{"id":441214,"date":"2026-09-13T08:02:25","date_gmt":"2026-09-13T07:02:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=441214"},"modified":"2026-09-10T17:05:57","modified_gmt":"2026-09-10T16:05:57","slug":"igreja-portugal-quem-diz-que-os-imigrantes-sao-um-peso-esta-a-mentir-d-pedro-fernandes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-portugal-quem-diz-que-os-imigrantes-sao-um-peso-esta-a-mentir-d-pedro-fernandes\/","title":{"rendered":"Igreja\/Portugal: \u00abQuem diz que os imigrantes s\u00e3o um peso est\u00e1 a mentir\u00bb &#8211;  D. Pedro Fernandes"},"content":{"rendered":"<p><em>D. Pedro Fernandes, bispo de Portalegre-Castelo Branco, presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Mobilidade Humana, \u00e9 o convidado deste domingo da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (ECCLESIA)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_420995\" aria-describedby=\"caption-attachment-420995\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-420995 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Dom-Pedro-Fernandes_6978.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Dom-Pedro-Fernandes_6978.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Dom-Pedro-Fernandes_6978-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Dom-Pedro-Fernandes_6978-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Dom-Pedro-Fernandes_6978-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/Dom-Pedro-Fernandes_6978-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-420995\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/PR, D. Pedro Fernandes<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Em abril, aquando da autonomiza\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Episcopal da Mobilidade Humana, o denunciou os discursos de \u00f3dio com dados errados sobre a popula\u00e7\u00e3o imigrante. Entende que esta \u00e9 uma realidade generalizada ou \u00e9 mais um fen\u00f3meno associado a determinadas for\u00e7as pol\u00edticas?<\/em><\/p>\n<p>Os discursos de \u00f3dio, os dados errados, a manipula\u00e7\u00e3o de opini\u00e3o, evidentemente est\u00e3o muito mais ligados a uma vis\u00e3o extremista da discrimina\u00e7\u00e3o, de xenofobia, de racismo, etc. \u00c9 evidente que tudo isso est\u00e1 muito mais ligado a for\u00e7as ideol\u00f3gicas, com maior ou menor configura\u00e7\u00e3o propriamente pol\u00edtica ou partid\u00e1ria, mas de extrema-direita. Neste aspeto, estas formas extremas, evidentemente, n\u00e3o se podem generalizar: a sociedade portuguesa \u00e9 uma sociedade tendencialmente tolerante, aberta, com uma tradi\u00e7\u00e3o longa de integra\u00e7\u00e3o e de boa articula\u00e7\u00e3o das diversidades. O que me parece que pode ser eventualmente mais preocupante, com alguma tend\u00eancia a generalizar-se, n\u00e3o apenas na nossa sociedade portuguesa, mas diria nas sociedades ocidentais contempor\u00e2neas, poder\u00e1 ser o medo. Um certo sentimento difuso de inseguran\u00e7a com a correspondente busca de causas f\u00e1ceis, simplistas, bodes expiat\u00f3rios para aquilo que nos assusta e, portanto, depois, solu\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, r\u00e1pidas. E tudo isto pode ser presa para os discursos populistas e para as for\u00e7as que buscam o poder a qualquer custo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando para a situa\u00e7\u00e3o em Portugal, tivemos recentemente decis\u00f5es pol\u00edticas que agravam a fluidez dos fluxos migrat\u00f3rios, legisla\u00e7\u00e3o como a lei da nacionalidade, a lei do retorno. Ainda que possamos estar todos de acordo na necessidade de uma imigra\u00e7\u00e3o regulada, o poder pol\u00edtico n\u00e3o est\u00e1 a capitular a essa press\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um risco, esse \u00e9 um risco que n\u00f3s n\u00e3o desejamos. Quando a gente olha para a legisla\u00e7\u00e3o, seja para esta mais recente, seja para a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica em geral e a forma como este assunto vai sendo gerido, claro que, da minha parte como crist\u00e3o e tamb\u00e9m como bispo, o que est\u00e1 em causa \u00e9 sempre at\u00e9 que ponto \u00e9 que isto efetivamente est\u00e1 a ser gerido a partir dos valores nos quais eu acredito e que me parecem ser necess\u00e1rios para uma sociedade mais justa, uma sociedade mais equilibrada, uma sociedade mais humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>D<em>eixe-me s\u00f3 interromp\u00ea-lo, mas por vezes quem sugere esse tipo de legisla\u00e7\u00e3o diz basear-se precisamente nos pensamentos que agora estava a referir, pensamentos crist\u00e3os, pensamentos cat\u00f3licos, o que \u00e9 contradit\u00f3rio, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>O que \u00e9 contradit\u00f3rio. Enfim, o pensamento da Igreja, parece-me, \u00e9 bastante claro sobre isto. Temos op\u00e7\u00f5es muito claras sobre aquilo que deve ser o tratamento a dar \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o e aos imigrantes em concreto, aqueles famosos quatro verbos do Papa Francisco na <em>Fratelli Tutti<\/em>, mas tamb\u00e9m noutros pronunciamentos anteriores. Mas, de uma forma geral, n\u00e3o apenas o magist\u00e9rio do Papa Francisco, mas claro tamb\u00e9m agora, na perfeita continuidade com os seus antecessores e toda a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Os quatro verbos, eu recordo-os, porque me parecem particularmente importantes, s\u00e3o: acolher \u2013 e o Papa concretiza bastante o que \u00e9 que significa acolher. Significa abrir caminhos, tamb\u00e9m legais ao n\u00edvel das legisla\u00e7\u00f5es, seguros para a entrada de migrantes, evitando que caiam nas m\u00e3os de traficantes ou que incorram em situa\u00e7\u00f5es perigos\u00edssimas de travessias do mar, por exemplo, mortais. E isso significa, por exemplo, tamb\u00e9m facilitar a concess\u00e3o de vistos humanit\u00e1rios, simplificar a burocracia para a concess\u00e3o de vistos de trabalho e de estudo, criar corredores humanit\u00e1rios, etc. Isto \u00e9 o que significa acolher, na verdade.<\/p>\n<p>Depois o outro verbo, proteger: garantir os direitos fundamentais e n\u00e3o permitir que haja legisla\u00e7\u00f5es ou pr\u00e1ticas administrativas, legais ou menos legais, que no fundo desrespeitem a seguran\u00e7a, desrespeitem a dignidade dos migrantes, tanto na sua viagem como \u00e0 sua chegada. Portanto, prote\u00e7\u00e3o, respeito por valores fundamentais da doutrina social da Igreja, por exemplo, o valor absoluto da vida humana, o princ\u00edpio da solidariedade, o valor do bem comum, etc.<\/p>\n<p>Terceiro verbo, promover: dar aos migrantes, aos refugiados, as ferramentas necess\u00e1rias para que se possam realizar como pessoas, para que ganhem as ferramentas necess\u00e1rias para, nas sociedades de acolhimento, poderem ter uma presen\u00e7a construtiva e n\u00e3o apenas ganharem a sua vida, mas serem de facto uma mais-valia para essas sociedades.<\/p>\n<p>E, finalmente, integrar, que significa promover um encontro cultural, a inser\u00e7\u00e3o de pessoas de diferentes proveni\u00eancias nas sociedades de acolhimento, de forma a criar tamb\u00e9m mais sinergia, mais fraternidade, uma melhor rela\u00e7\u00e3o de todos. Isto tamb\u00e9m passa, por exemplo, por facilitar os processos de reagrupamento familiar, respeitando as fam\u00edlias e promovendo-as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma quest\u00e3o que vamos fazer mais adiante at\u00e9, olhando para o pr\u00f3ximo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Falou ainda h\u00e1 pouco do medo: situa\u00e7\u00f5es como os recentes epis\u00f3dios de Ceuta n\u00e3o tornam essa realidade ainda mais assustadora?<\/em><\/p>\n<p>Sim, completamente. O Papa centra-se num tema muito importante, que \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o dos migrantes menores, na sua mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. A forma como aconteceu tudo aquilo, e que foi amplamente divulgado na comunica\u00e7\u00e3o social, naturalmente que nos faz perceber o quanto estas popula\u00e7\u00f5es, sobretudo jovens, est\u00e3o \u00e0 merc\u00ea do tr\u00e1fico, das not\u00edcias falsas e da manipula\u00e7\u00e3o, e o quanto \u00e9 f\u00e1cil manipular estas pessoas e p\u00f4-las nestes movimentos de massa. Portanto, h\u00e1 uma enorme vulnerabilidade, o Papa denuncia isso na sua mensagem, mas \u00e9 importante, justamente, apoiar e n\u00e3o combater os vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Olhar para estas pessoas n\u00e3o essencialmente como amea\u00e7as e como problema, mas olhar para elas como pessoas e, portanto, trat\u00e1-las como tais, combater a indiferen\u00e7a. O Papa prop\u00f5e uma mudan\u00e7a de perspetiva, exigindo que os governos parem de encarar a migra\u00e7\u00e3o como uma mera gest\u00e3o de fluxos e passem a priorizar os direitos humanos b\u00e1sicos. Portanto, claro que nesta situa\u00e7\u00e3o de Ceuta, como em tantas outras, como nos campos de deten\u00e7\u00e3o, que agora a nossa legisla\u00e7\u00e3o parece querer favorecer, p\u00f5e-nos a quest\u00e3o se efetivamente estamos a acolher, se estamos a proteger, se estamos a integrar, ou se pelo contr\u00e1rio estamos a tratar as pessoas como se fossem amea\u00e7as que devem ser confinadas e que devem ser maltratadas, at\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa \u00e9 a realidade do nosso pa\u00eds tamb\u00e9m, nesta altura?<\/em><\/p>\n<p>Eu espero que n\u00e3o seja e espero que n\u00e3o se facilite esse processo. Sabemos todos que havia propostas legislativas que claramente n\u00e3o estavam na m\u00ednima sintonia com aquilo que \u00e9 a doutrina social da Igreja e aquilo que \u00e9 a proposta concreta em rela\u00e7\u00e3o a esta mat\u00e9ria de imigra\u00e7\u00e3o do Papa. Isto n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. H\u00e1 um contraste muito grande entre estas pol\u00edticas que tentam refrear e tratar a imigra\u00e7\u00e3o como se fosse um problema de fundo, quando, na verdade, o que est\u00e1 aqui em causa \u00e9 um problema de humanidade, que tem a ver com valores fundamentais.<\/p>\n<p>J\u00e1 agora, permita-me que diga isto tamb\u00e9m: tem a ver com valores fundamentais que s\u00e3o o alicerce de uma sociedade livre, se quisermos, uma sociedade democr\u00e1tica orientada pelos valores da humanidade, como o bem comum, a solidariedade, a liberdade, o valor da vida, a justi\u00e7a social. Ent\u00e3o, s\u00e3o no fundo valores crist\u00e3os, inspirados pelo Evangelho. Alguns poder\u00e3o dizer: &#8220;bom, defender esses valores n\u00e3o \u00e9 realista, \u00e9 ut\u00f3pico&#8221;. Enfim, depende. Se o objetivo \u00e9 o puro crescimento econ\u00f3mico de alguns, a produ\u00e7\u00e3o, a rentabilidade pura em detrimento das pessoas, pelo interesse de alguns grupos econ\u00f3micos minorit\u00e1rios, minorias pol\u00edticas, lobbies financeiros, ent\u00e3o claro que estes grandes valores poder\u00e3o ser inc\u00f3modos, n\u00e3o interessar, ainda que uma vis\u00e3o exclusivamente economicista acabasse depois por produzir entropias que prejudicariam essa pr\u00f3pria vis\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu queria voltar \u00e0 quest\u00e3o de Ceuta e dos menores n\u00e3o acompanhados. A mensagem para o pr\u00f3ximo Dia Mundial do Migrante e do Refugiado chama a aten\u00e7\u00e3o para os traumas da separa\u00e7\u00e3o e a import\u00e2ncia do reagrupamento familiar. \u00c9 uma quest\u00e3o que precisa de maior cuidado, e tamb\u00e9m em Portugal, porque ela esteve a ser debatida?<\/em><\/p>\n<p>Pois, exatamente. E o reagrupamento familiar poder\u00e1 ser uma das debilidades da legisla\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em vigor neste momento, que foi aprovada. O reagrupamento familiar, o respeito pela fam\u00edlia. N\u00e3o estou a comentar a lei, obviamente, mas estou a dizer que h\u00e1 ainda bastante caminho a percorrer se quisermos fazer coincidir mais aquilo que s\u00e3o as pr\u00e1ticas pol\u00edticas e administrativas, legislativas e judiciais relativamente a este assunto da imigra\u00e7\u00e3o, com aquilo que s\u00e3o os valores que pelo menos n\u00f3s como crist\u00e3os defendemos. Os tais traumas invis\u00edveis de que o Papa fala, alertando para o impacto psicol\u00f3gico devastador que \u00e9 vivido por menores n\u00e3o acompanhados, a perda dos pais, o abuso ao longo das rotas, o isolamento, a falta de acolhimento, os maus-tratos. Evidentemente, isso s\u00e3o temas que nos preocupam por raz\u00f5es de f\u00e9. Eu diria que isto n\u00e3o tem nada de ideol\u00f3gico no que se refere \u00e0 nossa sensibilidade como Igreja e como crist\u00e3os; tem mesmo a ver com a f\u00e9. Acreditar que Jesus Cristo se fez humano, encarnou, e, portanto, a humanidade de Cristo, explicitamente afirmada por Ele, est\u00e1 especialmente presente nos mais fr\u00e1geis, nos vulner\u00e1veis. \u00c9 no rosto dessas pessoas que n\u00f3s temos de ver o rosto de Deus, que se fez carne. Portanto, para um cidad\u00e3o que se diz cat\u00f3lico, n\u00e3o pode haver fidelidade \u00e0 sua f\u00e9 cat\u00f3lica e, eu diria, \u00e0 sua perten\u00e7a \u00e0 Igreja, se n\u00e3o houver sensibilidade para todos estes temas, na linha daquilo que a doutrina social da Igreja ensina. Isto parece-me que \u00e9 fundamental na contribui\u00e7\u00e3o que a Igreja Cat\u00f3lica pode ter neste debate ao n\u00edvel da nossa sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para al\u00e9m da den\u00fancia, que outro papel pode estar tamb\u00e9m reservado \u00e0 Igreja, \u00e0s estruturas que acompanham e protegem esta popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel? E j\u00e1 agora, o que \u00e9 que podemos esperar ao n\u00edvel da a\u00e7\u00e3o e da den\u00fancia do presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Mobilidade Humana? Uma maior proximidade das estruturas?<\/em><\/p>\n<p>Isso, enfim, bom, parece-me que \u00e9 muito importante, com certeza, estar atento, ser sens\u00edvel ao que se passa na nossa sociedade, n\u00e3o \u00e9? Disc\u00edpulos de Cristo preocupam-se com o que fazem a Cristo na pessoa dos mais fr\u00e1geis, em cada pessoa, em cada ser humano. Portanto, denunciar aquilo que mata, aquilo que n\u00e3o promove a vida, aquilo que n\u00e3o promove a dignidade humana \u00e9 absolutamente fundamental. Denunciar, e s\u00f3 podemos denunciar se estivermos bem informados, se estivermos atentos ao que se passa e lermos isso tudo \u00e0 luz do Evangelho e \u00e0 luz da doutrina da Igreja.<\/p>\n<p>Depois, refor\u00e7ar aquilo que a Igreja j\u00e1 faz, e j\u00e1 faz muito, n\u00e3o \u00e9? A Obra Cat\u00f3lica das Migra\u00e7\u00f5es, por exemplo, diferentes organismos, associa\u00e7\u00f5es, entidades cat\u00f3licas ou de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Vou pensar, por exemplo, no Servi\u00e7o Jesu\u00edta aos Refugiados (JRS), no Centro Padre Alves Correia, na C\u00e1ritas&#8230; n\u00e3o vou evidentemente elencar todas as organiza\u00e7\u00f5es, mas h\u00e1 imensa coisa que se faz e muita gente que est\u00e1 realmente empenhada nisso. \u00c9 importante que a Igreja hier\u00e1rquica esteja tamb\u00e9m claramente ao lado destas associa\u00e7\u00f5es e que, tanto quanto poss\u00edvel, lhes possa dar voz, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>E depois, parece-me que um desafio maior \u00e9, por um lado, a informa\u00e7\u00e3o: desconstruirmos os discursos de \u00f3dio, a informa\u00e7\u00e3o distorcida e a manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica a partir de dados errados, como referia no in\u00edcio. Formar animadores pastorais, as lideran\u00e7as, tamb\u00e9m os padres, naturalmente, e os bispos, e todos n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9? As comunidades crist\u00e3s, para esta \u00e1rea da doutrina social da Igreja, do pensamento social da Igreja em mat\u00e9ria de imigra\u00e7\u00e3o e de defesa dos mais fr\u00e1geis, de op\u00e7\u00e3o pelos mais pobres, que \u00e9 um elemento essencial na moral social cat\u00f3lica. Portanto, n\u00e3o se trata evidentemente de tomar posicionamentos partid\u00e1rios \u2013 isso compete depois a cada cidad\u00e3o \u2013 mas no que se refere aos cidad\u00e3os que s\u00e3o crist\u00e3os ou \u00e0queles que querem dialogar com o cristianismo, trata-se de formar ou de propor pistas de forma\u00e7\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o sobre aquilo que \u00e9 o pensamento social crist\u00e3o a partir do Evangelho. Isso parece-me que \u00e9 a grande contribui\u00e7\u00e3o que a Igreja pode fazer nesta \u00e1rea. E depois, evidentemente, tanto quanto poss\u00edvel, interceder e dialogar com as for\u00e7as p\u00fablicas, com as entidades do Governo, do Estado, e favorecer o di\u00e1logo e a escuta. A escuta das popula\u00e7\u00f5es, a escuta das diferentes entidades. Aqui parece-me importante estimular tamb\u00e9m que aqueles que governam e que t\u00eam efetivamente poder pol\u00edtico possam legislar e atuar a partir da escuta e da aprendizagem atenta com a base, n\u00e3o \u00e9? Com as comunidades humanas, com as diferentes igrejas, com a Igreja Cat\u00f3lica e as diferentes entidades presentes na nossa sociedade. Sem escuta, sem capacidade de aprendizagem, n\u00e3o vamos longe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Numa linguagem moderna, \u00e9 preciso ser um bom influencer?<\/em><\/p>\n<p>Parece-me que sim, mas se calhar bem mais do que isso. \u00c9 preciso fugir a tend\u00eancias r\u00e1pidas e manipuladoras da opini\u00e3o, com grandes frases lapidares que depois n\u00e3o nos levam longe, e favorecer o aprofundamento das quest\u00f5es e o tratamento da complexidade que estas quest\u00f5es todas t\u00eam. Evidentemente que as nossas sociedades podem e devem legislar sobre o controlo e sobre a gest\u00e3o adequada dos fluxos migrat\u00f3rios. N\u00e3o se trata de escancarar as portas e de abrir tudo a toda a gente de qualquer maneira. Trata-se de defender as pessoas, tanto aquelas que chegam, como aquelas que j\u00e1 est\u00e3o, como a sociedade toda em geral, a partir de valores fundamentais, mas tamb\u00e9m at\u00e9 a partir \u2013 e se quisermos ser muito tecnocr\u00e1ticos \u2013 da contribui\u00e7\u00e3o real que as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de migra\u00e7\u00e3o d\u00e3o \u00e0s sociedades que as acolhem. Por outras palavras, mesmo do ponto de vista econ\u00f3mico, social, demogr\u00e1fico, laboral, as nossas sociedades, e em concreto a sociedade portuguesa, precisam dos imigrantes. N\u00f3s n\u00e3o podemos hoje conceber a economia portuguesa e a nossa sociedade sem a presen\u00e7a de migrantes e da sua enorme contribui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m econ\u00f3mica. Portanto, quem diz que eles s\u00e3o um problema a este n\u00edvel, ou um peso, evidentemente est\u00e1 a mentir, porque contradiz claramente todos os dados estat\u00edsticos muito objetivos de que n\u00f3s dispomos. E, portanto, \u00e9 importante favorecer esta aten\u00e7\u00e3o \u00e0 complexidade que existe no terreno nestas mat\u00e9rias todas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Gostaria de falar sobre a sua miss\u00e3o como bispo de Portalegre-Castelo Branco. Recentemente falou da sua diocese como uma comunidade muito plural. Sei que est\u00e1 a conhecer o territ\u00f3rio com v\u00e1rias alegrias, dificuldades, com desafios. Eu pergunto se no terreno sente que h\u00e1 um esquecimento destas popula\u00e7\u00f5es e como \u00e9 que a Igreja Cat\u00f3lica pode valorizar e ajudar a valorizar estas comunidades?<\/em><\/p>\n<p>Come\u00e7ando pela \u00faltima parte da pergunta, eu diria: estando l\u00e1, fazendo aquilo que j\u00e1 faz, que \u00e9 estar l\u00e1 e n\u00e3o abandonar de maneira nenhuma estas comunidades. Portanto, a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 no terreno. A Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 constitu\u00edda pelos cat\u00f3licos que l\u00e1 est\u00e3o e procura, de forma organizada, dar resposta \u00e0s suas necessidades. Se me pergunta se estas comunidades que habitualmente chamamos do Interior, ou se quisermos, estes territ\u00f3rios eventualmente mais distantes do poder central, se eles poderiam ser mais favorecidos e se poderia haver pol\u00edticas p\u00fablicas que favorecessem ainda mais a coes\u00e3o territorial, a igualdade de todos os cidad\u00e3os e o acesso de todos a tudo e a todas as fontes de riqueza e de crescimento, se poderia ser feito mais e se h\u00e1 caminho a fazer&#8230; Com certeza que sim, claro que sim. E a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 a tentar isso, porque est\u00e1 presente no terreno e porque caminha com a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Sinto que se mant\u00e9m uma tend\u00eancia para buscar melhores condi\u00e7\u00f5es de vida nos grandes centros urbanos. Eu sou bispo de Portalegre-Castelo Branco, os jovens tendem a sair procurando melhores condi\u00e7\u00f5es de vida. Isto parece-me que \u00e9 um problema, n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 para o nosso territ\u00f3rio diocesano, ou daquelas regi\u00f5es. Ali\u00e1s, h\u00e1 quatro concelhos tamb\u00e9m no distrito de Santar\u00e9m que s\u00e3o da minha diocese. Parece-me que \u00e9 um problema que afeta o pa\u00eds todo. E, portanto, deveria continuar a ser&#8230; penso que tem sido pensado pelos governos, mas se calhar h\u00e1 certamente muito trabalho ainda a fazer nessa \u00e1rea.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Se calhar os rem\u00e9dios n\u00e3o t\u00eam sido os melhores, n\u00e3o \u00e9? Porque as pessoas continuam a fugir\u2026<\/em><\/p>\n<p>Pois, pelo menos em termos de efic\u00e1cia, que \u00e9 o que se pretende, acho que podemos dizer isso em parte, sim, com certeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Pedro Fernandes, bispo de Portalegre-Castelo Branco, presidente da Comiss\u00e3o Episcopal da Mobilidade Humana, \u00e9 o convidado deste domingo da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":420995,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[258],"class_list":["post-441214","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-migracoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441214","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=441214"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441214\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":441219,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/441214\/revisions\/441219"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/420995"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=441214"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=441214"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=441214"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}