{"id":43452,"date":"2010-02-09T13:47:17","date_gmt":"2010-02-09T13:47:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/02\/09\/criar-um-lugar-religioso\/"},"modified":"2010-02-09T13:47:17","modified_gmt":"2010-02-09T13:47:17","slug":"criar-um-lugar-religioso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/criar-um-lugar-religioso\/","title":{"rendered":"Criar um lugar religioso"},"content":{"rendered":"<p>No acto de cria&ccedil;&atilde;o de uma igreja, o arquitecto deve ter bem presente que esta n&atilde;o &eacute; um fim em si mesma, nem um meio para a express&atilde;o solit&aacute;ria da sua vaidade, mas um instrumento que deve estar, desde o primeiro esbo&ccedil;o, ao servi&ccedil;o da comunidade. Construir uma igreja n&atilde;o &eacute; compat&iacute;vel com a exalta&ccedil;&atilde;o do ego e das certezas est&eacute;ticas do seu autor, mas com um trabalho de enorme responsabilidade, que deve ser encarado do in&iacute;cio ao fim com uma atitude de grande humildade.<\/p>\n<p>Este tempo, normalmente irrepet&iacute;vel, deve ser um dos mais fortes e intensos da vida de uma comunidade, pois &eacute; uma oportunidade extraordin&aacute;ria para esta reflectir sobre a sua concep&ccedil;&atilde;o de Igreja, aprofundar no&ccedil;&otilde;es de liturgia e teologia, aumentar a comunh&atilde;o entre os seus membros e de crescer na F&eacute;, ou seja, enquanto se projecta o seu lado mais vis&iacute;vel e exterior, tamb&eacute;m a sua vida interior &eacute; chamada a desenvolver-se significativamente, na busca de uma maior F&eacute;, Esperan&ccedil;a e Caridade.<\/p>\n<p>A elabora&ccedil;&atilde;o do programa de uma igreja, deve, por conseguinte, ser um processo participado e dialogado entre comunidade e arquitecto, para o que &eacute; necess&aacute;rio que se estabele&ccedil;a entre todos uma rela&ccedil;&atilde;o de proximidade e confian&ccedil;a, e o arquitecto deve procurar conhecer e acompanhar de perto esta caminhada da comunidade da futura igreja, para que o edif&iacute;cio, depois de erguido, exprima a f&eacute; adulta da comunidade, e esta se reveja na sua nova casa.<\/p>\n<p>Este foi o processo seguido pelo arquitecto austr&iacute;aco Ottokar Uhl, experiente criador de espa&ccedil;os lit&uacute;rgicos e profundo conhecedor da f&eacute; e liturgia inspiradas pelo Conc&iacute;lio Vaticano II, aquando da concep&ccedil;&atilde;o da igreja de S&atilde;o Judas Tadeu, em Karlsruhe-Neuret, na Alemanha. Durante 10 anos, desde a data em que ganhou o concurso de arquitectura at&eacute; &agrave; inaugura&ccedil;&atilde;o, envolveu-se num di&aacute;logo permanente com a comunidade, chamada a participar de forma activa e contributiva no processo criativo, tornando extremamente frutuoso o potencial catequ&eacute;tico e pastoral associado a este processo, e conseguindo chegar deste modo a uma solu&ccedil;&atilde;o arquitect&oacute;nica verdadeiramente edificadora da comunidade e por esta acolhida em esp&iacute;rito e verdade.<\/p>\n<p>No entanto, nos &uacute;ltimos tempos, o maior esfor&ccedil;o e aten&ccedil;&atilde;o dos arquitectos tem-se dirigido quase exclusivamente para a cria&ccedil;&atilde;o de espa&ccedil;os de medita&ccedil;&atilde;o, ora&ccedil;&atilde;o ou experimenta&ccedil;&atilde;o individual, em ambientes classificados como sagrados, m&iacute;sticos ou espirituais, inundados de luz po&eacute;tica e emocional, em detrimento das verdadeiras necessidades da comunidade. Uma igreja n&atilde;o &eacute; um templo, nem um espa&ccedil;o de medita&ccedil;&atilde;o ou ora&ccedil;&atilde;o pessoal. Estas s&atilde;o importantes, mas quando Jesus queria rezar ao Pai, subia ao monte para orar na solid&atilde;o, no quarto mais secreto (Mt 14, 23 e 6, 6).<\/p>\n<p>Na celebra&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica, como na &uacute;ltima ceia, Jesus deseja ardentemente comer esta P&aacute;scoa connosco (Lc 22, 15). O que faz da igreja <em>ecclesia<\/em>, lugar onde os crist&atilde;os fazem a experi&ecirc;ncia de ser Igreja, comunidade de f&eacute;, encontrando-se aqui consigo mesma e toda ela com Deus. &Eacute; o espa&ccedil;o em que comungam a presen&ccedil;a de Cristo, que est&aacute; com cada um em todos os momentos, mas de um modo especial com todos na liturgia, pois &ldquo;onde estiverem dois ou tr&ecirc;s reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles&rdquo; (Mt 18, 20).<\/p>\n<p>Uma igreja bem concebida tem, finalmente, de contribuir para que a comunidade unifique a experi&ecirc;ncia da celebra&ccedil;&atilde;o da Eucaristia com o agir crist&atilde;o quotidiano, tomando cada vez mais presente e consciente que <em>o mundo inteiro &eacute; o seu santu&aacute;rio, que a santidade se cumpre no nosso quotidiano e que a missa na nossa vida di&aacute;ria &eacute; amar<\/em> (Joseph Ratzinger, Introdu&ccedil;&atilde;o ao esp&iacute;rito da liturgia, 2001, pp. 41).<\/p>\n<p>Para que tal aconte&ccedil;a, arquitecto e comunidade devem fundar o programa para a nova igreja em rocha firme, ou seja, em Cristo e nas Escrituras, mais do que em qualquer lei, regulamento, imagem ou tradi&ccedil;&atilde;o. Jesus n&atilde;o foi pessoa de deixar muitas obriga&ccedil;&otilde;es ou dar muitas ordens, mas apenas um novo mandamento: &ldquo;<em>que vos ameis uns aos outros.&rdquo;<\/em> (Jo 13,34)<\/p>\n<p>&Eacute; este mandamento que, uma vez inspirado nas paredes, poder&aacute; expirar para a comunidade, para que esta, procurando aproximar-se cada vez mais de Deus, se aproxime mais e mais dos homens.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Jo&atilde;o Alves da Cunha, arquitecto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No acto de cria&ccedil;&atilde;o de uma igreja, o arquitecto deve ter bem presente que esta n&atilde;o &eacute; um fim em si mesma, nem um meio para a express&atilde;o solit&aacute;ria da sua vaidade, mas um instrumento que deve estar, desde o primeiro esbo&ccedil;o, ao servi&ccedil;o da comunidade. 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