{"id":432330,"date":"2026-06-28T09:31:50","date_gmt":"2026-06-28T08:31:50","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=432330"},"modified":"2026-06-27T14:56:17","modified_gmt":"2026-06-27T13:56:17","slug":"igreja-abusos-responsavel-nacional-pede-passagem-da-reacao-a-prevencao-de-situacoes-de-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-abusos-responsavel-nacional-pede-passagem-da-reacao-a-prevencao-de-situacoes-de-risco\/","title":{"rendered":"Igreja\/Abusos: Respons\u00e1vel nacional pede passagem da rea\u00e7\u00e3o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de \u00absitua\u00e7\u00f5es de risco\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Carla Rodrigues, coordenadora da Equipa de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional das Comiss\u00f5es Diocesanas de Prote\u00e7\u00e3o de Menores e Adultos Vulner\u00e1veis, \u00e9 a convidada deste domingo da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_432317\" aria-describedby=\"caption-attachment-432317\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-432317 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BK5A2174.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BK5A2174.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BK5A2174-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BK5A2174-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BK5A2174-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BK5A2174-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/BK5A2174-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-432317\" class=\"wp-caption-text\">Foto: In\u00eas Braga Sampaio\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>A recente Assembleia da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa anunciou a entrada numa \u201cnova fase\u201d, com novos modelos para a prote\u00e7\u00e3o de menores e adultos vulner\u00e1veis. Antes, D. Virg\u00edlio Antunes sublinhou que \u00e9 preciso dar \u00e0s Comiss\u00f5es Diocesanas o lugar que devem ter. Isto significa que as estruturas v\u00e3o ser refor\u00e7adas no seu papel? Que responsabilidades est\u00e3o preparadas para assumir?<\/em><\/p>\n<p>Antes de mais, come\u00e7ava por dizer que entrar numa nova fase significa, desde logo, consolidar e aprofundar aquilo que tem sido feito at\u00e9 agora. Como sabem, estamos desde 2019 a trabalhar o tema dos abusos sexuais, na sua preven\u00e7\u00e3o, no acolhimento.<\/p>\n<p>Isto passou por v\u00e1rias fases. Tivemos uma primeira fase em que estavam as Comiss\u00f5es Diocesanas e \u00e9 constitu\u00edda a Comiss\u00e3o Independente. Depois, numa segunda fase, temos o maior acolhimento, o melhor conhecimento da realidade e do flagelo que constituem os abusos sexuais.<\/p>\n<p>Surgem, ent\u00e3o, as Comiss\u00f5es Diocesanas, surge, nesta altura, a Equipa de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional e \u00e9 constitu\u00eddo o Grupo VITA. E desde essa altura, desde 2023, temos trabalhado em conjunto, em rede, posso dizer, de forma articulada no sentido do acolhimento, mas tamb\u00e9m da preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Relativamente, agora, \u00e0 segunda quest\u00e3o que colocou: o papel das Comiss\u00f5es Diocesanas, como \u00e9 sabido, \u00e9 o agente que est\u00e1 mais pr\u00f3ximo, \u00e9 o agente local, \u00e9 quem conhece a realidade de cada Diocese, \u00e9 quem consegue mover-se naquele territ\u00f3rio e conseguir averiguar e proceder \u00e0s dilig\u00eancias necess\u00e1rias. Por isso, obviamente, que \u00e9 necess\u00e1rio refor\u00e7ar o papel das Comiss\u00f5es Diocesanas, porque desde 2019 at\u00e9 \u00e0 atualidade, muito trabalho foi feito pelas Comiss\u00f5es Diocesanas em parceria com o Grupo VITA, com a Equipa de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional, no sentido de melhorarem, de tamb\u00e9m terem forma\u00e7\u00e3o, haver uma uniformiza\u00e7\u00e3o nos procedimentos a adotar junto das v\u00edtimas, e de todos aqueles que denunciam situa\u00e7\u00f5es de abuso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As Comiss\u00f5es Diocesanas do pa\u00eds t\u00eam hoje recursos humanos, meios financeiros e at\u00e9 autonomia suficiente para centralizar todo o processo de den\u00fancia e acompanhamento em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um tema pertinente, essa autonomia. Estamos a crescer nesse sentido. Dizer-lhe que temos total autonomia financeira, n\u00e3o. Temos autonomia e independ\u00eancia de decis\u00e3o, aquilo que \u00e9 um tema debatido muitas vezes sobre uma aparente depend\u00eancia das Comiss\u00f5es Diocesanas sobre a figura do bispo respetivo, isso n\u00e3o corresponde \u00e0 verdade, n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade e cabe tamb\u00e9m \u00e0 Equipa de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional ir acompanhando essas situa\u00e7\u00f5es. Cada Comiss\u00e3o Diocesana tem de atuar com total autonomia na tomada de decis\u00e3o, quer no acolhimento da v\u00edtima, na prote\u00e7\u00e3o, no encaminhamento para apoio a n\u00edvel de psicologia, de psiquiatria, espiritual, aquilo que se tornar necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Relativamente a uma autonomia financeira, n\u00e3o h\u00e1 porque as Comiss\u00f5es Diocesanas n\u00e3o t\u00eam at\u00e9 este momento um or\u00e7amento pr\u00f3prio. Como \u00e9 que isto na pr\u00e1tica funciona? Quando a Comiss\u00e3o Diocesana entende que uma v\u00edtima deve ser acompanhada; e deve ter acompanhamento de um psic\u00f3logo, de um psiquiatra, ent\u00e3o faz essa recomenda\u00e7\u00e3o ao bispo respetivo. Na medida em que cada Comiss\u00e3o Diocesana \u00e9 tamb\u00e9m o assessor, ou deve ser o assessor do bispo de cada diocese, nesta mat\u00e9ria de abusos sexuais, tenho-me apercebido que t\u00eam sido escutadas as recomenda\u00e7\u00f5es feitas pelas Comiss\u00f5es Diocesanas. A autonomia financeira n\u00e3o existe porque n\u00e3o temos um or\u00e7amento pr\u00f3prio, mas autonomia de decis\u00e3o, de averigua\u00e7\u00e3o e de recomenda\u00e7\u00e3o de den\u00fancia \u00e0s autoridades, sim, a\u00ed temos total autonomia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os bispos portugueses j\u00e1 disseram que est\u00e3o a pensar uma nova fase, na defini\u00e7\u00e3o de uma nova fase, e o presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, D. Virg\u00edlio Antunes, admitiu n\u00e3o saber se existir\u00e1 um novo organismo com o perfil do Grupo Vita, cuja continuidade tamb\u00e9m est\u00e1 agora em debate. Como avaliar o trabalho de articula\u00e7\u00e3o entre as Comiss\u00f5es Diocesanas e o Grupo Vita nos \u00faltimos anos?<\/em><\/p>\n<p>Considero atualmente a avalia\u00e7\u00e3o muito positiva. Come\u00e7a com algumas reservas de parte a parte, como acontece em todas as rela\u00e7\u00f5es que se iniciam. As Comiss\u00f5es Diocesanas j\u00e1 existiam desde 2019, o Grupo Vita quer implementar um determinado tipo de trabalho, uma forma de agir e \u00e9 \u00f3bvio que, como em todas as rela\u00e7\u00f5es, h\u00e1 sempre algumas resist\u00eancias pontuais.<\/p>\n<p>N\u00e3o estou a falar porque n\u00e3o \u00e9 verdade, n\u00e3o houve uma resist\u00eancia nacional e agora, decorrido este tempo, posso dizer que trabalhamos de forma articulada, aprendemos muito com o Grupo Vita, acredito que o Grupo Vita tamb\u00e9m tenha aprendido connosco e resultou daqui um trabalho profundo e o melhoramento, quer no que toca ao acompanhamento das v\u00edtimas, \u00e0 rece\u00e7\u00e3o da den\u00fancia, como tamb\u00e9m na forma\u00e7\u00e3o, na preven\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 a fase em que n\u00f3s estamos agora; a apostar fortemente na preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste momento, como dizia o comunicado da Assembleia Plen\u00e1ria Extraordin\u00e1ria, os v\u00e1rios organismos no terreno est\u00e3o a discutir o futuro. \u00c9 isso que est\u00e1 a acontecer agora?<\/em><\/p>\n<p>Neste momento a Igreja est\u00e1 a discutir esta quest\u00e3o da continua\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o do Grupo Vita, como \u00e9 do conhecimento p\u00fablico. Contudo, eu tamb\u00e9m considero que n\u00e3o \u00e9 aqui que se deve centrar o discurso, porque o que importa aqui \u00e9 a v\u00edtima. O centro \u00e9 a v\u00edtima, como eu j\u00e1 o disse v\u00e1rias vezes, o centro foi, \u00e9 e ser\u00e1 a v\u00edtima, e \u00e9 a\u00ed que temos de nos centrar. Seja qual for o futuro, o organismo novo que venha ou n\u00e3o a surgir, o que n\u00e3o pode \u00e9 haver uma diminui\u00e7\u00e3o da qualidade do trabalho, da quantidade de oferta formativa, tudo isso \u00e9 que deve manter-se. Se isto n\u00e3o for assegurado, a\u00ed sim alguma coisa de muito grave aconteceu pelo caminho. E nessa medida as Comiss\u00f5es Diocesanas e a equipa de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional t\u00eam trabalhado no sentido de agilizar mais forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E porque eu\u00a0insisto na Comiss\u00e3o Diocesana? Porque ningu\u00e9m melhor do que uma Comiss\u00e3o Diocesana conhece a realidade da sua Diocese; onde \u00e9 que \u00e9 mais urgente levar a cabo forma\u00e7\u00f5es. E n\u00f3s sem forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o temos preven\u00e7\u00e3o. Sem v\u00edtimas a denunciar tamb\u00e9m n\u00e3o temos. Reagimos sempre assim, nesta fase da vida j\u00e1 n\u00e3o, mas inicialmente n\u00f3s reagimos \u00e0 crise, n\u00f3s agora j\u00e1 estamos a trabalhar na preven\u00e7\u00e3o, ou seja, evitar uma nova crise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos olhar para os \u00faltimos anos, em particular os \u00faltimos dois, em que o processo de compensa\u00e7\u00e3o financeira \u00e0s v\u00edtimas dominou o debate na opini\u00e3o p\u00fablica. A partir do trabalho e destes contactos, sente que as v\u00edtimas olham hoje para a Igreja como um espa\u00e7o seguro, capaz de repara\u00e7\u00e3o, ou ainda h\u00e1 clima de desconfian\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>Eu considero que seria presun\u00e7oso da minha parte, ou da nossa parte, dizer que todas as v\u00edtimas confiam na Igreja e que a confian\u00e7a est\u00e1 restaurada. \u00c9 \u00f3bvio que n\u00e3o est\u00e1, isso \u00e9 de conhecimento geral. H\u00e1 pessoas que passaram por dores tremendas e n\u00e3o \u00e9 um processo de compensa\u00e7\u00e3o que vai apagar uma dor, nem \u00e9 isso, ou n\u00e3o era isso que se pretendia com este processo. Dizer que est\u00e1 restaurada a confian\u00e7a, n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 verdade, n\u00e3o est\u00e1 restaurada. Ali\u00e1s a confian\u00e7a de uma v\u00edtima de abusos sexuais n\u00e3o se restaura porque foi determinado atribuir-lhe uma compensa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se restaura porque se fala e porque se pede desculpa.<\/p>\n<p>A confian\u00e7a quando \u00e9 violada de uma forma t\u00e3o grave quanto foi nestas situa\u00e7\u00f5es que estamos a discutir, leva tempo, leva pr\u00e1tica. Ou seja, \u00e9 o tempo e \u00e9 a forma como n\u00f3s vamos agir e como estamos a fazer que vai restituir essa confian\u00e7a. Eu acredito muito nesta quest\u00e3o de, com tempo e com trabalho, com dedica\u00e7\u00e3o, com empatia, com acolhimento, vamos conseguir restituir grande parte da dignidade perdida da igreja cat\u00f3lica em Portugal. Contudo, tamb\u00e9m n\u00e3o posso deixar de real\u00e7ar que todas as v\u00edtimas; v\u00edtimas e tamb\u00e9m a sociedade em geral, porque n\u00f3s estamos aqui a falar em v\u00edtimas, mas este assunto tamb\u00e9m criou desconfian\u00e7a na sociedade em geral, merecem o mais profundo respeito, merecem efetivamente o mais profundo respeito e \u00e9 nesse sentido que n\u00f3s queremos caminhar, ir ao encontro e criar, e sermos tamb\u00e9m merecedores da restitui\u00e7\u00e3o dessa confian\u00e7a perdida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Continuam a receber novas den\u00fancias a n\u00edvel nacional?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Continuamos, continuamos a receber. Contudo, h\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o muito consider\u00e1vel do n\u00famero de den\u00fancias, mas continuam a chegar. Depois do relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente surgiram muitas, como voc\u00eas sabem, porque os n\u00fameros t\u00eam sido divulgados.\u00a0Agora n\u00e3o. Nos \u00faltimos meses abrandou, contudo, e aqui tamb\u00e9m quero real\u00e7ar isto, o facto do n\u00famero das den\u00fancias ter baixado n\u00e3o nos faz baixar a guarda. Por um lado, cada den\u00fancia \u00e9 uma vida com dor, sofrida, e merece e tem de continuar a merecer por parte de todas as Comiss\u00f5es Diocesanas todo o apoio, respeito, sigilo, que tamb\u00e9m \u00e9 muito importante real\u00e7ar, que s\u00e3o processos sigilosos, por parte das v\u00edtimas.\u00a0Isto \u00e9 fundamental falar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No congresso que decorreu em novembro passado foi muito clara ao dizer que as v\u00edtimas 2foram e s\u00e3o e ser\u00e3o o centro\u201d e defendeu maior rigor na avalia\u00e7\u00e3o do pessoal envolvido no trabalho das comunidades cat\u00f3licas. Tem sentido resist\u00eancias na aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica destes princ\u00edpios?<\/em><\/p>\n<p>Tenho sentido melhorias, mas tamb\u00e9m ainda existem resist\u00eancias a n\u00edvel nacional, cada vez menos. Neste momento o saldo \u00e9 positivo, muito positivo. Se vos disser que a primeira forma\u00e7\u00e3o em que estive &#8211; j\u00e1 se passaram alguns anos, penso que ainda n\u00e3o existia o grupo VITA &#8211; e estavam cerca de uma d\u00fazia de pessoas na forma\u00e7\u00e3o, uma d\u00fazia de agentes pastorais.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o a que eu me refiro era uma forma\u00e7\u00e3o dirigida a agentes pastorais que lidam com menores e com adultos vulner\u00e1veis. Estava uma d\u00fazia de pessoas, e estou a ser generosa na contagem. Agora as forma\u00e7\u00f5es que temos levado a cabo, algumas contam, depende dos locais &#8211; porque h\u00e1 locais com uma popula\u00e7\u00e3o mais numerosa e com mais agentes pastorais do que noutras &#8211; mas muitas vezes temos forma\u00e7\u00f5es com 100, 200, 300, 400 pessoas no mesmo local, atentas ao mesmo tema, ou seja, eu penso que h\u00e1 cada vez uma maior sensibilidade para o tema.<\/p>\n<p>As pessoas olham para a forma\u00e7\u00e3o com menos desconfian\u00e7a. Aquilo que o tempo e a experi\u00eancia me foi ensinando \u00e9 que a resist\u00eancia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e ao tema, ao pr\u00f3prio tema dos abusos, \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o cultural. Foram anos e anos e anos com um pensamento dominante, e quando n\u00f3s propomos determinada forma\u00e7\u00e3o, h\u00e1 quem entenda que se eu estou a propor uma forma\u00e7\u00e3o de combate aos abusos sexuais, \u00e9 porque estou a considerar que aquele agente pastoral \u00e9 um potencial agressor.<\/p>\n<p>E \u00e9 esta mentalidade que tamb\u00e9m tem de ser alterada, porque um potencial agressor at\u00e9 pode estar na forma\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 porque o formador diz que isto n\u00e3o pode ser feito, que ele vai deixar de fazer, como \u00e9 \u00f3bvio. O que n\u00f3s queremos com a forma\u00e7\u00e3o \u00e9 criar comunidades conscientes, conhecedoras, e que conhe\u00e7am os riscos que se correm com determinados comportamentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falava ainda h\u00e1 pouco da quest\u00e3o de os processos serem sigilosos. Isso leva-me aqui a uma quest\u00e3o que eu acho que \u00e9 delicada, mas que \u00e9 bom ser falada. V\u00e1rios intervenientes, desde a Santa S\u00e9 at\u00e9 aqui em Portugal, t\u00eam sublinhado a import\u00e2ncia de uma pol\u00edtica mais estruturada, mais transparente. N\u00f3s sabemos que quando os processos s\u00e3o arquivados, ap\u00f3s uma den\u00fancia, por exemplo, algumas v\u00edtimas t\u00eam manifestado incompreens\u00e3o perante a decis\u00e3o. Estas situa\u00e7\u00f5es afetam a credibilidade do esfor\u00e7o? Deveria haver uma resposta p\u00fablica mais c\u00e9lere quando existem den\u00fancias?<\/em><\/p>\n<p>A celeridade perante uma den\u00fancia \u00e9 essencial, porque quem nos apresenta a den\u00fancia f\u00e1-lo envolto num manto de dor, de sofrimento e muitas vezes de vergonha, porque sente uma profunda vergonha por ter sido v\u00edtima de uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o dolorosa. S\u00f3 que n\u00f3s n\u00e3o podemos tamb\u00e9m deixar que o rigor seja ultrapassado pela necessidade de celeridade e os processos t\u00eam de levar o seu tempo. Ou seja, tem de haver respeito, muito respeito pela v\u00edtima, despertar e mostrar-lhe que confiamos na pessoa, mas n\u00f3s sabemos que um processo de abusos sexuais envolve v\u00e1rios protagonistas, e n\u00f3s temos que agir com rigor para n\u00e3o ultrapassar aquilo que \u00e9 o Estado em que n\u00f3s vivemos, que \u00e9 um Estado de direito.<\/p>\n<p>E isto n\u00e3o significa que &#8211; e aqui preciso salientar isto &#8211; que a Comiss\u00e3o Diocesana tenha qualquer obriga\u00e7\u00e3o de proteger o denunciado, porque na verdade n\u00e3o tem, mas tem que fazer um apuramento m\u00ednimo dos factos, das circunst\u00e2ncias, e do local. Por exemplo, para que as pessoas que nos estejam a ouvir consigam perceber, perante uma den\u00fancia, eu tenho de perceber desde logo se aquele agressor estava naquele local naquele momento, ou at\u00e9 se aquele agressor existia. Como \u00e9 do conhecimento geral, com o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Independente, que foi um trabalho excecional, resultaram muitos nomes, e isto tem levantado sempre uma pol\u00eamica muito grande, porque muitos dos nomes que foram denunciados, talvez porque a den\u00fancia podia ser feita de forma an\u00f3nima atrav\u00e9s do computador, da internet, muitos daqueles nomes n\u00e3o foram encontrados em registo nenhum. Percebem isto que eu quero dizer? Ou seja, n\u00f3s temos sempre de levar muito a s\u00e9rio este rigor, e este rigor m\u00ednimo, n\u00e3o \u00e9 fazer um julgamento, porque a Comiss\u00e3o n\u00e3o faz julgamentos, nem faz investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A minha quest\u00e3o ia mais no sentido do processo final. Quando h\u00e1 uma decis\u00e3o, por exemplo, da Santa S\u00e9, que \u00e9 comunicada \u00e0 Diocese e ao denunciante, \u00e0 v\u00edtima, muitas vezes a impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que a fundamenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece suficientemente clara para que a pessoa entenda porqu\u00ea a decis\u00e3o foi aquela e n\u00e3o outra&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o posso deixar de concordar com essa afirma\u00e7\u00e3o. \u00c9 algo que n\u00f3s estamos a trabalhar, n\u00e3o apenas a equipa de Coordena\u00e7\u00e3o, como as Comiss\u00f5es Diocesanas, como tamb\u00e9m posso dizer at\u00e9 os senhores bispos.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio que a fundamenta\u00e7\u00e3o que nos chega seja mais rica, seja mais compreens\u00edvel. N\u00e3o basta um par\u00e1grafo ou dois para justificar uma determinada decis\u00e3o. Por isso, esse \u00e9 um caminho que temos de continuar a trabalhar.<\/p>\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o \u00e9, sem d\u00favida, um caminho que ainda estamos a percorrer e \u00e9 essencial, nesse percurso, que sejamos avaliados e at\u00e9 criticados por voc\u00eas, comunica\u00e7\u00e3o social, para que possamos ver onde \u00e9 que est\u00e1 o erro e ir ao encontro de um caminho mais perfeito, e ir ao encontro das necessidades. E essa necessidade de haver uma maior clareza e rapidez na forma como se transmite \u00e9 essencial. Porque este tempo de espera, esta incerteza, estas expectativas que se criam e que se frustram dia a dia, porque num dia tenho a expectativa de\u2026 no dia seguinte estou desanimada, parece aqui um carrossel. Isto n\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel para nenhum dos intervenientes, muito menos para as v\u00edtimas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m essencial para o compromisso efetivo da \u201ctoler\u00e2ncia zero\u201d? Para terminarmos: como se pode comunicar melhor o trabalho que est\u00e1 a ser feito?<\/em><\/p>\n<p>A equipa de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional, neste momento em que est\u00e1 a ser discutido o caminho a seguir pela Igreja Cat\u00f3lica, pretende acompanhar de forma mais pr\u00f3xima, trabalhar no fundo mais essa mat\u00e9ria. Porque agora tamb\u00e9m entr\u00e1mos num per\u00edodo em que a equipa de coordena\u00e7\u00e3o, que at\u00e9 agora dedicou e teve de dedicar grande parte do seu tempo aos processos de compensa\u00e7\u00e3o, agora estamos focados nesses outros temas de forma a crescer enquanto defensores de todas as pessoas que se dizem v\u00edtimas e que alegam terem sofrido abusos sexuais, mas n\u00e3o s\u00f3, e volto a insistir porque acho que \u00e9 importante, neste momento n\u00f3s vivemos uma fase de preven\u00e7\u00e3o e \u00e9 aqui que est\u00e1 a nossa aposta.<\/p>\n<p>A equipa de coordena\u00e7\u00e3o nacional tem de continuar a trabalhar neste momento na preven\u00e7\u00e3o e na harmoniza\u00e7\u00e3o nacional para que deixemos de reagir ao abuso e passemos a evitar situa\u00e7\u00f5es de risco, situa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o levar a um abuso sexual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carla Rodrigues, coordenadora da Equipa de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional das Comiss\u00f5es Diocesanas de Prote\u00e7\u00e3o de Menores e Adultos Vulner\u00e1veis, \u00e9 a convidada deste domingo da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia 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