{"id":43844,"date":"2010-03-02T11:28:36","date_gmt":"2010-03-02T11:28:36","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/02\/conhecer-o-pensamento-do-papa\/"},"modified":"2010-03-02T11:28:36","modified_gmt":"2010-03-02T11:28:36","slug":"conhecer-o-pensamento-do-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conhecer-o-pensamento-do-papa\/","title":{"rendered":"Conhecer o pensamento do Papa"},"content":{"rendered":"<p>Guilherme d\u2019Oliveira Martins     <!--more--> <\/p>\n<p>&ldquo;A hist&oacute;ria &eacute; conhecida. Passeando &agrave; beira-mar, ao mesmo tempo que meditava no mist&eacute;rio trinit&aacute;rio de Deus, Agostinho divisa uma crian&ccedil;a que, com uma concha, vai buscar &aacute;gua ao mar e a deita numa pequena cova na areia. Agostinho pergunta-lhe o que est&aacute; a fazer, ao que a crian&ccedil;a responde que quer meter todo o mar naquela cova. O Bispo explica-lhe que isso &eacute; totalmente imposs&iacute;vel. Ao que a crian&ccedil;a responde ser precisamente isso que Agostinho tenta fazer, quando quer abarcar com a sua limitada intelig&ecirc;ncia o incomensur&aacute;vel mist&eacute;rio do Deus trinit&aacute;rio&rdquo; (Cf. Henrique Noronha Galv&atilde;o, &ldquo;Bento XVI &ndash; Um Pensamento para o nosso tempo&rdquo;, Pedra Angular, 2009). O livro sobre o pensamento do Papa que acabo de citar &eacute; um documento importante, pela clareza expositiva, pela riqueza formativa, num campo infelizmente t&atilde;o descurado por muitos leigos cat&oacute;licos, com &eacute; o da teologia, e pela abertura de esp&iacute;rito que incentiva. E se &eacute; certo que a obra nos introduz na compreens&atilde;o de um pensamento, a verdade &eacute; que o faz tamb&eacute;m atrav&eacute;s de uma excelente introdu&ccedil;&atilde;o geral ao moderno pensamento teol&oacute;gico. Trata, assim, sucessivamente da renova&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica contempor&acirc;nea, do pensamento de Joseph Ratzinger e do seu percurso teol&oacute;gico (desde o Bispo de Hipona &agrave; eclesiologia, bem como a teologia da Hist&oacute;ria em S&atilde;o Boaventura e no tempo presente) e da actualidade de Santo Agostinho (na tocante &uacute;ltima li&ccedil;&atilde;o na Faculdade de Teologia da autoria do Prof. Noronha Galv&atilde;o).<\/p>\n<p>Estamos perante o desafio de revisitar o acontecimento fundamental do catolicismo do s&eacute;culo XX que foi o Conc&iacute;lio Ecum&eacute;nico Vaticano II, a fim de entendermos a exig&ecirc;ncia de uma renova&ccedil;&atilde;o mobilizadora da Igreja moderna. Grandes te&oacute;logos merecem ser recordados, lidos e seguidos. Henri de Lubac SJ, Yves Congar OP, Marie-Dominique Chenu OP, Karl Rahner SJ, Hans Urs von Balthasar, Johann Baptist Metz t&ecirc;m de voltar &agrave; ordem do dia e as suas luminosas reflex&otilde;es merecem a nossa especial aten&ccedil;&atilde;o. E os dois p&oacute;los entre os quais se processa grande parte da discuss&atilde;o teol&oacute;gica actual devem ser compreendidos e aprofundados: enquanto Karl Rahner contempla o &ldquo;<em>mist&eacute;rio<\/em> da revela&ccedil;&atilde;o e comunica&ccedil;&atilde;o de Deus ao homem numa perspectiva transcendental, em que as realidades da hist&oacute;ria da salva&ccedil;&atilde;o s&atilde;o vistas como concretiza&ccedil;&otilde;es categoriais de um des&iacute;gnio divino que &eacute; o seu horizonte justificativo&rdquo;; Hans Urs von Balthasar &ldquo;sublinha o peso da hist&oacute;ria na sua singularidade como lugar em que se d&aacute; a epifania da gl&oacute;ria de Deus, a qual acontece na figura concreta (&hellip;) em que se torna presente ao mundo a sua revela&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Ao longo da obra, encontramos o pensamento de Bento XVI inserido no pensamento contempor&acirc;neo, ressaltando que f&eacute; e raz&atilde;o permanentemente se completam, num desafio que procura aproximar a antiga voca&ccedil;&atilde;o europeia do &ldquo;Aufkl&auml;rung&rdquo; das ra&iacute;zes crist&atilde;s &ndash; devendo a hist&oacute;ria humana tornar-se &ldquo;resposta necess&aacute;ria e livre &agrave; livre necessidade e &agrave; necess&aacute;ria liberdade de ser do homem&rdquo;. E deste modo, como afirma o disc&iacute;pulo portugu&ecirc;s de Ratzinger, &ldquo;a f&eacute;, para al&eacute;m do que tem de espec&iacute;fico, possui ainda a capacidade de abrir o esp&iacute;rito humano &agrave;quela vis&atilde;o da verdade a que a nossa raz&atilde;o, por si mesma, pode ter acesso&rdquo;.<\/p>\n<p>Para n&oacute;s portugueses, &eacute; especialmente interessante ver, a prop&oacute;sito do pensamento de S&atilde;o Boaventura, a recorda&ccedil;&atilde;o do franciscanismo universalista, que t&atilde;o grande presen&ccedil;a tem na nossa cultura, na linha do monge calabr&ecirc;s Joaquim de Fiore e de S. Francisco de Assis, temperado pelo poderoso contributo teol&oacute;gico de Santo Ant&oacute;nio de Lisboa, formado na escola dos Agostinhos de Santa Cruz de Coimbra, o qual, por sua vez, se repercutir&aacute; no pensamento seiscentista do Padre Ant&oacute;nio Vieira, e na concep&ccedil;&atilde;o de &ldquo;Quinto Imp&eacute;rio&rdquo;. Afinal, o agostinismo franciscano faz parte do c&oacute;digo gen&eacute;tico da nossa cultura e do humanismo universalista de que falava Jaime Cortes&atilde;o, e que lev&aacute;mos mundo afora. E aqui se conciliam a vis&atilde;o da hist&oacute;ria circular da antiguidade e a figura linear b&iacute;blico-crist&atilde; em que tudo se ordena para a plenitude final &ndash; propondo Ratzinger a figura da espiral, num permanente movimento ascendente, no qual &ldquo;tudo o que sobe converge&rdquo;. N&atilde;o sendo poss&iacute;vel em poucas linhas abarcar a riqueza da obra, deixo apenas, a terminar, duas ou tr&ecirc;s notas, a come&ccedil;ar na pequena hist&oacute;ria que o Papa costumava contar no seu magist&eacute;rio teol&oacute;gico sobre &ldquo;Jo&atilde;ozinho &agrave; procura de felicidade&rdquo; (<em>Hans im Gl&uuml;ck<\/em>): &ldquo;Tendo-se visto na posse de uma pepita de ouro, Hans acha que &eacute; demasiado inc&oacute;modo transport&aacute;-la, decidindo troc&aacute;-la primeiro por um cavalo, e sucedendo-se, depois, a troca deste por uma vaca, desta por um ganso, e, finalmente, do ganso por uma pedra de afiar, a qual Hans acaba por lan&ccedil;ar &agrave; &aacute;gua, sem a no&ccedil;&atilde;o de, com isso, ter perdido grande coisa. Pelo contr&aacute;rio, pensa ter ganhado assim o inestim&aacute;vel dom de uma total liberdade. A est&oacute;ria deixa &agrave; fantasia do leitor imaginar por quanto tempo durou esse estonteamento de Hans e como foi para ele sombrio o momento em que acordou da sua ilus&atilde;o de uma suposta liberdade&rdquo;&hellip;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Guilherme d&rsquo;Oliveira Martins<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Guilherme d\u2019Oliveira Martins<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,174],"class_list":["post-43844","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-diocese-de-coimbra"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43844","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43844"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43844\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43844"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43844"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43844"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}