{"id":44191,"date":"2010-03-22T11:33:09","date_gmt":"2010-03-22T11:33:09","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/22\/conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-3\/"},"modified":"2010-03-22T11:33:09","modified_gmt":"2010-03-22T11:33:09","slug":"conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-quaresmal-do-bispo-do-porto-3\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia quaresmal do Bispo do Porto"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Que os homens nascem &ldquo;livres e iguais em direitos&rdquo; foi afirma&ccedil;&atilde;o importante das revolu&ccedil;&otilde;es liberais<\/span>, a acolher certamente. Mas sempre se embateu com a realidade das distin&ccedil;&otilde;es persistentes. Por isso, n&atilde;o faltaram cr&iacute;ticos pr&aacute;ticos aos liberais te&oacute;ricos, com alguma confus&atilde;o de planos. A substitui&ccedil;&atilde;o duma sociedade de s&uacute;bditos e privil&eacute;gios (direitos particulares de cada grupo social) por outra de cidad&atilde;os e direitos comuns, tem sido dif&iacute;cil objectivo da nossa contemporaneidade. E verificamos que os crist&atilde;os entraram no debate, quer defendendo tradi&ccedil;&otilde;es, que sempre tinham inclu&iacute;do desigualdades sociais e pol&iacute;ticas, quer propugnando por uma igualdade a estabelecer, dada a unidade de origem e a id&ecirc;ntica voca&ccedil;&atilde;o geral da humanidade, com maior sensibilidade entre eles a um ou a outro destes t&oacute;picos. Oi&ccedil;amos um autor muito influente nos meios cat&oacute;licos oitocentistas: &ldquo;Uma das ris&iacute;veis singularidades do &uacute;ltimo s&eacute;culo [XVIII] foi a de querer julgar tudo pelas regras abstractas, sem aten&ccedil;&atilde;o &agrave; experi&ecirc;ncia, o que &eacute; tanto mais de surpreender, quanto este mesmo s&eacute;culo n&atilde;o cessava de gritar contra todos os fil&oacute;sofos que come&ccedil;aram pelos princ&iacute;pios abstractos em vez de os buscarem na experi&ecirc;ncia. Rousseau [&hellip;] principia o seu contrato social por esta m&aacute;xima retumbante: O homem nasce livre, e por toda a parte jaz em ferros [&hellip;]. O homem nasce livre: o contr&aacute;rio desta louca asser&ccedil;&atilde;o &eacute; a pura verdade; porque em todos os tempos e em todos os lugares, at&eacute; que se estabeleceu o cristianismo, e ainda at&eacute; esta religi&atilde;o ter penetrado suficientemente nos cora&ccedil;&otilde;es, a escravid&atilde;o foi sempre considerada como uma parte necess&aacute;ria para o governo e para o estado pol&iacute;tico das na&ccedil;&otilde;es. [&hellip;] Deste modo o g&eacute;nero humano &eacute; naturalmente em grande parte servo, e n&atilde;o pode sair deste estado sen&atilde;o sobrenaturalmente&rdquo; (J. de Maistre, <em>Do Papa<\/em> (1819), Lisboa 1845).<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">A revela&ccedil;&atilde;o crist&atilde; requer e impulsiona a realiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da igualdade, potenciando-a espiritualmente<\/span>. E os autores crist&atilde;os tamb&eacute;m insistem em que a igualdade se alcan&ccedil;a pelo desenvolvimento e partilha do que &eacute; e det&eacute;m cada um e n&atilde;o pela rasoira das abstrac&ccedil;&otilde;es comunitaristas. O <em>Catecismo da Igreja Cat&oacute;lica<\/em> resume-os bem no n&ordm; 1936: &ldquo;Ao vir ao mundo, o homem n&atilde;o disp&otilde;e de tudo o que &eacute; necess&aacute;rio para o desenvolvimento da sua vida corporal e espiritual. Precisa dos outros. H&aacute; diferen&ccedil;as relacionadas com a idade, as capacidades f&iacute;sicas, as aptid&otilde;es intelectuais e morais, os interc&acirc;mbios de que cada um p&ocirc;de beneficiar, a distribui&ccedil;&atilde;o das riquezas. Os &lsquo;talentos&rsquo; n&atilde;o s&atilde;o distribu&iacute;dos por igual&rdquo;. Igualdade na complementaridade reconhecida e oferecida, quer-se ent&atilde;o dizer.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Como na comunidade de Jerusal&eacute;m, assim apresentada por S&atilde;o Lucas: &ldquo;A multid&atilde;o dos que haviam abra&ccedil;ado a f&eacute; tinha um s&oacute; cora&ccedil;&atilde;o e uma s&oacute; alma. Ningu&eacute;m chamava seu ao que lhe pertencia, mas, entre eles, tudo era comum<\/span>. [&hellip;] Entre eles n&atilde;o havia ningu&eacute;m necessitado, pois todos os que possu&iacute;am terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos p&eacute;s dos Ap&oacute;stolos. Distribu&iacute;a-se, ent&atilde;o, a cada um, conforme a necessidade&rdquo; (<em>Act<\/em> 4, 32 ss). Sem idealizarmos demasiadamente o tema &ndash; logo a seguir Barnab&eacute; cumpriu a regra, mas Ananias e Safira n&atilde;o -, o certo &eacute; que ficou como horizonte fixo de perfei&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, sucessivamente tentado e transbordando para o campo social. Sobremaneira interessante &eacute; a seguinte reflex&atilde;o de S&atilde;o Greg&oacute;rio de Nazianzo, na segunda metade do s&eacute;culo IV, recuperando a igualdade de origem para a igualdade a refazer: &ldquo;Imitemos a alt&iacute;ssima e primeira lei de Deus, que [&hellip;] para todos estendeu a terra firme e dispon&iacute;vel [&hellip;]. Ao igual pela natureza concedeu o dom da igual dignidade, demonstrando assim a riqueza da sua bondade. Mas os homens [&hellip;] nem ao menos pensam que pen&uacute;ria e riqueza, liberdade (assim dizemos) e escravid&atilde;o, e nomes semelhantes, s&oacute; mais tarde se introduziram no g&eacute;nero humano [&hellip;] &lsquo;No princ&iacute;pio, assim se l&ecirc;, n&atilde;o foi assim&rsquo;. [&hellip;] Mas considera a primordial igualdade de direitos, n&atilde;o a divis&atilde;o posterior; n&atilde;o a lei dos poderosos, mas a da cria&ccedil;&atilde;o&rdquo; (<em>Serm&atilde;o XIV<\/em>, 25-26).<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Das revolu&ccedil;&otilde;es setecentistas &agrave; Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos do Homem (ONU, 1948)<\/span>, prosseguiu-se num caminho geral que, ao menos na teoria, &eacute; certamente um ganho. Para os cat&oacute;licos, &eacute; tamb&eacute;m um compromisso refor&ccedil;ado: &ldquo;Toda a esp&eacute;cie de discrimina&ccedil;&atilde;o relativamente aos direitos fundamentais da pessoa, quer por raz&atilde;o do sexo, quer da ra&ccedil;a, cor, condi&ccedil;&atilde;o social, l&iacute;ngua ou religi&atilde;o, deve ser ultrapassada e eliminada como contr&aacute;ria ao des&iacute;gnio de Deus&rdquo;, asseverou o Vaticano II (<em>Gaudium et Spes<\/em>, 29).<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Recuando &ndash; ou avan&ccedil;ando &ndash; de novo, quer no c&iacute;rculo mais pr&oacute;ximo de Jesus, quer nas comunidades que brotaram da sua P&aacute;scoa, o Evangelho incarnou igualmente em homens e mulheres, nobres e plebeus, gente daqui ou dali<\/span>, os factores maiores da desigualdade de ent&atilde;o. Tudo fundado no ensinamento central sobre um &ldquo;Pai&rdquo; que a todos nos cria e nos espera, pelo caminho da filia&ccedil;&atilde;o divina que o mesmo Cristo nos abre e possibilita, pelo Esp&iacute;rito comunicado. Como na sua despedida &ndash; convite: &ldquo;Subo para o meu Pai, que &eacute; vosso Pai, para o meu Deus, que &eacute; vosso Deus&rdquo; (<em>Jo<\/em> 20, 17). Em rela&ccedil;&atilde;o a esse fim comum, a igualdade &eacute; absoluta, em termos de oportunidade. Dizia-o Paulo aos baptizados, com uma clareza que desafiava radicalmente a sua &eacute;poca e n&atilde;o s&oacute;: &ldquo;&Eacute; que todos v&oacute;s sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a f&eacute;; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a f&eacute;. N&atilde;o h&aacute; judeu nem grego; n&atilde;o h&aacute; escravo nem livre; n&atilde;o h&aacute; homem e mulher, porque todos sois um s&oacute; em Cristo Jesus&rdquo; (<em>Gl<\/em> 3, 26-28). Ou seja, a igualdade &eacute; quase outro nome da nossa dignidade comum, de primeira origem e &uacute;ltimo destino, como esclarece o <em>Catecismo da Igreja Cat&oacute;lica<\/em> no n&ordm; 1934: &ldquo;Criados &agrave; imagem do Deus &uacute;nico, dotados duma id&ecirc;ntica alma racional, todos os homens t&ecirc;m a mesma natureza e a mesma origem. Resgatados pelo sacrif&iacute;cio de Cristo, todos s&atilde;o chamados a participar da mesma bem-aventuran&ccedil;a divina. Todos gozam, portanto, de igual dignidade&rdquo;.&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">&Eacute; tamb&eacute;m reconhecida a admira&ccedil;&atilde;o que as comunidades crist&atilde;s causavam aos seus conterr&acirc;neos pag&atilde;os, exactamente por reunirem senhores e servos<\/span>, <span style=\"text-decoration: underline;\">homens e mulheres, aut&oacute;ctones e estrangeiros<\/span>. Ainda hoje a causam aqui e ali, sendo por isso prof&eacute;ticas. (Mesmo num pa&iacute;s como o nosso, as assembleias dominicais s&atilde;o quase a &uacute;nica ocasi&atilde;o em que se re&uacute;nem sistematicamente pessoas de v&aacute;rias condi&ccedil;&otilde;es sociais, proveni&ecirc;ncias e idades, para louvar o mesmo Deus, ouvir a mesma Palavra e comungar da mesma Vida). Contrafac&ccedil;&otilde;es havia, certamente, como infelizmente se podem reproduzir. Mas essa igualdade de subst&acirc;ncia e destino estava assegurada pela inquestion&aacute;vel pessoa do &ldquo;Fundador do Cristianismo&rdquo;. N&atilde;o admira assim que, at&eacute; por n&atilde;o-cat&oacute;licos, a trilogia da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa &ndash; Liberdade, Igualdade, Fraternidade &ndash; fosse tamb&eacute;m ligada &agrave; heran&ccedil;a crist&atilde;.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">Mas temos de considerar um certo &ldquo;trope&ccedil;o da indistin&ccedil;&atilde;o&rdquo;, surgido no caminho da igualdade<\/span>. Pelas reais ou imaginadas possibilidades da ci&ecirc;ncia e da tecnologia modernas, chegou-se, por exemplo, a outra considera&ccedil;&atilde;o do ser humano e da sua realidade masculina ou feminina. Mais do que como produto da natureza, o ser homem ou mulher come&ccedil;ou a ser encarado como g&eacute;nero cultural de escolha livre. N&atilde;o se trataria j&aacute; de evoluir dentro do que se &eacute; agora, mas de escolher o que se queira ou se &ldquo;sinta&rdquo; ser, alterando a fisiologia pela tecnologia. Por isso, a igualdade, no sentido essencial que buscava, p&ocirc;de dar lugar &agrave; indistin&ccedil;&atilde;o, como possibilidade e at&eacute; &ldquo;legitimidade&rdquo; de se ser &agrave; escolha ou sucessivamente. Culturalmente tamb&eacute;m, apetece-se a osmose, mais do que a rela&ccedil;&atilde;o propriamente dita.<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">&ldquo;Rela&ccedil;&atilde;o&rdquo;, de facto, sup&otilde;e distin&ccedil;&otilde;es de raiz. Ningu&eacute;m &eacute; absoluto, antes relativo, pois s&oacute; na interdepend&ecirc;ncia das diferen&ccedil;as se realiza como pessoa, isto &eacute;, ser em rela&ccedil;&atilde;o. Por isso tamb&eacute;m, o g&eacute;nero ou a ra&ccedil;a, a localiza&ccedil;&atilde;o e cada cultura, n&atilde;o s&atilde;o necessariamente &ldquo;limites&rdquo; &agrave; igualdade essencial a realizar, mas possibilidades de ser com os outros, dando e recebendo mutuamente, porque os outros s&atilde;o na verdade outros e n&oacute;s os outros dos e para os outros. Querer&aacute; isto dizer que a igualdade s&oacute; pode acontecer entre seres distintos que partilhem o que t&ecirc;m: acontece como possibilidade e resultado, n&atilde;o como indistin&ccedil;&atilde;o &ldquo;irrespons&aacute;vel&rdquo;. Entre absolutamente id&ecirc;nticos n&atilde;o haveria campo para a igualdade, porque esta se define na rela&ccedil;&atilde;o, o mesmo se dizendo para a liberdade e a fraternidade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline;\">O tema &eacute; muito mais amplo. Come&ccedil;a por ser teol&oacute;gico, pois na considera&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica da humanidade cada um de n&oacute;s integra um todo que se realiza na distin&ccedil;&atilde;o e na complementaridade<\/span>. Iguais, conjugando masculino e feminino, na primeira express&atilde;o familiar da sociabilidade; iguais, na especificidade dos v&aacute;rios &oacute;rg&atilde;os dum s&oacute; corpo, como Paulo lembrava aos cor&iacute;ntios (cf. <em>1 Cor<\/em> 12, 12 ss). Iguais, mas no espanto daqueles povos todos que, sem deixaram de o ser, ouviram anunciar, na l&iacute;ngua de cada um, as maravilhas de Deus (cf. <em>Act<\/em> 2, 7 ss). E n&oacute;s crist&atilde;os sabemos &ndash; como outros, ali&aacute;s, o intuem &ndash; que tudo &eacute; assim, complementarmente igual, porque o pr&oacute;prio Deus o &eacute; antes de mais, na sua unitrindade: Pai como Pai e Filho como Filho, no amor do Esp&iacute;rito, que entre os dois circula.<\/p>\n<p>S&eacute; do Porto, 18 de Mar&ccedil;o de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Manuel Clemente<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Que os homens nascem &ldquo;livres e iguais em direitos&rdquo; foi afirma&ccedil;&atilde;o importante das revolu&ccedil;&otilde;es liberais, a acolher certamente. Mas sempre se embateu com a realidade das distin&ccedil;&otilde;es persistentes. Por isso, n&atilde;o faltaram cr&iacute;ticos pr&aacute;ticos aos liberais te&oacute;ricos, com alguma confus&atilde;o de planos. 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