{"id":434090,"date":"2026-07-11T09:17:59","date_gmt":"2026-07-11T08:17:59","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=434090"},"modified":"2026-07-10T16:20:20","modified_gmt":"2026-07-10T15:20:20","slug":"ate-que-enfim-alguem-fala-comigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ate-que-enfim-alguem-fala-comigo\/","title":{"rendered":"\u00abAt\u00e9 que enfim \u2013 Algu\u00e9m fala comigo\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>H\u00e1 palavras que caem em n\u00f3s como pancadas de bombos de despertar. E aquelas palavras ca\u00edram nos nossos ouvidos precisamente quando hav\u00edamos acabado de ler a enc\u00edclica papal \u201cMagnifica Humanitas\u201d de Le\u00e3o XIV. Naqueles dias o documento papal era at\u00e9 a ordem do dia nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. Por pouco tempo. Hoje j\u00e1 pouco se fala dele, embora continue na lista dos livros mais vendidos nas livrarias.<\/p>\n<p>Foi numa manh\u00e3 de Junho que pass\u00e1mos por ali e o calor j\u00e1 se fazia sentir naquela rua de Lisboa situada entre o edif\u00edcio de uma igreja de linhas modernas e um grande centro comercial em forma de circo estrategicamente pensado para servir um aglomerado habitacional com edif\u00edcios de dez andares. Uma urbaniza\u00e7\u00e3o desenhada a esquadro, toda ela \u00e9 geometria. Tamb\u00e9m \u00e9 geom\u00e9trica aquela rua. Com duas faixas de rodagem separadas por uma linha verde e com passeios avantajados para pe\u00f5es s\u00f3 quebrados por linhas de estacionamento para autom\u00f3veis, aquela rua, nascendo numa pequena rotunda, desemboca numa rotunda maior que circunda o centro comercial. Era para l\u00e1 que nos encaminh\u00e1vamos. Uma visita de circunst\u00e2ncia e sem import\u00e2ncia digna de nota.<\/p>\n<p>Naquele dia os jacarand\u00e1s floridos que alindavam aquele espa\u00e7o iam pintando tamb\u00e9m de azul-lil\u00e1s os passeios com p\u00e9talas que o vento fazia tombar dos ramos e que os passos dos transeuntes iam esmagando sem qualquer considera\u00e7\u00e3o. L\u00e1 ao fundo um trabalhador arrastava um carrinho de limpeza. Parou e come\u00e7ou a varrer. Do nosso lado, do lado do nosso caminhar. Era naquela direc\u00e7\u00e3o que segu\u00edamos enquanto \u00edamos olhando para os jacarand\u00e1s cuja beleza desafiava a nossa aten\u00e7\u00e3o. A dois ou tr\u00eas passos de dist\u00e2ncia, fomos identificando o varredor.<\/p>\n<p>Hav\u00edamo-lo conhecido h\u00e1 longos anos em tempos da sua juventude a lidar, no meio de outros jovens da sua idade, com os seus problemas de sa\u00fade. De sa\u00fade mental \u00e9 verdade, mas a que nunca faltava aquela sa\u00fade espiritual de crian\u00e7a que sempre o caracterizava. O tempo passou, os amigos da sua idade foram dispersando e ele por ali ficou acabando por arranjar trabalho no munic\u00edpio. O trabalho de varredor da rua que ele vem realizando com o empenho e dedica\u00e7\u00e3o que a sua situa\u00e7\u00e3o lhe permitia. Par\u00e1mos e cumpriment\u00e1mo-lo com efusividade a que ele correspondeu com uma alegria transbordante, sorriso nos l\u00e1bios e logo um lamento incontido:<\/p>\n<p>&#8211; At\u00e9 que enfim, algu\u00e9m fala comigo.<\/p>\n<p>Foram as primeiras palavras que lhe ouvimos, mesmo antes de mostrar sinais de que nos havia reconhecido. E, passados tantos anos, reconheceu-nos muito bem como o mostrou pela conversa de alguns minutos que com ele mantivemos. A alegria inicial sentida com o nosso encontro foi logo contrastada a lamentar-se que os amigos o haviam esquecido. N\u00f3s bem tent\u00e1mos fazer-lhe entender que esses amigos viviam agora longe e que a vida n\u00e3o lhes permitiria os contactos desejados.<\/p>\n<p>&#8211; Mas eles t\u00eam o n\u00famero do meu telefone e nem sequer me telefonam. \u2013 Respondeu-nos com acentuada manifesta\u00e7\u00e3o de tristeza, enquanto apontava para alguns nomes.<\/p>\n<p>H\u00e1 palavras que se ouvem no sil\u00eancio acentuado pelo barulho estonteante das ruas. Quantos varredores de quantas cidades e aldeias limpam as ruas que n\u00f3s sujamos e que nunca ouvem uma palavra de sauda\u00e7\u00e3o vinda de quem passa!<\/p>\n<p>Le\u00e3o XIV vem falando na import\u00e2ncia de \u00abdesarmar as palavras\u00bb e a express\u00e3o j\u00e1 vem sendo cunhada como marca da sua linguagem e do seu magist\u00e9rio. Naturalmente ela aparece na \u201cMagnifica Humanitas\u201d. H\u00e1 palavras e palavras. E h\u00e1 a palavra do sil\u00eancio.<\/p>\n<p>Regress\u00e1mos a casa. Abri novamente a enc\u00edclica papal. O encontro com este varredor foi a confirma\u00e7\u00e3o das palavras do Pont\u00edfice: \u00ab<em>O poder das palavras \u00e9 enorme e experimentamo-lo na comunica\u00e7\u00e3o quotidiana, quando algu\u00e9m nos diz algo que altera o nosso estado de esp\u00edrito, para melhor ou para pior.<strong>\u00bb <\/strong><\/em>[214]<\/p>\n<p>H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es em que \u00abdesarmar as palavras\u00bb \u00e9 desarmar o sil\u00eancio perante as desumanidades por que passamos enquanto pisamos p\u00e9talas coloridas dos jacarand\u00e1s.<\/p>\n<p><em>Guarda, 8 de Julho de 2026<\/em><br \/>\n<em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado<\/em><br \/>\n<em>morgado.salvado@gmail.com<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da 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