{"id":43305,"date":"2010-02-01T13:26:36","date_gmt":"2010-02-01T13:26:36","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/02\/01\/intervencao-de-d-manuel-clemente-no-6-o-encontro-de-referentes-da-pastoral-da-cultura\/"},"modified":"2010-02-01T13:26:36","modified_gmt":"2010-02-01T13:26:36","slug":"intervencao-de-d-manuel-clemente-no-6-o-encontro-de-referentes-da-pastoral-da-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/intervencao-de-d-manuel-clemente-no-6-o-encontro-de-referentes-da-pastoral-da-cultura\/","title":{"rendered":"Interven\u00e7\u00e3o de D. Manuel Clemente no 6.\u00ba Encontro de Referentes da Pastoral da Cultura"},"content":{"rendered":"<p>Sobrevivemos de tempos muito desiguais. Desiguais os deuses e os homens, desiguais os soberanos e os s&uacute;bditos, desiguais os homens e as mulheres, desiguais os senhores e os escravos, desiguais os brancos e os negros, desiguais os povos e os grupos&hellip; Nem se tratava de questionar tais desigualdades, mas, na melhor das hip&oacute;teses, de moriger&aacute;-las por motiva&ccedil;&otilde;es religiosas, filantr&oacute;picas ou s&oacute;cio-econ&oacute;micas. De tudo temos exemplos e alguns muito relevantes.<\/p>\n<p>Com essa desigualdade estrutural ligava-se a grande estabilidade social, do tipo &ldquo;sempre foi assim&rdquo;, como ainda se ouve resquicialmente. A pouco e pouco, mais na Europa do que noutras partes do mundo, verificou-se uma outra mobilidade de pessoas e &ldquo;percursos&rdquo;, do com&eacute;rcio &agrave; cultura. Menos fixa em castelos ou glebas, uma popula&ccedil;&atilde;o nova foi-se afirmando nas cidades modernas, onde a variedade de mercadorias e not&iacute;cias acelerou as iniciativas e modificou as atitudes, reivindicando e alcan&ccedil;ando a possibilidade de ser assim.<\/p>\n<p>Foi nesta &ldquo;modernidade&rdquo; que apareceram as nossas democracias, que depois export&aacute;mos tanto quanto, mundo al&eacute;m. Tanto quanto, porque dificilmente se implantam onde n&atilde;o existem as condi&ccedil;&otilde;es s&oacute;cio-culturais que as originaram.<\/p>\n<p>Fosse como fosse, das revolu&ccedil;&otilde;es setecentistas &agrave; Declara&ccedil;&atilde;o Universal dos Direitos do Homem (ONU, 1948), prosseguiu-se num caminho geral que, ao menos na teoria, &eacute; certamente um ganho. Para os cat&oacute;licos, mormente desde Jo&atilde;o XXIII e o Conc&iacute;lio Vaticano II, &eacute; tamb&eacute;m um compromisso refor&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Tanto mais que o pr&oacute;prio Cristianismo deu um contributo decisivo nesse sentido. Basicamente e culminando a tradi&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica anterior, o contributo &eacute; a pessoa de Jesus Cristo, no que nos revelou sobre Deus e sobre o homem. Como sabemos, quer no c&iacute;rculo mais pr&oacute;ximo de Jesus, quer nas comunidades que brotaram da sua P&aacute;scoa, o Evangelho incarnou igualmente em homens e mulheres, nobres e plebeus, gente daqui ou dali. Tudo fundado no ensinamento central sobre um &ldquo;Pai&rdquo; que a todos nos cria e nos espera, pelo caminho da filia&ccedil;&atilde;o divina que o mesmo Cristo nos abriu e possibilita pelo Esp&iacute;rito comunicado. Como na sua despedida &ndash; convite: &ldquo;Subo para o meu Pai, que &eacute; vosso Pai, para o meu Deus, que &eacute; vosso Deus&rdquo; (Jo 20, 17).<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o a esse fim comum, a igualdade &eacute; absoluta, em termos de oportunidade. Dizia-o Paulo aos baptizados, com uma clareza que desafiava radicalmente a sua &eacute;poca e n&atilde;o s&oacute;: &ldquo;&Eacute; que todos v&oacute;s sois filhos de Deus em Cristo Jesus, mediante a f&eacute;; pois todos os que fostes baptizados em Cristo, revestistes-vos de Cristo mediante a f&eacute;. N&atilde;o h&aacute; judeu nem grego; n&atilde;o h&aacute; escravo nem livre; n&atilde;o h&aacute; homem e mulher, porque todos sois um s&oacute; em Cristo Jesus&rdquo; (Gl 3, 26-28).<\/p>\n<p>&Eacute; tamb&eacute;m reconhecida a admira&ccedil;&atilde;o que as comunidades crist&atilde;s causavam aos seus conterr&acirc;neos pag&atilde;os, exactamente por reunirem senhores e servos, homens e mulheres, aut&oacute;ctones e estrangeiros. Ainda hoje a causam aqui e ali, sendo por isso prof&eacute;ticas. (Mesmo num pa&iacute;s como o nosso, as assembleias dominicais s&atilde;o quase a &uacute;nica ocasi&atilde;o em que se re&uacute;nem sistematicamente pessoas de v&aacute;rias condi&ccedil;&otilde;es sociais, proveni&ecirc;ncias e idades, para louvar o mesmo Deus, ouvir a mesma Palavra e comungar da mesma Vida). Contrafac&ccedil;&otilde;es havia, certamente, como infelizmente se podem reproduzir. Mas essa igualdade de subst&acirc;ncia e destino estava assegurada pela inquestion&aacute;vel pessoa do constante &ldquo;Fundador do Cristianismo&rdquo;.<\/p>\n<p>At&eacute; &agrave;s permanentes deslocaliza&ccedil;&otilde;es contempor&acirc;neas, era maioritariamente celebrada em espa&ccedil;os habituais e comuns (tratava-se de &ldquo;fregueses&rdquo; &#8211; filhos da mesma Igreja, mesmo geograficamente falando). Igualdade tamb&eacute;m assinalada por comunidades &ldquo;religiosas&rdquo; (mon&aacute;sticas, conventuais, etc), que constitu&iacute;ram a possibilidade mais concreta de mudan&ccedil;a, inova&ccedil;&atilde;o e &ldquo;ascens&atilde;o&rdquo; s&oacute;cio-cultural para tantos dos seus membros, no masculino e no feminino. N&atilde;o admira assim que, at&eacute; por n&atilde;o-cat&oacute;licos, a trilogia da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa &ndash; Liberdade, Igualdade, Fraternidade &ndash; fosse tamb&eacute;m ligada &agrave; heran&ccedil;a crist&atilde;.<\/p>\n<p>Diga-se, no entanto, que os progressos da igualdade, mesmo quando conseguiram o sufr&aacute;gio universal para homens e mulheres de todas as ra&ccedil;as, ou quando abriram a todos as possibilidades profissionais e pol&iacute;ticas, mantiveram as distin&ccedil;&otilde;es de origem territorial e fisiol&oacute;gica, naturalmente consideradas e aceites (prioridade aos locais de nascimento ou &ldquo;naturaliza&ccedil;&atilde;o&rdquo; para as decis&otilde;es locais, complementaridade masculino &ndash; feminino na fam&iacute;lia e na sociedade, por exemplo).<\/p>\n<p>Mas temos de considerar um certo &ldquo;trope&ccedil;o da indistin&ccedil;&atilde;o&rdquo;, surgido no caminho da igualdade. A par do movimento s&oacute;cio-pol&iacute;tico geral j&aacute; esbo&ccedil;ado, a Europa conheceu de h&aacute; um s&eacute;culo para c&aacute; uma acelera&ccedil;&atilde;o extraordin&aacute;ria da ci&ecirc;ncia e da t&eacute;cnica, com a mentalidade conexa. Trazidas do campo da &ldquo;natureza&rdquo; para a pessoa humana, come&ccedil;ou esta a ser encarada mais como algo a &ldquo;produzir&rdquo; do que simplesmente a &ldquo;reproduzir&rdquo;. Mais do que como produto da natureza, o ser homem ou mulher come&ccedil;ou a ser encarado como g&eacute;nero cultural de escolha livre. N&atilde;o se trata j&aacute; de evoluir dentro do que se &eacute; agora, mas de escolher o que se queira ou se &ldquo;sinta&rdquo; ser, alterando a fisiologia pela tecnologia. Por isso, a igualdade, no sentido essencial que buscava, p&ocirc;de dar lugar &agrave; indistin&ccedil;&atilde;o, como possibilidade e at&eacute; &ldquo;legitimidade&rdquo; de se ser &agrave; escolha ou sucessivamente.<\/p>\n<p>Culturalmente, andar&aacute; por perto, em tempos ainda p&oacute;s-modernos, a deriva libert&aacute;ria do liberalismo, ou seja, a vontade de ser tudo, sem &ldquo;limites&rdquo; naturais ou institucionais de qualquer esp&eacute;cie. Apetece-se a osmose, mais do que a rela&ccedil;&atilde;o propriamente dita.<\/p>\n<p>&ldquo;Rela&ccedil;&atilde;o&rdquo;, de facto, sup&otilde;e distin&ccedil;&otilde;es de raiz. Ningu&eacute;m &eacute; absoluto, antes relativo, pois s&oacute; na interdepend&ecirc;ncia das diferen&ccedil;as se realiza como pessoa, isto &eacute;, ser em rela&ccedil;&atilde;o. Por isso tamb&eacute;m, o g&eacute;nero ou a ra&ccedil;a, a localiza&ccedil;&atilde;o e cada cultura, n&atilde;o s&atilde;o necessariamente &ldquo;limites&rdquo; &agrave; igualdade essencial a realizar, mas possibilidades de ser com os outros, dando e recebendo mutuamente, porque os outros s&atilde;o na verdade outros e n&oacute;s os outros dos e para os outros. Querer&aacute; isto dizer que a igualdade s&oacute; pode acontecer entre seres distintos que partilhem o que t&ecirc;m: acontece como possibilidade e resultado, n&atilde;o como indistin&ccedil;&atilde;o &ldquo;irrespons&aacute;vel&rdquo;. Entre absolutamente id&ecirc;nticos n&atilde;o haveria campo para a igualdade, porque esta se define na rela&ccedil;&atilde;o, o mesmo se dizendo para a liberdade a fraternidade.<\/p>\n<p>O tema &eacute; muito mais amplo. Come&ccedil;a por ser teol&oacute;gico, pois na considera&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica da humanidade cada um de n&oacute;s integra um todo que se realiza na distin&ccedil;&atilde;o e na complementaridade. Iguais, conjugando masculino e feminino, na primeira express&atilde;o familiar da sociabilidade; iguais, na especificidade dos v&aacute;rios &oacute;rg&atilde;os dum s&oacute; corpo, como Paulo lembrava aos cor&iacute;ntios (cf. 1 Cor 12, 12 ss). Iguais, mas no espanto daqueles povos todos que, sem deixaram de o ser, ouviram anunciar, na l&iacute;ngua de cada um, as maravilhas de Deus (cf. Act 2, 7 ss). E n&oacute;s crist&atilde;os sabemos &ndash; como outros, ali&aacute;s, o intuem &ndash; que tudo &eacute; assim, complementarmente igual, porque o pr&oacute;prio Deus o &eacute; antes de mais, na sua unitrindade: Pai e Filho no amor do Esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Pistas apenas, para a reflex&atilde;o que nos aproxime em igual prop&oacute;sito.<\/p>\n<p>Para a cultura e a sua pastoral, poderemos tirar algumas &ldquo;pistas&rdquo; de reflex&atilde;o e trabalho, Como as seguintes: 1) Ligar propostas evangelizadoras e realidades locais, valorizando lugares, tradi&ccedil;&otilde;es e modos e potenciando-os para o futuro, como identidades intercambiadas. 2) Aprofundar b&iacute;blica, antropol&oacute;gica e culturalmente os modos femininos e masculinos &ndash; aut&oacute;ctones e imigrados -, para o enriquecimento comum e detalhado.<\/p>\n<p>F&aacute;tima, 30 de Janeiro de 2010<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobrevivemos de tempos muito desiguais. 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