{"id":43676,"date":"2010-02-21T22:10:29","date_gmt":"2010-02-21T22:10:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/02\/21\/catequese-do-cardeal-patriarca-no-1-o-domingo-da-quaresma\/"},"modified":"2010-02-21T22:10:29","modified_gmt":"2010-02-21T22:10:29","slug":"catequese-do-cardeal-patriarca-no-1-o-domingo-da-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/catequese-do-cardeal-patriarca-no-1-o-domingo-da-quaresma\/","title":{"rendered":"Catequese do Cardeal-Patriarca no 1.\u00ba Domingo da Quaresma"},"content":{"rendered":"<p><strong>&ldquo;A Fun&ccedil;&atilde;o Sacerdotal&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Introdu&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Estamos no Ano Sacerdotal, proclamado para toda a Igreja pelo Santo Padre Bento XVI. Preparamos a sua visita &agrave; Cidade de Lisboa no pr&oacute;ximo dia 11 de Maio. Bispo de Roma, Cabe&ccedil;a do Col&eacute;gio dos Bispos e Pastor Universal, ele vem como Sacerdote e Bom Pastor. Aprofundar o dom do sacerd&oacute;cio &eacute;, certamente, uma boa maneira de prepararmos essa visita pastoral e, na Eucaristia por ele presidida, nos reconhecermos mais profundamente como povo sacerdotal, o Povo que o Senhor escolheu e continua a seguir como Pastor em ordem &agrave; santidade.<\/p>\n<p>O desafio deste Ano Sacerdotal n&atilde;o envolve apenas os nossos sacerdotes, aqueles a quem chamamos padres; interpela-nos a todos como membros do Povo de Deus, todos os domingos convocados para celebrar a Eucaristia, com Jesus Cristo e como Ele a celebra, prestando ao Pai o louvor que Ele merece e onde se realiza a nossa reden&ccedil;&atilde;o. Esse sacrif&iacute;cio de louvor &eacute; oferecido por um sacerdote, na pessoa de Cristo o &uacute;nico Sacerdote; mas &eacute; oferecido por todos n&oacute;s que, pelo baptismo, nos unimos a Cristo. Na Eucaristia, torna-se claro que a Igreja, presidida por Cristo Sacerdote, &eacute; toda ela um Povo sacerdotal, porque faz um com Cristo, &eacute; o &ldquo;corpo de Cristo&rdquo;.<\/p>\n<p>Nesta primeira Catequese, vamos aprofundar o significado da &ldquo;<strong>fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal<\/strong>&rdquo; a que deve corresponder uma <strong>atitude sacerdotal<\/strong>. Quando um sacerdote exerce o seu minist&eacute;rio sagrado, quando, na nossa caminhada pessoal de f&eacute;, procuramos um sacerdote, quando, como Povo do Senhor, celebramos a Eucaristia, em que consiste a atitude sacerdotal, expressa na fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal? Perceberemos que h&aacute; sempre uma dimens&atilde;o sacerdotal na vida da f&eacute;, quer como povo crente, quer como membros desse Povo.<\/p>\n<p><strong>Sacerd&oacute;cio e Religi&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>1. A fam&iacute;lia humana foi, desde sempre, espontaneamente religiosa. Acreditou no ser divino e prestou-lhe culto. Esta express&atilde;o religiosa surgiu ligada &agrave; fisionomia pr&oacute;pria de cada povo, inspirando-se tanto na harmonia da natureza, como na interioridade do homem, que pela sua intelig&ecirc;ncia procurava a verdade e a sabedoria. A figura&ccedil;&atilde;o da divindade aparece, assim, quer ligada aos ritmos da natureza, importantes para a vida humana, como &agrave; compreens&atilde;o do homem e da sua hist&oacute;ria, ligando a divindade a dimens&otilde;es importantes e decisivas da vida humana. A este conjunto de manifesta&ccedil;&otilde;es espont&acirc;neas da religiosidade, que acompanharam e exprimiram a dimens&atilde;o transcendente da exist&ecirc;ncia humana, ao longo de mil&eacute;nios, chamamos &ldquo;religi&otilde;es naturais&rdquo;. Em todas elas, de forma mais ou menos elaborada, encontramos a &ldquo;fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal&rdquo;.<\/p>\n<p>No centro, est&aacute; sempre a necessidade dos homens entrarem em contacto com a divindade, merecendo a sua benevol&ecirc;ncia e protec&ccedil;&atilde;o, apaziguando as suas &ldquo;iras&rdquo;, praticando, para isso, o culto, onde avulta o &ldquo;sacrif&iacute;cio&rdquo;, isto &eacute;, aquilo que os homens oferecem &agrave; divindade, para a apaziguar ou alcan&ccedil;ar a sua benevol&ecirc;ncia e protec&ccedil;&atilde;o. O sacerdote aparece como um mediador entre os homens e a divindade. A pr&oacute;pria palavra religi&atilde;o sugere isso: &ldquo;religare&rdquo;, fazer a ponte com a divindade.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o &eacute; nas &ldquo;religi&otilde;es naturais&rdquo; que devemos procurar o sentido da &ldquo;fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal&rdquo; e da respectiva atitude sacerdotal, mas sim no Povo da Alian&ccedil;a, no judeo-cristianismo, que &eacute; o mesmo povo crente, com uma unidade progressiva at&eacute; &agrave; sua manifesta&ccedil;&atilde;o definitiva em Jesus Cristo, o Messias esperado pelos judeus e que vem introduzir o Povo na plenitude da Alian&ccedil;a.<\/p>\n<p>A<strong> fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal no Povo da Alian&ccedil;a<\/strong><\/p>\n<p>2. A especificidade da religi&atilde;o de Israel distingue-a profundamente das &ldquo;religi&otilde;es naturais&rdquo;. A sua origem est&aacute; no pr&oacute;prio Deus, que se revela, constitui um Povo com quem faz Alian&ccedil;a. A iniciativa decisiva &eacute; sempre de Deus, que nunca abandona o seu Povo. Esta origem da religi&atilde;o de Israel marca duas diferen&ccedil;as fundamentais na compreens&atilde;o da fun&ccedil;&atilde;o e da atitude sacerdotais: a prioridade n&atilde;o &eacute; posta na busca das rela&ccedil;&otilde;es dos homens com Deus, mas nas rela&ccedil;&otilde;es de Deus com o seu Povo. A este compete escutar o Senhor e seguir os seus ensinamentos, pondo-os em pr&aacute;tica; por isso, o acento n&atilde;o &eacute; posto nas rela&ccedil;&otilde;es dos homens individualmente com a divindade, mas no Povo, na comunidade dos crentes, na &ldquo;qahal Yahw&eacute;&rdquo;; a assembleia de Deus, que &eacute; o principal interlocutor de Deus, exprimindo, assim, que &eacute; em comunidade que os indiv&iacute;duos se aproximam de Deus.<\/p>\n<p>Desse Povo, Deus espera que escute a sua Palavra, seja fiel &agrave; Alian&ccedil;a ratificada entre ambos, entre Deus e o Povo, espera, no fundo, que seja um Povo Santo, como Deus &eacute; Santo. Deus revela-se a si mesmo, &eacute; um Deus &uacute;nico, vivo e fonte de vida, Ele &eacute; o Criador de todas as coisas, &eacute; um Deus forte e omnipotente, a sua Palavra &eacute; forte e eficaz, realiza tudo o que diz; mas &eacute; tamb&eacute;m um Deus bondoso e amoroso, cheio de ternura e de miseric&oacute;rdia. Mas revela tamb&eacute;m que tem um des&iacute;gnio amoroso para os homens e empenha-se na realiza&ccedil;&atilde;o desse des&iacute;gnio. Do Povo, Ele espera a correspond&ecirc;ncia de amor, de fidelidade, de santidade. Nada d&aacute; tanta gl&oacute;ria a Deus como ver o Povo progredir na realiza&ccedil;&atilde;o desse des&iacute;gnio. A resposta que Deus espera do Povo &eacute; que escute a sua Palavra, acredite nela, e viva segundo o des&iacute;gnio manifestado pelo Senhor. A f&eacute; e a fidelidade s&atilde;o as atitudes humanas que Deus recebe como um culto digno d&rsquo;Ele. A atitude sacerdotal exprime-se na fidelidade &agrave; Alian&ccedil;a.<\/p>\n<p>3. Os textos de Alian&ccedil;a definem bem a atitude sacerdotal que Deus espera do Seu Povo, o Povo com quem fez Alian&ccedil;a:<\/p>\n<p>&ldquo;Mois&eacute;s subiu at&eacute; junto de Deus. Da montanha o Senhor chamou-o, dizendo: Assim dir&aacute;s &agrave; Casa de Jacob e declarar&aacute;s aos filhos de Israel: v&oacute;s vistes o que Eu fiz no Egipto, como vos carreguei sobre asas de &aacute;guia e vos trouxe at&eacute; Mim. E agora, se escutardes bem a minha voz e guardardes a minha Alian&ccedil;a, sereis para Mim propriedade particular entre todos os povos porque minha &eacute; a terra inteira. V&oacute;s sereis, para Mim, um reino de sacerdotes e uma na&ccedil;&atilde;o santa&rdquo; (Ex. 19,3-6).<\/p>\n<p>&Eacute; o texto que estabelece a Alian&ccedil;a entre Deus e o Povo de Israel. Por tudo o que Deus faz por ele, espera a fidelidade do Povo, que obede&ccedil;a &agrave; Sua Palavra e O louve na fidelidade e santidade de vida. Esse &eacute; o verdadeiro culto que Deus espera do seu Povo, que O louve com a sua fidelidade &agrave; Alian&ccedil;a. E o sujeito desta atitude sacerdotal &eacute; todo o Povo. Por isso Deus o considera &ldquo;um reino de sacerdotes e uma na&ccedil;&atilde;o consagrada&rdquo;. A fidelidade &agrave; Alian&ccedil;a constitui o Povo escolhido como um povo sacerdotal.<\/p>\n<p>Isso n&atilde;o exclui que se exer&ccedil;a no culto devido a Deus pelo Povo eleito a fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal, para levar a comunidade de Israel a exprimir a sua atitude sacerdotal. Por outro lado, a hist&oacute;ria de Israel mostra que n&atilde;o foi f&aacute;cil todo o Povo, em todas as circunst&acirc;ncias, ser fiel &agrave; Alian&ccedil;a e, assim, prestar a Deus o louvor que lhe &eacute; devido. Podemos dizer que a infidelidade do Povo marca mais o ritmo da sua hist&oacute;ria do que a fidelidade. Adoram outros deuses, esquecem-se da Palavra do Senhor, praticam os costumes dos pag&atilde;os. A fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal tem tamb&eacute;m o sentido de levar o Povo &agrave; convers&atilde;o, de implorar de Deus a miseric&oacute;rdia e o perd&atilde;o, de suscitar no Povo a esperan&ccedil;a da fidelidade e da santidade. A import&acirc;ncia desta &ldquo;fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal&rdquo; neste chamar &agrave; convers&atilde;o e suscitar a esperan&ccedil;a de uma fidelidade como Deus deseja, leva a esclarecer e a fortalecer a institui&ccedil;&atilde;o sacerdotal.<\/p>\n<p><strong>A fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal institucionalizada<\/strong><\/p>\n<p>4. A sa&iacute;da do Egipto, a travessia do deserto e a entrada na &ldquo;terra prometida&rdquo; significam uma etapa decisiva na organiza&ccedil;&atilde;o de Israel como Povo. Mois&eacute;s, na concretiza&ccedil;&atilde;o da Alian&ccedil;a, lan&ccedil;a as bases dessa organiza&ccedil;&atilde;o em todos os aspectos da vida da comunidade: as leis, no c&oacute;digo da Alian&ccedil;a, a aplica&ccedil;&atilde;o da justi&ccedil;a e tamb&eacute;m o culto a Yahw&eacute;.<\/p>\n<p>Na longa tradi&ccedil;&atilde;o de Abra&atilde;o at&eacute; Mois&eacute;s, a fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal existiu mas n&atilde;o estava ligada a uma institui&ccedil;&atilde;o sacerdotal. Era espont&acirc;nea, muito ligada &agrave; vida e aos seus momentos especiais, e era exercida pelos pais de fam&iacute;lia, pelos chefes de tribo. N&atilde;o estava ligada ao templo como lugar sagrado, mas ao lugar e ao momento de acontecimentos particularmente significativos. No G&eacute;nesis, na hist&oacute;ria de Abra&atilde;o, aparece-nos uma figura de sacerdote, Melquisedec, que n&atilde;o est&aacute; ligado a nenhuma estrutura sacerdotal, que &eacute; apresentado como Rei de Shalem, que pode ser Jerusal&eacute;m, e que &eacute; chamado sacerdote do Deus Alt&iacute;ssimo e aben&ccedil;oa Abra&atilde;o em nome de Deus (cf. Gen. 14,17ss). Na hist&oacute;ria do Povo de Israel, estabelecido na terra prometida, v&aacute;rias vezes os reis aparecem a exercer fun&ccedil;&otilde;es sacerdotais. Melquisedec ficar&aacute; no ideal religioso de Israel como o sacerdote perfeito, desligado da estrutura sacerdotal do Templo. Ele torna-se o modelo do sacerd&oacute;cio do Messias prometido: &ldquo;Tu &eacute;s sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec&rdquo; (Sl. 110,4) e que a Carta aos Hebreus atribui ao sacerd&oacute;cio de Jesus Cristo (cf. Heb. 5,6).<\/p>\n<p>Na hist&oacute;ria religiosa de Israel h&aacute;, assim, uma tens&atilde;o entre a estrutura sacerdotal, ligada ao Templo, e a fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal ligada directamente &agrave; iniciativa de Deus que garante tudo o que o Povo precisa para desenvolver a intimidade com o Deus da Alian&ccedil;a. O Messias ser&aacute; a concretiza&ccedil;&atilde;o dessa fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal garantida pelo pr&oacute;prio Deus; Melquisedec &eacute; o seu an&uacute;ncio; Cristo &eacute; a sua realiza&ccedil;&atilde;o plena.<\/p>\n<p>5. No Livro do &Ecirc;xodo, que narra a estrutura organizativa da nova etapa hist&oacute;rica do Povo, nasce a nova estrutura da fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal. O irm&atilde;o de Mois&eacute;s, Aar&atilde;o, &eacute; investido do poder sacerdotal (cf. Ex. 28,1) e determina-se tudo o que diz respeito ao Santu&aacute;rio e &agrave; liturgia. Est&aacute; estabelecida a estrutura lit&uacute;rgico-sacerdotal, do que mais tarde se chamar&aacute; o sacerd&oacute;cio lev&iacute;tico, porque toda a tribo de Levi ficou adstrita ao servi&ccedil;o sacerdotal.<\/p>\n<p>A institucionaliza&ccedil;&atilde;o da fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal valoriza o Templo &ndash; tenda da reuni&atilde;o e, mais tare, o Templo de Jerusal&eacute;m. Toda a fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal se exerce no Templo, que se torna centro decisivo da unidade espiritual de todo o Povo de Deus. A separa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do Reino do Norte, na Samaria, tem na base um cisma. Os samaritanos recusaram-se a vir ao Templo de Jerusal&eacute;m e criam um novo templo. A mulher samaritana, em di&aacute;logo com Jesus, faz-se eco desse cisma: &ldquo;Os nossos pais adoraram sobre esta montanha (o monte Garizim), e V&oacute;s dizeis que &eacute; em Jerusal&eacute;m que se deve adorar&rdquo; (Jo. 4,20).<\/p>\n<p>Com a institui&ccedil;&atilde;o do Templo, relativiza-se a fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal ligada &agrave; vida, &agrave; fam&iacute;lia, aos grupos. Esse culto ligado &agrave; vida fica mesmo proibido (cf. Lev. 17,1ss). O Templo levou a que a fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal se transformasse num poder, sobretudo do Sumo Sacerdote. Mas o seu sentido profundo continua a ser o mesmo: o culto &eacute; atitude do Povo santo, o Povo com quem Deus fez Alian&ccedil;a. O sacerdote preside e faz chegar a Deus o culto da comunidade, que &eacute; louvor, adora&ccedil;&atilde;o, manifesta&ccedil;&atilde;o de obedi&ecirc;ncia a Deus e de fidelidade &agrave; Alian&ccedil;a; &eacute; tamb&eacute;m prece pelas necessidades concretas do Poo.<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As express&otilde;es principais desta fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal s&atilde;o: o sacrif&iacute;cio, o servi&ccedil;o da Palavra, os actos de consagra&ccedil;&atilde;o e de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>O sacrif&iacute;cio<\/strong><\/p>\n<p>6. &Eacute; a principal express&atilde;o da fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal. Na sua ess&ecirc;ncia &eacute; uma oferta, que agrada a Deus, do melhor que se tem. O Povo de Israel vai percebendo, sobretudo atrav&eacute;s da prega&ccedil;&atilde;o dos Profetas, que a oferta que mais agrada a Deus &eacute; um cora&ccedil;&atilde;o puro, que pratica a justi&ccedil;a. As outras ofertas, como animais, os frutos da terra, se n&atilde;o forem express&atilde;o desse cora&ccedil;&atilde;o puro, n&atilde;o agradam a Deus (cf. Am. 5,21-27).<\/p>\n<p>Conseguir que todo este Povo tenha um cora&ccedil;&atilde;o puro, n&atilde;o um &ldquo;cora&ccedil;&atilde;o incircunciso&rdquo; (Lev. 26,41), um &ldquo;cora&ccedil;&atilde;o duplo&rdquo; (Os. 10,2) &eacute; o grande desafio espiritual de Israel, o que leva o Profeta Jeremias a anunciar, para o tempo do Messias, uma nova Alian&ccedil;a, em que Deus promete: &ldquo;porei a minha lei no mais profundo do seu ser e escrev&ecirc;-la-ei no seu cora&ccedil;&atilde;o&rdquo; (Jer. 31,33). E a garantir: Dar-lhe-ei outro cora&ccedil;&atilde;o e outra maneira de agir&hellip; concluirei com eles uma Alian&ccedil;a eterna&rdquo; (Jer. 32,39ss).<\/p>\n<p>Devido a esta consci&ecirc;ncia da dureza do cora&ccedil;&atilde;o, a liturgia do Templo valoriza os sacrif&iacute;cios de expia&ccedil;&atilde;o. Mas com o an&uacute;ncio de uma nova Alian&ccedil;a, para os tempos do Messias, toma-se consci&ecirc;ncia da necessidade da reden&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o: &eacute; preciso um cora&ccedil;&atilde;o novo.<\/p>\n<p><strong>Proclama&ccedil;&atilde;o da Palavra e da &ldquo;B&ecirc;n&ccedil;&atilde;o de Deus&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>7. Deus atende as preces do seu Povo e responde, sobre a forma de &ldquo;b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Compete ao sacerdote comunicar ao Povo essa resposta de Deus, proclamar a &ldquo;b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o de Deus&rdquo;. Nos cultos pag&atilde;os havia o <strong>or&aacute;culo<\/strong>, normalmente expresso atrav&eacute;s das artes m&aacute;gicas de adivinha&ccedil;&atilde;o dos &ldquo;magos&rdquo; ou &ldquo;videntes&rdquo;.<\/p>\n<p>Israel rejeita estas artes m&aacute;gicas e divinat&oacute;rias. O Deus de Israel &eacute; um Deus pessoal, que fala directamente ao seu Povo. Comunicar a Palavra do Senhor &eacute; fun&ccedil;&atilde;o dos sacerdotes e dos profetas.<\/p>\n<p>O minist&eacute;rio sacerdotal tinha, j&aacute; no Antigo Testamento, uma dimens&atilde;o prof&eacute;tica. Devido &agrave; infidelidade dos sacerdotes, Deus envia profetas, o que mostra a import&acirc;ncia que tinha para Deus esta comunica&ccedil;&atilde;o da sua Palavra. Alguns destes profetas s&atilde;o sacerdotes, como Jeremias e Ezequiel, outros n&atilde;o. Surge uma certa tens&atilde;o entre sacerdotes e profetas. Estes aparecem com mais liberdade que os sacerdotes, para quem o minist&eacute;rio da Palavra tem regras rituais:<\/p>\n<ul>\n<li>A narra&ccedil;&atilde;o dos grandes feitos de Deus. Alimentar a mem&oacute;ria &eacute; importante para a f&eacute; de Israel;<\/li>\n<li>&Agrave; luz dessa mem&oacute;ria, o sacerdote explica a Lei de Deus. Eles s&atilde;o os int&eacute;rpretes normais da Lei;<\/li>\n<li>Nesta interpreta&ccedil;&atilde;o da Lei, os sacerdotes respondem &agrave;s d&uacute;vidas e quest&otilde;es pr&aacute;ticas dos crentes;<\/li>\n<li>Torna a Lei compreens&iacute;vel e acess&iacute;vel na redac&ccedil;&atilde;o dos diversos c&oacute;digos.<\/li>\n<\/ul>\n<p>O sacerdote aparece ao Povo como o homem do conhecimento. &Eacute; o mediador da Palavra de Deus na sua forma tradicional de Hist&oacute;ria da Salva&ccedil;&atilde;o e de c&oacute;digos de vida.<\/p>\n<p>Quando os sacerdotes se limitaram ao culto e perderam este minist&eacute;rio do conhecimento e da sabedoria, a tens&atilde;o com os profetas era inevit&aacute;vel (cf. Os. 4,4-6)<\/p>\n<p><strong>Santidade do culto e dos sacerdotes<\/strong><\/p>\n<p>8. O Deus de Israel &eacute; um Deus Santo. O culto que lhe presta o Seu Povo, tem de ser digno dessa santidade e exige, pelo menos, a santidade dos sacerdotes. A falta de santidade dos sacerdotes &eacute; veementemente denunciada pelos Profetas, o que se torna na principal causa da tens&atilde;o existente entre Profetas e Sacerdotes. Eis algumas das principais den&uacute;ncias dos profetas: contaminam o culto, misturando-o com usos pag&atilde;os (cf. Os. 4,4-11); o que leva a um certo sincretismo religioso em Jerusal&eacute;m (cf. Jer. 2,26ss); violam, eles pr&oacute;prios, a Lei do Senhor (cf. So. 3,4; Jer. 2,8; Ez. 22,26); deixam-se levar por interesses pessoais (cf. Mi 3,11); falta de zelo pelo culto do Senhor (cf. Mal. 2,1-9).<\/p>\n<p>A exig&ecirc;ncia da santidade do culto e dos sacerdotes que o oferecem, em nome do Povo, faz surgir a esperan&ccedil;a num sacerd&oacute;cio perfeito, digno da santidade de Deus, que se realizar&aacute; no tempo do Messias, que inaugurar&aacute; o tempo escatol&oacute;gico. Embora a espera de um Messias-Rei Justo nunca tenha desaparecido, surgem, sobretudo depois do ex&iacute;lio de Babil&oacute;nia, duas express&otilde;es do messianismo sacerdotal, que se afastam daquela tradi&ccedil;&atilde;o do Messias-Rei e relativizam a estrutura sacerdotal do Templo:<\/p>\n<p>* O Messias &eacute; o <strong>Filho do Homem<\/strong>, que desce do C&eacute;u, re&uacute;ne os justos e inaugura o tempo definitivo (cf. Dan. 7). Ligada a esta vis&atilde;o do messias como <strong>Filho do Homem<\/strong> Celeste, aparece a no&ccedil;&atilde;o de um <strong>Messias Sacerdote<\/strong>, contrapondo-a ao <strong>Messias-Rei<\/strong>, j&aacute; muito adulterada pela dimens&atilde;o pol&iacute;tica da vit&oacute;ria de Israel sobre os seus inimigos (cf. Za. 3,8; 6,qq). Nesse tempo definitivo, todo o Povo ser&aacute; santo e oferecer&aacute; a Deus o culto perfeito. Ele ser&aacute; um Povo Sacerdotal (cf. Ez. 40,48; Is. 60-62; 2,1-5).<\/p>\n<p>* O Messias visto como <strong>Servo<\/strong>, que carrega todos os pecados do Povo e oferece a sua vida pela expia&ccedil;&atilde;o desses pecados (cf. Is. 42,1ss). Esta figura do <strong>Messias Servo<\/strong>, se anuncia a figura futura de Cristo, que assumir&aacute; esta miss&atilde;o do Servo, refere tamb&eacute;m a miss&atilde;o de todo o Povo que s&oacute; se purificar&aacute; assumindo o sofrimento e a sua for&ccedil;a redentora. Na figura deste Servo est&aacute; anunciado tanto o Cristo Sofredor como a Igreja, que unida &agrave; Paix&atilde;o de Cristo, oferecer&aacute; o verdadeiro sacrif&iacute;cio redentor at&eacute; &agrave; inaugura&ccedil;&atilde;o do tempo definitivo. Est&aacute; tamb&eacute;m ligada &agrave; assun&ccedil;&atilde;o, pelos grandes profetas, de uma <strong>atitude sacerdotal<\/strong>. A relativiza&ccedil;&atilde;o da institui&ccedil;&atilde;o sacerdotal &eacute;, assim, anunciada. Ser&aacute; radicalizada por Jesus Cristo, que nunca se assume como pertencendo &agrave; classe sacerdotal, mas cumpre, com perfei&ccedil;&atilde;o, a fun&ccedil;&atilde;o sacerdotal, numa atitude sacerdotal perfeita. Os t&iacute;tulos messi&acirc;nicos que Jesus prefere e aplica a Si Mesmo s&atilde;o exactamente esses que se distanciam do messianismo oficial. Ele &eacute; o <strong>Filho do Homem<\/strong> e assume completamente a miss&atilde;o do <strong>Servo<\/strong>.<\/p>\n<p>S&eacute; Patriarcal, 21 de Fevereiro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger;<\/em><em> JOS&Eacute;, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;A Fun&ccedil;&atilde;o Sacerdotal&rdquo; Introdu&ccedil;&atilde;o Estamos no Ano Sacerdotal, proclamado para toda a Igreja pelo Santo Padre Bento XVI. Preparamos a sua visita &agrave; Cidade de Lisboa no pr&oacute;ximo dia 11 de Maio. Bispo de Roma, Cabe&ccedil;a do Col&eacute;gio dos Bispos e Pastor Universal, ele vem como Sacerdote e Bom Pastor. Aprofundar o dom do sacerd&oacute;cio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[114,120,127,168,246,91],"class_list":["post-43676","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-sacerdotal","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-liturgia","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43676","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43676"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43676\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43676"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43676"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43676"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}