<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Ora&ccedil;&atilde;o: experi&ecirc;ncia e for&ccedil;a de perd&atilde;o e reconcilia&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>1. Celebramos o quinto domingo da Quaresma, tamb&eacute;m chamado primeiro domingo da Paix&atilde;o. De facto as aten&ccedil;&otilde;es dos crist&atilde;os e da Igreja, ao longo destas duas &uacute;ltimas semanas da Quaresma, voltam-se, de forma espe&shy;ci&shy;al, &shy;&shy;para contemplar a Paix&atilde;o e morte de Cristo e seu significado para as pes&shy;so&shy;as e para a hist&oacute;ria. A celebra&ccedil;&atilde;o da Via-Sacra, a leitura mais intensa das passagens b&iacute;blicas sobre a Paix&atilde;o e sobretudo a comemora&ccedil;&atilde;o da mor&shy;te de Cristo no dia solene de Sexta-Feira Santa s&atilde;o os grandes momen&shy;tos destes dias finais de Quaresma.<\/p>\n<p>No meio de um mundo muito marcado pela frieza das rela&ccedil;&otilde;es entre os cidad&atilde;os, que t&ecirc;m dificuldade em ultrapassar a barreira dos interesses materiais e imediatos, o mist&eacute;rio da Paix&atilde;o de Cristo convida-nos a fazer percursos de comunh&atilde;o dentro das comunidades da F&eacute;, mas tamb&eacute;m na Sociedade enquanto tal. De facto &eacute; inquestion&aacute;vel o desejo profundo das pessoas a viverem rela&ccedil;&otilde;es de qualidade para as quais est&atilde;o vocacionadas. Tamb&eacute;m &eacute; evidente a tenta&ccedil;&atilde;o di&aacute;ria por que passam as mesmas pessoas sujeitas a press&otilde;es sociais de v&aacute;ria ordem para organizarem a sua vida com o &uacute;nico objectivo de satisfazerem necessidades materiais e imediatas. &Eacute; esta contradi&ccedil;&atilde;o presente na exist&ecirc;ncia di&aacute;ria das pessoas que n&oacute;s constatamos e que, de facto, o mist&eacute;rio da Paix&atilde;o de Cristo ilumina e nos ajuda a superar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. A Palavra de Deus hoje proclamada, no in&iacute;cio das &uacute;ltimas duas semanas da Quaresma especialmente voltadas para a medita&ccedil;&atilde;o do mist&eacute;rio da Paix&atilde;o de Cristo, come&ccedil;a por nos fazer um forte apelo &agrave; esperan&ccedil;a. &ldquo;Eis que vou realizar uma coisa nova, que j&aacute; come&ccedil;a a aparecer&rdquo;. Isto afirma o profeta depois de convidar o Povo desterrado e esmagado, de facto, pelo peso da escravid&atilde;o, a olhar para o futuro, mais do que para o passado desventuroso. Tamb&eacute;m n&oacute;s hoje sentimos o forte incentivo para a esperan&ccedil;a que nos vem da nossa F&eacute; em Jesus Cristo, apesar dos muitos sinais preocupantes vindos da sociedade, da cultura e dos comportamentos de muitas pessoas do nosso tempo.<\/p>\n<p>Para ter credibilidade, a esperan&ccedil;a precisa de assentar num novo estilo de rela&ccedil;&atilde;o entre as pessoas. O homem n&atilde;o pode ser lobo para o homem, a lei do mais forte tem de ser substitu&iacute;do pela lei da rela&ccedil;&atilde;o gratuita e da coopera&ccedil;&atilde;o, o princ&iacute;pio da competitividade, que pode ser um factor de crescimento e desenvolvimento com import&acirc;ncia, na medida em que estimula o despertar de capacidades e sua aplica&ccedil;&atilde;o para bem da comunidade, precisa de ser regulado sobretudo pelo princ&iacute;pio da solidariedade. As pr&oacute;prias leis n&atilde;o podem ser feitas e aplicadas como instrumentos ao servi&ccedil;o dos interesses das pessoas e dos grupos mais capacitados. O Seu objectivo tem de ser sempre promover a bem total de cada pessoa e das pessoas todas.<\/p>\n<p>No Evangelho de hoje encontramos um caso em que a frieza da lei, se tivesse sido aplicada sem ter em conta as condi&ccedil;&otilde;es da pessoa em causa, teria gerado um grande preju&iacute;zo.<\/p>\n<p>O perd&atilde;o e a reconcilia&ccedil;&atilde;o continuam ontem como hoje a ser os caminhos mais indicados tamb&eacute;m para promover a verdadeira coes&atilde;o social. Perd&atilde;o e reconcilia&ccedil;&atilde;o n&atilde;o querem dizer que as pessoas n&atilde;o assumam as responsabilidades pelo mal cometido. Sempre a tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde; distinguiu, no processo do perd&atilde;o e da reconcilia&ccedil;&atilde;o, entre a culpa e a pena. A culpa fica destru&iacute;da com o arrependimento e o perd&atilde;o de Deus atrav&eacute;s do Seu representante. A pena, que leva consigo a obriga&ccedil;&atilde;o de reparar, quanto poss&iacute;vel, o mal praticado, persiste e tem de ser cumprida at&eacute; ao limite das possibilidades de cada um. N&oacute;s desejamos uma sociedade reconciliada, sem que tal signifique qualquer esp&eacute;cie de branqueamento dos erros cometidos e porventura de preju&iacute;zos causados a outros. Tamb&eacute;m Jesus &agrave;quela mulher pecadora que nenhum dos presentes teve coragem de condenar disse &ldquo;nem eu te condeno&rdquo;, mas acrescentou &ldquo;vai e n&atilde;o tornes a pecar&rdquo;. Uma sociedade reconciliada &eacute; uma sociedade em cont&iacute;nuo processo de sana&ccedil;&atilde;o, em que se estimulam as boas pr&aacute;ticas e se corrigem, quanto poss&iacute;vel, os erros cometidos e suas consequ&ecirc;ncias nefastas.<\/p>\n<p>Para n&oacute;s crist&atilde;os a rela&ccedil;&atilde;o com Jesus Cristo, que entregou a sua vida pela reconcilia&ccedil;&atilde;o de todos os seres humanos entre si e com Deus Pai, &eacute; determinante neste percurso de perd&atilde;o e reconcilia&ccedil;&atilde;o. A experi&ecirc;ncia de S. Paulo que hoje nos apresenta a Carta aos Filipenses &eacute; um est&iacute;mulo muito grande para todos colocarmos a pessoa de Cristo e o seu estilo de vida no centro da nossa vida e na mira dos percursos que desejamos fazer tanto no interior das nossas comunidades da F&eacute; como no tecido da vida social. Sobretudo ao longo destas duas &uacute;ltimas semanas da Quaresma queremos seguir de perto os passos de Jesus que ofereceu a sua vida at&eacute; &agrave; morte e morte da cruz para inaugurar um novo estilo de rela&ccedil;&atilde;o entre as pessoas marcado pela lei do perd&atilde;o e da reconcilia&ccedil;&atilde;o. Desta forma iniciou uma humanidade nova.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. &Eacute; essa humanidade nova que n&oacute;s pedimos e com ela nos comprometemos ao rezar a ora&ccedil;&atilde;o do Pai Nosso. E pedimo-la ao dizer &ldquo;Santificado seja o Vosso nome&rdquo;, mas tamb&eacute;m &ldquo;venha a n&oacute;s o Vosso Reino&rdquo; e ainda &ldquo;seja feita a Vossa vontade na terra como nos C&eacute;us&rdquo;. N&atilde;o queremos ter a pretens&atilde;o de fazer aumentar a santidade de Deus em si mesma, que &eacute; infinita. Desejamos, isso sim, que a santidade infinita de Deus se espelhe cada vez mais nas decis&otilde;es e ac&ccedil;&otilde;es humanas para bem da Igreja, da sociedade e da pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Pedimos para que o pr&oacute;prio Deus atrav&eacute;s da Pessoa de Cristo Ressuscitado e na for&ccedil;a renovadora do Esp&iacute;rito Santo de facto reine no cora&ccedil;&atilde;o das pessoas e da pr&oacute;pria hist&oacute;ria e que os valores do Reino de Deus sejam cada vez mais vividos nas rela&ccedil;&otilde;es sociais.<\/p>\n<p>E quando pedimos que a sua vontade se cumpra, desejamos de facto associar-nos ao processo desse cumprimento, fazendo coincidir com a d&rsquo; Ele a nossa pr&oacute;pria vontade, como aconteceu na Pessoa de Jesus Cristo. Desta forma colaboramos na pr&oacute;pria miss&atilde;o da Igreja, mas tamb&eacute;m para que toda a terra percorra cada vez mais os caminhos da verdade e do bem.<\/p>\n<p>Pedimos ainda o P&atilde;o nosso de cada dia o perd&atilde;o das nossas ofensas na medida em que tamb&eacute;m perdoamos aos que nos ofendem; pedimos finalmente a Deus que nos livre do mal apesar da inevitabilidade das tenta&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>O P&atilde;o que pedimos &eacute; aquele que mata a fome f&iacute;sica, mas tamb&eacute;m aquele que mata a fome de bens espirituais, principalmente a fome de Deus. &Eacute; por isso que n&oacute;s rezamos sempre o Pai Nosso, durante a celebra&ccedil;&atilde;o da Eucaristia, imediatamente antes da Comunh&atilde;o. De facto, a fome de Deus n&atilde;o se extinguiu nem se extinguir&aacute; porque ela faz parte da identidade mais funda de cada ser humano.<\/p>\n<p>A responsabilidade do perd&atilde;o que cada ser humano transporta consigo obriga-nos a enfrentar a rela&ccedil;&atilde;o existente entre o perd&atilde;o que se recebe e o perd&atilde;o que se oferece. Mesmo a l&oacute;gica humana diz que cada cidad&atilde;o n&atilde;o pode jogar com dois pesos e duas medidas. A urg&ecirc;ncia do perd&atilde;o, hoje mais que nunca decisiva para a sustentabilidade das rela&ccedil;&otilde;es sociais, beneficia cada um mas obriga-o &agrave; atitude consequente de tamb&eacute;m perdoar. O perd&atilde;o para ser aut&ecirc;ntico pede convers&atilde;o ou seja mudan&ccedil;a de atitudes e comportamentos. Mobiliza-nos portanto, tamb&eacute;m a todos para atitudes de sincera correc&ccedil;&atilde;o fraterna e de educa&ccedil;&atilde;o para novas atitudes geradoras de comunh&atilde;o e coopera&ccedil;&atilde;o entre os indiv&iacute;duos. Em todo este processo de constru&ccedil;&atilde;o da humanidade nova inaugurada por Cristo, pedimos a Deus que nos livre do mal, embora cientes de que as tenta&ccedil;&otilde;es para entrarmos por caminhos errados n&atilde;o v&atilde;o cessar. A responsabilidade da escolha &eacute; nossa, &eacute; de cada um de n&oacute;s. E para essa escolha, que s&oacute; &eacute; humana e humanizante se for recusa do mal e op&ccedil;&atilde;o pelo bem, cada um tem de se motivar a si mesmo mas tamb&eacute;m motivar os outros.<\/p>\n<p>S&oacute; uma rede de coopera&ccedil;&atilde;o entre os cidad&atilde;os e os diferentes grupos de cidad&atilde;os verdadeiramente empenhada em promover os caminhos do bem e alertar para as consequ&ecirc;ncias desastrosas dos percursos errados, mesmo que sejam escolhidos em nome de um certo conceito de liberdade pessoal, pode garantir futuro sustent&aacute;vel &agrave;s nossas sociedades.<\/p>\n<p>Por isso sentimos que &eacute; necess&aacute;rio denunciar e condenar os erros que se cometem, mas &eacute; igualmente necess&aacute;rio organizar a sociedade para apontar os verdadeiros caminhos do bem, da aut&ecirc;ntica humaniza&ccedil;&atilde;o. Denunciar e condenar os erros efectivamente cometidos sem nada ter feito para motivar os caminhos do bem e ajudar as pessoas a percorr&ecirc;-los com alegria e entusiasmo pode ser mais uma forma de hipocrisia social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Vamos viver a nossa P&aacute;scoa profundamente decididos a acolher os caminhos do Reino de Deus, que fazem parte da Humanidade Nova, onde, pela porta do nosso Baptismo, j&aacute; entr&aacute;mos.<\/p>\n<p>Procuremos meditar a Paix&atilde;o de Cristo e a sua for&ccedil;a de reden&ccedil;&atilde;o para o mundo,<\/p>\n<p>Procuremos descobrir e experimentar como a vida da Igreja enquanto tal e em particular os sacramentos s&atilde;o os caminhos escolhidos pelo pr&oacute;prio Cristo para transformar a nossa vida pessoal e a vida de todas as pessoas e do mundo.<\/p>\n<p>&Eacute; por isso que para n&oacute;s viver a rela&ccedil;&atilde;o viva com Cristo e n&acute;Ele com o Pai que est&aacute; nos c&eacute;us, segundo os indicadores que est&atilde;o presentes na ora&ccedil;&atilde;o do Pai Nosso, &eacute; um bem fundamental como tamb&eacute;m o &eacute; para toda a sociedade e para o pr&oacute;prio mundo.<\/p>\n<p>Que esta P&aacute;scoa nos ajude, por isso, a crescer na responsabilidade de contribuir para a constru&ccedil;&atilde;o da Igreja, mas igualmente na responsabilidade de ajudar o mundo a reconciliar-se com o seu futuro na Pessoa de Cristo e no seu Evangelho.<\/p>\n<p>Igreja Paroquial do Sabugal, 21 de Mar&ccedil;o de 2010<\/p>\n<p><em>+Manuel R. Fel&iacute;cio, Bispo da Guarda<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>V DOMINGO DA QUARESMA Ora&ccedil;&atilde;o: experi&ecirc;ncia e for&ccedil;a de perd&atilde;o e reconcilia&ccedil;&atilde;o 1. Celebramos o quinto domingo da Quaresma, tamb&eacute;m chamado primeiro domingo da Paix&atilde;o. 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