{"id":43158,"date":"2010-01-22T22:45:46","date_gmt":"2010-01-22T22:45:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/01\/22\/a-igreja-na-cidade-sob-o-patrocinio-de-sao-vicente\/"},"modified":"2010-01-22T22:45:46","modified_gmt":"2010-01-22T22:45:46","slug":"a-igreja-na-cidade-sob-o-patrocinio-de-sao-vicente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-igreja-na-cidade-sob-o-patrocinio-de-sao-vicente\/","title":{"rendered":"A Igreja na Cidade, sob o patroc\u00ednio de S\u00e3o Vicente"},"content":{"rendered":"<p>1. A Solenidade de S&atilde;o Vicente convida-nos a reflectir sobre a presen&ccedil;a da Igreja na Cidade, do seu compromisso em procurar, atrav&eacute;s da sua miss&atilde;o espec&iacute;fica, a constru&ccedil;&atilde;o de uma comunidade humana baseada na verdade, na justi&ccedil;a e na fraternidade. A constru&ccedil;&atilde;o da cidade &eacute; tarefa de todos os cidad&atilde;os, o que sup&otilde;e o respeito pelas diferen&ccedil;as e a procura de converg&ecirc;ncias em prol do bem-comum.<\/p>\n<p>S&atilde;o Vicente abra&ccedil;a, na sua protec&ccedil;&atilde;o, a Igreja e a Cidade. A origem hist&oacute;rica da devo&ccedil;&atilde;o dos habitantes de Lisboa a S&atilde;o Vicente, pode ser inspiradora do presente. Est&aacute;vamos no in&iacute;cio da nacionalidade do Portugal independente, depois da reconquista crist&atilde;. Conquistada Lisboa por D. Afonso Henriques, com a ajuda decisiva dos cruzados, a popula&ccedil;&atilde;o de Lisboa sofre o abalo das grandes mudan&ccedil;as. Na Cidade coabitam mu&ccedil;ulmanos, crist&atilde;os mo&ccedil;&aacute;rabes, judeus, e os crist&atilde;os ligados &agrave; cruzada que, vindos do Norte e de outros pa&iacute;ses da Europa, se fixam em Lisboa. Os crist&atilde;os mo&ccedil;&aacute;rabes s&atilde;o o grupo que mais sente as convuls&otilde;es da mudan&ccedil;a. Eles eram, at&eacute; a&iacute;, o rosto vis&iacute;vel da Igreja presente em Lisboa. Segundo o cronista, autor da Carta a Osb&eacute;rnio, o seu Bispo foi assassinado pelos cruzados. Olhados com desconfian&ccedil;a pelos mu&ccedil;ulmanos, devido &agrave; sua f&eacute; crist&atilde;, n&atilde;o reconhecidos pelos crist&atilde;os que vieram com a cruzada, dispersam-se fugindo da Cidade e confiam no seu santo protector, S&atilde;o Vicente. &Eacute;, certamente, para lhes dar um sinal de apoio e confian&ccedil;a que D. Afonso Henriques, com grande sabedoria, consegue trazer para Lisboa a rel&iacute;quia do Santo M&aacute;rtir de Sarago&ccedil;a. &Eacute; significativo que as comunidades que, ainda hoje, t&ecirc;m S&atilde;o Vicente como Padroeiro, se situem na periferia de Lisboa, o que resta dessas comunidades fugidas da confus&atilde;o da Cidade: S&atilde;o Vicente de Fora, isto &eacute;, fora das muralhas, Alcabideche, Vila Franca de Xira, Cercal nas faldas da Serra do Montejunto. A devo&ccedil;&atilde;o a S&atilde;o Vicente aparece como elemento protector e congregador da nova Cidade, da nova comunidade humana a construir.<\/p>\n<p>Sem tentar definir simplisticamente a Lisboa dos nossos dias, a pluralidade dos seus habitantes e as suas diferen&ccedil;as exigem novas for&ccedil;as aglutinadoras em volta de um projecto para Lisboa, digno da sua hist&oacute;ria e capaz de construir, com os seus habitantes, uma verdadeira cidade de prosperidade, de justi&ccedil;a e de paz. &Eacute; nesse quadro que a Igreja se mostra dispon&iacute;vel e empenhada na constru&ccedil;&atilde;o da nossa Cidade, invocando, para os seus problemas e projectos a protec&ccedil;&atilde;o de S&atilde;o Vicente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. A participa&ccedil;&atilde;o da Igreja na constru&ccedil;&atilde;o da Cidade tem de processar-se em converg&ecirc;ncia cooperante com outras institui&ccedil;&otilde;es com responsabilidade: os poderes pol&iacute;ticos, de modo particular o poder aut&aacute;rquico, a Santa Casa da Miseric&oacute;rdia, outras institui&ccedil;&otilde;es da sociedade civil. Ali&aacute;s o princ&iacute;pio da coopera&ccedil;&atilde;o entre a Igreja e os poderes p&uacute;blicos inspira a nova Concordata, celebrada entre a Santa S&eacute; e o Estado Portugu&ecirc;s. Nessa participa&ccedil;&atilde;o no bem-comum da Cidade, a Igreja est&aacute; com os seus valores pr&oacute;prios: o dinamismo do amor fraterno, que a leva a conceber a Cidade como comunidade, onde os mais pobres e necessitados suscitam uma aten&ccedil;&atilde;o privilegiada. Mas a Igreja est&aacute; na Cidade tamb&eacute;m com a sua verdade, a sua vis&atilde;o sobre o homem, sobre a dignidade da vida, aberta &agrave; dimens&atilde;o transcendente. Ningu&eacute;m estranhar&aacute; que, atrav&eacute;s da Igreja, o amor sol&iacute;cito de Deus ganhe foros de cidadania.<\/p>\n<p>Passo a referir alguns pontos concretos que desafiam o compromisso cooperante de todos os intervenientes na constru&ccedil;&atilde;o da Cidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. A recupera&ccedil;&atilde;o e valoriza&ccedil;&atilde;o do patrim&oacute;nio art&iacute;stico de Lisboa. Recuperemos o rosto belo de Lisboa e poremos a claro um aspecto fundamental da nossa Cidade. A beleza &eacute; para ser fru&iacute;da e abrir&aacute; os esp&iacute;ritos para a afirma&ccedil;&atilde;o da prioridade da vida em todas as circunst&acirc;ncias, mesmo as mais dif&iacute;ceis. S&oacute; valorizando o seu patrim&oacute;nio, Lisboa impedir&aacute; que se desfeie a Cidade ao faz&ecirc;-la crescer. A cidade do futuro tem de ser uma irradia&ccedil;&atilde;o da cidade hist&oacute;rica, marcada pela beleza. Todos juntos somos poucos para realizar este objectivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>4. A solidariedade com os mais pobres e necessitados, para que nos alerta o &ldquo;Ano Internacional da luta contra a pobreza&rdquo;. Esta ganhou express&otilde;es novas a acrescentar &agrave;s que j&aacute; conhec&iacute;amos. Urge conhecer, cada vez melhor, o verdadeiro mapa da pobreza na Cidade. Todos conhecemos o volume e a import&acirc;ncia das institui&ccedil;&otilde;es da Igreja nesta resposta &agrave; pobreza, nas quais se concretiza, ali&aacute;s, o princ&iacute;pio da coopera&ccedil;&atilde;o entre a Igreja e o Estado. Mas essa coopera&ccedil;&atilde;o pode aprofundar-se, n&atilde;o apenas com o Minist&eacute;rio do Trabalho da Solidariedade Social, mas com a Autarquia, com a Santa Casa da Miseric&oacute;rdia, com outras institui&ccedil;&otilde;es de solidariedade. N&atilde;o dever&iacute;amos caminhar para um organismo coordenador de todos estes intervenientes na luta contra a pobreza?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. A pobreza, sobretudo as novas situa&ccedil;&otilde;es de precariedade motivadas pela crise econ&oacute;mica, atinge de modo particular as fam&iacute;lias: o desemprego, o endividamento familiar, o custo da casa, as despesas com a educa&ccedil;&atilde;o, a tend&ecirc;ncia para a baixa da natalidade. O apoio &agrave; fam&iacute;lia deve empenhar-nos a todos com determina&ccedil;&atilde;o renovada. N&atilde;o se salvar&aacute; a Cidade se n&atilde;o se salvar a fam&iacute;lia.<\/p>\n<p>Mas aqui est&aacute; um ponto em que a Igreja, no seu empenho a favor da fam&iacute;lia, s&oacute; pode estar com a sua verdade, porque est&aacute; consciente de que ajudar a fam&iacute;lia &eacute;, antes de mais, respeit&aacute;-la na sua dignidade e na sua natureza antropol&oacute;gica de institui&ccedil;&atilde;o baseada no contrato entre um homem e uma mulher, que origine uma comunidade espec&iacute;fica, onde acontece a procria&ccedil;&atilde;o e a caminhada em conjunto na descoberta da vida.<\/p>\n<p>O Projecto de Lei, recentemente votado na Assembleia da Rep&uacute;blica, em ordem a reconhecer que uni&otilde;es entre pessoas do mesmo sexo s&atilde;o casamento e fundam uma fam&iacute;lia, altera a dignidade da fam&iacute;lia natural, levar&aacute; ao enfraquecimento da sua auto-estima, e contribuir&aacute; para o enfraquecimento da comunidade familiar. A Igreja nunca aceitar&aacute; a equival&ecirc;ncia ao casamento das uni&otilde;es entre pessoas do mesmo sexo, seja qual for o enquadramento legal que, porventura, lhe venha a ser dado. Esta circunst&acirc;ncia levar-nos-&aacute; a um empenhamento renovado no apoio aos casais, valorizando a complementaridade e a estabilidade dos esposos, em ordem &agrave; fidelidade e &agrave; harmonia, hoje, tantas vezes amea&ccedil;adas pela cultura ambiente, que veicula a provisoriedade de tudo e a dimens&atilde;o consumista do pr&oacute;prio amor. A comunh&atilde;o entre os esposos &eacute; bela, mas n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil. Os cat&oacute;licos sabem que a fidelidade e a profundidade do seu amor s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel com a for&ccedil;a de Deus, garantida no sacramento do matrim&oacute;nio. E nunca permitiremos em nenhuma express&atilde;o da nossa ac&ccedil;&atilde;o com fam&iacute;lias, que as uni&otilde;es de pessoas do mesmo sexo toldem a beleza e a verdade dos aut&ecirc;nticos casamentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>6. E, finalmente, um acontecimento especial dinamizar&aacute; a Cidade de Lisboa: a visita do Papa Bento XVI. Muitas vezes, na sua hist&oacute;ria, a Cidade de Lisboa peregrinou at&eacute; Roma, para se encontrar com o Papa. Pela terceira vez &eacute; o pr&oacute;prio Papa que visita Lisboa. Mas o sentido desses encontros &eacute; fundamentalmente o mesmo: a profunda rela&ccedil;&atilde;o de Lisboa e de Portugal &agrave; S&eacute; de Pedro, dimens&atilde;o fundacional da sua hist&oacute;ria. &Eacute; uma visita que nos mobilizar&aacute; a todos: Igreja, Estado, Autarquia, Povo de Lisboa. Vamos receb&ecirc;-lo naquela que &eacute; a mais bela sala de visitas da Cidade: a Pra&ccedil;a do Terreiro do Pa&ccedil;o, onde a Cidade e o Rio se abra&ccedil;am num desafio comum: estar sempre disposto a partir para ajudar, para anunciar, para sermos cidad&atilde;os do mundo; sempre de bra&ccedil;os abertos para acolher quem chega, para nos visitar, para se refugiar entre n&oacute;s, para connosco trabalhar. A Igreja &eacute;, por excel&ecirc;ncia, o lugar de interc&acirc;mbio universal e o Papa &eacute; o seu sinal vis&iacute;vel. Com ele, entre n&oacute;s, escutando a sua palavra, vamos certamente sentir-nos mais no cora&ccedil;&atilde;o do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Homilia proferida na Solenidade de S&atilde;o Vicente, Padroeiro Principal do Patriarcado de Lisboa<\/p>\n<p>S&eacute; Patriarcal, 22 de Janeiro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; JOS&Eacute;, Cardeal-Patriarca<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. 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