{"id":43060,"date":"2010-01-19T11:45:40","date_gmt":"2010-01-19T11:45:40","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/01\/19\/apoiar-as-vitimas-de-varios-traficos\/"},"modified":"2010-01-19T11:45:40","modified_gmt":"2010-01-19T11:45:40","slug":"apoiar-as-vitimas-de-varios-traficos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/apoiar-as-vitimas-de-varios-traficos\/","title":{"rendered":"Apoiar as v\u00edtimas de v\u00e1rios tr\u00e1ficos"},"content":{"rendered":"<p>Durante um retiro para os meus votos perp&eacute;tuos, marcaram-me estas Palavras: &ldquo;O Esp&iacute;rito de Deus est&aacute; sobre mim porque me enviou a levar a boa nova aos pobres, aos cegos o recobrar da vista, a liberdade aos oprimidos&rdquo; (Lc 4, 18) e &ldquo;Tudo o que fizerdes a um destes mais pequeninos foi a Mim&rdquo; (MT25)<\/p>\n<p>Senti que com estas Palavras o Senhor me movia a estar junto dos jovens, dos pobres. A partir daqui, a rua passou a ser um &ldquo;lugar teol&oacute;gico&rdquo; do encontro com Deus. Estar em adora&ccedil;&atilde;o diante do sacr&aacute;rio (a minha ora&ccedil;&atilde;o preferida) e estar junto do adicto, da rapariga ou rapaz que se vende, do &ldquo;sem abrigo&rdquo; do estrangeiro, da v&iacute;tima do tr&aacute;fico ou do marginal, do recluso, do traficante ou do proxeneta passou a ser uma mesma coisa: &ldquo;Jesus estava ali escondido&rdquo;, tal como est&aacute; escondido no p&atilde;o, no vinho, na palavra, etc. Tornei-me &ldquo;carmelita do asfalto&rdquo;, &ldquo;m&iacute;stica horizontal&rdquo; embora muitas vezes tenha a tenta&ccedil;&atilde;o do Carmelo, de ser apenas &ldquo;m&iacute;stica vertical&rdquo;. A minha ora&ccedil;&atilde;o tornou-se &ldquo;activa, ora&ccedil;&atilde;o no terreno&rdquo;embora muitas vezes me tenha que &ldquo;retirar&rdquo; para no sil&ecirc;ncio e na ora&ccedil;&atilde;o carregar as baterias do cora&ccedil;&atilde;o para continuar servindo Jesus nos outros.<\/p>\n<p>Esta minha presen&ccedil;a com gente marginalizada levou-me a contactar com gente adicta e com tudo o que fazem para conseguir a droga: prostitui&ccedil;&atilde;o, roubos, mortes, uso e abusos de menores, explora&ccedil;&atilde;o de fam&iacute;lias e idosos; mulheres e homens que s&atilde;o &ldquo;correios&rdquo; de droga e n&atilde;o podem deixar de s&ecirc;-lo quando querem; traficantes de coisas e de pessoas, mulheres que s&atilde;o enviadas para &ldquo;trabalho&rdquo; em bares nocturnos e que t&ecirc;m dificuldade em sair quando se cansam dessa vida; novos escravos de trabalho, trabalho prec&aacute;rio, sem contrato de arrendamento e os que v&atilde;o para Espanha trabalhar para as herdades, n&atilde;o s&atilde;o pagos, s&atilde;o mal tratados, explorados, s&atilde;o obrigados a fugir porque n&atilde;os os deixam sair; gente de leste explorada por gente de Leste, &ldquo;passadores&rdquo; que os trazem mas depois obrigam-nos a dar-lhe os sal&aacute;rios, ficam-lhes com o dinheiro da renda, etc.<\/p>\n<p>Com esta experi&ecirc;ncia aprendi que que Jesus Cristo tem raz&atilde;o quando diz: &ldquo;N&atilde;o julgueis e amai-vos&rdquo;. Todas estas pessoas, que caem na marginaliza&ccedil;&atilde;o, t&ecirc;m hist&oacute;rias de vida t&atilde;o dram&aacute;ticas que qualquer um de n&oacute;s, nas mesmas circunst&acirc;ncias, seria igual. Quase todos e todas est&atilde;o marcados e marcadas por uma inf&acirc;ncia e adolesc&ecirc;ncia infeliz. Na rua vejo que h&aacute; potenciais a &ldquo;verdadeiros m&iacute;sticos&rdquo;. Todos t&ecirc;m um sentido agudo de procura do infinito e de sentido espiritual para a vida. Mas come&ccedil;aram em lugar errado e agora n&atilde;o conseguem sair.<\/p>\n<p>Quanto mais tempo uma pessoa est&aacute; metida nesses meandro do tr&aacute;fico, da marginaliza&ccedil;&atilde;o e &ldquo;sem abrigo&rdquo; mais dificuldade tem em sair. Perdeu toda a auto-estima, toda a dignidade de pessoa humana e j&aacute; n&atilde;o luta, n&atilde;o tem vontade. &ldquo;Perdido por um perdido por mil&rdquo;.<\/p>\n<p>Os volunt&aacute;rios que querem ajudar lutam com uma discrep&acirc;ncia muito grande de puderes: que podemos n&oacute;s oferecer? Um emprego prec&aacute;rio, uma cama para os &ldquo;sem abrigo&rdquo;, um contacto com a fam&iacute;lia, alimentos, medicamentos, etc. Os &ldquo;grandes&rdquo;, os que os exploram tem somas avultadas de dinheiro para oferecer e propostas de trabalho &ldquo;aliciante&rdquo;. Os exploradores t&ecirc;m por tr&aacute;s uma rede de pessoas e identidades que os defendem. N&oacute;s temos Jesus Cristo, se tivermos F&eacute;. Se n&atilde;o estamos sozinhas e pouco podemos fazer. Denunciar, avisar a pol&iacute;cia ou o SEF podem trazer riscos para n&oacute;s que nem sempre podemos ou queremos correr.<\/p>\n<p>O nosso trabalho n&atilde;o pode ser feito sozinho e de forma individual. Temos que ter por tr&aacute;s muitas pessoas e entidades a apoiar-nos: outros volunt&aacute;rios, a pol&iacute;cia, entidades de apoio &agrave; v&iacute;tima, os &ldquo;Cat&rdquo;, entidades de solidariedade que podem ajudar em alimentos, medicamentos, roupas, habita&ccedil;&atilde;o&#8230;<\/p>\n<p>Desta experi&ecirc;ncia resultam conclus&otilde;es muito claras. Que &eacute; melhor fazer que o rio n&atilde;o se polua do que despolu&iacute;-lo. Isto &eacute;, &ldquo;&eacute; melhor prevenir que remediar&rdquo;. Muita gente entre nesses neg&oacute;cios escuros porque a fam&iacute;lia, a educa&ccedil;&atilde;o e a Igreja falhou. Chegamos &ldquo;tarde de mais&rdquo; quando o sistema da corrup&ccedil;&atilde;o j&aacute; estava montado. A pobreza, a car&ecirc;ncia de muita ordem, e sobretudo a falta de &ldquo;valores interiorizados&rdquo; levam muita gente a explorar e a aceitar ser explorada. Mas as pessoas n&atilde;o nascem exploradoras ou exploradas. N&atilde;o nascem na rua, nas cadeias, nas casas de alterne ou nas redes de explora&ccedil;&atilde;o. Temos que combater as causas, &ldquo;ir &agrave; raiz do mal&rdquo; como dizia o fundador da minha congrega&ccedil;&atilde;o, Santo Henrique de Oss&oacute;<\/p>\n<p>Que a Pastoral do &ldquo;coitadinho&rdquo; da v&iacute;tima n&atilde;o serve de nada. A igreja, n&oacute;s os crist&atilde;os, temos que pensar seriamente numa pastoral de marginaliza&ccedil;&atilde;o. Como chegar com o an&uacute;ncio do Evangelho a este mundo. Como podemos levar Cristo a tranficantes e traficados. No fundo &eacute; o que todos precisam!<\/p>\n<p>A grande car&ecirc;ncia do ser humano &eacute; n&atilde;o saber Amar, n&atilde;o p&ocirc;r em pr&aacute;tica o mandamento de Jesus: &ldquo;Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei&rdquo;.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Maria de F&aacute;tima S. Magalh&atilde;es stj<\/em><\/p>\n<p><strong>&Agrave; beira da estrada<\/strong><\/p>\n<p>Sou leiga adoradora da Comunidade de Coimbra e trabalho numa equipa de interven&ccedil;&atilde;o social para mulheres prostitu&iacute;das. Vamos ao encontro delas, nas estradas onde s&atilde;o abordadas. Quando nos abeiramos de cada uma, ficam apreensivas, pegam de imediato no telem&oacute;vel, porque n&atilde;o sabem quem somos. Ao verem o nosso sorriso, logo muda a atitude. Percebem que n&atilde;o estamos ali para fazer mal. L&aacute; dizemos que &ldquo;somos uma equipa de rua&rdquo;, damos dois beijinhos, perguntamos o nome, oferecemos caf&eacute; com leite e um p&atilde;o&hellip;<\/p>\n<p>O que achamos e o que sabemos que estas mulheres sentem quando n&oacute;s nos aproximamos? &#8211; Que t&ecirc;m uma enorme capacidade de nos acolher, no seu espa&ccedil;o, no seu local onde se prostituem&hellip;<\/p>\n<p>Estamos numa fase inicial do projecto, temos muitos receios. Sobretudo no que diz respeito a entrar nas casas\/apartamentos de prostitui&ccedil;&atilde;o e nos bares de alterne. N&atilde;o sabemos como fazer. Mas estes receios j&aacute; os vivemos antes, quando iniciamos este trabalho mais intensificado de fazer giros de rua. Eram receios semelhantes, que foram &ldquo;caindo&rdquo; pela enorme capacidades das mulheres em nos acolher.<\/p>\n<p>Muito importante: n&atilde;o irmos para julgar! &Eacute; muito importante colocarmo-nos no lugar delas, com a sua historia de vida, a sua inf&acirc;ncia, a sua educa&ccedil;&atilde;o, o ambiente em que sempre viveu e n&atilde;o tentar que ela tenha a nossa perspectiva &hellip;.isso e imposs&iacute;vel. Que ela fa&ccedil;a aquilo que n&oacute;s achamos que &eacute; o melhor para ela&hellip;este &eacute; um grande erro, que eu inicialmente fiz muitas vezes e que hoje tento corrigir.<\/p>\n<p>Acima de tudo tenho aprendido muito com as Irm&atilde;s Adoradoras, que sem d&uacute;vida t&ecirc;m uma forma muito especial de &ldquo;estar e cuidar&rdquo; destas mulheres.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>M&oacute;nica Subtil, Leiga Adoradora<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante um retiro para os meus votos perp&eacute;tuos, marcaram-me estas Palavras: &ldquo;O Esp&iacute;rito de Deus est&aacute; sobre mim porque me enviou a levar a boa nova aos pobres, aos cegos o recobrar da vista, a liberdade aos oprimidos&rdquo; (Lc 4, 18) e &ldquo;Tudo o que fizerdes a um destes mais pequeninos foi a Mim&rdquo; (MT25) 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