{"id":435225,"date":"2026-07-20T17:58:03","date_gmt":"2026-07-20T16:58:03","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=435225"},"modified":"2026-07-20T17:58:03","modified_gmt":"2026-07-20T16:58:03","slug":"tradicao-e-progresso-na-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/tradicao-e-progresso-na-igreja\/","title":{"rendered":"Tradi\u00e7\u00e3o e Progresso na Igreja"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>Foi indisfar\u00e7\u00e1vel que o Pontificado do Papa Francisco foi marcado por algumas tens\u00f5es e confronta\u00e7\u00f5es entre os denominados conservadores e progressistas dentro da Igreja, e chegou mesmo a pairar no ar a amea\u00e7a de um cisma ou de uma profunda cis\u00e3o na Igreja Cat\u00f3lica, o que teria consequ\u00eancias imprevis\u00edveis. Infelizmente, as tens\u00f5es perduram no pontificado de Le\u00e3o XIV. Alguns consideram que esta divis\u00e3o entre conservadores e progressistas \u00e9 uma forma enviesada e pouco correta de olhar para a Igreja, at\u00e9 revestida de alguma tonalidade pol\u00edtica e ideol\u00f3gica, e pode at\u00e9 arrastar muitos cat\u00f3licos para discuss\u00f5es e antagonismos superficiais e despropositados. \u00c9 uma armadilha, sem d\u00favida. Na verdade, s\u00f3 h\u00e1 uma Igreja, a Igreja de Cristo, \u00e0 qual pertencemos desde o batismo, h\u00e1 uma s\u00f3 f\u00e9 partilhada por todos, que n\u00e3o est\u00e1 sujeita aos humores de cada tempo, e um s\u00f3 Evangelho para viver, todos unidos na miss\u00e3o de o viver e anunciar, e de construir o Reino de Deus na terra dos homens. Por isso, na Igreja n\u00e3o deve haver conservadorismo nem progressismo. A Igreja n\u00e3o se constr\u00f3i nem existe para ser subserviente \u00e0s ideias pessoais dos seus membros, nem para existir a toque de caixa das ideias e modas de cada tempo.<\/p>\n<p>No entanto, a Igreja caminha no tempo. N\u00e3o \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o parada na hist\u00f3ria. Est\u00e1 no mundo e vive no mundo. E o mundo pula e avan\u00e7a, mundo que apresenta sempre novos desafios, problemas, apelos, mudan\u00e7as, modos de vida novos, transforma\u00e7\u00f5es e inova\u00e7\u00f5es, e reclama caminhos novos e solu\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas e originais. Apesar de ser presen\u00e7a e sinal do eterno na hist\u00f3ria e no tempo, a Igreja tem de saber ser Igreja para cada tempo, saber viver em cada tempo e saber ir ao encontro das exig\u00eancias e sinais de cada tempo, sem deixar de ser sempre a Igreja de Jesus Cristo. \u00c9 o que habitualmente se diz saber adaptar-se aos tempos, sendo que adaptar-se aos tempos n\u00e3o \u00e9 tornar-se igual aos tempos. Cada tempo traz coisas boas, mas tamb\u00e9m traz coisas m\u00e1s. \u00c9 preciso uma filtragem e uma leitura serena, aturada e cr\u00edtica de cada tempo, na escuta do Evangelho, para se promover a mudan\u00e7a. Aqui \u00e9 que, por vezes, aparecem os conservadores e os progressistas, os que preferem manter tudo sempre na mesma, que acham que \u201cDeus \u00e9 sempre o mesmo\u201d e que tudo tem de se continuar a fazer como sempre se fez, refestelados nas certezas, regras e dogmas de sempre, com fobia \u00e0 novidade e \u00e0 mudan\u00e7a, e os que defendem atualiza\u00e7\u00f5es constantes da Igreja, fascinados pela novidade. A uns talvez seja oportuno lembrar que a tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 im\u00f3vel, deve ser criativa e saber inovar, o Evangelho \u00e9 vida e movimento, como dizia o Papa Francisco, a Igreja n\u00e3o \u00e9 um museu; a outros lembrar que o progresso nem sempre \u00e9 bom e \u00e9 preciso saber inovar com sensatez. Mas h\u00e1 mudan\u00e7as que s\u00e3o inevit\u00e1veis, fruto de uma sensibilidade apurada pelo tempo e pelo pensamento amadurecido da Igreja.<\/p>\n<p>Foi o que aconteceu com o Conc\u00edlio Vaticano II. Por determina\u00e7\u00e3o deste Conc\u00edlio, a liturgia passou a ser celebrada nas l\u00ednguas vern\u00e1culas, ou seja, nas l\u00ednguas pr\u00f3prias de cada pa\u00eds. \u00c9 apelidada como \u00aba grande mudan\u00e7a\u00bb. Como sabemos, excetuando-se a homilia do presidente da celebra\u00e7\u00e3o, toda a liturgia era celebrada em latim, l\u00edngua que o povo n\u00e3o compreendia.<\/p>\n<p>A reforma do Conc\u00edlio foi orientada por um regresso aos in\u00edcios e \u00e0 pr\u00e1tica original do Cristianismo. Jesus Cristo falou o aramaico palestinense. Os primeiros crist\u00e3os falaram e usaram, sobretudo, o grego. S\u00f3 no s\u00e9culo IV \u00e9 que surge a tradu\u00e7\u00e3o da B\u00edblia para latim, feita por S. Jer\u00f3nimo. Com o tempo, por for\u00e7a da reforma gregoriana na Idade M\u00e9dia e com o Conc\u00edlio de Trento no s\u00e9culo XVI, o latim monopolizou a liturgia e a vida da Igreja. N\u00e3o \u00e9 correto dizer-se, como se ouve muitas vezes, que o latim \u00e9 o mais genu\u00edno e o mais original da hist\u00f3ria da Igreja. N\u00e3o \u00e9. \u00c9 o vern\u00e1culo.<\/p>\n<p>Mais de cinquenta anos passados da \u00abgrande mudan\u00e7a\u00bb, a Igreja deve rejubilar pelo grande passo que foi dado, sobretudo porque foi um progresso que veio de encontro \u00e0 identidade e \u00e0 ess\u00eancia do Cristianismo, que tem na sua base a comunica\u00e7\u00e3o, o Verbo. A f\u00e9 \u00e9 a resposta do homem \u00e0 iniciativa de Deus em se revelar e comunicar aos homens, para com eles viver em rela\u00e7\u00e3o e celebrar uma alian\u00e7a. \u00abO Verbo encarnou e habitou no meio de n\u00f3s\u00bb. Para haver verdadeira rela\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental a comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha sentido celebrar uma liturgia e ler leituras, que s\u00e3o Palavra de Deus, que a esmagadora maioria dos ouvintes n\u00e3o entendia. S. Paulo, na sua Carta aos Romanos, diz algo fundamental: \u00abA f\u00e9 surge da prega\u00e7\u00e3o\u00bb. A liturgia parecia mais uma a\u00e7\u00e3o do padre e n\u00e3o de todo o povo, que se habituou erradamente a \u00abassistir \u00e0 missa\u00bb ou a \u00abouvir a missa\u00bb. A missa era um \u201cassunto\u201d do padre. O povo era mero assistente ou espectador, criando at\u00e9 o h\u00e1bito de rezar o ter\u00e7o enquanto o padre se virava para os altares. Agora que todos falamos a mesma l\u00edngua, sentimos Deus mais pr\u00f3ximo e percebemos que somos todos participantes. Todo o povo celebra. O padre ou o bispo presidem, mas \u00e9 toda a comunidade que est\u00e1 a celebrar. Alguns defendem que o latim dava um certo car\u00e1cter misterioso, sagrado e m\u00edstico \u00e0 Missa. No Cristianismo s\u00f3 h\u00e1 um mist\u00e9rio, que \u00e9 o mist\u00e9rio do amor de Deus, se tem algo de sagrado \u00e9 Cristo e n\u00e3o o rito em si, e n\u00e3o vejo onde h\u00e1 misticismo em celebrar algo que n\u00e3o se compreende.<\/p>\n<p>Com o Conc\u00edlio Vaticano II a Igreja mudou, mudou bem e mudou para melhor. Vem isto a prop\u00f3sito do recente conflito entre a Santa S\u00e9 e a Fraternidade Sacerdotal S\u00e3o Pio X, denominada como ultraconservadora, que resultou na excomunh\u00e3o de alguns dos seus membros.\u00a0 Deixando da parte de fora os contornos pol\u00edticos do conflito, que s\u00e3o facilmente palp\u00e1veis e lament\u00e1veis, depois de mais de sessenta anos do Conc\u00edlio, n\u00e3o se compreende que se alimente o sectarismo e o divisionismo dentro da Igreja em nome de \u201cbirras\u201d lit\u00fargicas e de tradicionalismos que j\u00e1 tiveram o seu tempo e hoje j\u00e1 n\u00e3o fazem sentido. A tradi\u00e7\u00e3o quando vira tradicionalismo encarni\u00e7ado \u00e9 uma idolatria. O fundamental da Eucaristia \u00e9 acolher a palavra de Deus e a presen\u00e7a viva de Cristo, celebrar o amor incomensur\u00e1vel e eterno de Deus e n\u00e3o celebrar um rito em nome da tradi\u00e7\u00e3o, ou em nome, segundo dizem, do verdadeiro e genu\u00edno culto que se deve prestar a Deus e com que Deus deve ser adorado. Deus nos livre dos puros e verdadeiros detentores da verdade e da pureza, cujas \u201cproezas\u201d a hist\u00f3ria nos conta. O que Cristo n\u00e3o tem de aturar na sua Igreja!<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-435225","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=435225"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435225\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":435227,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/435225\/revisions\/435227"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=435225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=435225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=435225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}