{"id":43820,"date":"2010-03-01T00:23:16","date_gmt":"2010-03-01T00:23:16","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/03\/01\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-celebracao-pelas-vitimas-do-temporal\/"},"modified":"2010-03-01T00:23:16","modified_gmt":"2010-03-01T00:23:16","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-na-celebracao-pelas-vitimas-do-temporal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-celebracao-pelas-vitimas-do-temporal\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Funchal na celebra\u00e7\u00e3o pelas v\u00edtimas do temporal"},"content":{"rendered":"<p><strong>Olhar em frente, construir um futuro solid&aacute;rio!<\/strong><\/p>\n<p>Irm&atilde;os e Amigos<\/p>\n<p>Est&aacute; ainda muito vivo, nas nossas mem&oacute;rias e nos nossos cora&ccedil;&otilde;es, o cen&aacute;rio de destrui&ccedil;&atilde;o e sofrimento, causado pelo tr&aacute;gico temporal, que assolou a Madeira, no dia 20 deste m&ecirc;s de Fevereiro.<\/p>\n<p>Visitando as zonas mais afectadas, observando a for&ccedil;a das imagens televisivas e fotos publicadas, e contactando com a popula&ccedil;&atilde;o nalguns lugares, junto das suas casas e dos seus neg&oacute;cios ou nos espa&ccedil;os destinados aos desalojados, eu pude conhecer bem de perto a hist&oacute;ria e a situa&ccedil;&atilde;o de muita gente: vidas destro&ccedil;adas pela morte e desaparecimento de entes queridos; sonhos e projectos de longos anos subitamente desaparecidos; perda de grande parte ou da totalidade dos seus bens, como as pr&oacute;prias habita&ccedil;&otilde;es e as fontes ou garantias do sustento quotidiano; destrui&ccedil;&atilde;o da beleza e encanto de tantos espa&ccedil;os comuns de conviv&ecirc;ncia e lazer da nossa cidade e da nossa Regi&atilde;o.<\/p>\n<p>No quadro desta cat&aacute;strofe, cada pessoa tem a sua hist&oacute;ria pr&oacute;pria e &uacute;nica: momentos de perplexidade e ang&uacute;stia, sem saber o que fazer nem como fazer; a alegria de ajudar algu&eacute;m a salvar-se ou de sentir-se ajudado e liberto de algum perigo; a f&eacute; e a esperan&ccedil;a, expressas na ora&ccedil;&atilde;o, em s&uacute;plica confiante a Deus, por intercess&atilde;o da Virgem Nossa Senhora ou de algum santo da devo&ccedil;&atilde;o pessoal. Enfim, tantos casos e tantos testemunhos, que emocionam, suscitam compaix&atilde;o e desejo de ajudar, edificantes pela coragem e pelo esp&iacute;rito de caridade, que manifestam. A par da natural ang&uacute;stia e poss&iacute;vel desespero moment&acirc;neo, perante situa&ccedil;&otilde;es de verdadeira impot&ecirc;ncia humana, surgem gestos e atitudes de profundo humanismo e sentido crist&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Comunh&atilde;o e solidariedade<\/p>\n<p>Uma onda extraordin&aacute;ria de comunh&atilde;o e solidariedade se gerou e desenvolveu, a n&iacute;vel regional, nacional e internacional. Chegaram mensagens de conforto, donativos, disponibilidades para trabalho volunt&aacute;rio de apoio aos desalojados e outros servi&ccedil;os de maior necessidade e urg&ecirc;ncia. Cresceu o esp&iacute;rito de coopera&ccedil;&atilde;o entre as institui&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas e privadas, reconhecendo-se as suas finalidades e capacidades pr&oacute;prias e aceitando uma participa&ccedil;&atilde;o coordenada, t&atilde;o importante na forma como se processaram os apoios &agrave;s pessoas e fam&iacute;lias e o &aacute;rduo trabalho de limpeza e remo&ccedil;&atilde;o dos destro&ccedil;os. Uma experi&ecirc;ncia forte que bem pode gerar um novo esp&iacute;rito de comunh&atilde;o e participa&ccedil;&atilde;o, sempre t&atilde;o necess&aacute;rio.<\/p>\n<p>No &acirc;mbito das institui&ccedil;&otilde;es da Igreja, n&atilde;o posso deixar de reconhecer e agradecer as mensagens e apoios recebidos dos Bispos Portugueses, atrav&eacute;s do Presidente da Confer&ecirc;ncia Episcopal e individualmente; da C&aacute;ritas Nacional e das C&aacute;ritas de algumas Dioceses; mensagens de Bispos estrangeiros e comunidades de emigrantes madeirenses da &Aacute;frica do Sul, Venezuela, Calif&oacute;rnia, Londres, etc.; e de um modo particular a Mensagem do Papa Bento XVI, com palavras de conforto e a sua paternal B&ecirc;n&ccedil;&atilde;o Apost&oacute;lica para todo o nosso povo.<\/p>\n<p>Ainda neste &acirc;mbito eclesial, n&atilde;o posso, tamb&eacute;m, deixar de agradecer a generosa dedica&ccedil;&atilde;o e os servi&ccedil;os prestados pelos nossos sacerdotes e comunidades paroquiais, numa rela&ccedil;&atilde;o de ajuda fraterna com os carenciados da sua proximidade, e de modo especial a interven&ccedil;&atilde;o t&atilde;o importante, em diversas frentes, da C&aacute;ritas Diocesana do Funchal e suas equipas, dos Escuteiros, de diversos Centros Sociais Paroquiais e de algumas Congrega&ccedil;&otilde;es religiosas, nomeadamente dos Irm&atilde;os de S. Jo&atilde;o de Deus e das Irm&atilde;s Hospitaleiras, no Funchal, e das Irm&atilde;s da Apresenta&ccedil;&atilde;o de Maria, na Ribeira Brava.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O caminho da P&aacute;scoa<\/p>\n<p>Coloca-se aqui a quest&atilde;o da f&eacute; e da provid&ecirc;ncia divina, perante as dificuldades da vida e situa&ccedil;&otilde;es de maior sofrimento. Nestes momentos, quem n&atilde;o desejaria a interven&ccedil;&atilde;o miraculosa de Deus, como resposta directa aos problemas pessoais e sociais? O milagre &eacute; poss&iacute;vel, mas constitui sempre algo de extraordin&aacute;rio e aponta, como sinal, para uma mensagem de salva&ccedil;&atilde;o. Normalmente, Deus respeita as leis da natureza, que Ele pr&oacute;prio estabeleceu, e com elas ofereceu ao Homem, na sua liberdade respons&aacute;vel, as imensas possibilidades do desenvolvimento da Ci&ecirc;ncia e da T&eacute;cnica.<\/p>\n<p>A f&eacute; coloca-nos no seguimento de Jesus, na escuta da Sua Palavra e no ideal de vida que Ele testemunhou. &Eacute; este, afinal, o ensinamento do santo tempo da Quaresma, que estamos a viver, em toda a Igreja: convidados a uma atitude de profunda convers&atilde;o a Deus e ao pr&oacute;ximo, caminhamos para a grande celebra&ccedil;&atilde;o do mist&eacute;rio pascal de Jesus, que &eacute; sofrimento, paix&atilde;o, morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o! Como nos adverte o Conc&iacute;lio Vaticano II, Jesus podia ter cumprido plenamente a Sua miss&atilde;o de outro modo, sem a cruz f&ecirc;-lo assim para tocar o sofrimento e a morte, aquilo que &eacute; mais dif&iacute;cil aceitar e assumir na vida do Homem, dando-lhe, por&eacute;m, um sentido de vida e de esperan&ccedil;a, na perspectiva da Sua gloriosa Ressurrei&ccedil;&atilde;o!<\/p>\n<p>As leituras proclamadas na liturgia deste 2&ordm; Domingo da Quaresma (Ano C) apontam-nos esta mensagem, este caminho de vida. Na transfigura&ccedil;&atilde;o de Jesus, no Monte Tabor, &ldquo;alterou-se o aspecto do Seu rosto e as Suas vestes ficaram de uma brancura refulgente&rdquo; (Lc 9, 28b-29), preparando os disc&iacute;pulos para o mist&eacute;rio da Sua morte na Cruz, pois, como refere S. Lucas, &ldquo;Pedro e os companheiros viram a gl&oacute;ria de Jesus&rdquo; (Lc 9, 32). E S. Paulo, na segunda leitura, escrevendo aos Filipenses, diz-nos tamb&eacute;m a n&oacute;s que &ldquo;a nossa p&aacute;tria est&aacute; nos C&eacute;us&rdquo; (3,20) e, por isso, em todas as circunst&acirc;ncias, &ldquo;permanecei firmes no Senhor&rdquo; (4,1).<\/p>\n<p>A f&eacute; vivida, assim, no seguimento de Cristo, supera o desespero e a revolta, e leva-nos a assumir a vida toda em refer&ecirc;ncia a Ele: as alegrias e as tristezas, as facilidades e as dificuldades, o sofrimento e a pr&oacute;pria morte. A f&eacute; ser&aacute; sempre uma for&ccedil;a interior, a for&ccedil;a de Deus em n&oacute;s, que nos ajuda a aceitar e oferecer a vida tal como ela se nos apresenta. Da f&eacute; brota a esperan&ccedil;a e a exig&ecirc;ncia do amor-caridade, o mandamento novo que Jesus nos deixou: &ldquo;Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei&rdquo; (Jo 13,34), isto &eacute;, dando a vida uns pelos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Grande o sofrimento, maior a esperan&ccedil;a<\/p>\n<p>Irm&atilde;os e amigos, considerando as raz&otilde;es que aqui nos congregaram nesta tarde, eu quero dizer-vos: se &eacute; grande o sofrimento do nosso povo, seja maior a for&ccedil;a da nossa esperan&ccedil;a! Rezamos por aqueles que faleceram e pelos seus familiares; pedimos, tamb&eacute;m, a Deus o &acirc;nimo e a coragem para todos quantos, com determina&ccedil;&atilde;o, se empenham na reconstru&ccedil;&atilde;o das suas vidas e na restitui&ccedil;&atilde;o, &agrave;s zonas mais afectadas da nossa Ilha, da sua reconhecida e t&atilde;o apreciada beleza.<\/p>\n<p>&Eacute; hora de olhar em frente e reconstruir o futuro; &eacute; hora de conservar e desenvolver o esp&iacute;rito de solidariedade, aten&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua, uni&atilde;o e entreajuda fraterna, para que perdurem e n&atilde;o esmore&ccedil;am os sentimentos e valores, agora aflorados e estimulados. &Eacute; hora de reavivar, aprofundar e esclarecer a f&eacute; crist&atilde;, t&atilde;o profundamente arreigada na alma e na cultura do nosso povo madeirense, sentindo que n&atilde;o caminhamos s&oacute;s, pois estamos seguros da presen&ccedil;a de Jesus e da protec&ccedil;&atilde;o maternal de Maria, de t&atilde;o grande devo&ccedil;&atilde;o entre n&oacute;s.<\/p>\n<p>Como se dizia na primeira leitura (cf. Ap 21, 1-5), Deus veio habitar com os homens: Ele enxugar&aacute; as l&aacute;grimas do Seu povo, vem renovar todas as coisas e, por isso, possamos tamb&eacute;m n&oacute;s antever, como S. Jo&atilde;o, &ldquo;um novo c&eacute;u e uma nova terra&rdquo; (21,1), que juntos, com Cristo, queremos construir!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sinais de consola&ccedil;&atilde;o e de esperan&ccedil;a<\/p>\n<p>Diante de n&oacute;s temos o crucifixo e a imagem da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o, resgatados do meio do lama&ccedil;al, que ficou a ocupar o espa&ccedil;o da conhecida Capela das Babosas, constru&iacute;da em 1906, para comemorar os 50 anos do Dogma da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o. Encontrados quase intactos, naquele contexto de destrui&ccedil;&atilde;o e total desaparecimento da Capela, bem se podem considerar verdadeiros sinais de consola&ccedil;&atilde;o e de esperan&ccedil;a para o nosso povo, j&aacute; interpretados por muita gente como apelos &agrave; reconstru&ccedil;&atilde;o da Capela e, mais ainda, &agrave; viv&ecirc;ncia da presente situa&ccedil;&atilde;o das nossas vidas, associando-nos ao sofrimento de Cristo por todos os homens e contando com a protec&ccedil;&atilde;o da M&atilde;e Imaculada, que, afinal, tamb&eacute;m naquela sua imagem ficou com os seus filhos.<\/p>\n<p>Estas duas pe&ccedil;as, estes dois s&iacute;mbolos, j&aacute; est&atilde;o e ficar&atilde;o, entretanto, na igreja da Senhora do Monte, dedicada &agrave;quela que, no aluvi&atilde;o de 1803, foi escolhida como Padroeira da Cidade e da Diocese do Funchal, em reconhecimento do seu patroc&iacute;nio, que todos os anos se celebra, em festa pr&oacute;pria, no dia 9 de Outubro. Tamb&eacute;m uma pequena imagem da Senhora do Monte est&aacute; aqui colocada no canto do altar e a ela dirigimos a nossa prece:<\/p>\n<p>Senhora do Monte, nossa Padroeira, olhai para esta Cidade e Diocese que s&atilde;o Vossas; aben&ccedil;oai e protegei todas as fam&iacute;lias, as crian&ccedil;as e os jovens, os idosos, os doentes, os pobres e todos quantos mais precisam da Vossa ajuda; que n&atilde;o nos falte a sa&uacute;de, a paz e a conc&oacute;rdia, o trabalho e a prosperidade, o &acirc;nimo, a coragem e a alegria da f&eacute; e da esperan&ccedil;a, para o presente e o futuro da nossa vida de cada dia. Assim seja!<\/p>\n<p>Funchal, 28 de Fevereiro de 2010<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>&dagger; Ant&oacute;nio Carrilho, Bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Olhar em frente, construir um futuro solid&aacute;rio! 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