{"id":431209,"date":"2026-06-20T09:09:13","date_gmt":"2026-06-20T08:09:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=431209"},"modified":"2026-06-19T13:12:25","modified_gmt":"2026-06-19T12:12:25","slug":"a-tecnologia-e-para-servir-a-humanidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-tecnologia-e-para-servir-a-humanidade\/","title":{"rendered":"A tecnologia \u00e9 para servir a humanidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>No livro \u201cOs Problemas de Fim de S\u00e9culo\u201d, o fil\u00f3sofo e antrop\u00f3logo franc\u00eas Edgar Morin, recentemente falecido, escreve: \u00abVamos cada vez mais compreender que o nosso desenvolvimento material, t\u00e9cnico, econ\u00f3mico produzia subdesenvolvimento mental, ps\u00edquico, moral. Vamos compreender, em suma, que o nosso conceito de desenvolvimento \u00e9 que era subdesenvolvido.\u00bb. E mais \u00e0 frente reafirma: \u00abSomos levados a recolocar o problema do desenvolvimento rejeitando a no\u00e7\u00e3o t\u00e3o grosseira e t\u00e3o b\u00e1rbara que reinou durante muito tempo, quando se julgava que a taxa de crescimento industrial significava o desenvolvimento econ\u00f3mico e que o desenvolvimento econ\u00f3mico significava o desenvolvimento humano, moral, mental, cultural, etc, quando a verdade \u00e9 que, nas nossas civiliza\u00e7\u00f5es ditas desenvolvidas, h\u00e1 um atroz subdesenvolvimento cultural, mental, moral e humano\u00bb.<\/p>\n<p>Como quase sempre acontece com as pessoas s\u00e1bias, muito do que dizem e escrevem tem um forte cariz prof\u00e9tico. N\u00e3o nos \u00e9 dif\u00edcil comprovar todos os dias como as palavras de Edgar Morin s\u00e3o atuais. Proclamou-se triunfalmente que os avan\u00e7os t\u00e9cnicos e cient\u00edficos trariam todas as solu\u00e7\u00f5es para as necessidades e anseios do ser humano, ou pelo menos para grande parte delas. E n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que trouxeram in\u00fameros benef\u00edcios para a humanidade, que se devem assinalar. Mas nem sempre foram acompanhados com a devida reflex\u00e3o moral e humana, e a seu tempo come\u00e7ou-se a perceber os riscos e os perigos que lhes est\u00e3o associados. Se trouxeram alguns avan\u00e7os, tamb\u00e9m promoveram alguns retrocessos na rela\u00e7\u00e3o do ser humano consigo mesmo, com os outros e com a natureza. N\u00e3o \u00e9 por acaso que neste momento se est\u00e1 a promover uma grande reflex\u00e3o sobre os efeitos perniciosos dos telem\u00f3veis e das redes sociais e muitas escolas j\u00e1 est\u00e3o a estabelecer limites, alguns pa\u00edses j\u00e1 est\u00e3o a pensar definir regras para o seu uso.<\/p>\n<p>Neste campo, preocupa-me sobretudo as transforma\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a acontecer com a nossa aten\u00e7\u00e3o, pelo facto de abusarmos do uso da tecnologia. Estamos num tempo em que \u00e9 preciso conquistar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas, tarefa que se revela quase herc\u00falea, neste turbilh\u00e3o de ru\u00eddo, informa\u00e7\u00e3o, est\u00edmulos e impulsos em que vivemos. Bem percebo por que \u00e9 que os jornais recorrem a t\u00edtulos bomb\u00e1sticos e espampanantes, cujas not\u00edcias depois nem sempre o s\u00e3o, ou as televis\u00f5es recorrem a alertas ou reclames luminosos a dizer \u00faltima hora, ou at\u00e9 a publicidade recorre a cenas provocadoras e pat\u00e9ticas. Tudo se faz para se conquistar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas a todo o custo, porque vivemos tempos de aten\u00e7\u00e3o dispersa e fragmentada. Estamos atentos a tudo e n\u00e3o estamos atentos a nada, ou atentos a muitas coisas ao mesmo tempo, sem prestarmos aten\u00e7\u00e3o a nada. Escuto a mi\u00fade, por exemplo, professores e at\u00e9 catequistas a lamentar a desaten\u00e7\u00e3o patol\u00f3gica das gera\u00e7\u00f5es atuais, que est\u00e3o permanentemente distra\u00eddas, n\u00e3o ret\u00eam conhecimentos, t\u00eam dificuldade em refletir, em fazer racioc\u00ednios e desenvolver pensamentos. Quem n\u00e3o tem aten\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m n\u00e3o pensa bem, e n\u00e3o aprende bem. N\u00e3o me \u00e9 dif\u00edcil perceber, quando estou \u00e0 frente de uma assembleia, como facilmente as pessoas se distraem e t\u00eam dificuldade em manter a aten\u00e7\u00e3o e o foco.<\/p>\n<p>Num dos cap\u00edtulos do seu livro, \u201cA Sociedade do Cansa\u00e7o\u201d, o fil\u00f3sofo sul-coreano Byung-Chul Han discorre sobre o tema. E n\u00e3o tem a m\u00ednima d\u00favida em afirmar que estamos a viver um retrocesso civilizacional, uma mudan\u00e7a perniciosa na estrutura e na economia da nossa aten\u00e7\u00e3o. Uma aten\u00e7\u00e3o perdida e dispersa em muitas tarefas e est\u00edmulos \u00e9 uma destrui\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, com graves consequ\u00eancias para a pessoa humana e a sua atividade. A nossa aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 a tornar-se como a do animal selvagem, que ao mesmo tempo que executa uma tarefa, tem de estar atento a tudo \u00e0 sua volta para sobreviver. A humanidade evoluiu porque \u00e9 detentora de uma aten\u00e7\u00e3o contemplativa, profunda, reflexiva. Cria-se cultura quando h\u00e1 espa\u00e7o para uma aten\u00e7\u00e3o profunda. Tarefa quase imposs\u00edvel quando a nossa aten\u00e7\u00e3o (agora hiperaten\u00e7\u00e3o) anda dispersa e muda constantemente de foco entre diversas informa\u00e7\u00f5es, atividades e processos. Uma sociedade hiperatenta e hiperativa \u00e9 uma sociedade que n\u00e3o tem aten\u00e7\u00e3o profunda. Nas palavras do pintor Paul C\u00e9zanne, somos uma sociedade que \u201cn\u00e3o v\u00ea o perfume das coisas\u201d, e Nietzsche n\u00e3o tem d\u00favidas em afirmar que a vida humana acaba numa hiperatividade mortal quando fica destitu\u00edda do seu elemento contemplativo, tornando-se o caminho aberto e limpo para a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p>Na senda dos perigos do mau uso da tecnologia, saiu a primeira Enc\u00edclica do Papa Le\u00e3o XIV, Magnifica Humanitas, sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da intelig\u00eancia artificial. O Papa aborda as novas quest\u00f5es sociais que se levantam na atualidade, onde h\u00e1 o s\u00e9rio risco de se degradar ou diluir a pessoa humana, nomeadamente com o uso pouco \u00e9tico, ponderado e criterioso da ferramenta poderosa e extraordin\u00e1ria que \u00e9 a intelig\u00eancia artificial, usada j\u00e1 em v\u00e1rios \u00e2mbitos da vida humana.<\/p>\n<p>Alguns j\u00e1 insinuaram que mais uma vez a Igreja parece estar contra o progresso e o desenvolvimento, o que n\u00e3o \u00e9 verdade, empresa que se revelaria, ali\u00e1s, ingl\u00f3ria e infrut\u00edfera, como quando se quer parar o vento com as m\u00e3os. O Papa n\u00e3o diaboliza a intelig\u00eancia artificial, mais do que uma vez elogia o contributo importante que teve o progresso cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico ao longo da hist\u00f3ria, permitindo uma melhoria significativa e assinal\u00e1vel na qualidade de vida do ser humano. A tecnologia \u00e9 boa, \u00e9 bem-vinda, contudo \u00e9 preciso saber us\u00e1-la de forma respons\u00e1vel ao servi\u00e7o da pessoa humana e do bem comum de toda a humanidade. Esta \u00e9, ali\u00e1s, a ideia mestra desta Enc\u00edclica: no centro da vida deve estar a pessoa humana, sempre o respeito pelo humano, a humanidade, e n\u00e3o ferramentas que a possam substituir, distorcer ou apagar, como \u00e9 a intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitos os desafios que a intelig\u00eancia artificial coloca \u00e0 humanidade, que exigem uma s\u00e9ria reflex\u00e3o. Primeiro que tudo, est\u00e1 nas m\u00e3os de poucos, que se est\u00e3o a tornar cada vez mais poderosos, cujo conceito de bem e de mal desconhecemos, assim como inten\u00e7\u00f5es e interesses. Muito poder nas m\u00e3os de poucos n\u00e3o \u00e9 bom para a humanidade. Depois, ningu\u00e9m tem d\u00favidas de que a intelig\u00eancia artificial vai tirar muitos empregos. O que fazer com muito trabalhador que n\u00e3o tem emprego? Para onde direcionar a a\u00e7\u00e3o humana e que outras formas de sustento haver\u00e1 para a pessoa humana? No campo da informa\u00e7\u00e3o, de forma trai\u00e7oeira, vemos proliferar muita not\u00edcia falsa e a engorda da manipula\u00e7\u00e3o. Como salvaguardar a verdade? No \u00e2mbito da \u00e9tica, a intelig\u00eancia artificial n\u00e3o sabe o que \u00e9 o bem e o que \u00e9 o mal. N\u00e3o pode ter um protagonismo excessivo nas decis\u00f5es da humanidade. E como us\u00e1-la corretamente no contexto da guerra, retirando o ser humano de cena, favorecendo a ideia de guerra justa e a desresponsabiliza\u00e7\u00e3o humana? Eis alguns desafios, que pedem reflex\u00e3o \u00e9tica. A tecnologia deve servir o humano e a humanidade e cabe-nos a todos a responsabilidade de ela n\u00e3o ser mal usada e n\u00e3o se vivar contra a humanidade.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-431209","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/431209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=431209"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/431209\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":431210,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/431209\/revisions\/431210"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=431209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=431209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=431209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}