{"id":44106,"date":"2010-03-16T11:09:52","date_gmt":"2010-03-16T11:09:52","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/16\/o-papa-num-pais-deprimido\/"},"modified":"2010-03-16T11:09:52","modified_gmt":"2010-03-16T11:09:52","slug":"o-papa-num-pais-deprimido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-papa-num-pais-deprimido\/","title":{"rendered":"O Papa num pa\u00eds deprimido"},"content":{"rendered":"<p>Bento XVI n\u00e3o \u00e9 um populista nem um superficial: vai ao fundo das coisas,aos valores essenciais <!--more--> <\/p>\n<p>Bento XVI vem a Portugal numa altura em que a nossa sociedade se encontra descrente de si pr&oacute;pria, desanimada, frustrada. Mas seria errado esperar do Papa um mero est&iacute;mulo psicol&oacute;gico para animar um pa&iacute;s algo deprimido.<\/p>\n<p>&Eacute; certo que n&atilde;o faltam por a&iacute; grupos ditos religiosos a afirmarem-se e a ganharem pros&eacute;litos com base nas suas virtua-lidades para levantar o &acirc;nimo &agrave;s pessoas em crise. Mas n&atilde;o &eacute; de verdadeira religi&atilde;o que se trata. L&ecirc;-se na Caritas in Veritate: &ldquo;O mundo actual regista a presen&ccedil;a de algumas culturas de matiz religioso que n&atilde;o empenham o homem na comunh&atilde;o, mas isolam-no na busca do bem-estar individual, limitando-se a satisfazer os seus anseios psicol&oacute;gicos&rdquo; (n.&ordm; 55).<\/p>\n<p>O imperativo da solidariedade, frequentemente lembrado por Bento XVI, apela ao contr&aacute;rio desse individualismo ego&iacute;sta e auto-centrado. E sendo consoladores os gestos de solidariedade que numerosos portugueses tiveram face a v&aacute;rias trag&eacute;dias recentes &ndash; como a da Madeira &ndash; n&atilde;o podemos esquecer que Portugal &eacute; um dos pa&iacute;ses europeus onde as desigualdades de rendimentos s&atilde;o maiores. Pior do que isso: tendem a acentuar-se com a crise. N&atilde;o podemos fingir que tal n&atilde;o nos diz respeito.<\/p>\n<p><strong>Expectativas frustradas<br \/><\/strong>O des&acirc;nimo na sociedade portuguesa merece ser analisado, porque o Papa n&atilde;o o ir&aacute; ignorar, embora reagindo de modo bem diferente daquelas &ldquo;culturas de matiz religioso&rdquo; que pretendem actuar como anti-depressivos. Uma parte da amargura actual de muitos portugueses tem a ver com expectativas frustradas, depois de durante anos terem sido estimuladas por um optimismo irrespons&aacute;vel dos governantes. Tantos esperavam melhorar de n&iacute;vel de vida e afinal&hellip;<\/p>\n<p>Melhorar a condi&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica de cada um &eacute; um desejo leg&iacute;timo, sobretudo quando se parte de um n&iacute;vel de aut&ecirc;ntica pobreza. E a subida do desemprego coloca hoje muitas fam&iacute;lias portuguesas em situa&ccedil;&atilde;o dram&aacute;tica.<br \/>Mas &eacute; dif&iacute;cil n&atilde;o ver na actual frustra&ccedil;&atilde;o de muitos uma excessiva, e por vezes quase exclusiva, import&acirc;ncia dada ao bem-estar material e, porventura ainda mais, aos s&iacute;mbolos de ascens&atilde;o social que a posse de alguns bens significa para muita gente. Ora o Papa contribuir&aacute; para dar aos v&aacute;rios valores em jogo na nossa vida o peso correcto, combatendo uma fixa&ccedil;&atilde;o doentia no que se tem designado por &ldquo;individualismo possessivo&rdquo; e chamando a aten&ccedil;&atilde;o para aquilo que verdadeiramente importa: a doa&ccedil;&atilde;o de si mesmo ao servi&ccedil;o dos outros.<\/p>\n<p><strong>Falta de &eacute;tica<\/strong><br \/>A frustra&ccedil;&atilde;o portuguesa tem igualmente a ver com a situa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica nacional. Alastra a descren&ccedil;a n&atilde;o apenas quanto aos pol&iacute;ticos como noutras institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas fundamentais, caso da justi&ccedil;a principalmente. <br \/>O que poder&aacute; fazer o Papa contra isso? Pois poder&aacute; recordar aos cat&oacute;licos as suas obriga&ccedil;&otilde;es c&iacute;vicas e pol&iacute;ticas. &Eacute; c&oacute;modo dizer mal dos pol&iacute;ticos e ficar de fora, a assistir ao espect&aacute;culo. Mas essa n&atilde;o &eacute; uma atitude crist&atilde;. Todos n&oacute;s somos respons&aacute;veis pelo bem comum. N&atilde;o quer isto dizer, claro, que todos os cat&oacute;licos devam militar em partidos pol&iacute;ticos ou aceitar cargos p&uacute;blicos. Quer dizer, sim, que n&atilde;o podemos alhear-nos da res publica &ndash; desde logo na ora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>E se nos incomoda, como deve incomodar, o baixo n&iacute;vel &eacute;tico que hoje predomina na esfera p&uacute;blica, importa ter presente que a moralidade dos pol&iacute;ticos e gestores p&uacute;blicos n&atilde;o &eacute; uma ilha: &eacute; basicamente a moralidade da sociedade de que fazem parte. Veja-se o caso da corrup&ccedil;&atilde;o, que tanto gostamos de apontar como um cancro da nossa vida colectiva (e &eacute;-o, de facto). Os portugueses s&atilde;o permissivos quanto &agrave; corrup&ccedil;&atilde;o, como veio confirmar um estudo recente. E como j&aacute; sab&iacute;amos ao ver autarcas acusados e suspeitos em processo de corrup&ccedil;&atilde;o serem alegremente eleitos.<\/p>\n<p>Bento XVI n&atilde;o &eacute; um populista nem um superficial: vai ao fundo das coisas, aos valores essenciais. Se o soubermos escutar, algo mudar&aacute; na sociedade portuguesa.<\/p>\n<p><em>Francisco Sarsfield Cabral<br \/>Jornalista<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bento XVI n\u00e3o \u00e9 um populista nem um superficial: vai ao fundo das coisas,aos valores essenciais<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,314],"class_list":["post-44106","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44106","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44106"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44106\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44106"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44106"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44106"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}