{"id":428638,"date":"2026-06-07T09:31:38","date_gmt":"2026-06-07T08:31:38","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=428638"},"modified":"2026-06-03T15:50:17","modified_gmt":"2026-06-03T14:50:17","slug":"migracoes-portugal-barreiras-servem-para-afastar-e-para-excluir-pessoas-que-fazem-falta-as-nossas-comunidades-francisca-gorjao-henriques","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/migracoes-portugal-barreiras-servem-para-afastar-e-para-excluir-pessoas-que-fazem-falta-as-nossas-comunidades-francisca-gorjao-henriques\/","title":{"rendered":"Migra\u00e7\u00f5es\/Portugal: \u00abBarreiras servem para afastar e para excluir pessoas que fazem falta \u00e0s nossas comunidades\u00bb &#8211; Francisca Gorj\u00e3o Henriques"},"content":{"rendered":"<p><em>Le\u00e3o XIV iniciou a sua primeira viagem \u00e0 Espanha, que inclui uma passagem pelas Can\u00e1rias, uma das rotas mort\u00edferas da imigra\u00e7\u00e3o ilegal. A realidade dos migrantes em Portugal \u00e9 discutida por estes dias na Associa\u00e7\u00e3o P\u00e3o a P\u00e3o, cuja presidente, Francisca Gorj\u00e3o Henriques, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_428642\" aria-describedby=\"caption-attachment-428642\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-428642 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-4.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-4.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-4-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-4-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-4-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-4-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-4-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-428642\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Gon\u00e7alo Costa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><em>A Assembleia de Cidad\u00e3os Migrantes come\u00e7ou a 30 de maio e \u00e9 uma iniciativa que se prolonga por quatro s\u00e1bados. Como \u00e9 que surgiu esta ideia, em que os migrantes tentam responder a uma quest\u00e3o central, n\u00e3o s\u00f3 para eles: a melhoria do servi\u00e7o \u00e0 migra\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s achamos que os migrantes, estando muitas vezes no centro do debate pol\u00edtico &#8211; discutimos muito as quest\u00f5es da imigra\u00e7\u00e3o &#8211; poucas vezes s\u00e3o chamados a pronunciarem-se. H\u00e1 poucos processos de ausculta\u00e7\u00e3o e ainda menos processos em que se procura uma participa\u00e7\u00e3o ativa das pessoas imigrantes para responder \u00e0s quest\u00f5es que lhes dizem diretamente respeito. E, portanto, o nosso objetivo aqui foi precisamente chamar a aten\u00e7\u00e3o: as pessoas imigrantes devem fazer parte da resposta e devem ser elas pr\u00f3prias a dar a resposta.<\/p>\n<p>O projeto foi apresentado \u00e0 Gulbenkian, que o aceitou de forma muito entusiasmada e o incluiu na comemora\u00e7\u00e3o dos 70 anos da funda\u00e7\u00e3o. N\u00f3s estamos muito contentes porque, de facto, \u00e9 o reconhecimento de que esta Assembleia faz todo o sentido no momento pol\u00edtico em que vivemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sinal da import\u00e2ncia do tema, \u00e9 a recetividade que ele obteve junto da comunidade migrante. Que pa\u00edses est\u00e3o representados na Assembleia e, j\u00e1 agora, qual o efeito pr\u00e1tico que pretendem com esta iniciativa? V\u00e3o divulgar conclus\u00f5es? V\u00e3o contactar entidades respons\u00e1veis?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um pouco dif\u00edcil dizer todos os pa\u00edses porque, de facto, h\u00e1 muita gente de muitos lugares. Brasil, claro, Turquia, Afeganist\u00e3o, Nepal, \u00cdndia, Bangladesh, Ucr\u00e2nia, Ge\u00f3rgia, Ir\u00e3. Eu vou, seguramente, esquecer Egito.<\/p>\n<p>N\u00f3s procuramos que a Assembleia fosse, de certa forma, um espelho das comunidades imigrantes no pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 totalmente proporcional, porque sen\u00e3o t\u00ednhamos uma presen\u00e7a esmagadora de pessoas vindas do Brasil, que ainda por cima, dominando a l\u00edngua, provavelmente tomariam um pouco conta do debate, n\u00e3o \u00e9? Nada contra as pessoas, obviamente, n\u00e3o \u00e9 isso que est\u00e1 em causa, mas aquilo que procur\u00e1mos fazer foi conseguir, aqui neste microcosmos, uma representa\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a diversidade das comunidades imigrantes em Portugal.<\/p>\n<p>O que \u00e9 que vamos fazer com isto? Essa \u00e9 uma das quest\u00f5es mais importantes deste processo, porque se estamos a chamar as pessoas imigrantes para constru\u00edrem solu\u00e7\u00f5es e para fazerem parte da resposta, \u00e9 bom que depois esse processo tenha consequ\u00eancias. Obviamente que, neste momento, n\u00f3s ainda n\u00e3o temos as recomenda\u00e7\u00f5es a que esta Assembleia vai chegar, mas a ideia \u00e9 que no dia 20 de junho, numa sess\u00e3o que ali\u00e1s \u00e9 aberta ao p\u00fablico, \u00e0s 17h00, os participantes desta Assembleia apresentem publicamente uma lista de recomenda\u00e7\u00f5es sobre como podemos melhorar o servi\u00e7o de imigra\u00e7\u00e3o em Portugal.<\/p>\n<p>E depois n\u00f3s, Associa\u00e7\u00e3o P\u00e3o a P\u00e3o, faremos com que essas recomenda\u00e7\u00f5es cheguem \u00e0s entidades que ser\u00e3o respons\u00e1veis pela sua implementa\u00e7\u00e3o. Neste momento ainda n\u00e3o sabemos quais s\u00e3o, porque n\u00e3o sabemos de antem\u00e3o, obviamente, quais s\u00e3o essas recomenda\u00e7\u00f5es, mas ser\u00e1 certamente&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas h\u00e1 algumas que podemos imaginar, naturalmente\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, imaginamos, claro, que haver\u00e1 v\u00e1rias medidas que v\u00e3o implicar a AIMA, que ali\u00e1s teve duas pessoas presentes no arranque desta Assembleia para responderem a d\u00favidas dos participantes sobre v\u00e1rias quest\u00f5es, muitas delas ligadas \u00e0 burocracia e \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o. E, portanto, \u00e9 expect\u00e1vel que seja a AIMA um dos recetores das recomenda\u00e7\u00f5es que v\u00e3o sair das quatro sess\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No in\u00edcio desta conversa dizia que estas tem\u00e1ticas est\u00e3o muito presentes no debate p\u00fablico. Elas est\u00e3o muitas vezes presentes no debate p\u00fablico pelas piores raz\u00f5es, digamos assim, fazendo sobressair discursos populistas, xen\u00f3fobos. O debate sobre a lei da nacionalidade, a lei do retorno, est\u00e1 de alguma forma tamb\u00e9m contaminado por este pensamento?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1 totalmente contaminado por este pensamento. As quest\u00f5es da imigra\u00e7\u00e3o t\u00eam sido muito manipuladas para fazer passar um discurso extremista que n\u00e3o corresponde \u00e0 realidade portuguesa. \u00c9 um discurso que utiliza as pessoas imigrantes como bode expiat\u00f3rio para certas correntes pol\u00edticas atingirem objetivos eleitorais e populistas. Se formos ver dados fornecidos por v\u00e1rias fontes sobre o contributo das pessoas imigrantes para a nossa economia, mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quest\u00f5es de seguran\u00e7a, que \u00e0s vezes s\u00e3o apontadas, os dados que mostram que as pessoas imigrantes n\u00e3o t\u00eam \u00edndices de criminalidade acima da popula\u00e7\u00e3o natural do pa\u00eds, antes pelo contr\u00e1rio, etc. Enfim, h\u00e1 variad\u00edssimos exemplos de que poder\u00edamos falar aqui. N\u00f3s percebemos que h\u00e1 uma instrumentaliza\u00e7\u00e3o desta quest\u00e3o com fins pol\u00edticos e \u00e9 muito preocupante porque estamos a criar divis\u00f5es sociais absolutamente perigosas, desnecess\u00e1rias obviamente, mas sobretudo perigosas, que n\u00e3o t\u00eam nenhuma raz\u00e3o de ser e o pa\u00eds precisa muito das pessoas imigrantes.<\/p>\n<p>H\u00e1 a quest\u00e3o econ\u00f3mica, como eu referi, desde 2015 at\u00e9 2025, e isto s\u00e3o dados oficiais, os imigrantes contribu\u00edram com 16,3 mil milh\u00f5es de euros, j\u00e1 descontando as presta\u00e7\u00f5es sociais que eles pr\u00f3prios recebem e, portanto, eu acho que a nossa perspectiva at\u00e9 devia ser mais humanista, mas retirando&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 apenas uma vis\u00e3o utilitarista, mas ajuda a perceber a contexto.<\/em><\/p>\n<p>Obviamente, este \u00e9 um dado que eu estou a oferecer porque h\u00e1 muito discurso que as pessoas v\u00eam tirar os empregos ou v\u00eam diminuir os sal\u00e1rios, etc. E a verdade \u00e9 que h\u00e1 uma contribui\u00e7\u00e3o para a nossa Seguran\u00e7a Social que, como sabemos, quando temos uma das popula\u00e7\u00f5es mais envelhecidas do mundo, precisa muit\u00edssimo desta m\u00e3o de obra. Portanto, h\u00e1 aqui um contributo utilit\u00e1rio, como estava a dizer, que \u00e9 bastante evidente e \u00fatil para o debate, mas, obviamente, h\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o humanista, como referiu, \u00e0 qual eu sou muit\u00edssimo sens\u00edvel. Acho que se h\u00e1 pessoas que est\u00e3o a sair dos seus pa\u00edses, trazendo os seus filhos, tentando refazer a sua vida noutro pa\u00eds, isso \u00e9 de tal forma dif\u00edcil que s\u00f3 o fazem se estiverem causa quest\u00f5es de subsist\u00eancia e de procurar uma vida melhor, como os portugueses j\u00e1 fizeram e continuam a fazer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os imigrantes trazem uma diversidade \u00e0s nossas comunidades que \u00e9 absolutamente fundamental. A nossa sociedade n\u00e3o pode prosperar com base num monobloco de pessoas que n\u00e3o existe em parte nenhuma nem faz sentido. \u00c9 preciso reconhecer que h\u00e1 uma riqueza trazida por pessoas que v\u00eam de contextos diferentes, com culturas diferentes e que querem trazer coisas diversificadas \u00e0s nossas comunidades. N\u00e3o reconhecer isto, acho que \u00e9 uma tristeza, \u00e0 falta de outra palavra, porque, de facto, n\u00f3s estamos muito fechados, quem faz este discurso fecha-se muito sobre si pr\u00f3prio, n\u00e3o reconhecendo que \u00e9 na diversidade que n\u00f3s podemos prosperar enquanto comunidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_428640\" aria-describedby=\"caption-attachment-428640\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-428640\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-2-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-2-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-2-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-428640\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Gon\u00e7alo Costa<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Queria regressar um pouco \u00e0 primeira sess\u00e3o desta Assembleia de Cidad\u00e3os Migrantes, que foi realizada precisamente no final de maio, para tentar perceber se algumas dessas preocupa\u00e7\u00f5es, dessa tristeza, j\u00e1 ficou subjacente nas diferentes alocu\u00e7\u00f5es que se foram ouvindo, se j\u00e1 foram deixadas pistas sobre a forma como os migrantes veem o nosso pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Ficou muito evidente que as pessoas imigrantes est\u00e3o muito preocupadas com o que est\u00e1 a acontecer, ali\u00e1s, sa\u00edram not\u00edcias recentemente de que h\u00e1 muita gente a ir embora, a deixar o pa\u00eds, e isto acontece por diversas raz\u00f5es. A principal, enfim, n\u00e3o havendo um estudo exaustivo, mas percebe-se atrav\u00e9s daquilo que dizem as associa\u00e7\u00f5es de imigrantes, \u00e9 a regulariza\u00e7\u00e3o ter sido bastante dificultada: pessoas que contavam ter a nacionalidade ao fim de 5 anos, de repente, afinal, s\u00e3o 10, e n\u00e3o t\u00eam certezas de conseguir construir a sua vida aqui com todos os direitos e os direitos que est\u00e3o inerentes a esses processos, obviamente que isto dificulta muito os processos de integra\u00e7\u00e3o ou de inclus\u00e3o das pessoas imigrantes. Quando estamos a dificultar a sua regulariza\u00e7\u00e3o, estamos tamb\u00e9m a adiar estes processos de inclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma das coisas que foi dita na Assembleia pela Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil, \u00e9 que ela ouve muito das pessoas que acompanha que a AIMA, Ag\u00eancia para a Migra\u00e7\u00e3o, Migra\u00e7\u00f5es e Asilo, deixou cair o I da integra\u00e7\u00e3o e, de facto, n\u00f3s estamos sistematicamente a ouvir medidas que t\u00eam a ver com estas barreiras que est\u00e3o relacionadas com os processos de regulariza\u00e7\u00e3o, mas ouvimos muito pouco sobre medidas que procuram a inclus\u00e3o das pessoas.<\/p>\n<p>Isto foi um dos ecos desta Assembleia. Outro tamb\u00e9m muito importante \u00e9 o crescimento da xenofobia, do discurso de \u00f3dio. Muitos imigrantes que j\u00e1 est\u00e3o c\u00e1 h\u00e1 algum tempo, no in\u00edcio da sua vinda para Portugal, n\u00e3o eram confrontados com isso e nos \u00faltimos anos t\u00eam sido. E isto \u00e9 um ambiente que mudou consideravelmente nos \u00faltimos tempos, fruto, claro, de um discurso xen\u00f3fobo que ganhou tra\u00e7\u00e3o muito por culpa de um governo que, em vez de o rejeitar explicitamente, toma medidas que implicitamente o aceitam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falava ainda pouco das dificuldades legais. A falta de vias legais e seguras para as migra\u00e7\u00f5es, sabemos, faz aumentar as vias irregulares. N\u00f3s temos o Papa iniciar, por estes dias, a sua viagem \u00e0 Espanha que inclui uma passagem simb\u00f3lica, mas muito forte, pelas Can\u00e1rias. Como \u00e9 que v\u00ea este gesto de ir a um dos s\u00edtios da Europa em que estas vias irregulares se manifestam de uma forma mais veemente?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho muit\u00edssimo importante; o Papa Francisco j\u00e1 tinha ido a Lampedusa e isso foi um gesto simb\u00f3lico muito relevante e esta visita ter\u00e1 o mesmo efeito. Claro que, infelizmente, n\u00e3o chega e n\u00f3s temos visto, mesmo por parte de pessoas cat\u00f3licas, um discurso que vai muito contra estes gestos de humanismo como, neste caso, o que o Papa vai ter com a sua ida \u00e0s Can\u00e1rias. \u00c9 um sinal dos tempos que seja preciso assinalar, pe\u00e7o desculpa pela redund\u00e2ncia, estes locais que s\u00e3o simb\u00f3licos destas travessias dif\u00edceis, mas que no fundo representam as portas fechadas da Europa, porque poderiam ser apenas pontos de passagem de um tr\u00e2nsito migrat\u00f3rio.<\/p>\n<p>N\u00f3s sabemos que todo o processo migrat\u00f3rio, ou pelo menos a maior parte do processo migrat\u00f3rio, \u00e9 repleto de etapas arriscadas, mas h\u00e1 alguns locais que representam a forma como a Europa se fechou \u00e0s pessoas migrantes. E \u00e9 muito triste que seja preciso assinalar desta forma t\u00e3o expl\u00edcita o quanto a Europa deveria estar a fazer diferente, como a Europa deveria estar a fazer diferente em rela\u00e7\u00e3o a esta realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mesmo na Europa h\u00e1 pa\u00edses que reagem de forma diferente. O Governo espanhol aprovou uma regulariza\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de imigrantes que poder\u00e1 beneficiar cerca de 500 mil pessoas, com candidaturas abertas at\u00e9 ao final deste m\u00eas e com requisitos espec\u00edficos de resid\u00eancia, de domic\u00edlio e tamb\u00e9m de antecedentes. H\u00e1, de facto, aqui diferen\u00e7as substanciais na forma como na Europa e como, por exemplo, Portugal e Espanha est\u00e3o a olhar para o acolhimento de imigrantes?<\/em><\/p>\n<p>Claro. Portugal costumava ser um bom exemplo, a manifesta\u00e7\u00e3o de interesses, que era um instrumento que permitia essa regulariza\u00e7\u00e3o, era visto, atrav\u00e9s de v\u00e1rios estudos, como um mecanismo bastante eficiente, ainda que, obviamente, todos os processos de regulariza\u00e7\u00e3o t\u00eam os seus obst\u00e1culos e n\u00e3o quer dizer que tudo corresse \u00e0s mil maravilhas, mas, apesar de tudo, havia um discurso pol\u00edtico e depois administrativo, v\u00e1 l\u00e1, que reconhecia o direito \u00e0s pessoas regularizarem a sua presen\u00e7a em Portugal.<\/p>\n<p>Aqui, as barreiras que foram colocadas com a nova lei da nacionalidade e da imigra\u00e7\u00e3o est\u00e3o apenas a dizer \u00e0s pessoas que o melhor \u00e9 n\u00e3o virem e o melhor \u00e9 deixarem o pa\u00eds. E, portanto, quando n\u00f3s passamos para 10 anos o acesso \u00e0 nacionalidade de cidad\u00e3os estrangeiros, fora da CPLP e da Uni\u00e3o Europeia, para estes s\u00e3o 7, o que diz muito, mas quando passamos para 10 anos o acesso \u00e0 nacionalidade, estamos, basicamente, a dizer \u00e0s pessoas que n\u00e3o as queremos aqui. E, portanto, quando voltamos ao in\u00edcio, todas estas barreiras servem para afastar as pessoas do pa\u00eds e para excluir pessoas que fazem falta \u00e0s nossas comunidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_428646\" aria-describedby=\"caption-attachment-428646\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-428646\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-8-400x267.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"267\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-8-400x267.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-8-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-8-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-8-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-8-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/Francisca-Gorjao-Henriques_RR-8.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-428646\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Gon\u00e7alo Costa<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Gostaria de voltar ao in\u00edcio deste ciclo de iniciativas que est\u00e3o a promover, envolvendo os migrantes, porque elas v\u00e3o envolver as crian\u00e7as tamb\u00e9m, numa parceria com o realizador F\u00e1bio Silva. Qual \u00e9 o papel das crian\u00e7as migrantes neste processo at\u00e9 de sensibilizar os adultos e o que \u00e9 que se pode esperar desta din\u00e2mica deste filme que vai ser apresentado em novembro?<\/em><\/p>\n<p>A Assembleia de Cidad\u00e3os Migrantes produz resultados bastante objetivos, tem um processo, uma metodologia muito espec\u00edfica e pragm\u00e1tica em que \u00e9 recebida informa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o ouvidos peritos e os 50 participantes, que j\u00e1 foram escolhidos de forma aleat\u00f3ria, durante este processo v\u00e3o chegar a um conjunto de recomenda\u00e7\u00f5es. \u00c9 um processo bastante objetivo, por assim dizer. N\u00f3s quisemos trazer um olhar mais subjetivo, mais metaf\u00f3rico, de como podemos responder melhor a esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>E portanto o desafio lan\u00e7ado ao F\u00e1bio Silva foi que juntasse crian\u00e7as, imigrantes ou n\u00e3o, o grupo ser\u00e1 misturado, para que elas pudessem tamb\u00e9m falar, dar a sua resposta, dar o seu ponto de vista de uma forma mais metaf\u00f3rica. Porque de facto h\u00e1 v\u00e1rias formas de abordar este tema e n\u00f3s n\u00e3o queremos fechar as portas tamb\u00e9m \u00e0 poesia. A poesia devia ter mais lugar nas nossas vidas e quisemos trazer isso para este processo.<\/p>\n<p>Enfim, pode parecer assim um pouco piroso o que eu acabei de dizer, mas acho que fazem falta estes pontos de vista mais subjetivos e metaf\u00f3ricos. Houve algumas preocupa\u00e7\u00f5es aqui, uma delas foi permitir que tamb\u00e9m as crian\u00e7as migrantes sentissem parte do processo e crian\u00e7as n\u00e3o migrantes se aproximassem do tema de uma forma aberta e descomplexada e emp\u00e1tica. E portanto o filme resulta tamb\u00e9m desta tentativa de levar esta discuss\u00e3o para outra faixa et\u00e1ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Le\u00e3o XIV iniciou a sua primeira viagem \u00e0 Espanha, que inclui uma passagem pelas Can\u00e1rias, uma das rotas mort\u00edferas da imigra\u00e7\u00e3o ilegal. A realidade dos migrantes em Portugal \u00e9 discutida por estes dias na Associa\u00e7\u00e3o P\u00e3o a P\u00e3o, cuja presidente, Francisca Gorj\u00e3o Henriques, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":428642,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[258],"class_list":["post-428638","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-migracoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/428638","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=428638"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/428638\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":428649,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/428638\/revisions\/428649"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/428642"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=428638"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=428638"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=428638"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}