{"id":430249,"date":"2026-06-12T12:28:10","date_gmt":"2026-06-12T11:28:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=430249"},"modified":"2026-06-12T12:28:10","modified_gmt":"2026-06-12T11:28:10","slug":"os-nomadas-paroquiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-nomadas-paroquiais\/","title":{"rendered":"Os n\u00f3madas paroquiais"},"content":{"rendered":"<p><em>Pe. Hugo Gon\u00e7alves,\u00a0Diocese de Beja<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-266299 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/Hugo-Goncalves-Beja.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>H\u00e1 alguns anos come\u00e7\u00e1mos a ouvir falar dos chamados \u201cn\u00f3madas digitais\u201d: pessoas que trabalham remotamente, recorrendo \u00e0 internet, sem se fixarem num \u00fanico lugar, deslocando-se de cidade em cidade, de pa\u00eds em pa\u00eds, levando consigo apenas o essencial para trabalhar e viver.<\/p>\n<p>Embora o fen\u00f3meno seja relativamente recente no mundo laboral, existe uma realidade semelhante que se tem tornado cada vez mais vis\u00edvel na vida da Igreja, sobretudo nos grandes centros urbanos. Poder\u00edamos chamar-lhes \u201cn\u00f3madas paroquiais\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, este n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno inteiramente novo. J\u00e1 no s\u00e9culo VI, S\u00e3o Bento identificava uma realidade parecida quando, no primeiro cap\u00edtulo da sua Regra, descrevia os diversos tipos de monges. Depois de elogiar os cenobitas, que viviam est\u00e1veis numa comunidade sob uma regra e um abade, criticava os chamados \u201cgir\u00f3vagos\u201d, monges que passavam a vida a circular de mosteiro em mosteiro, sem ra\u00edzes nem compromisso duradouro com uma comunidade concreta. S\u00e3o Bento n\u00e3o lhes poupava cr\u00edticas, precisamente porque via nessa instabilidade um obst\u00e1culo ao crescimento espiritual.<\/p>\n<p>Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, algo semelhante acontece hoje em muitas das nossas par\u00f3quias.<\/p>\n<p>Existe um primeiro tipo de n\u00f3mada paroquial: aquele que evita comprometer-se com uma comunidade concreta. Circula entre igrejas e Missas conforme o hor\u00e1rio mais conveniente, a homilia mais interessante, o coro mais agrad\u00e1vel ou o ambiente que melhor corresponde \u00e0s suas prefer\u00eancias pessoais. Num domingo est\u00e1 numa par\u00f3quia; no seguinte, noutra. Participa, mas n\u00e3o pertence. Assiste, mas n\u00e3o se envolve. Est\u00e1 presente, mas permanece desconhecido.<\/p>\n<p>Naturalmente, n\u00e3o h\u00e1 nada de errado em participar ocasionalmente noutra comunidade, sobretudo por raz\u00f5es familiares, profissionais ou pastorais. A riqueza da Igreja permite-nos sentir em casa em qualquer lugar onde a Eucaristia \u00e9 celebrada. O problema surge quando a procura constante do que mais agrada substitui a perten\u00e7a a uma comunidade concreta.<\/p>\n<p>Mas existe ainda um segundo tipo de n\u00f3mada paroquial: aquele que segue os padres.<\/p>\n<p>Neste caso, a liga\u00e7\u00e3o principal n\u00e3o \u00e9 \u00e0 comunidade nem sequer \u00e0 par\u00f3quia, mas \u00e0 figura do sacerdote. Frequenta determinada igreja porque aprecia aquele padre, a sua personalidade, a sua forma de pregar, a sua sensibilidade pastoral, o seu rigor ou, pelo contr\u00e1rio, a sua permissividade. Quando o sacerdote \u00e9 transferido, muda tamb\u00e9m de par\u00f3quia. A fidelidade n\u00e3o \u00e9 tanto \u00e0 comunidade como \u00e0 pessoa.<\/p>\n<p>Este fen\u00f3meno n\u00e3o \u00e9 novo. J\u00e1 nas primeiras comunidades crist\u00e3s, S\u00e3o Paulo o denunciava com firmeza. Alguns afirmavam: \u201cEu sou de Paulo\u201d; outros: \u201cEu sou de Apolo\u201d; outros ainda: \u201cEu sou de Cefas\u201d. E o Ap\u00f3stolo respondia com uma pergunta desarmante: \u201cAcaso Cristo est\u00e1 dividido?\u201d (cf. 1 Cor 1, 12-13). O crist\u00e3o n\u00e3o pertence a Paulo, nem a Apolo, nem a Pedro. O crist\u00e3o pertence a Cristo.<\/p>\n<p>Os sacerdotes s\u00e3o instrumentos de Deus e desempenham um papel insubstitu\u00edvel na vida da Igreja. Alguns possuem especiais dons de prega\u00e7\u00e3o, outros de acolhimento, outros de forma\u00e7\u00e3o ou de acompanhamento espiritual. Devemos agradecer ao Senhor esses dons. Mas quando a nossa ades\u00e3o \u00e0 Igreja depende excessivamente das qualidades de um determinado sacerdote, corremos o risco de colocar a pessoa no lugar que pertence a Cristo.<\/p>\n<p>A vida crist\u00e3 sempre precisou de ra\u00edzes. A f\u00e9 cresce numa comunidade concreta, feita de rostos conhecidos, de rela\u00e7\u00f5es constru\u00eddas ao longo do tempo, de alegrias partilhadas e de dificuldades enfrentadas em conjunto. \u00c9 nessa comunidade que recebemos os sacramentos, que somos acompanhados nos momentos decisivos da vida, que aprendemos a servir, que crescemos na f\u00e9 e que descobrimos que a Igreja \u00e9 mais do que um lugar onde assistimos \u00e0 Missa: \u00e9 uma fam\u00edlia espiritual.<\/p>\n<p>Nenhuma comunidade \u00e9 perfeita. Nenhum p\u00e1roco \u00e9 perfeito. Haver\u00e1 homilias mais inspiradas e outras menos conseguidas. Haver\u00e1 decis\u00f5es pastorais com as quais concordamos mais ou menos. Haver\u00e1 pessoas que nos agradam e outras que nos desafiam. Mas \u00e9 precisamente nesse contexto real, e n\u00e3o idealizado, que Deus nos chama a viver a comunh\u00e3o e a crescer na caridade.<\/p>\n<p>Num tempo marcado pela mobilidade, pela l\u00f3gica da escolha permanente e pela procura constante do que melhor satisfaz os nossos gostos, a perten\u00e7a est\u00e1vel a uma comunidade crist\u00e3 torna-se um verdadeiro testemunho evang\u00e9lico. Afinal, a Igreja n\u00e3o \u00e9 um cat\u00e1logo de servi\u00e7os religiosos \u00e0 medida do consumidor. \u00c9 o Corpo de Cristo, no qual cada baptizado \u00e9 chamado a ocupar o seu lugar.<\/p>\n<p>Os n\u00f3madas digitais podem fazer sentido no mundo do trabalho. Os n\u00f3madas paroquiais, por\u00e9m, dificilmente encontrar\u00e3o a plenitude da vida crist\u00e3 sem criarem ra\u00edzes. Porque a f\u00e9 n\u00e3o amadurece apenas onde somos bem servidos; amadurece sobretudo onde aprendemos a pertencer.<\/p>\n<p><em>Pe. Hugo Gon\u00e7alves<\/em><br \/>\n<em>Diocese de Beja<\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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