{"id":43640,"date":"2010-02-19T13:24:01","date_gmt":"2010-02-19T13:24:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/02\/19\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-quarta-feira-de-cinzas\/"},"modified":"2010-02-19T13:24:01","modified_gmt":"2010-02-19T13:24:01","slug":"homilia-do-arcebispo-de-braga-na-quarta-feira-de-cinzas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-braga-na-quarta-feira-de-cinzas\/","title":{"rendered":"Homilia do Arcebispo de Braga na Quarta-feira de Cinzas"},"content":{"rendered":"<p><strong>A minha responsabilidade perante a injusti&ccedil;a<\/strong><\/p>\n<p>A Quaresma acontece, no peregrinar da exist&ecirc;ncia dos crist&atilde;os e das comunidades, como tempo de particular densidade de conte&uacute;dos a que todos devem aproximar-se. Num momento em que a Humanidade vive &agrave; deriva, numa experi&ecirc;ncia de crise que, parecendo de &iacute;ndole econ&oacute;mico-financeira, &eacute; muito mais profunda, a Igreja solicita aos crist&atilde;os que preencham este per&iacute;odo com espa&ccedil;os de sil&ecirc;ncio para recentralizar a vida pessoal num contributo espec&iacute;fico a dar &agrave; Humanidade.<\/p>\n<p>Importa, por isso, acreditar na for&ccedil;a do deserto e ousar ouvir a sua mensagem. Esta n&atilde;o vir&aacute; dos ventos da moda nem das correntes ideol&oacute;gicas reinantes. Vem de mais longe e pode abrir perspectivas de luz orientadora. Como exig&ecirc;ncia da fidelidade a Cristo, colocamo-nos no itiner&aacute;rio apresentado pelo Papa Bento XVI. Criamos comunh&atilde;o universal e preparamo-nos para acolher a sua visita a Portugal como gra&ccedil;a portadora de um programa para a nossa Arquidiocese.<\/p>\n<p>Neste cen&aacute;rio de crise generalizada e de desconfian&ccedil;a perante o amanh&atilde;, h&aacute; op&ccedil;&otilde;es capazes de criar estilos de um humanismo novo. A justi&ccedil;a &eacute; o par&acirc;metro mais adequado e a sua compreens&atilde;o deve gerar compromissos novos. &ldquo;A justi&ccedil;a de Deus est&aacute; manifestada mediante a f&eacute; em Jesus Cristo&rdquo; (conf. Rom 3, 21-22), este &eacute; o ponto inaugural da mensagem do Santo Padre para nos deixar duas orienta&ccedil;&otilde;es muito concretas a partir do significado da palavra &ldquo;justi&ccedil;a&rdquo;. Sabemos que, na linguagem comum, justi&ccedil;a quer dizer &ldquo;dar a cada um o que &eacute; seu &ndash; <em>dare cuique serum<\/em>.<\/p>\n<p>Todo e qualquer ser humano tem direito &agrave;quilo que &eacute; &ldquo;seu&rdquo;. Mas, como assegurar o necess&aacute;rio para si e para os outros, n&atilde;o por concess&atilde;o de alguns, mas por direito pr&oacute;prio? A resposta &eacute; inequ&iacute;voca. Para gozar de uma exist&ecirc;ncia em plenitude, precisa de algo muito &iacute;ntimo que s&oacute; lhe pode ser dado gratuitamente. Pode parecer que os bens materiais satisfazem. &ldquo;Como e mais do que o p&atilde;o ele (o homem moderno) de facto precisa de Deus&rdquo;.<\/p>\n<p>A identidade verdadeira reside neste deixar-se possuir, permitir que Algu&eacute;m, livremente, o ocupe de modo a n&atilde;o permitir vazios e insatisfa&ccedil;&otilde;es. Este &eacute; o verdadeiro direito que estrutura a justi&ccedil;a. S&oacute; que ele acontece na decis&atilde;o pessoal e inalien&aacute;vel de cada um.<\/p>\n<p>Necessitamos de Deus, talvez atrav&eacute;s de uma reinterpreta&ccedil;&atilde;o ou de uma mudan&ccedil;a do que pensamos que Ele seja, e &eacute; Deus que est&aacute; a faltar. Muitos poder&atilde;o n&atilde;o aceitar. Algu&eacute;m ter&aacute; de o mostrar. Ser&atilde;o poucos? Que os cat&oacute;licos ofere&ccedil;am &agrave; sociedade esta certeza. Se a Arquidiocese est&aacute; a <strong>celebrar os 300 anos dos Lausperenes em Braga<\/strong>, penso que a adora&ccedil;&atilde;o pode corresponder a este encontro pessoal com Cristo.<\/p>\n<p>A leitura da <strong>Nota Pastoral <\/strong><strong><em>Louvor Perene<\/em><\/strong>, cuja leitura aconselho vivamente para este tempo quaresmal, pode facilitar este reconhecimento de dar a Deus o lugar que deve ocupar na nossa vida. Dar a cada um o que &eacute; &ldquo;seu&rdquo; significa, ainda, consciencializar-se da exist&ecirc;ncia de m&uacute;ltiplas injusti&ccedil;as.<\/p>\n<p>&nbsp;A sociedade hodierna n&atilde;o quer que a realidade seja conhecida. O cen&aacute;rio da actual crise multiplicou as situa&ccedil;&otilde;es, embora pare&ccedil;a que tudo continua bem. A mis&eacute;ria est&aacute; &agrave; nossa porta e as condi&ccedil;&otilde;es de vida de muitas pessoas s&atilde;o verdadeiramente injustas, pois n&atilde;o possuem o m&iacute;nimo para experimentar a dignidade.<\/p>\n<p>O crist&atilde;o n&atilde;o pode adormecer e iludir-se no seu ego&iacute;smo. Precisa de consciencializar-se e assumir um papel interventivo que modifique essas condi&ccedil;&otilde;es inumanas. Abrir os olhos significa encontrar-se com as causas destas desigualdades, e aqui o Santo Padre aponta um caminho. Diz ele que muitas ideologias encontram a origem do mal numa causa exterior e que bastaria remover esta causa exterior para acabar com as injusti&ccedil;as. Ningu&eacute;m ignora a responsabilidade de tantos e das autoridades na multiplica&ccedil;&atilde;o de injusti&ccedil;as escandalosas. S&oacute; que urge reconhecer uma &ldquo;for&ccedil;a de gravidade estranha&rdquo; que leva o homem a concentrar-se em si e fechar-se aos outros quando deveria abrir-se ao amor. Impera o ego&iacute;smo quando deveria acontecer uma permanente abertura para se identificar com os males que afligem os outros e comprometer-se na sua solu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Esta &eacute; a grande novidade crist&atilde;. A convers&atilde;o a Cristo reside neste descentralizar a vida de si para caminhar com os outros em gestos de comunh&atilde;o e partilha. Ningu&eacute;m cresce verdadeiramente na auto-sufici&ecirc;ncia. Somos indigentes dos outros e de Deus e somos os art&iacute;fices da verdadeira liberta&ccedil;&atilde;o, dando um contributo positivo para uma sociedade justa &ldquo;onde todos recebem o necess&aacute;rio para viver&rdquo; segundo a pr&oacute;pria dignidade de ser humano.<\/p>\n<p>Esta &eacute; a grande novidade evang&eacute;lica, a que o conhecimento da Palavra, acolhida generosamente, vai delineando os contornos de uma exist&ecirc;ncia autenticamente crist&atilde;. N&atilde;o ser&aacute; que esta atitude de convers&atilde;o interior deve levar-nos a concentrar no <strong>Programa Pastoral <\/strong><strong><em>Acolher a Palavra<\/em><\/strong><strong>, <\/strong>como apelo &agrave; mudan&ccedil;a de vida pessoal e comunit&aacute;ria? <strong>Nas pegadas da <\/strong><strong><em>Dei Verbum, <\/em><\/strong>n&atilde;o devemos situar-nos no essencial do Novo Testamento como apelo de aut&ecirc;ntica liberta&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p>Cientes do ego&iacute;smo reinante, fa&ccedil;amos desta Quaresma um particular momento de sobriedade para testemunhar uma solidariedade capaz de dar mais beleza &agrave; vida. Sobriedade e solidariedade para um mundo mais justo &eacute; o programa que Deus espera de n&oacute;s. Ousemos interpret&aacute;-lo com ousadia.<\/p>\n<p>17 de Fevereiro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\">&dagger; Jorge Ortiga, <em>Arcebispo Primaz<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A minha responsabilidade perante a injusti&ccedil;a A Quaresma acontece, no peregrinar da exist&ecirc;ncia dos crist&atilde;os e das comunidades, como tempo de particular densidade de conte&uacute;dos a que todos devem aproximar-se. 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