{"id":440310,"date":"2026-09-01T10:27:02","date_gmt":"2026-09-01T09:27:02","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=440310"},"modified":"2026-09-01T10:27:02","modified_gmt":"2026-09-01T09:27:02","slug":"nenhuma-estrela-faz-crescer-trigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nenhuma-estrela-faz-crescer-trigo\/","title":{"rendered":"Nenhuma estrela faz crescer trigo!"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva<\/em><span id=\"more-432858\"><\/span><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_329388\" aria-describedby=\"caption-attachment-329388\" style=\"width: 382px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-329388\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg\" alt=\"\" width=\"382\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg 382w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-1024x698.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-768x523.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-474x324.jpg 474w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-329388\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>Reparem no mapa. Rocafonda. Los Palacios y Villafranca. Foios. Haro. Parece a lista das paragens de um autocarro que ningu\u00e9m apanha. E \u00e9, mais ou menos, isso: s\u00edtios que n\u00e3o est\u00e3o em nenhum roteiro. bairros constru\u00eddos em terrenos agr\u00edcolas nos anos 60 para acolher quem chegava sem nada, aldeias de sete mil almas na horta de Val\u00eancia. Foios, um quintal nos arredores de Val\u00eancia onde um mi\u00fado fintava os c\u00e3es da fam\u00edlia. Ferran Torres passou a inf\u00e2ncia a fintar o c\u00e3o da fam\u00edlia num quintal em Foios. Aos doze anos cresceu doze cent\u00edmetros num ver\u00e3o e deixou de conseguir controlar a bola \u2014 ca\u00eda a correr, pensou que estava tudo acabado. Depois vieram os 55 milh\u00f5es do Barcelona, a press\u00e3o, e aquilo a que ele chamou o \u00abpo\u00e7o sem fundo\u00bb. Foi ao psic\u00f3logo. Contou-o em voz alta. Tatuou \u00abI refuse to sink\u00bb ao lado da \u00e2ncora igual \u00e0 da irm\u00e3.<\/p>\n<p>Marcou o golo da final. E disse: \u00abo golo foi de 47 milh\u00f5es de pessoas, n\u00e3o foi meu\u00bb.<\/p>\n<p>Guardem essa frase. Vamos precisar dela.Ponham-na ao lado de qualquer legenda de influenciador \u2014 incluindo, d\u00f3i-me diz\u00ea-lo, de certos influenciadores crist\u00e3os leigos e cl\u00e9rigos.<\/p>\n<p>Rocafonda, bairro oper\u00e1rio de Matar\u00f3, feito de migra\u00e7\u00f5es e contentores. Lamine Yamal, quando marca, faz com as m\u00e3os o 304 \u2014 o c\u00f3digo postal de Rocafonda, Matar\u00f3. E uma m\u00e3e ganesa que atravessou meio mundo at\u00e9 ao Pa\u00eds Basco com dois filhos pequenos e uma mala que n\u00e3o era de cabine. Nico e I\u00f1aki Williams s\u00e3o filhos de uma mulher que veio do Gana com o marido e atravessou meio mundo para que eles pudessem nascer com passaporte e escola. Ela lavou o que havia para lavar. Eles jogam descal\u00e7os de vaidade.<\/p>\n<p>Nada disto devia dar campe\u00f5es do mundo. Deu!<\/p>\n<p>E deu porque houve um homem de Haro \u2014 La Rioja, essa terra de que ningu\u00e9m se lembra \u2014, filho de um marinheiro da marinha mercante, que disse uma coisa escandalosa para os padr\u00f5es do nosso tempo, que devia estar afixada em cada sacristia deste pa\u00eds: \u00abQuando seleciono um jogador, exijo que seja boa pessoa.\u00bb Boa pessoa. E boa pessoa, no futebol, \u00e9 ser solid\u00e1rio, generoso, trabalhar em equipa com capacidade de sofrimento, pondo o grupo \u00e0 frente do indiv\u00edduo\u00bb. N\u00e3o pedia m\u00e9tricas. N\u00e3o pedia seguidores. Pedia generosidade, capacidade de sofrimento, o grupo antes do eu! N\u00e3o \u00e9 bonito. \u00c9 exigente. \u00c9 outra coisa.<\/p>\n<p>Luis de la Fuente n\u00e3o dan\u00e7a, nem joga futebol no TikTok. E ganhou um Mundial!<\/p>\n<p>Agora comparem isto com o que se passa nos nossos ecr\u00e3s \u2014 e, sim, tamb\u00e9m nos cat\u00f3licos. H\u00e1 uma nova doen\u00e7a de que quase ningu\u00e9m fala com o nome certo: o populismo cat\u00f3lico: influenciadores cat\u00f3licos com anel de luz, coreografias, receitas, humor leve, tudo medido em visualiza\u00e7\u00f5es. Este clericalismo clerical e laical faz dos Reels o seu amb\u00e3o.<\/p>\n<p>Mudou o cen\u00e1rio, n\u00e3o mudou o pecado. Porque \u00e9 aqui que quero chegar. Li h\u00e1 dias, no Sete Margens, sobre o \u00abpopulismo eclesi\u00e1stico\u00bb: padres com aro de luz, minist\u00e9rio gerido como marca pessoal, a felicidade encenada em Reels, a aprova\u00e7\u00e3o social a substituir devagarinho a verdade do Evangelho.<\/p>\n<p>E h\u00e1 uma imagem que me ajuda a pensar isto. Na astronomia, medimos tudo em unidades solares \u2014 massa solar, luminosidade solar. E depois passamos a vida deslumbrados com estrelas distantes, a achar que o Sol devia brilhar como elas. Mas nenhuma dessas estrelas aquece a terra onde vivemos. Nenhuma faz crescer o trigo. A vida n\u00e3o depende das estrelas em geral. Depende do Sol.<\/p>\n<p>Toda a vida crist\u00e3 no digital se resolve nesta distin\u00e7\u00e3o. Podes ser estrela \u2014 brilhante, distante, in\u00fatil. Ou podes ser planeta \u2014 e ent\u00e3o tens de admitir que n\u00e3o \u00e9s a fonte da luz.<\/p>\n<p>Uma Igreja de estrelas isoladas produz n\u00fameros onde cada uma brilha para o seu p\u00fablico. \u00c9 um c\u00e9u bonito e est\u00e9ril! Uma comunidade que aponta tudo para o Sol \u2014 que n\u00e3o \u00e9 o padre, n\u00e3o \u00e9 o influencer, n\u00e3o \u00e9 o carisma de ningu\u00e9m, \u00e9 Cristo \u2014 essa d\u00e1 fruto. Mesmo sem viralizar.<\/p>\n<p>A sele\u00e7\u00e3o espanhola percebeu isto sem precisar de teologia. Lamine Yamal celebra com o c\u00f3digo postal de Rocafonda porque sabe de onde vem. Nico Williams joga por uma m\u00e3e que atravessou o deserto. Ferran devolve o golo a 47 milh\u00f5es. E n\u00f3s, quando marcamos, apontamos para onde?<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m acima da equipa. Ningu\u00e9m a fingir que a luz \u00e9 sua.<\/p>\n<p>Trabalho s\u00e9rio, sem estrid\u00eancia, com metas grandes. Chamem-lhe modelo espanhol. Eu chamo-lhe outra coisa: um modelo crist\u00e3o de estar no mundo \u2014 e no digital.<\/p>\n<p>A pergunta que fica \u00e9 simples. Quando publicamos, quando pregamos, quando aparecemos: estamos a apontar para o Sol, ou s\u00f3 a pedir que olhem para a nossa pequena estrela, t\u00e3o long\u00ednqua que n\u00e3o aquece ningu\u00e9m?<\/p>\n<p>O Sol n\u00e3o precisa de gostos! Precisa que a terra se deixe aquecer!<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Miguel Lopes Neto, Diocese do Algarve, membro RedAlfamed e Universidade de Huelva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":329388,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-440310","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440310","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=440310"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440310\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":440313,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/440310\/revisions\/440313"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/329388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=440310"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=440310"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=440310"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}