{"id":43962,"date":"2010-03-08T10:50:34","date_gmt":"2010-03-08T10:50:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/08\/lucas-o-evangelista-das-mulheres\/"},"modified":"2010-03-08T10:50:34","modified_gmt":"2010-03-08T10:50:34","slug":"lucas-o-evangelista-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lucas-o-evangelista-das-mulheres\/","title":{"rendered":"Lucas: o evangelista das mulheres"},"content":{"rendered":"<p>O terceiro Evangelho [Lucas] &eacute; aquele que guarda mais relatos de mulheres: &eacute;, por exemplo, o &uacute;nico que conta a hist&oacute;ria de Isabel (1, 5-25), Maria (1, 26-56), Ana (2, 36-38), a vi&uacute;va de Naim (7, 11-17), Maria Madalena, Joana, Susana e as outras mulheres que seguiam Jesus (8, 1-3), Marta e Maria (19, 38-42), a mulher encurvada (13, 10-17), a mulher que procura a moeda perdida (15, 8-10), a vi&uacute;va insistente (18, 1-8) e as mulheres de Jerusal&eacute;m que chora atr&aacute;s da cruz (23, 27-31). Para l&aacute; daquelas mulheres cuja refer&ecirc;ncia partilha com os outros Sin&oacute;pticos, como &eacute; o caso da sogra de Sim&atilde;o (5, 38-39; Mateus 8, 14-15; Marcos 1, 29-31), a hemorro&iacute;ssa e a filha de Jairo (8, 40-56; Mateus 9, 18-26; Marcos 5, 21-43), a vi&uacute;va que d&aacute; tudo quanto tinha para o tesouro do Templo (21, 1-4; Marcos 12, 41-44), as mulheres galileias que descobrem o t&uacute;mulo vazio (24, 1-8; Mateus 28, 1-8; Marcos 16, 1-8).<\/p>\n<p>Para um leitor de Lucas n&atilde;o &eacute;, portanto, estranho que uma mulher acorra &agrave; procura de Jesus. O encontro com mulheres pontua o caminho de Jesus. E &agrave; partida sabe-se que muitas acolhiam a mensagem e a pessoa de Jesus. O aparecimento de uma mulher acaba sempre por trazer um elemento positivo &agrave; narra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>O primeiro dado inesperado, por parte do narrador, &eacute; o modo como apresenta a mulher: &laquo;uma pecadora&raquo;. Isto &eacute; tanto mais espantoso, quando sabemos que Lucas n&atilde;o caracteriza moralmente outros personagens. E, precisamente em rela&ccedil;&atilde;o aos pecadores, ele distingue-se por uma grande delicadeza, feita de sil&ecirc;ncio e reserva. Embora alguns comentadores digam tratar-se de uma prostituta isso n&atilde;o nos &eacute; referido por Lucas, que poderia ter utilizado o substantivo &pi;&oacute;&rho;&nu;&eta;, como o faz noutra passagem, Lucas 15,30. Afirma-se simplesmente que era uma pecadora da cidade (v.37), e tal &eacute; reiterado pelo pr&oacute;prio fariseu (v.39).<\/p>\n<p>A mulher irrompe pela narrativa. A sua presen&ccedil;a n&atilde;o tem, como no caso anterior, a legitimidade de um convite formulado. Nem ela surge por si, mas porque Jesus se encontra &agrave; mesa do fariseu. &Eacute;, portanto, desde o in&iacute;cio, um personagem que se coloca na &oacute;rbita de outro e assume essa depend&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Uma justifica&ccedil;&atilde;o que o narrador subtilmente avan&ccedil;a para a entrada da mulher deve ler-se no destaque concedido ao alabastro, com perfume, que ela traz: por um lado, o objecto oferece &agrave; mulher um motivo, uma fun&ccedil;&atilde;o; e, por outro, empresta uma esp&eacute;cie de ingrediente novo e espec&iacute;fico &agrave; narrativa. Basta comparar 7, 36-50 com 11, 37-54 e 14, 1-24 que mostram sobretudo como Jesus reage &agrave;s ablu&ccedil;&otilde;es, &agrave;s disputas dos lugares ou &agrave; l&oacute;gica retributiva que presidia &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o dos banquetes. O perfume como que fornece o m&oacute;bil que depois a pr&oacute;pria trama se encarregar&aacute; de intricar: a qualidade do acolhimento a Jesus.<\/p>\n<p>&Eacute; dif&iacute;cil permanecer indiferente ao tr&acirc;nsito deste personagem que nos &eacute; descrito num impressionante regime de showing. A mulher entra e sai em sil&ecirc;ncio, mas o leitor sente que a sua passagem se revestiu de uma eloqu&ecirc;ncia &iacute;mpar. Em vez de palavras ela utilizou uma linguagem pl&aacute;stica, talvez mais contundente que a verbal. Representou, como actriz solit&aacute;ria, no palco da casa do fariseu, o seu mon&oacute;logo ferido: com o seu pranto prolongado, os cabelos a arrastar-se pelo ch&atilde;o do h&oacute;spede, numa coreografia humilde e lancinante, os beijos e o perfume que mais ningu&eacute;m ali teve a preocupa&ccedil;&atilde;o de ofertar a Jesus. A qualidade penitenciai do personagem &eacute; testemunhada pelo territ&oacute;rio simb&oacute;lico em que ela opera, os p&eacute;s de Jesus, sete vezes referidos, e pela convuls&atilde;o da sua figura (pois &laquo;desatar o seu cabelo em presen&ccedil;a do homem era considerado, para uma mulher, uma grande desonra&raquo;).<\/p>\n<p>Nas passagens paralelas a Lucas 7, 36-50 (Marcos 14, 3-9; Mateus 26, 6-13; Jo&atilde;o12, 1-8) a mulher unge Jesus, mas n&atilde;o chora. No epis&oacute;dio lucano as suas l&aacute;grimas substituem a &aacute;gua da hospitalidade que faltou. &laquo;Pelas minhas l&aacute;grimas, eu conto uma hist&oacute;ria&raquo;, explica Roland Barthes. Segundo aquele ensa&iacute;sta as l&aacute;grimas s&atilde;o uma realidade tudo menos insignificante. Porque temos muitas formas de chorar e essas revelam n&atilde;o s&oacute; a intensidade do nosso desgosto, mas tamb&eacute;m a natureza da nossa sensibilidade. Porque ao chorar, mesmo na mais estrita solid&atilde;o, nos dirigimos a algu&eacute;m: esfor&ccedil;amo-nos para o outro n&atilde;o ver que n&oacute;s choramos, mas a verdade &eacute; que n&oacute;s choramos sempre para um outro ver. Porque as l&aacute;grimas emprestam um realismo particular, dram&aacute;tico &agrave; express&atilde;o de n&oacute;s pr&oacute;prios. Na tradi&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica &eacute; muito comum que o pranto acorde no homem a consci&ecirc;ncia da depend&ecirc;ncia divina. Ele reconhece a sua insufici&ecirc;ncia, a debilidade das suas seguran&ccedil;as e reclama a interven&ccedil;&atilde;o favor&aacute;vel e protectora de Deus (1 Samuel 1, 10; Lamenta&ccedil;&otilde;es 1, 16).<\/p>\n<p>A inominada n&atilde;o cumpre os rituais de hospitalidade ao servi&ccedil;o da casa do fariseu. Em rela&ccedil;&atilde;o ao fariseu ela &eacute; uma intrusa, e n&atilde;o uma associada. O seu nexo &eacute; com Jesus: os seus gestos, t&atilde;o distantes, na sua emotividade, daquela delicada indiferen&ccedil;a que se requer a quem habitualmente presta, aos h&oacute;spedes, esse servi&ccedil;o, s&atilde;o interpretados por Jesus como uma forma de acolhimento na f&eacute;: por isso, de pecadora a mulher passar&aacute; a perdoada. E a transforma&ccedil;&atilde;o do estatuto da mulher derrama um perfume novo n&atilde;o s&oacute; na per&iacute;cope, mas pelo pr&oacute;prio Evangelho.&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma mulher aos p&eacute;s de Jesus<\/strong><\/p>\n<p>Um fariseu convidou-o para comer consigo. Entrou em casa do fariseu, e p&ocirc;s-se &agrave; mesa. Ora certa mulher, conhecida naquela cidade como pecadora, ao saber que Ele estava &agrave; mesa em casa do fariseu, trouxe um frasco de alabastro com perfume. Colocando-se por detr&aacute;s dele e chorando, come&ccedil;ou a banhar-lhe os p&eacute;s com l&aacute;grimas; enxugava-os com os cabelos e beijava-os, ungindo-os com perfume. Vendo isto, o fariseu que o convidara disse para consigo: &laquo;Se este homem fosse profeta, saberia quem &eacute; e de que esp&eacute;cie &eacute; a mulher que lhe est&aacute; a tocar, porque &eacute; uma pecadora!&raquo; Ent&atilde;o, Jesus disse-lhe: &laquo;Sim&atilde;o, tenho uma coisa para te dizer.&raquo; &laquo;Fala, Mestre&raquo; &#8211; respondeu ele. &laquo;Um prestamista tinha dois devedores: um devia-lhe quinhentos den&aacute;rios e o outro cinquenta. N&atilde;o tendo eles com que pagar, perdoou aos dois. Qual deles o amar&aacute; mais?&raquo; Sim&atilde;o respondeu: &laquo;Aquele a quem perdoou mais, creio eu.&raquo; Jesus disse-lhe: &laquo;Julgaste bem.&raquo; E, voltando-se para a mulher, disse a Sim&atilde;o: &laquo;V&ecirc;s esta mulher? Entrei em tua casa e n&atilde;o me deste &aacute;gua para os p&eacute;s; ela, por&eacute;m, banhou-me os p&eacute;s com as suas l&aacute;grimas e enxugou-os com os seus cabelos. N&atilde;o me deste um &oacute;sculo; mas ela, desde que entrou, n&atilde;o deixou de beijar-me os p&eacute;s. N&atilde;o me ungiste a cabe&ccedil;a com &oacute;leo, e ela ungiu-me os p&eacute;s com perfume. Por isso, digo-te que lhe s&atilde;o perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas &agrave;quele a quem pouco se perdoa pouco ama.&raquo; Depois, disse &agrave; mulher: &laquo;Os teus pecados est&atilde;o perdoados.&raquo; Come&ccedil;aram, ent&atilde;o, os convivas a dizer entre si: &laquo;Quem &eacute; este que at&eacute; perdoa os pecados?&raquo; E Jesus disse &agrave; mulher: &laquo;A tua f&eacute; te salvou. Vai em paz.&raquo; (Lucas 7, 36-50)<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a, In &ldquo;A Constru&ccedil;&atilde;o de Jesus&rdquo;, ed. Ass&iacute;rio &amp; Alvim<\/em><\/p>\n<p align=\"right\"><em>Adapta&ccedil;&atilde;o: Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O terceiro Evangelho [Lucas] &eacute; aquele que guarda mais relatos de mulheres: &eacute;, por exemplo, o &uacute;nico que conta a hist&oacute;ria de Isabel (1, 5-25), Maria (1, 26-56), Ana (2, 36-38), a vi&uacute;va de Naim (7, 11-17), Maria Madalena, Joana, Susana e as outras mulheres que seguiam Jesus (8, 1-3), Marta e Maria (19, 38-42), [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[168,276],"class_list":["post-43962","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-da-guarda","tag-pastoral-da-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43962","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43962"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43962\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43962"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43962"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43962"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}