{"id":434130,"date":"2026-07-12T09:31:54","date_gmt":"2026-07-12T08:31:54","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=434130"},"modified":"2026-07-10T17:31:21","modified_gmt":"2026-07-10T16:31:21","slug":"igreja-migracoesquando-se-conhece-tudo-e-diferente-teresa-tavares-de-almeida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-migracoesquando-se-conhece-tudo-e-diferente-teresa-tavares-de-almeida\/","title":{"rendered":"Igreja\/Migra\u00e7\u00f5es:\u00abQuando se conhece, tudo \u00e9 diferente\u00bb &#8211; Teresa Tavares de Almeida"},"content":{"rendered":"<p><em>No dia seguinte ao Dia Mundial da Popula\u00e7\u00e3o, e dias depois do Instituto Nacional de Estat\u00edstica ter atualizado o n\u00famero de residentes em Portugal para 11 milh\u00f5es e 424 mil pessoas, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia a presidente da C\u00e1ritas Diocesana de Beja, uma das regi\u00f5es do pa\u00eds que mais tem sofrido com o despovoamento<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_260636\" aria-describedby=\"caption-attachment-260636\" style=\"width: 1620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-260636 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n.jpg\" alt=\"\" width=\"1620\" height=\"1079\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n.jpg 1620w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-1536x1023.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-1080x719.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/11\/315559474_5729361860443600_3333228620394560012_n-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1620px) 100vw, 1620px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-260636\" class=\"wp-caption-text\">Foto: C\u00e1ritas Diocesana de Beja<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Falamos de 11 milh\u00f5es e 424 mil habitantes, com 1 milh\u00e3o e 600 mil pessoas estrangeiras. Estes dados nacionais tamb\u00e9m refletem a realidade que lhe \u00e9 mais pr\u00f3xima?<\/em><\/p>\n<p>Sim, aqui no Alentejo o processo de desertifica\u00e7\u00e3o tem sido j\u00e1 ao longo do tempo not\u00f3rio. Aldeias muito depauperadas de pessoas, pessoas j\u00e1 com muita idade, muita emigra\u00e7\u00e3o portuguesa, os nossos a irem para fora, e agora nos \u00faltimos anos estamos a ver um\u00a0processo de imigra\u00e7\u00e3o.\u00a0Estamos a receber e o grande movimento realmente s\u00e3o pessoas oriundas de outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E \u00e9 por for\u00e7a dessa comunidade imigrante que os n\u00fameros da popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o\u00a0n\u00e3o t\u00eam descido tanto como ocorria anteriormente?<\/em><\/p>\n<p>Exato.\u00a0V\u00e3o equilibrando a demografia local, tanto na zona das cidades maiores, n\u00e3o temos muitas,\u00a0temos algumas, e principalmente na zona litoral, porque aqui a Diocese de Beja tem uma costa bastante\u00a0grande.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Da realidade conhece, qu\u00e3o decisiva \u00e9 a for\u00e7a destes migrantes no desenvolvimento da atividade econ\u00f3mica na regi\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s temos oferta de trabalho ligada \u00e0 agricultura, essencialmente, tamb\u00e9m alguma\u00a0constru\u00e7\u00e3o civil, mas n\u00e3o tanto. Em rela\u00e7\u00e3o ao montante de pessoas que t\u00eam acorrido ao\u00a0nosso servi\u00e7o concreto do CLAIM (Centro Local de Apoio \u00e0 Integra\u00e7\u00e3o de Migrantes) n\u00f3s, desde janeiro at\u00e9 agora, recebemos 786 pessoas migrantes, sendo 544\u00a0homens e 242 mulheres.\u00a0O grande grosso s\u00e3o pessoas brasileiras e senegalesas, temos muitos\u00a0outros de \u00c1frica, mas o grande grosso \u00e9 realmente o Brasil e o Senegal.\u00a0Temos, ent\u00e3o, aqui em Beja o atendimento no CLAIM, mas trabalhamos tamb\u00e9m sempre no\u00a0sentido da descentraliza\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 dif\u00edcil as pessoas virem aqui, se est\u00e3o\u00a0a trabalhar noutros concelhos, porque a Diocese de Beja tem 17 concelhos, s\u00e3o 14 que pertencem\u00a0ao distrito de Beja e 3 pertencem ao Distrito de Set\u00fabal, que s\u00e3o aqueles mais da zona\u00a0litoral, Sines, Santiago e Gr\u00e2ndola.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Antes de continuarmos, pode explicar a quem nos ouve o que \u00e9 o CLAIM?<\/em><\/p>\n<p>O CLAIM \u00e9 o Centro Local de Apoio \u00e0 Integra\u00e7\u00e3o de Migrantes e h\u00e1 v\u00e1rios espalhados\u00a0no pa\u00eds, est\u00e3o sempre em grande articula\u00e7\u00e3o com a AIMA (Ag\u00eancia para a Integra\u00e7\u00e3o, Migra\u00e7\u00f5es e Asilo), est\u00e3o tamb\u00e9m sempre muito articulados com os servi\u00e7os de a\u00e7\u00e3o social, tanto das autarquias, no que respeita mesmo \u00e0 parte do munic\u00edpio, c\u00e2maras municipais como \u00e0s juntas de freguesia, est\u00e3o tamb\u00e9m articulados com outras IPSS e com outras associa\u00e7\u00f5es locais, espalhadas pela nossa diocese.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ou seja, esta realidade tamb\u00e9m se transforma num novo desafio para a pr\u00f3pria C\u00e1ritas,\u00a0porque muita dessa popula\u00e7\u00e3o chega a Portugal carregando tamb\u00e9m todas as suas car\u00eancias e necessidades?<\/em><\/p>\n<p>Exato. As pessoas chegam muito fragilizadas. Sa\u00edrem dos seus pa\u00edses e deixarem os seus entes queridos n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9?\u00a0N\u00f3s vimos no processo contr\u00e1rio quando os nossos iam para fora, tamb\u00e9m a dor que deixavam atr\u00e1s, n\u00e3o \u00e9? De saudade.\u00a0Portanto, quando recebemos essas pessoas, elas est\u00e3o fragilizadas.\u00a0N\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista econ\u00f3mico, e por vezes tocando mesmo a pobreza,\u00a0mas tamb\u00e9m fragilizadas do ponto de vista emocional.<\/p>\n<p>E esse apoio que se d\u00e1 localmente tenta ver a pessoa no seu todo.\u00a0E ent\u00e3o para a C\u00e1ritas, que \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica, que tenta sempre ser o rosto de Cristo para com o outro,\u00a0atender o outro na sua dimens\u00e3o integral e trabalhar para a dignidade da pessoa,\u00a0\u00e9 sempre o nosso desafio e o nosso prop\u00f3sito.\u00a0A miss\u00e3o da C\u00e1ritas \u00e9 mesmo essa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Volto \u00e0 quest\u00e3o de que trat\u00e1vamos inicialmente,\u00a0do impacto dos imigrantes nessa regi\u00e3o.\u00a0Concorda com a tese de que, sem imigrantes, alguns setores estariam condenados?<\/em><\/p>\n<p>Eu estou convencida que sim.\u00a0Porque n\u00f3s estamos a ver que na faixa et\u00e1ria da juventude h\u00e1 muita sa\u00edda, muita emigra\u00e7\u00e3o. N\u00f3s\u00a0come\u00e7\u00e1mos a ver que a ascens\u00e3o social se foi alargando com a democracia,\u00a0as pessoas t\u00eam mais facilidade no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o\u00a0e come\u00e7aram a estudar mais, a ter interc\u00e2mbios com outros pa\u00edses,\u00a0nomeadamente em projetos de Erasmus, e depois elas acabam por ficar a trabalhar fora do pa\u00eds. Muita gente jovem come\u00e7ou a sair, e ent\u00e3o aqui em Beja\u00a0temos visto muito isso.\u00a0Temos muita gente mesmo a trabalhar no estrangeiro,\u00a0em quadros superiores.\u00a0H\u00e1 algumas at\u00e9 pessoas ligadas \u00e0 agricultura, mas foram para fora.<\/p>\n<p>E, portanto, a m\u00e3o de obra faz falta.\u00a0Agora, atr\u00e1s da m\u00e3o est\u00e1 a pessoa inteira. E n\u00f3s, para al\u00e9m de ser s\u00f3 efetivos, cada um com duas m\u00e3os para trabalhar,\u00a0n\u00f3s temos de ver a pessoa no seu todo e trabalhar para a dignidade dela quando a atendemos.\u00a0E \u00e9 esse o grande desafio.<\/p>\n<p>Eu gostava de falar de um projeto que ainda na semana passada\u00a0foi lan\u00e7ado aqui em Beja pela Santa Casa da Miseric\u00f3rdia.\u00a0\u00c9 s\u00f3 mesmo para o concelho de Beja.\u00a0\u00c9 um projeto chamado LIMA, que \u00e9 um laborat\u00f3rio de investiga\u00e7\u00e3o\u00a0sobre a mobilidade agr\u00edcola e que est\u00e1 a ser patrocinado pela Funda\u00e7\u00e3o Gulbenkian,\u00a0e onde a C\u00e1ritas Diocesana de Beja \u00e9 parceira, muito concretamente, com duas das suas val\u00eancias:\u00a0o CLAIM e o INCORPORA, que \u00e9 um programa que, por sua vez, \u00e9 financiado pela Funda\u00e7\u00e3o La Caixa.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que se pretende com esse projeto? \u00c9 tornar mais transparente, mais digno, mais justo,\u00a0aquela rela\u00e7\u00e3o entre o empregador e o empregado.\u00a0Porque o que se tem visto \u00e9 que v\u00eam em massa. S\u00e3o grupos que chegam\u00a0durante um per\u00edodo de trabalho sazonal e depois s\u00e3o abandonados ou t\u00eam tido problemas de empregabilidade, etc.\u00a0Ent\u00e3o, com este projeto, pretende-se arranjar plataformas digitais\u00a0em que se sabe quem \u00e9 quem, que tipo de forma\u00e7\u00e3o \u00e9 que precisa,\u00a0porque as pessoas podem depois fazer forma\u00e7\u00e3o no per\u00edodo em que o trabalho sazonal n\u00e3o est\u00e1 a ocorrer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E tamb\u00e9m pode ser importante no combate ao tr\u00e1fico e \u00e0 ilegalidade?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, \u00e9 esse o objetivo.\u00a0Depois, se tudo correr bem, porque este projeto veio para um ano e meio,\u00a0mas\u00a0todos vamos dar o nosso m\u00e1ximo e estou em crer que daqui a um ano e meio j\u00e1 se pode replicar noutros concelhos.<\/p>\n<p>Claro que quando algo come\u00e7a, h\u00e1 sempre aquele medo do desconhecido,\u00a0medo do trabalho que as coisas d\u00e3o, at\u00e9 como usa tamb\u00e9m plataformas digitais,\u00a0h\u00e1 algum desconhecimento, pouca literacia digital,\u00a0portanto \u00e9 necess\u00e1rio haver quem na retaguarda v\u00e1 apoiando as pessoas para saberem\u2026 mas estou convencida que a pouco e pouco, com o testemunho e com as pr\u00e1ticas positivas que se v\u00e3o ver,\u00a0as pessoas v\u00e3o perceber que para al\u00e9m de serem empregadoras, tamb\u00e9m os empregadores s\u00e3o pessoas,\u00a0e que quanto mais dignidade derem ao outro, tamb\u00e9m mais dignas elas pr\u00f3prias s\u00e3o.\u00a0E uma pessoa que tenha como objetivo na vida espalhar o bem e proporcionar o bem,\u00a0n\u00e3o s\u00f3 em termos de produ\u00e7\u00e3o e de dinheiro e de lucro que a empresa possa dar,\u00a0mas puder dar e proporcionar o bem aos seus colaboradores, \u00e9 uma maravilha.\u00a0Olhe veja o exemplo do Rui Nabeiro, por exemplo, \u00e9 uma figura de que o pa\u00eds inteiro gosta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ao n\u00edvel do combate ao tr\u00e1fico e \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o ilegal, nota alguma melhoria\u00a0ou situa\u00e7\u00f5es como a de Odemira podem ainda vir a ocorrer num futuro pr\u00f3ximo?<\/em><\/p>\n<p>Eu tenho notado uma melhoria, porque as inst\u00e2ncias ligadas \u00e0 pol\u00edcia, GNR, Prote\u00e7\u00e3o Civil, est\u00e3o mais despertas. H\u00e1 todo um conjunto de pessoas que est\u00e3o ligadas \u00e0s quest\u00f5es de seguran\u00e7a,\u00a0sejam elas de que n\u00edvel for, em alerta. Eu n\u00e3o vou dizer que ficaram com um punhal em cima da cabe\u00e7a,\u00a0mas a verdade \u00e9 que as pessoas acordaram para uma realidade que estava a acontecer, muito triste,\u00a0e ent\u00e3o come\u00e7aram elas pr\u00f3prias a autorregular-se e tamb\u00e9m os seus efetivos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 mais consci\u00eancia das empresas tamb\u00e9m?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, est\u00e3o muito mais conscientes. A pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, apesar de se ver \u00e0s vezes receio, medo, algum preconceito e tal\u2026 no fundo, h\u00e1 aquela sensa\u00e7\u00e3o de que escravizar o outro e maltratar n\u00e3o \u00e9 um bom caminho.<\/p>\n<p>Por muito medo que as pessoas tenham, percebem que tamb\u00e9m n\u00e3o se pode fazer isso \u00e0s outras pessoas. Portanto, h\u00e1 aqui um trabalho de sensibiliza\u00e7\u00e3o muito grande no crescimento de todos n\u00f3s, de cada um.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Al\u00e9m dessas situa\u00e7\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o laboral, da precariedade habitacional,\u00a0das dificuldades de integra\u00e7\u00e3o destas comunidades na sociedade local. \u00c9\u00a0preciso ter em considera\u00e7\u00e3o que a transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, sobretudo na agricultura e na zona envolvente do Alqueva, muitas vezes tem uma fatura humana severa. Na resposta di\u00e1ria da C\u00e1ritas, que rosto humano tem essa fatura?<\/em><\/p>\n<p>Sempre que algu\u00e9m est\u00e1 a passar frio, ou agora com estes calores infernais que n\u00f3s temos tido,\u00a0\u00e9 sempre terr\u00edvel.\u00a0Enquanto C\u00e1ritas, tentamos sempre, neste trabalho de descentraliza\u00e7\u00e3o,\u00a0e sempre, sempre tendo presente que a C\u00e1ritas de Beja n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a cidade de Beja &#8211; s\u00e3o os 17 concelhos, e por isso fazemos descentraliza\u00e7\u00e3o,\u00a0temos programas, por exemplo, de priva\u00e7\u00e3o material,\u00a0em que vamos aos outros concelhos levar mantimentos, roupas, se for necess\u00e1rio. Temos as coisas organizadas,\u00a0temos volunt\u00e1rios a fazer triagem, para tamb\u00e9m levar roupas.\u00a0Agora, a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o \u00e9 mesmo uma quest\u00e3o muito grave,\u00a0porque ainda este ano houve aqui uma situa\u00e7\u00e3o de uma casa particular,\u00a0que fazia aluguer, e depois havia subaluguer, at\u00e9 que entrou em derrocada e foi muito complicado.<\/p>\n<p>Com as intemp\u00e9ries, porque depois aquela chuva toda come\u00e7ou a estragar os materiais de constru\u00e7\u00e3o, s\u00e3o f\u00e1ceis as roturas e as derrocadas.\u00a0Mas mesmo nestas situa\u00e7\u00f5es, as entidades parceiras d\u00e3o as m\u00e3os e rapidamente se resolveu a situa\u00e7\u00e3o.\u00a0Estou a lembrar-me de uma situa\u00e7\u00e3o que foi mesmo aqui na cidade de Beja,\u00a0em que n\u00f3s temos um espa\u00e7o de feiras e exposi\u00e7\u00f5es,\u00a0que \u00e9 onde se faz normalmente a Ovibeja,\u00a0e um pavilh\u00e3o ficou imediatamente reservado para acolher aquelas pessoas\u00a0que tinham ficado sem casa.<\/p>\n<p>Houve um trabalho de parceria muito grande, mesmo com as outras institui\u00e7\u00f5es de solidariedade social.Colmataram-se os problemas. Por exemplo, aqui, na C\u00e1ritas &#8211; estou a falar da sede -temos uma comunidade de inser\u00e7\u00e3o onde tamb\u00e9m h\u00e1 camas e onde alojamos pessoas. O mesmo aconteceu noutros s\u00edtios.\u00a0Eu acho que, nesse sentido, h\u00e1 parcerias muito boas com as entidades.\u00a0Ningu\u00e9m faz nada s\u00f3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tendo em conta o trabalho de proximidade da Igreja Cat\u00f3lica,\u00a0como \u00e9 que a C\u00e1ritas tem atuado na desconstru\u00e7\u00e3o de preconceitos\u00a0e na media\u00e7\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o residente e os imigrantes,\u00a0para se garantir que esta mudan\u00e7a demogr\u00e1fica gera coes\u00e3o social\u00a0e n\u00e3o fraturas, como alguns tentam expor?<\/em><br \/>\nEstamos sempre em unidade com o bispo.\u00a0Por sua vez, ele vai aos encontros arciprestais\u00a0e trabalha com os nossos padres, os nossos sacerdotes.\u00a0E depois temos todo o conjunto de leigos\u00a0que est\u00e3o organizados na catequese, ou visitadores de pessoas em casa,\u00a0ou que trabalham em v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Temos a C\u00e1ritas nas escolas.\u00a0S\u00e3o projetos da C\u00e1ritas portuguesa, que valorizam a\u00a0Educa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento. Atrav\u00e9s desses ve\u00edculos e tamb\u00e9m da comunica\u00e7\u00e3o social,\u00a0porque a Diocese tem tamb\u00e9m um ve\u00edculo de comunica\u00e7\u00e3o, e\u00a0a C\u00e1ritas tamb\u00e9m tem para as suas necessidades, e para o seu site.<\/p>\n<p>Vamos tentando chegar a todos. Temos um projeto de voluntariado que est\u00e1 a trabalhar fortemente para criar grupos paroquiais de a\u00e7\u00e3o social,\u00a0que localmente v\u00e3o trabalhar todas essas coisas.\u00a0N\u00f3s tentamos ligar a parte da quest\u00e3o da evangeliza\u00e7\u00e3o\u00a0e de tudo o que tem a ver com a transmiss\u00e3o da Boa Nova, desta forma de estar que a Igreja Cat\u00f3lica tem. Ligamos, depois, \u00e0s quest\u00f5es da \u2018Laudato Si\u2019,\u00a0a prote\u00e7\u00e3o da casa comum.\u00a0Isto \u00e9 tudo uma multiplicidade de aspetos que t\u00eam de ser trabalhados em unidade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E as recentes interven\u00e7\u00f5es do Papa Le\u00e3o,\u00a0quer em Tenerife, quer em Lampedusa,\u00a0d\u00e3o for\u00e7a a quem est\u00e1 no terreno? <\/em><\/p>\n<p>Muita for\u00e7a. Temos um Papa e uma Igreja que est\u00e1 aberta,\u00a0e que est\u00e1 de olhos bem abertos, e ouvidos bem abertos,\u00a0para o que est\u00e1 a acontecer,\u00a0e com um term\u00f3metro muito preciso sobre o que \u00e9 que h\u00e1 a fazer, \u00e9 muito importante.\u00a0Temos j\u00e1 imensos padres na Diocese de Beja que s\u00e3o africanos, por exemplo.\u00a0\u00c9 uma riqueza enorme, n\u00e3o \u00e9?\u00a0A \u00c1frica j\u00e1 est\u00e1, ela pr\u00f3pria, tamb\u00e9m, no seu processo de evangeliza\u00e7\u00e3o,\u00a0tamb\u00e9m a retribuir muito o que os portugueses tamb\u00e9m fizeram,\u00a0e isso \u00e9 mesmo a casa comum. N\u00f3s temos de olhar para o mundo como a casa comum,\u00a0como o nosso Papa Francisco dizia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E como \u00e9 que os migrantes interpretam este preconceito,\u00a0este discurso nacionalista e mesmo populista?<\/em><\/p>\n<p>Eles t\u00eam receio.\u00a0T\u00eam receio, porque isto n\u00e3o \u00e9 uma coisa que esteja s\u00f3 a acontecer em Portugal. Em Espanha passa-se o mesmo, por toda a Europa tamb\u00e9m.\u00a0Porqu\u00ea? Porque tudo isso se baseia muito no medo.\u00a0V\u00e3o incutindo medo nas pessoas sobre o que \u00e9 diferente, mas a verdade \u00e9 que, quando se conhece, tudo \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Havia um prov\u00e9rbio africano que dizia que ningu\u00e9m ama o que n\u00e3o conhece.\u00a0E uma vez aprendi tamb\u00e9m com um senhor cigano, um patriarca de uma fam\u00edlia,\u00a0a dizer que para conhecer o que est\u00e1 dentro de um cesto com tampa,\u00a0n\u00f3s temos de levantar a tampa,\u00a0porque sen\u00e3o n\u00f3s nunca vamos saber o que \u00e9 que est\u00e1 dentro do cesto.\u00a0E o que se passa \u00e9 que sempre que conhecemos outro que vem de outra terra, que tem outra forma de estar, se n\u00e3o nos relacionamos, se n\u00e3o estamos abertos ao conhecimento, n\u00e3o conseguimos amar bem a pessoa e acolh\u00ea-la e vice-versa.\u00a0Porque n\u00f3s n\u00e3o podemos pensar que isto \u00e9 um trabalho s\u00f3 do portugu\u00eas que aqui est\u00e1,\u00a0que vive, do aut\u00f3ctone, para com quem chega.\u00a0\u00c9 tamb\u00e9m um trabalho que se tem de fazer junto de quem vem,\u00a0de estar aberto tamb\u00e9m a esta reciprocidade na rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 bocado veio-me \u00e0 mem\u00f3ria\u00a0Jo\u00e3o Paulo II,\u00a0porque est\u00e1 por tr\u00e1s esta ideia da constru\u00e7\u00e3o da civiliza\u00e7\u00e3o do amor,\u00a0de que ele falava tanto e que j\u00e1 Paulo VI tamb\u00e9m tinha referido.\u00a0Portanto, \u00e9 isto que n\u00f3s temos de fazer,\u00a0\u00e9 olhar para o planeta como a casa comum,\u00a0como Francisco nos disse,\u00a0e querer construir a civiliza\u00e7\u00e3o do amor,\u00a0em que se n\u00e3o vamos ao encontro do outro,\u00a0e se n\u00e3o estamos abertos para o acolher e para o conhecer,\u00a0n\u00e3o h\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de constru\u00e7\u00e3o conjunta de nada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia seguinte ao Dia Mundial da Popula\u00e7\u00e3o, e dias depois do Instituto 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