{"id":43579,"date":"2010-02-17T11:29:52","date_gmt":"2010-02-17T11:29:52","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/02\/17\/escutas-da-quaresma\/"},"modified":"2010-02-17T11:29:52","modified_gmt":"2010-02-17T11:29:52","slug":"escutas-da-quaresma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/escutas-da-quaresma\/","title":{"rendered":"Escutas da Quaresma"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Dias da Silva <!--more--> <\/p>\n<p>A Quaresma &eacute; um tempo especialmente forte na vida dos cat&oacute;licos: a prepara&ccedil;&atilde;o interior e exterior para o acontecimento central da nossa f&eacute;. Esta exig&ecirc;ncia vivencial &eacute;, este ano, refor&ccedil;ada por dois factos: eclesialmente, a vinda do Papa a Portugal; socialmente, a agudiza&ccedil;&atilde;o de uma crise, que para l&aacute; dos seus aspectos financeiro e econ&oacute;mico j&aacute; conhecidos, est&aacute; a atingir, de forma grave os fundamentos da nossa organiza&ccedil;&atilde;o social e das nossas rela&ccedil;&otilde;es como cidad&atilde;os.<\/p>\n<p>A Igreja em Portugal pode ter ainda muito &ldquo;peso pol&iacute;tico&rdquo;, mas qual &eacute; a qualidade da nossa interven&ccedil;&atilde;o individual e comunit&aacute;ria? Como &eacute; que as palavras libertadoras de Jesus s&atilde;o por n&oacute;s postas em pr&aacute;tica? O que sabemos n&oacute;s dessas palavras libertadoras? Que catequese e forma&ccedil;&atilde;o temos e fazemos? Conhecemos realmente o Jesus dos Evangelhos ou temos a nossa pr&oacute;pria vis&atilde;o, uma perspectiva ideol&oacute;gica na qual s&oacute; cabem as palavras e atitudes que possam justificar as nossas atitudes e interesses? Olhamos&hellip; e vemos que as palavras do &ldquo;Serm&atilde;o da Montanha&rdquo; n&atilde;o tocam o fundo do nosso cora&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o s&atilde;o a b&uacute;ssola da nossa vida nem o fundamento dos nossos actos. Jo&atilde;o Paulo II denunciou este d&eacute;fice de coer&ecirc;ncia, desmontando algumas ideias feitas: &ldquo;Perguntar a um catec&uacute;meno: &laquo;Queres receber o Baptismo?&raquo; significa ao mesmo tempo pedir-lhe: &laquo;Queres fazer-te santo?&raquo; Significa colocar na sua estrada o radicalismo do Serm&atilde;o da Montanha: &laquo;Sede perfeitos, como &eacute; perfeito vosso Pai celeste&raquo;. Como explicou o Conc&iacute;lio, este ideal de perfei&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deve ser objecto de equ&iacute;voco vendo nele um caminho extraordin&aacute;rio, que apenas algum &laquo;g&eacute;nio&raquo; da santidade poderia percorrer. (&hellip;) &Eacute; hora de propor de novo a todos, com convic&ccedil;&atilde;o, esta <em>&laquo;medida alta&raquo; da vida crist&atilde; ordin&aacute;ria: <\/em>toda a vida da comunidade eclesial e das fam&iacute;lias crist&atilde;s deve apontar nesta direc&ccedil;&atilde;o&rdquo; (NMI 31). Sem esta medida alta da vida crist&atilde; ordin&aacute;ria n&atilde;o haver&aacute; Ressurrei&ccedil;&atilde;o para n&oacute;s. S&oacute; haver&aacute; Ressurrei&ccedil;&atilde;o se morrermos para uma f&eacute; infantil, descomprometida, &ldquo;sem calorias&rdquo;, que n&atilde;o toma a s&eacute;rio o ser crist&atilde;o. S&oacute; haver&aacute; Ressurrei&ccedil;&atilde;o se morrermos para o homem velho que vive de acordo com as normas da sociedade de consumo, que d&aacute; prioridade aos seus interesses, que n&atilde;o reconhece o outro, qualquer outro, como o rosto alegre ou sofrido de Jesus Cristo e que n&atilde;o tem como norma de vida &ldquo;o princ&iacute;pio da gratuidade como express&atilde;o da fraternidade&rdquo; (CV 34).<\/p>\n<p>&Eacute; a partir daqui que ganha significado a Eucaristia, que s&oacute; ser&aacute; aut&ecirc;ntica, se for encontro festivo, individual e comunit&aacute;rio, com a Pessoa de Jesus, &ldquo;que d&aacute; &agrave; vida um horizonte e, desta forma, o rumo definitivo&rdquo; (DCE 1) e se tornar celebra&ccedil;&atilde;o sentida da beleza do nosso Deus, transcendente no Grande Mist&eacute;rio indiz&iacute;vel e imanente no pequeno mist&eacute;rio que &eacute; cada um de n&oacute;s.<\/p>\n<p>Mas n&atilde;o h&aacute; comunidade cat&oacute;lica sem a viv&ecirc;ncia estrutural da Caridade. N&atilde;o se trata de uma mera filantropia, de um sentimento vago de compaix&atilde;o, de uma passageira fraternidade, mas de um amor profundo, reflexo do dom de Deus, que nos amou sem contrapartidas.<\/p>\n<p>E a primeira exig&ecirc;ncia &eacute; que &ldquo;no seio da comunidade dos crentes n&atilde;o deve haver uma forma de pobreza tal que sejam negados a algu&eacute;m os bens necess&aacute;rios para uma vida condigna&rdquo; (DCE 20). N&atilde;o se trata de um aparente ego&iacute;smo tribal, pois o Papa clarifica que &ldquo;a par&aacute;bola do bom Samaritano permanece como crit&eacute;rio de medida, impondo a universalidade do amor que se inclina para o necessitado encontrado &laquo;por acaso&raquo;, seja ele quem for&rdquo; (DCE 25) e que &ldquo;enquanto dom recebido por todos, a caridade na verdade &eacute; uma for&ccedil;a que constitui a comunidade, unifica os homens segundo modalidades que n&atilde;o conhecem barreiras nem confins&rdquo; (CV 34).<\/p>\n<p>Mas, na actual situa&ccedil;&atilde;o sociopol&iacute;tica, somos chamados, em nome do amor, a ser semeadores, pela palavra e pela ac&ccedil;&atilde;o, da conc&oacute;rdia e da paz social, pilares fundamentais do bem comum, e da confian&ccedil;a e esperan&ccedil;a, que ajudem a combater o clima de desespero, desconfian&ccedil;a, suspei&ccedil;&atilde;o e at&eacute; &oacute;dio, que s&oacute; envenenam as nossas rela&ccedil;&otilde;es sociais.<\/p>\n<p>Em nome do amor, somos chamados a exigir de todos, governo, oposi&ccedil;&atilde;o e a sociedade nas m&uacute;ltiplas val&ecirc;ncias e talentos, que, com respeito pela democracia e pelo sentido de Estado, d&ecirc;em prioridade a um clima de harmonia na diversidade de projectos, tendo como objectivo primeiro um pa&iacute;s mais desenvolvido, e a colaborar na edifica&ccedil;&atilde;o de uma cidadania saud&aacute;vel, lutando a favor da justi&ccedil;a e dos direitos humanos e contra o sil&ecirc;ncio c&oacute;modo ou o medo inc&oacute;modo de potenciais repres&aacute;lias, sem descurar os pr&oacute;prios deveres<\/p>\n<p>Em nome do amor, somos chamados a combater, por todos os meios, a corrup&ccedil;&atilde;o, esse monstro que conspurca a nossa sociedade e est&aacute; disseminada por todos os estratos sociais.<\/p>\n<p>Em nome do amor, somos chamados a discernir e a hierarquizar as muitas quest&otilde;es graves que nos afectam, n&atilde;o nos deixando seduzir pelo canto de sereias dos que det&ecirc;m o poder de falar ou comentar, mas ampliando os aflitivos gritos silenciosos e silenciados dos que, n&atilde;o tendo vez nem voz, ficam esquecidos no meio de tanto ru&iacute;do.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Jos&eacute; Dias da Silva, vogal da Comiss&atilde;o Nacional Justi&ccedil;a e Paz<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Dias da Silva<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[127,189,91],"class_list":["post-43579","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-catequese","tag-direitos-humanos","tag-quaresma"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43579"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43579\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}