{"id":437933,"date":"2026-08-11T16:46:09","date_gmt":"2026-08-11T15:46:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=437933"},"modified":"2026-08-11T16:46:09","modified_gmt":"2026-08-11T15:46:09","slug":"a-forca-e-o-sentido-dos-limites","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-forca-e-o-sentido-dos-limites\/","title":{"rendered":"A For\u00e7a e o Sentido dos Limites"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Ser\u00e1 bem f\u00e1cil encontrar os limites humanos. Eles s\u00e3o uma imensid\u00e3o. E limites de todas as esp\u00e9cies: f\u00edsicos e fisiol\u00f3gicos, mentais e espirituais. Em todos eles trazemos a marca dos nossos limites existenciais, os limites que manifestam a nossa conting\u00eancia. Somos, mas poder\u00edamos n\u00e3o ser. Mas, sendo, carregamos, necessariamente, a marca da nossa finitude. Somos necessariamente finitos na conting\u00eancia do nosso existir. Somos, mas, sendo e sabendo que somos, encontramo-nos imersos na infinitude do Ser. Sempre somos sendo.<\/p>\n<p>Se \u00e9 bem f\u00e1cil encontrar limites humanos no nosso viver quotidiano, \u00e9 tamb\u00e9m muito f\u00e1cil esquec\u00ea-los. As mitologias das culturas ancestrais n\u00e3o o ignoram e as narrativas m\u00edticas a\u00ed est\u00e3o para no-lo significarem na irrealidade das suas narrativas.<\/p>\n<p>Era uma vez um pai e um filho, D\u00e9dalo e \u00cdcaro, que se encontravam perdidos num labirinto onde haviam sido lan\u00e7ados por castigo devido aos seus crimes e da sua desobedi\u00eancia. Assim diz o antigo mito da antiga Gr\u00e9cia. Valer\u00e1 a pena recordar a narrativa.<\/p>\n<p>D\u00e9dalo havia sido um importante arquitecto de Atenas de onde fora expulso por ter matado, por inveja, um seu disc\u00edpulo excepcionalmente inteligente. D\u00e9dalo e o seu filho \u00cdcaro, expulsos de Atenas, passaram para a ilha de Creta, reino de Minos, onde o engenhoso arquitecto ateniense constr\u00f3i o labirinto do monstro Minotauro. Traindo a confian\u00e7a de Minos ao dar informa\u00e7\u00f5es a Ariadne sobre o labirinto, D\u00e9dalo e o filho \u00cdcaro s\u00e3o aprisionados no pr\u00f3prio labirinto. Engenhoso como era, o h\u00e1bil arquitecto constr\u00f3i dois pares de asas com penas de p\u00e1ssaros, fios dos cobertores e do couro das suas sand\u00e1lias, tudo engenhosamente acondicionado com a cera das abelhas. A ideia era, voando, libertarem-se do labirinto em que se encontravam aprisionados. Antes de levantarem voo, D\u00e9dalo alertou insistentemente o filho para n\u00e3o voar nem muito perto do mar nem muito perto do Sol. No primeiro caso molhar-se-lhe-iam as penas e afogar-se-ia; no segundo caso derreter-se-ia a cera, destruir-se-iam as asas e o resultado seria a queda. Por\u00e9m, entusiasmado com a liberdade, deslumbrado com o voo e encantado com a beleza da ascens\u00e3o, \u00cdcaro ignorou os avisos do pai, e, despreocupado e desfrutando do vento favor\u00e1vel, voou demasiadamente alto. Derreteram-se-lhe ent\u00e3o as asas com o calor do Sol, caiu no mar e morreu afogado. A historieta m\u00edtica anda por a\u00ed, na literatura e na arte, tratada conforme os ventos mutantes das correntes art\u00edsticas, a come\u00e7ar, obviamente, pela literatura cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Foi a 3 de Agosto de 2025. Numa homilia do Jubileu dos Jovens, Le\u00e3o XIV falou dos nossos limites e da liberdade. Perante um milh\u00e3o de jovens. Falou dos limites como espa\u00e7o de verdade. E falou aos jovens para dizer que aceitar a pequenez humana \u00e9 o princ\u00edpio da liberdade verdadeira. Aos jovens que sonham sonhos sem fim para um futuro de encanto. E disse-lhes que a nossa fragilidade \u00abfaz parte da maravilha que somos.\u00bb Seremos, ent\u00e3o, maravilhosamente fr\u00e1geis no espa\u00e7o infinito circunscrito pelos nossos limites. Que s\u00e3o uma imensid\u00e3o.<\/p>\n<p>No passado dia 15 de Maio, Le\u00e3o XIV publicou a carta enc\u00edclica \u00abMagnifica Humanitas\u00bb, sobre \u00abSobre a salvaguarda da pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial\u00bb. Isso \u00e9 sabido, como ser\u00e1 sabido que o texto papal foi elogiado pela generalidade dos p\u00fablicos. N\u00e3o sei se est\u00e1 devidamente assimilada mesmo por muitos daqueles que a citam e chego a duvidar se foi suficientemente lida por todos os que elogiaram o texto de Le\u00e3o XIV.<\/p>\n<p>\u00c9 no Cap\u00edtulo III, intitulado \u00abT\u00e9cnica e dom\u00ednio: a grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA\u00bb [Intelig\u00eancia Artificial], onde o Papa Le\u00e3o preenche v\u00e1rios par\u00e1grafos sobre os limites humanos [N.\u00ba 118-130].<\/p>\n<p>Tratar-se-\u00e1 do cora\u00e7\u00e3o da carta enc\u00edclica e o contexto s\u00e3o as ideologias ligadas pelo mesmo mar de pressupostos: \u00aba centralidade da tecnologia e o sonho de ultrapassar os limites da condi\u00e7\u00e3o humana\u00bb [116], ou seja, o \u00abtransumanismo\u00bb e o \u00abp\u00f3s-humanismo\u00bb. N\u00e3o se trata de renunciar \u00e0 tecnologia, mas impedir que ela domine o ser humano, ideia que vai sendo repetida: \u00abuma coisa \u2013 escreve o Papa &#8211; \u00e9 integrar as tecnologias numa vis\u00e3o humana e relacional, outra \u00e9 deixar-se guiar por um imagin\u00e1rio que desvaloriza os limites e promete uma \u201csalva\u00e7\u00e3o\u201d puramente t\u00e9cnica.\u00bb [117].<\/p>\n<p>Reconhecendo que a vida aparenta mover-se numa crise, Le\u00e3o XIV escreve: \u00abTudo o que se apresenta como \u201climite\u201d \u2013 incapacidade, doen\u00e7a, velhice, sofrimento, vulnerabilidade \u2013 tende a ser interpretado, antes de mais, como um defeito a corrigir, e n\u00e3o como um espa\u00e7o onde o humano amadurece e se abre \u00e0 rela\u00e7\u00e3o. Em vez disso, devemos recordar que o humano n\u00e3o floresce apesar dos limites, mas, muitas vezes, atrav\u00e9s dos limites.\u00bb [118]. \u00c9 a\u00ed onde pode florescer a ambival\u00eancia entre a grandeza e os limites do ser humano interpretada \u00e0 luz da rela\u00e7\u00e3o original e fundamental com Deus.<\/p>\n<p>Regressando ao mito de \u00cdcaro, lembremos que ele \u00e9 pluridimensional na sua riqueza significativa: obedi\u00eancia, luto, castigo, sofrimento, indiferen\u00e7a, a inveja, a ambi\u00e7\u00e3o desmedida. Muitas dessas dimens\u00f5es e valores v\u00e3o aparecendo nas m\u00faltiplas obras da cultura ocidental. De facto, o mito de \u00cdcaro constitui uma das alegorias mais recorrentes na cultura ocidental, e, de um modo mais geral, ele representa particularmente o perigo da arrog\u00e2ncia do ser humano que, na \u00e2nsia de eliminar os limites, ignora a raiz primeira da transcend\u00eancia que o sust\u00e9m: o \u00abmais que humano\u00bb que \u00abn\u00e3o pode ser sen\u00e3o o infinito que se doa: \u00e9 o pr\u00f3prio Deus quem supera a despropor\u00e7\u00e3o \u201cinfinita\u201d\u00bb [127]<\/p>\n<p>De entre as representa\u00e7\u00f5es pict\u00f3ricas do mito de \u00cdcaro, real\u00e7o a pintura atribu\u00edda ao pintor renascentista flamengo Pieter Bruegel, o velho, conhecida com o nome \u00abPaisagem com a Queda de \u00cdcaro\u00bb [c. 1558]. O quadro prima por uma simb\u00f3lica originalidade. No canto inferior direito do quadro, junto a um grande barco, l\u00e1 se encontra \u00cdcaro, min\u00fasculo e entre as penas, a esbracejar e a fundar-se nas \u00e1guas, enquanto os marinheiros, o agricultor que lavra a terra e o pastor que olha o c\u00e9u noutra direc\u00e7\u00e3o, todos vivem as rotinas do dia ignorando a situa\u00e7\u00e3o por que \u00cdcaro est\u00e1 a passar. Ser\u00e1 a express\u00e3o pl\u00e1stica da indiferen\u00e7a de muitos, ou de todos, perante a trag\u00e9dia individual.<\/p>\n<p>Se voar perto demais do Sol significa perder a no\u00e7\u00e3o dos limites e ser consumido pelo desejo de grandeza e ambi\u00e7\u00e3o desmedida, no quadro do artista flamengo vemo-nos na az\u00e1fama do dia-a-dia ignorando as trag\u00e9dias humanas.<\/p>\n<p>Hoje Pieter Bruegel, a acompanhar o lavrador, o pastor e os marinheiros poderia pintar no quadro outras profiss\u00f5es da nossa era que poder\u00e3o passar indiferentes \u00e0s trag\u00e9dias de hoje e, sobretudo, de amanh\u00e3, com particular relevo aquelas que se prendem com o redobrado implemento da IA. Tamb\u00e9m ser\u00e1 por isso que Le\u00e3o XIV lembra que \u00abA qualidade de uma civiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se mede pelo poder dos seus meios, mas pelo cuidado que sabe oferecer, pela capacidade de reconhecer o outro enquanto pessoa e n\u00e3o enquanto fun\u00e7\u00e3o.\u00bb [114].<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina, e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da 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