{"id":428397,"date":"2026-06-06T09:21:48","date_gmt":"2026-06-06T08:21:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=428397"},"modified":"2026-06-02T13:24:04","modified_gmt":"2026-06-02T12:24:04","slug":"ha-vidas-que-parecem-perdidas-ate-alguem-lhes-tocar-com-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ha-vidas-que-parecem-perdidas-ate-alguem-lhes-tocar-com-amor\/","title":{"rendered":"H\u00e1 vidas que parecem perdidas at\u00e9 algu\u00e9m lhes tocar com amor"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-228266 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Num tempo em que quase tudo se substitui, o gesto mais raro talvez j\u00e1 n\u00e3o seja reparar o que se partiu, mas permanecer diante daquilo que quase todos deixaram de acreditar que ainda pode ser salvo.<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 oficinas onde o tempo abranda sem pedir licen\u00e7a. A luz entra inclinada pelas janelas antigas, o p\u00f3 permanece suspenso no ar como uma mem\u00f3ria e as ferramentas gastas repousam sobre as bancadas com a serenidade das coisas que aprenderam a durar. N\u00e3o se ouvem vozes altas nesses lugares. O sil\u00eancio tem ali outra espessura. Quase parece que as coisas feridas deixam de ter vergonha de existir.<\/p>\n<p>Naquela oficina havia t\u00e1buas encostadas \u00e0s paredes, peda\u00e7os fendidos pelo tempo, superf\u00edcies deformadas pela humidade e pelos Invernos. Restos esquecidos que qualquer olhar apressado classificaria como in\u00fateis. N\u00e3o tinham o brilho das coisas novas nem a perfei\u00e7\u00e3o intacta daquilo que ainda n\u00e3o foi atravessado pela vida. E, no entanto, o velho carpinteiro movia-se entre aquelas madeiras como quem percorre um arquivo de hist\u00f3rias humanas.<\/p>\n<p>Havia qualquer coisa de desarmante na forma como tocava a madeira rachada. N\u00e3o com pena. N\u00e3o com nostalgia. Mas com respeito.<\/p>\n<p>Um dia perguntaram-lhe porque insistia em guardar pe\u00e7as t\u00e3o gastas. Aproximou-se lentamente de uma prancha marcada por uma fenda profunda, passou os dedos pela madeira e respondeu apenas: \u201cdepende das m\u00e3os que a seguram\u201d. Depois permaneceu em sil\u00eancio durante alguns segundos, como se soubesse que certas frases precisam de cair primeiro dentro de n\u00f3s antes de come\u00e7arem a iluminar alguma coisa. E acrescentou: \u201ch\u00e1 madeira que j\u00e1 n\u00e3o serve para impressionar ningu\u00e9m. Mas ainda pode servir para sustentar uma casa\u201d.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que passamos demasiado tempo a olhar para pessoas cansadas sem realmente as vermos.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem continue a cumprir hor\u00e1rios, a responder a mensagens, a sorrir nas fotografias e a atravessar dias inteiros como se nada estivesse a acontecer. Basta, por\u00e9m, olhar um pouco mais devagar para perceber que existem vidas sustentadas por equil\u00edbrios quase invis\u00edveis. Pessoas que aprenderam a esconder o cansa\u00e7o para n\u00e3o incomodar ningu\u00e9m. Pessoas que transportam perdas antigas em sil\u00eancio, tentando sobreviver sem deixar cair demasiado de si pelo caminho.<\/p>\n<p>Uma das grandes viol\u00eancias do nosso tempo est\u00e1 nesta incapacidade de permanecer diante da fragilidade sem a transformar imediatamente em desconforto, impaci\u00eancia ou dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Habitu\u00e1mo-nos a admirar apenas aquilo que parece forte, eficiente, luminoso. Como se o valor de uma vida dependesse da sua capacidade permanente de impressionar. Pouco a pouco, come\u00e7\u00e1mos a tratar as pessoas da mesma forma que tratamos os objectos: aquilo que perde brilho passa rapidamente a parecer substitu\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que existe tanta solid\u00e3o escondida em lugares aparentemente normais. H\u00e1 pessoas que n\u00e3o precisam, antes de tudo, de respostas perfeitas, discursos motivacionais ou solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas. Precisam de encontrar algu\u00e9m diante de quem n\u00e3o seja necess\u00e1rio fingir for\u00e7a o tempo inteiro.<\/p>\n<p>O amor come\u00e7a muitas vezes a\u00ed. N\u00e3o no instante em que algu\u00e9m resolve a vida do outro, mas no instante em que permanece. Quando continua a olhar para uma pessoa sem a reduzir \u00e0s suas falhas, ao seu cansa\u00e7o ou \u00e0s suas ru\u00ednas. Quando reconhece dignidade mesmo naquilo que j\u00e1 perdeu quase tudo.<\/p>\n<p>O velho carpinteiro sabia isso. Ele n\u00e3o olhava apenas para aquilo que a madeira tinha perdido. Olhava para aquilo que ainda podia nascer dela.<\/p>\n<p>Deus \u00e9 exactamente assim. N\u00e3o se deixa impressionar pela perfei\u00e7\u00e3o intacta, mas comove-se com a possibilidade escondida dentro daquilo que o mundo j\u00e1 classificou como in\u00fatil. N\u00e3o descarta a madeira ferida. Toca-lhe, espera, trabalha-a por dentro e devolve-lhe uma forma que ela pr\u00f3pria j\u00e1 n\u00e3o imaginava poss\u00edvel.<\/p>\n<p>H\u00e1 vidas que s\u00f3 continuam de p\u00e9 porque algu\u00e9m, um dia, decidiu n\u00e3o desistir delas. E uma civiliza\u00e7\u00e3o come\u00e7a a desumanizar-se no exacto momento em que deixa de saber permanecer diante da fragilidade humana.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>(Os artigos de opini\u00e3o publicados na sec\u00e7\u00e3o \u2018Opini\u00e3o\u2019 e \u2018Rubricas\u2019 do portal da Ag\u00eancia Ecclesia s\u00e3o da responsabilidade de quem os assina e vinculam apenas os seus autores.)<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":228266,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-428397","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/428397","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=428397"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/428397\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":428398,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/428397\/revisions\/428398"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/228266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=428397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=428397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=428397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}