{"id":44220,"date":"2010-03-23T11:34:55","date_gmt":"2010-03-23T11:34:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/23\/licoes-de-uma-dolorosa-questao\/"},"modified":"2010-03-23T11:34:55","modified_gmt":"2010-03-23T11:34:55","slug":"licoes-de-uma-dolorosa-questao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/licoes-de-uma-dolorosa-questao\/","title":{"rendered":"Li\u00e7\u00f5es de uma dolorosa quest\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>O Papa Bento XVI escreveu uma Carta aos Cat&oacute;licos da Irlanda sobre a quest&atilde;o do abuso de menores por parte de membros do Clero. De facto, um pa&iacute;s em que a f&eacute; cat&oacute;lica est&aacute; intimamente ligada &agrave; autonomia da p&aacute;tria encontrou-se perante a evid&ecirc;ncia de um n&uacute;mero impressionante de abusos sexuais de padres sobre crian&ccedil;as e jovens. Ainda &eacute; cedo para avaliar o que vai resultar deste facto para o catolicismo daquele simp&aacute;tico pa&iacute;s. Mas o caso irland&ecirc;s, como j&aacute; tinha sido o caso americano e os outros que se seguir&atilde;o devem dar que pensar a todos, desde o Papa ao &uacute;ltimo fiel. O Papa, como afirma, est&aacute; a viver um dos momentos mais dolorosos do seu minist&eacute;rio. Ele exprime-o dizendo que sente &ldquo;pavor e ang&uacute;stia&rdquo; perante estes &ldquo;actos pecaminosos e criminosos&rdquo;. Por&eacute;m, como &eacute; acertado que fosse, a sua palavra mais intensa &eacute; dirigida &agrave;s v&iacute;timas dos abusos que, nas palavras da Carta &ldquo;sofreram tremendamente&rdquo;, de maneira em geral indefesa, por ac&ccedil;&atilde;o de pessoas a quem estavam confiados e em quem tinham decerto uma grande confian&ccedil;a.<\/p>\n<p>Esta ocorr&ecirc;ncia clamorosa tem dado a volta ao mundo, no sentido contr&aacute;rio ao movimento do sol. Desde a Am&eacute;rica do Norte, vem estendendo o seu raio &agrave; Europa com a pung&ecirc;ncia de uma onda impar&aacute;vel. Realmente, a pederastia &eacute; uma inj&uacute;ria a pessoas vulner&aacute;veis por parte de pessoas de suposta qualidade moral mais elevada, o que coloca essa pr&aacute;tica num patamar de inusitada gravidade. Por isso, a pederastia do clero, que em termos de percentagem de todos os abusos n&atilde;o ser&aacute; muito significativo, ganha justamente a m&aacute;xima acentua&ccedil;&atilde;o de esc&acirc;ndalo por parte da opini&atilde;o p&uacute;blica. Como pode a Igreja olhar com coragem e com sensatez esta dolorosa evid&ecirc;ncia? Algumas observa&ccedil;&otilde;es s&atilde;o oportunas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. Em primeiro lugar, &eacute; bom prop&oacute;sito interpretar o que se passa como uma tomada de consci&ecirc;ncia da dignidade da crian&ccedil;a, por parte do mundo de hoje. &Eacute; o mundo que lembra &agrave; Igreja uma das inova&ccedil;&otilde;es mais genu&iacute;nas do Evangelho: a crian&ccedil;a tem dignidade humana e &eacute; credora da protec&ccedil;&atilde;o e da estima por parte dos adultos de hoje que transmitem a vida e a educa&ccedil;&atilde;o &agrave; gera&ccedil;&atilde;o seguinte. Mas durante mil&eacute;nios n&atilde;o foi assim. No tempo de Jesus n&atilde;o era assim. Ele pr&oacute;prio o advertiu e inventou um novo contexto para a inclus&atilde;o da crian&ccedil;a no universo da dignidade e do respeito. Por&eacute;m, uma longa transig&ecirc;ncia com a dignidade da crian&ccedil;a pode ser assinalada na hist&oacute;ria do mundo crist&atilde;o. Tamb&eacute;m foi assim com a escravatura e com o lugar da mulher, para dar apenas alguns exemplos. Por isso, os divulgados abusos de menores, sempre existentes, n&atilde;o eram sancionados pela cultura, pela moral e pela lei. Hoje, felizmente, isso est&aacute; a acontecer e &eacute; muito bom que assim seja. Quando sanciona o abuso de crian&ccedil;as, o mundo que fica mais crist&atilde;o e n&atilde;o o contr&aacute;rio! O que se pede &agrave; Igreja &eacute; uma humildade muito grande para reconhecer a m&atilde;o esquerda da Provid&ecirc;ncia neste fen&oacute;meno. Reconhecer que alguns na Igreja foram apanhados na curva da hist&oacute;ria, expiar as culpas e os crimes com frontalidade por parte de todos (bispos inclu&iacute;dos e n&atilde;o apenas padres) &eacute; o caminho que se nos apresenta adiante. Apenas este reconhecimento penitente pode dar &agrave; Igreja a dignidade de continuar a pregar moral ao mundo, n&atilde;o esquecendo que as pessoas e a sua dignidade s&atilde;o o valor mais importante que h&aacute; e que &eacute; sobre isso que se deve pregar antes de tudo o resto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Em segundo lugar, deve ser dito que a pederastia (ou a pedofilia como se convencionou dizer hoje) &eacute; uma afecta&ccedil;&atilde;o e um comportamento de origem estranha, que compete &agrave;s ci&ecirc;ncias humanas iluminar. &Agrave; &eacute;tica compete dizer que esse comportamento n&atilde;o tem que ver directamente nem com a heterossexuali-dade nem mesmo com a homossexualidade. &Eacute; algo diferente, claramente patol&oacute;gico, a nosso ver. Por isso, a ocorr&ecirc;ncia do abuso de crian&ccedil;as n&atilde;o tem que ver com a quest&atilde;o do celibato do clero cat&oacute;lico. &Eacute; necess&aacute;rio distinguir isto muito bem. Ali&aacute;s, a grande maioria dos casos de abuso de crian&ccedil;as &eacute; cometido por pessoas que n&atilde;o t&ecirc;m vida celibat&aacute;ria por motivos religiosos. &Agrave;s vezes s&atilde;o pais de fam&iacute;lia. Perante estes, a cultura comum n&atilde;o sente o mesmo efeito de esc&acirc;ndalo que sente diante dos cl&eacute;rigos. Por isso, n&atilde;o seria de fazer uma liga&ccedil;&atilde;o directa entre estes factos. Quanto &agrave; homossexualidade, &eacute; justo reconhecer que haveria que explicar o facto de a maioria dos abusos ocorrer entre adultos e crian&ccedil;as do mesmo sexo, no caso, do sexo masculino. Deixamos isso, igualmente, a quem tiver maior compet&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Em terceiro lugar, existe algo que nos parece justo dizer: a mesma cultura que justificou os abusos sobre crian&ccedil;as durante s&eacute;culos tem algo de comum com aquela que leva ao um entendimento deficiente do celibato eclesi&aacute;stico e mesmo &agrave; desordem no relacionamento entre o sexo masculino e o sexo feminismo (o machismo, a pornografia, o voyeurismo, a prostitui&ccedil;&atilde;o e outras pervers&otilde;es). Por isso, a nosso ver, o reconhecimento generalizado da cultura de hoje de uma recusa do abuso de crian&ccedil;as deve ser para a Igreja um motivo de pensar de novo a selec&ccedil;&atilde;o dos cl&eacute;rigos e a sua educa&ccedil;&atilde;o. A voca&ccedil;&atilde;o ao minist&eacute;rio sacerdotal de que necessita a Igreja em todos os tempos tem de ser pensada dentro de uma cultura nova, a mesma que rejeita a pedofilia. Ocorre regressar &agrave; luz do Evangelho e dos sinais dos tempos para pensar a voca&ccedil;&atilde;o sacerdotal e n&atilde;o pens&aacute;-la apenas &agrave; luz turva das nossas representa&ccedil;&otilde;es enrijecidas e, n&atilde;o raro, caducas. Porque existe o perigo de estas darem entrada no minist&eacute;rio a pessoas de prop&oacute;sitos menos claros. Da educa&ccedil;&atilde;o dos futuros cl&eacute;rigos deve dizer-se algo semelhante, para que sejam feitos crescer na alegria de uma vida cheia de sentido e n&atilde;o na rigidez de uma representa&ccedil;&atilde;o heter&oacute;noma, intolerante e n&atilde;o-assumida. O mesmo se diga da quest&atilde;o do celibato dos ministros do clero secular, a qual deve ser vista no contexto desta escuta do Esp&iacute;rito e da decis&atilde;o respons&aacute;vel de toda a Igreja. Somente neste sentido amplo, a quest&atilde;o da pedofilia e do celibato eclesi&aacute;stico t&ecirc;m um ponto de contacto.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Pe. Jorge Teixeira da Cunha, Dir. Adjunto da Faculdade de Teologia da UCP<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Papa Bento XVI escreveu uma Carta aos Cat&oacute;licos da Irlanda sobre a quest&atilde;o do abuso de menores por parte de membros do Clero. 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