{"id":440532,"date":"2026-09-03T14:36:21","date_gmt":"2026-09-03T13:36:21","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=440532"},"modified":"2026-09-03T14:36:36","modified_gmt":"2026-09-03T13:36:36","slug":"santiago-de-compostela-um-homem-e-o-seu-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/santiago-de-compostela-um-homem-e-o-seu-caminho\/","title":{"rendered":"Santiago de Compostela &#8211; Um homem e o seu caminho"},"content":{"rendered":"<p><em>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/em><span id=\"more-436993\"><\/span><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-266200 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/LuisSilva-Aveiro.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><\/p>\n<p>A condi\u00e7\u00e3o de peregrino \u00e9 das que mais belamente expressam o que \u00e9 \u2018ser-se humano\u2019.<\/p>\n<p>Gabriel Marcel percebeu-o, ao designar o Homem como \u2018homo viator\u2019, \u2018aquele que caminha\u2019, que \u2018faz caminho\u2019\u2026 Bem poderia t\u00ea-lo dito, cunhando-o como \u2018homo peregrinante\u2019. Um qualquer dicion\u00e1rio de latim ajuda-nos a perceber que a densidade do que se diz, neste termo, \u00e9 maior do que a primeira vista permite vislumbrar. O \u2018peregrino\u2019 \u00e9 aquele que \u2018atravessa os campos\u2019, anda \u2018pelo campo\u2019, n\u00e3o tanto o \u2018campo rural\u2019 (ainda que a ideia n\u00e3o esteja totalmente ausente), mas com o alcance de \u2018campo estrangeiro\u2019. O peregrino faz uma \u2018longa viagem\u2019. \u00c9, de algum modo, estrangeiro em toda a terra, ainda que em toda a terra se demore. \u00c9 muito distinto do turista, que se acelera, de lugar em lugar, para ver, ver, ver. (Ah, como bem o sabia o autor da carta a Diogneto, no s\u00e9culo II, que assim falava da condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 como a de quem \u00e9 estrangeiro em toda a terra, ao mesmo tempo que cidad\u00e3o da mesma!)<\/p>\n<p>O peregrino, pelo contr\u00e1rio, habita e \u00e9 habitado. Demora-se, nos espa\u00e7os e nos tempos, ainda que se saiba n\u00e3o pertencente \u00e0quele lugar. N\u00e3o anda errante, porque o erro n\u00e3o o impede de se encaminhar para a meta que o move.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, por se fazer ao caminho, por entre os campos que lhe s\u00e3o estrangeiros, acomoda os p\u00e9s, prepara o seu cora\u00e7\u00e3o, mune do fundamental o seu alforge e se faz \u00e0 vida sem sucumbir \u00e0s adversidades.<\/p>\n<p>Fiz-me \u2018\u00e0 vida\u2019 com o desejo de n\u00e3o sucumbir \u00e0s adversidades, entre os dias 18 e 22 de agosto de 2026, percorrendo o caminho portugu\u00eas, a partir de Valen\u00e7a.<\/p>\n<p>N\u00e3o pretendo, por\u00e9m, com esta partilha, apresentar-me como exemplo (Um s\u00f3 \u00e9 o Mestre!), mas soprar, com estas palavras, sobre as cinzas que, tantas vezes, repousam, tornando-a opaca, sobre a esperan\u00e7a e mostrar como s\u00e3o muitos os mundos de que se faz um \u2018Homem\u2019.<\/p>\n<p>Percorri, num grupo de doze, os mais de 120 kms que separam Valen\u00e7a de Santiago de Compostela. No princ\u00edpio, \u00e9ramos um mais um mais um mais um\u2026 at\u00e9 aos doze: seis do grupo de jovens de Estarreja (AM, DH, AV, RM, JM e eu, Lu\u00eds) e seis jovens da \u2018Miss\u00e3o Pa\u00eds\u2019 (CM, HA, DC, MF, FF e SC)! Acab\u00e1mos \u2018um-que-se-faz-de-doze\u2019: gente de fibra, aut\u00eanticos \u2018buscadores de Deus\u2019. \u00c9 que o \u2018caminho\u2019 entrela\u00e7a as hist\u00f3rias e faz com que, no mesmo tempo, se vivam muitas vidas simult\u00e2neas: as de todos os que, connosco, caminham o caminho, que jamais voltar\u00e3o a ser as mesmas, ap\u00f3s o entrela\u00e7ar caminhado. As dores de uns s\u00e3o as dores de todos. As supera\u00e7\u00f5es de um alegram o cora\u00e7\u00e3o de todos.<\/p>\n<p>Doze hist\u00f3rias diferentes de doze mundos distintos, com tempos diversos. Uns mais novos (a grande maioria!), outros mais distanciados do tempo do seu nascer. Encontr\u00e1mos, no caminho, novos, velhos, coxos e tr\u00f4pegos, doridos e frescos\u2026 Os ombros de uns serviam de apoio \u00e0 insegura cabe\u00e7a de outros. \u00c9 assim o caminho.<\/p>\n<p>Deix\u00e1mo-nos conduzir, ao longo dos cinco dias, pelos cinco cap\u00edtulos da carta de S\u00e3o Tiago: um cap\u00edtulo por dia. A carta em que Tiago nos recorda que a f\u00e9 sem obras \u00e9 morta\u2026<\/p>\n<p>Entre as muitas hist\u00f3rias e motivos que levam a que se fa\u00e7a o caminho, h\u00e1 narrativas mais simples, h\u00e1 outras mais densas.<\/p>\n<p>Encontrei, em Padr\u00f3n, uma das mais marcantes que ouvi, nos \u00faltimos tempos.<\/p>\n<p>Este texto \u00e9, tamb\u00e9m, exterioriza\u00e7\u00e3o da minha profunda unidade de cora\u00e7\u00e3o com a dor que nela se conta.<\/p>\n<p>Aguard\u00e1vamos pela hora de abertura do albergue p\u00fablico. A entrada era feita pela ordem de chegada. T\u00ednhamos, por isso, sa\u00eddo muito cedo de Briallos. Hav\u00edamos vivido um susto, logo no primeiro albergue, e n\u00e3o quer\u00edamos repeti-lo.<\/p>\n<p>Chegados, por volta das seis horas e trinta minutos da madrugada, a Padr\u00f3n, cujo albergue p\u00fablico tem lota\u00e7\u00e3o m\u00e1xima de 47 lugares, j\u00e1 ali aguardavam dez peregrinos. Fiz\u00e9ramos bem em sair cedinho. A nossa decis\u00e3o de n\u00e3o marcar lugares e confiar obrigava-nos a este sacrif\u00edcio suplementar. Talvez, no futuro, venhamos a rever tal op\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Mas, neste ano, nada havia a fazer e restava confiar. N\u00e3o deixar reservas (s\u00f3 poss\u00edvel nos albergues privados) densificava a nossa condi\u00e7\u00e3o de peregrinos. A nossa era uma \u2018via\u2019 que, verdadeiramente, depositava toda a confian\u00e7a no Senhor.<\/p>\n<p>Confirmando que t\u00ednhamos vaga, fomos instalando, na pedra fria da cal\u00e7ada exterior ao albergue, os nossos alforges e sacos-camas, preparando-nos para algum descanso at\u00e9 \u00e0 abertura do alojamento.<\/p>\n<p>Entretanto, chegou A.<\/p>\n<p>(Este meu texto \u00e9 homenagem \u00e0quela que levou A. a realizar o seu d\u00e9cimo quinto caminho, diferente de todos os anteriores\u2026)<\/p>\n<p>A. era portugu\u00eas, vindo da margem sul.<\/p>\n<p>Este caminho j\u00e1 fora antecedido de muitos outros, mas era \u00fanico. Como me disse, perdera a irm\u00e3, quinze dias antes, por doen\u00e7a oncol\u00f3gica prolongada. Pudera despedir-se e preparar-se.<\/p>\n<p>Prometera-lhe, no leito de morte, que faria o caminho e que a levaria consigo. (Na hist\u00f3ria da sua irm\u00e3 refletia-se a hist\u00f3ria do meu pai, em luta contra um cancro\u2026)<\/p>\n<p>Trazia, por isso, na sua carteira, duas credenciais de peregrino: a sua e a da sua irm\u00e3.<\/p>\n<p>Esperava que lhe emitissem, em nome da irm\u00e3, o diploma de peregrino, pois tamb\u00e9m ela fizera caminho ao seu lado ou, melhor, no seu cora\u00e7\u00e3o. Sabia-a consigo. Ela fazia caminho com o seu cajado e o seu alforge.<\/p>\n<p>Chorei com ele.<\/p>\n<p>Chorei mais do que uma vez e comovo-me, de cada vez que lembro a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Disse-me, com a sabedoria de quem sente sem amargura, que estava ali, ap\u00f3s ter tentado v\u00e1rios albergues p\u00fablicos, sempre ocupados. Caminhara quinze horas seguidas (mais de sessenta quil\u00f3metros), antes de encontrar aquele albergue. Sabia que n\u00e3o encontrara lugar porque, como me disse, o caminho \u00e9 feito por peregrinos, mas tamb\u00e9m por \u2018turegrinos\u2019 que ultrapassam outros, atrav\u00e9s de expedientes pouco coerentes com o \u2018caminho\u2019. (Infelizmente, tamb\u00e9m nisto o \u2018caminho\u2019 explicita a condi\u00e7\u00e3o humana, feita de \u2018espertezas\u2019 e sombras.)<\/p>\n<p>A. estava cansado, mas percebia-se-lhe a felicidade. Este era o \u00faltimo albergue, antes da etapa final que o levaria ao rega\u00e7o do Ap\u00f3stolo.<\/p>\n<p>Quando parti, no grupo dos \u2018doze\u2019, do albergue, A. ainda dormia. Deixei-lhe, sobre a mochila, uma curta mensagem, escrita em papel.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabemos, um do outro, nada mais do que o nome. Mas as nossas vidas jamais ser\u00e3o iguais porque o \u2018caminho\u2019 nos entrela\u00e7ou.<\/p>\n<p>\u00c9 assim a condi\u00e7\u00e3o humana. Somos entrela\u00e7ados nas vidas uns dos outros, um entrela\u00e7ar que tantos peregrinos visibilizam nos s\u00edmbolos que guardam e de que nunca mais se desfazem (as pulseiras, as conchas, o chap\u00e9u de peregrinos\u2026).<\/p>\n<p>Mas os tempos querem desenla\u00e7ar-nos, como se pud\u00e9ssemos existir e viver sem os demais. Triste ilus\u00e3o!<\/p>\n<p>Ao p\u00f3rtico da Gl\u00f3ria s\u00f3 se chegar\u00e1, por\u00e9m, com os outros, na comunh\u00e3o dos santos. E quantas l\u00e1grimas se derramam, sem que as consigamos estancar, quando nos abra\u00e7a o Ap\u00f3stolo! A alegria assume a forma de l\u00e1grima fecunda de nova luz sobre o nosso caminhar. \u00c9-nos dado, para sempre, um novo caminhar!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Silva, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":266200,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-440532","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440532","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=440532"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440532\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":440535,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440532\/revisions\/440535"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/266200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=440532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=440532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=440532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}