{"id":434108,"date":"2026-07-13T09:51:37","date_gmt":"2026-07-13T08:51:37","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=434108"},"modified":"2026-07-10T16:55:12","modified_gmt":"2026-07-10T15:55:12","slug":"a-arte-do-silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-arte-do-silencio\/","title":{"rendered":"A arte do sil\u00eancio\u00a0"},"content":{"rendered":"<p><em>Paulo Adriano, Diocese de Leira F\u00e1tima<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-434109 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Paulo-Adriano-2.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/>Vivemos numa civiliza\u00e7\u00e3o que desenvolveu uma profunda desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao sil\u00eancio. Os nossos dias s\u00e3o preenchidos por notifica\u00e7\u00f5es, mensagens, v\u00eddeos, podcasts, reuni\u00f5es, coment\u00e1rios e opini\u00f5es permanentes. Quando uma conversa termina, outra come\u00e7a; quando uma not\u00edcia desaparece, outra ocupa imediatamente o seu lugar; quando surge um acontecimento, espera-se uma reac\u00e7\u00e3o r\u00e1pida; e, quando algu\u00e9m se cala, muitos perguntam de imediato: \u00abPorque n\u00e3o disse nada?\u00bb.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio tornou-se desconfort\u00e1vel. Por vezes, \u00e9 interpretado como aus\u00eancia; outras vezes, como fraqueza; noutras ocasi\u00f5es ainda, como falta de posicionamento, de compet\u00eancia ou de coragem. Contudo, ao percorrer os Evangelhos, encontramos uma realidade surpreendente: Jesus n\u00e3o comunica apenas atrav\u00e9s das palavras, comunica tamb\u00e9m atrav\u00e9s do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o pode parecer paradoxal. Quando pensamos em Jesus, recordamos os seus discursos, as par\u00e1bolas, as perguntas que fazia e as multid\u00f5es que o escutavam. Por\u00e9m, os Evangelhos revelam repetidamente algu\u00e9m que sabe quando falar e, de modo decisivo, quando n\u00e3o falar. O sil\u00eancio n\u00e3o surge em Jesus como incapacidade de responder ou como aus\u00eancia de algo a dizer; surge como escolha consciente. E isso faz toda a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>Uma das cenas mais impressionantes encontra-se durante o julgamento diante de Pilatos. Acusado, pressionado e confrontado pelas autoridades, Jesus permanece em sil\u00eancio perante v\u00e1rias acusa\u00e7\u00f5es. O Evangelho de Mateus relata que Pilatos ficou admirado com essa atitude (Mt 27, 14), e a sua reac\u00e7\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel: quem enfrenta uma amea\u00e7a t\u00e3o s\u00e9ria procura normalmente justificar-se, defender-se ou responder aos ataques. Jesus, por\u00e9m, faz algo diferente. Cala-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o se cala por falta de argumentos. N\u00e3o se cala porque tenha desistido. Cala-se porque compreende que existem momentos em que a verdade n\u00e3o se imp\u00f5e atrav\u00e9s do ru\u00eddo. O sil\u00eancio de Cristo durante a Paix\u00e3o possui uma profundidade que ultrapassa a mera aus\u00eancia de palavras. Trata-se de uma forma de presen\u00e7a, de um sil\u00eancio carregado de significado, liberdade e fidelidade \u00e0 sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente esta dimens\u00e3o que torna o sil\u00eancio de Jesus t\u00e3o desafiante para o nosso tempo. Vivemos numa cultura da reac\u00e7\u00e3o permanente. As redes sociais aceleraram uma tend\u00eancia que j\u00e1 existia: a convic\u00e7\u00e3o de que tudo exige coment\u00e1rio imediato, de que todas as situa\u00e7\u00f5es requerem uma tomada de posi\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e de que permanecer em sil\u00eancio equivale, aos olhos de muitos, a falhar.<\/p>\n<p>A velocidade altera a nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo. Quando tudo acontece demasiado depressa, diminui a capacidade de reflex\u00e3o, de contempla\u00e7\u00e3o e de discernimento. Reagimos mais, mas compreendemos menos. Jesus segue uma l\u00f3gica oposta. Em contraponto, os Evangelhos mostram algu\u00e9m que n\u00e3o vive dominado pela urg\u00eancia das reac\u00e7\u00f5es. Jesus retira-se para lugares solit\u00e1rios, afasta-se das multid\u00f5es, procura momentos prolongados de ora\u00e7\u00e3o e permite que o sil\u00eancio fa\u00e7a parte integrante da sua exist\u00eancia. Antes de grandes decis\u00f5es, encontramo-lo frequentemente em recolhimento: antes da escolha dos Doze, passa a noite em ora\u00e7\u00e3o; antes da Paix\u00e3o, dirige-se ao Gets\u00e9mani; depois de dias intensos de actividade p\u00fablica, procura lugares desertos. O sil\u00eancio n\u00e3o constitui uma interrup\u00e7\u00e3o da sua miss\u00e3o. \u00c9 parte essencial dessa miss\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. Nem todo o sil\u00eancio \u00e9 significativo. Existe o sil\u00eancio da indiferen\u00e7a, da omiss\u00e3o e do medo. Mas existe tamb\u00e9m um sil\u00eancio fecundo, capaz de gerar compreens\u00e3o, escuta e discernimento. Sem ele, as palavras perdem densidade e tornam-se superficiais, porque a comunica\u00e7\u00e3o humana necessita de pausas da mesma forma que a m\u00fasica necessita dos intervalos entre as notas.<\/p>\n<p>Uma das grandes dificuldades contempor\u00e2neas encontra-se precisamente aqui: produzimos cada vez mais mensagens, mas dedicamos cada vez menos tempo ao sil\u00eancio que lhes poderia conferir profundidade. O resultado \u00e9 frequentemente uma comunica\u00e7\u00e3o saturada, cansada e excessivamente reactiva. Falamos muito, escutamos pouco e reflectimos ainda menos.<\/p>\n<p>Jesus prop\u00f5e um caminho diferente. Um caminho em que o sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 inimigo da comunica\u00e7\u00e3o, mas o seu aliado. Os grandes encontros descritos nos Evangelhos s\u00e3o frequentemente marcados por momentos de pausa, escuta e contempla\u00e7\u00e3o. Jesus n\u00e3o demonstra ansiedade perante o sil\u00eancio, nem sente necessidade de preencher todos os espa\u00e7os com palavras. A sua seguran\u00e7a n\u00e3o depende de estar constantemente a falar.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma das li\u00e7\u00f5es mais actuais para comunicadores, l\u00edderes, educadores, agentes pastorais e para qualquer pessoa que deseje comunicar melhor. Nem sempre a resposta mais r\u00e1pida \u00e9 a melhor resposta. Nem sempre a reac\u00e7\u00e3o mais imediata \u00e9 a mais s\u00e1bia. Nem sempre falar mais significa comunicar melhor.<\/p>\n<p>Jesus compreendia isto profundamente. \u00c9 por essa raz\u00e3o que os seus sil\u00eancios continuam a falar ainda hoje. Num mundo saturado de ru\u00eddo, recordam-nos que comunicar n\u00e3o consiste apenas em transmitir mensagens; consiste tamb\u00e9m em criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que essas mensagens possam ser verdadeiramente acolhidas. Porque, por vezes, a palavra mais importante n\u00e3o \u00e9 aquela que pronunciamos, mas aquela que deixamos amadurecer no sil\u00eancio.<\/p>\n<p><em>Paulo Adriano<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Adriano, Diocese de Leira F\u00e1tima<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":434109,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-434108","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/434108","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=434108"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/434108\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":434110,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/434108\/revisions\/434110"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/434109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=434108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=434108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=434108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}