{"id":437819,"date":"2026-08-13T10:00:29","date_gmt":"2026-08-13T09:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=437819"},"modified":"2026-08-10T17:45:55","modified_gmt":"2026-08-10T16:45:55","slug":"parabolas-as-historias-que-obrigam-a-pensar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/parabolas-as-historias-que-obrigam-a-pensar\/","title":{"rendered":"Par\u00e1bolas: as hist\u00f3rias que obrigam a pensar"},"content":{"rendered":"<p><em>Paulo Adriano, Diocese de Leiria F\u00e1tima<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-434109 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a>As par\u00e1bolas ocupam um lugar central na actividade p\u00fablica de Jesus. Constituem um dos seus recursos comunicacionais mais caracter\u00edsticos e um modo privilegiado de anunciar o Reino de Deus. Umas resumem-se a poucas frases; outras apresentam personagens, conflitos e desfechos inesperados. Todas, por\u00e9m, partilham a mesma l\u00f3gica: em vez de explicarem directamente uma verdade, criam uma situa\u00e7\u00e3o que obriga o ouvinte a tomar posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Depois da par\u00e1bola do Semeador, os disc\u00edpulos perguntam a Jesus por que raz\u00e3o fala em par\u00e1bolas (Mc 4, 10-12). A resposta n\u00e3o \u00e9 simples, mas o conjunto dos Evangelhos revela uma ideia fundamental: a par\u00e1bola distingue quem apenas ouve de quem procura compreender. N\u00e3o dispensa o esfor\u00e7o de interpreta\u00e7\u00e3o; exige-o.<\/p>\n<p>Jesus inscreve-se, assim, na tradi\u00e7\u00e3o sapiencial e prof\u00e9tica de Israel, que recorria a prov\u00e9rbios, enigmas e narrativas simb\u00f3licas para despertar a intelig\u00eancia. As suas hist\u00f3rias come\u00e7am geralmente em cen\u00e1rios familiares: um agricultor semeia, um pai espera pelos filhos, um viajante percorre uma estrada ou um propriet\u00e1rio contrata trabalhadores. A surpresa surge quando a narrativa abandona o caminho previs\u00edvel e altera as expectativas do ouvinte.<\/p>\n<p><strong>Tornar-se pr\u00f3ximo<\/strong><\/p>\n<p>A par\u00e1bola do Bom Samaritano \u00e9 um dos exemplos mais conhecidos desta estrat\u00e9gia (Lc 10, 25-37). Um doutor da Lei pergunta a Jesus: \u00abQuem \u00e9 o meu pr\u00f3ximo?\u00bb Espera uma defini\u00e7\u00e3o que estabele\u00e7a at\u00e9 onde se estende a obriga\u00e7\u00e3o de amar. Jesus responde com uma hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Um homem que desce de Jerusal\u00e9m para Jeric\u00f3 \u00e9 assaltado e deixado meio morto. Um sacerdote e um levita passam sem o ajudar. Finalmente, um samaritano, pertencente a um povo desprezado por muitos judeus, aproxima-se, trata as feridas, transporta o homem e assegura os cuidados necess\u00e1rios.<\/p>\n<p>Jesus termina com outra pergunta: \u00abQual destes tr\u00eas te parece ter sido o pr\u00f3ximo daquele homem?\u00bb A mudan\u00e7a \u00e9 decisiva. O problema j\u00e1 n\u00e3o consiste em determinar quem merece ser amado, mas em descobrir quem se torna pr\u00f3ximo atrav\u00e9s da maneira como age. O ouvinte deixa de procurar uma categoria abstracta e passa a interrogar a pr\u00f3pria conduta.<\/p>\n<p><strong>Uma festa com final em aberto<\/strong><\/p>\n<p>Algo semelhante acontece na par\u00e1bola do pai misericordioso e dos dois filhos (Lc 15, 11-32). O filho mais novo exige a heran\u00e7a, abandona a casa e desperdi\u00e7a os bens. Quando regressa, espera ser recebido como empregado. O pai, por\u00e9m, corre ao seu encontro, abra\u00e7a-o e organiza uma festa.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria poderia terminar como uma celebra\u00e7\u00e3o do perd\u00e3o, mas \u00e9 ent\u00e3o que surge o filho mais velho. Permaneceu fiel e cumpriu sempre o seu dever, mas recusa entrar na festa. A par\u00e1bola termina sem revelar a sua decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta abertura \u00e9 deliberada. O verdadeiro final pertence ao ouvinte, convidado a responder \u00e0 pergunta deixada em suspenso: permanecer\u00e1 fora, prisioneiro do ressentimento, ou aceitar\u00e1 participar na alegria do reencontro?<\/p>\n<p><strong>Escutar, acolher e n\u00e3o comparar<\/strong><\/p>\n<p>Na par\u00e1bola do Semeador (Mc 4, 1-20), a semente cai \u00e0 beira do caminho, entre pedras, no meio dos espinhos e em terra boa. A narrativa parece descrever diferentes terrenos, mas conduz cada ouvinte a perguntar onde se encontra. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel permanecer um observador neutro: a escuta transforma-se num exame interior.<\/p>\n<p>A par\u00e1bola dos trabalhadores da vinha (Mt 20, 1-16) provoca outro desconforto. Um propriet\u00e1rio contrata trabalhadores em diferentes momentos do dia, mas paga a todos o mesmo sal\u00e1rio. Os que come\u00e7aram de madrugada consideram injusto receber tanto como os \u00faltimos.<\/p>\n<p>A narrativa n\u00e3o pretende estabelecer princ\u00edpios laborais. Questiona a tend\u00eancia humana para medir todas as rela\u00e7\u00f5es pela compara\u00e7\u00e3o. O esc\u00e2ndalo nasce porque a generosidade do propriet\u00e1rio ultrapassa o c\u00e1lculo habitual da reciprocidade. A par\u00e1bola n\u00e3o discute sal\u00e1rios, mas a imagem que fazemos da justi\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p><strong>A invers\u00e3o das apar\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>A par\u00e1bola do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14) concentra, em poucas linhas, a mesma capacidade de invers\u00e3o. Dois homens sobem ao Templo para rezar. O fariseu representa a observ\u00e2ncia religiosa; o publicano pertence a um grupo mal visto e associado ao poder romano. Tudo parece indicar qual deles ser\u00e1 apresentado como exemplo. No entanto, \u00e9 o publicano quem regressa justificado.<\/p>\n<p>A surpresa n\u00e3o procura provocar gratuitamente. Serve para desmontar a confian\u00e7a excessiva nas apar\u00eancias religiosas e deslocar o olhar do comportamento exterior para a disposi\u00e7\u00e3o interior. Mais uma vez, o ouvinte \u00e9 levado a perguntar onde verdadeiramente se encontra.<\/p>\n<p><strong>Hist\u00f3rias que continuam dentro de quem escuta<\/strong><\/p>\n<p>Estas par\u00e1bolas tratam temas diferentes \u2014 o pr\u00f3ximo, o perd\u00e3o, a escuta, a justi\u00e7a e a humildade \u2014, mas partilham uma not\u00e1vel coer\u00eancia comunicacional. Nenhuma entrega simplesmente uma resposta acabada. O problema deixa de estar apenas na hist\u00f3ria e passa a localizar-se no pr\u00f3prio ouvinte.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das grandes originalidades da pedagogia narrativa de Jesus. Enquanto muitos discursos procuram convencer pela acumula\u00e7\u00e3o de argumentos, as par\u00e1bolas criam um espa\u00e7o interior onde a conclus\u00e3o pode nascer.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria deixa, ent\u00e3o, de ser apenas aquilo que Jesus conta. Passa a ser aquilo que come\u00e7a a acontecer dentro de quem escuta. \u00c9 essa transforma\u00e7\u00e3o que importa compreender do ponto de vista comunicacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Adriano, Diocese de Leiria F\u00e1tima<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":434109,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-437819","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437819","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=437819"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437819\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":437820,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/437819\/revisions\/437820"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/434109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=437819"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=437819"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=437819"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}