{"id":44221,"date":"2010-03-23T11:38:20","date_gmt":"2010-03-23T11:38:20","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/23\/verdade-e-suspeita\/"},"modified":"2010-03-23T11:38:20","modified_gmt":"2010-03-23T11:38:20","slug":"verdade-e-suspeita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/verdade-e-suspeita\/","title":{"rendered":"Verdade e suspeita"},"content":{"rendered":"<p>N&atilde;o podemos continuar a viver como se nada se passasse. Ignorando. Disfar&ccedil;ando. Mas &eacute; importante tamb&eacute;m n&atilde;o nos deixarmos invadir por uma esp&eacute;cie de suspei&ccedil;&atilde;o generalizada, de tudo e de todos. A desconfian&ccedil;a corr&oacute;i.<\/p>\n<p>Ter olhos para ver requer uma educa&ccedil;&atilde;o do olhar que n&atilde;o se habitue &agrave; viol&ecirc;ncia &ndash; a todas as formas de viol&ecirc;ncia &ndash; como se ela fosse uma fatalidade. Esta vigil&acirc;ncia h&aacute;-de poder ser vivida com serenidade. Mas tamb&eacute;m com determina&ccedil;&atilde;o. Para l&aacute; das palavras, as ac&ccedil;&otilde;es. Para que a observa&ccedil;&atilde;o de Jesus aos fariseus n&atilde;o nos atinja: &laquo;Eles dizem e n&atilde;o fazem&raquo; (cf. Mt 23,1-12)<\/p>\n<p><strong>Moral e Direito<\/strong><\/p>\n<p>Bem sabemos que uma coisa &eacute; o n&iacute;vel da reflex&atilde;o &eacute;tica, outra o dos procedimentos legais. Mas, num estado de direito, &eacute; de supor que a &eacute;tica partilhada suporta e &eacute; traduzida no ordenamento jur&iacute;dico que &eacute; o nosso. E, no que diz respeito aos crist&atilde;os, leigos ou cl&eacute;rigos, s&atilde;o, &eacute; claro, cidad&atilde;os do seu pa&iacute;s. Sujeitos &agrave;s leis existentes e sem nenhuma forma de se subtra&iacute;rem &agrave; justi&ccedil;a que, sendo a que conhecemos, permite que a nossa conviv&ecirc;ncia social seja isso mesmo: um vivermos juntos, ordenadamente, e n&atilde;o num caos.<\/p>\n<p><strong>Causas e consequ&ecirc;ncias<\/strong><\/p>\n<p>Creio que um problema t&atilde;o complexo exige uma leitura interdisciplinar para o correcto diagn&oacute;stico da sua etiologia.<\/p>\n<p>Nos &uacute;ltimos dias, t&ecirc;m-nos chamado a aten&ccedil;&atilde;o para o facto de o fen&oacute;meno n&atilde;o ser espec&iacute;fico da Igreja Cat&oacute;lica; de, quanto aos padres, ser mesmo uma percentagem muito escassa; de esses casos terem de ser interpretados nas particulares circunst&acirc;ncias hist&oacute;rico-culturais que s&atilde;o as suas. Muito bem. Mas estes argumentos n&atilde;o podem servir para nos acomodarmos. A justa relativiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o permite que, entre n&oacute;s, se fa&ccedil;a apenas &ldquo;alguma coisa para que tudo fique na mesma&rdquo;, na conhecida express&atilde;o de Lampedusa em <em>Il gattopardo<\/em>. N&atilde;o nos podemos ficar pelo formal pedido de desculpas. Haver&aacute;, certamente, muita coisa a mudar. Mesmo.<\/p>\n<p>As causas circunstanciais encontr&aacute;-las-emos, provavelmente, nas situa&ccedil;&otilde;es elencadas no artigo desta semana do historiador Paulo Varela Gomes (&ldquo;Os padres. Os outros. E o fim.&rdquo;, <em>P&uacute;blico<\/em>, 13 de Mar&ccedil;o, P2 p&aacute;g.3): &laquo;s&atilde;o palco deste fen&oacute;meno muitas outras institui&ccedil;&otilde;es masculinas de reclus&atilde;o &ndash; reformat&oacute;rios, orfanatos, col&eacute;gios internos, pris&otilde;es. Desde sempre. Escusam de atirar pedras &agrave; Igreja aqueles que dirigem, regulam, servem estas institui&ccedil;&otilde;es, condenam jovens e crian&ccedil;as a ficarem l&aacute;, deixam correr a sua exist&ecirc;ncia&raquo;.<\/p>\n<p>Uma forma&ccedil;&atilde;o plenamente humana dos candidatos ao sacerd&oacute;cio deve ser procurada e garantida, com uma criatividade que n&atilde;o se compagina com a repeti&ccedil;&atilde;o de velhos esquemas ultrapassados. Admito que alguma coisa possa ter sido descurada na admiss&atilde;o desses candidatos. Que alguns deles fossem jovens com certas perturba&ccedil;&otilde;es (h&aacute; quem diga que s&atilde;o os que mais facilmente respondem a um certo tipo de &ldquo;propaganda&rdquo; vocacional) que, sem correcto diagn&oacute;stico e sem consequente acompanhamento terap&ecirc;utico, se tornam pessoas com uma sexualidade imatura, incapazes de uma serena experi&ecirc;ncia de rela&ccedil;&otilde;es humanas.<\/p>\n<p>A Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa, pela voz do seu Secret&aacute;rio, veio j&aacute; dizer o que por agora &eacute; poss&iacute;vel em mat&eacute;ria de futuro: &laquo;reconhecer a verdade e auxiliar as v&iacute;timas; refor&ccedil;ar a preven&ccedil;&atilde;o e colaborar construtivamente com as autoridades&raquo;. Vale a pena recordar a express&atilde;o que o Papa Paulo VI utilizou nas Na&ccedil;&otilde;es Unidas acerca da guerra: &laquo;Nunca mais!&raquo;. Que a possamos repetir, com humildade e confian&ccedil;a, sim, mas tamb&eacute;m com a determina&ccedil;&atilde;o, acerca deste drama: nunca mais!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>P. Jos&eacute; Manuel Pereira de Almeida,<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>19 de Mar&ccedil;o de 2009<\/em><\/p>\n<p><em>(Na ocasi&atilde;o em que escrevo estas linhas, ainda n&atilde;o conhe&ccedil;o a Nota que Bento XVI assina hoje. Desejo l&ecirc;-la &laquo;de cora&ccedil;&atilde;o aberto e no esp&iacute;rito da F&eacute;&raquo; como ele pr&oacute;prio, h&aacute; dias, recomendou. &laquo;&Eacute; minha esperan&ccedil;a &ndash; dizia o Papa &ndash; que possa contribuir para ajudar o arrependimento, o sarar de feridas e a renova&ccedil;&atilde;o&raquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>Oxal&aacute; em breve possam ser mais claras as diversas dimens&otilde;es do fen&oacute;meno: verdade e suspeita, moral e direito, causas e consequ&ecirc;ncias).<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N&atilde;o podemos continuar a viver como se nada se passasse. Ignorando. Disfar&ccedil;ando. Mas &eacute; importante tamb&eacute;m n&atilde;o nos deixarmos invadir por uma esp&eacute;cie de suspei&ccedil;&atilde;o generalizada, de tudo e de todos. A desconfian&ccedil;a corr&oacute;i. Ter olhos para ver requer uma educa&ccedil;&atilde;o do olhar que n&atilde;o se habitue &agrave; viol&ecirc;ncia &ndash; a todas as formas de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120],"class_list":["post-44221","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44221\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}