{"id":42784,"date":"2010-01-04T14:38:53","date_gmt":"2010-01-04T14:38:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/01\/04\/homilia-do-bispo-de-leiria-fatima-no-dia-mundial-da-paz-2\/"},"modified":"2010-01-04T14:38:53","modified_gmt":"2010-01-04T14:38:53","slug":"homilia-do-bispo-de-leiria-fatima-no-dia-mundial-da-paz-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-leiria-fatima-no-dia-mundial-da-paz-2\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo de Leiria-F\u00e1tima no Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p><strong>Cuidar da cria&ccedil;&atilde;o, caminho para a paz<\/strong><\/p>\n<p>No in&iacute;cio do Ano Novo, a liturgia da Palavra convida-nos a come&ccedil;ar o nosso caminho e a prossegui-lo, dia ap&oacute;s dia, com a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o do Senhor: <em>&ldquo;O Senhor te aben&ccedil;oe e te proteja. O Senhor fa&ccedil;a resplandecer sobre ti o seu rosto e te seja favor&aacute;vel&rdquo;.<\/em><strong><\/strong><\/p>\n<p>Estas palavras s&atilde;o como <em>uma &ldquo;car&iacute;cia&rdquo; que Deus reserva para todos e cada um de n&oacute;s<\/em>: &eacute;-nos comunicada no rosto terno do Menino em Bel&eacute;m e no rosto materno de Maria, cuja Maternidade Divina hoje celebramos. Sim, uma car&iacute;cia de Deus que testemunha o seu amor terno, a sua proximidade de Pai e Amigo, o seu tomar-nos pela m&atilde;o e acompanhar-nos, passo a passo, na vida, a sua resposta sol&iacute;cita &agrave;s nossas invoca&ccedil;&otilde;es, o seu conforto nas dificuldades, a sua consola&ccedil;&atilde;o nos momentos de prova&ccedil;&atilde;o e de solid&atilde;o, a sua miseric&oacute;rdia sem limites para com as nossas infidelidades&#8230; Uma car&iacute;cia que tem uma for&ccedil;a extraordin&aacute;ria de nos impulsionar a viver o novo ano na f&eacute; e na caridade, no amor verdadeiro.<\/p>\n<p>&Agrave; b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o do Senhor pertencem ainda estas palavras: <em>&ldquo;O Senhor volte para ti o seu olhar e te conceda a paz&rdquo;. <\/em>Tamb&eacute;m este &ldquo;voltar o olhar&rdquo; &ndash; que s&oacute; pode ser olhar de amor &ndash; &eacute; express&atilde;o da car&iacute;cia de Deus. S&oacute; dela nos pode chegar o grande dom da paz.<\/p>\n<p><em>Neste Dia Mundial da Paz<\/em>, o Santo Padre convida-nos a reflectir sobre um tema que interpela toda a humanidade: <em>&ldquo;Se queres cultivar a paz , guarda a cria&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/em> &Eacute; um apelo &agrave; nossa responsabilidade ecol&oacute;gica pela salvaguarda do ambiente e de toda a cria&ccedil;&atilde;o perante as amea&ccedil;as que afligem o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Emerg&ecirc;ncia ecol&oacute;gica e a causa da paz<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o podemos esquecer que a nossa gera&ccedil;&atilde;o &eacute; talvez a primeira na hist&oacute;ria a estar consciente de que a vida e a morte dos seres do nosso planeta e, por conseguinte, da humanidade, dependem das op&ccedil;&otilde;es que forem tomadas no presente. Esta consci&ecirc;ncia deriva de evid&ecirc;ncias que se imp&otilde;em: ar viciado, &aacute;guas polu&iacute;das, solo explorado e degradado, desertifica&ccedil;&atilde;o que avan&ccedil;a progressivamente, altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas, recursos naturais e mat&eacute;rias primas a esgotarem-se, novas doen&ccedil;as que surgem&#8230;<\/p>\n<p>Os atentados ao ambiente s&atilde;o t&atilde;o preocupantes como as guerras, os actos terroristas e as viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos, afirma Bento XVI. Trata-se de <em>uma verdadeira crise ecol&oacute;gica, de dimens&atilde;o planet&aacute;ria, que p&otilde;e em causa o presente e o futuro da cria&ccedil;&atilde;o e da humanidade.<\/em> Por este caminho, o homem corre o risco de ser engolido pelo produto da sua obra ou de estar a cavar o t&uacute;mulo debaixo dos seus p&eacute;s. N&atilde;o podemos fechar os olhos perante os sinais de alarme.<\/p>\n<p>Reflectir sobre a crise ecol&oacute;gica obriga-nos, antes de mais,&nbsp; a repensar a rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima do homem com a natureza. Esta &eacute; maltratada porque &eacute; mal amada. O grande risco &eacute; olhar a natureza apenas com crit&eacute;rios de utilidade, produtividade e lucro; olh&aacute;-la como mero armaz&eacute;m de material, como &ldquo;um mont&atilde;o de res&iacute;duos espalhados ao acaso&rdquo; a usar e consumir sem limites e sem regras. <em>O respeito pela<\/em> <em>natureza requer um novo olhar.<\/em><\/p>\n<p>Os crist&atilde;os, frente ao &ldquo;deserto que avan&ccedil;a&rdquo;, anunciado por Nietzsche, e perante a terra cada vez mais desolada, deveriam aprender a descobrir na profundidade da cria&ccedil;&atilde;o &ldquo;a escritura das coisas&rdquo;, as suas l&aacute;grimas e os seus louvores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O jardim da cria&ccedil;&atilde;o: dom de Deus, promessa de vida e casa comum <\/strong><\/p>\n<p>&Agrave; luz da f&eacute; crist&atilde; no mist&eacute;rio da cria&ccedil;&atilde;o, a natureza n&atilde;o &eacute; fruto do acaso caprichoso ou do caos. &Eacute; dom do amor de Deus; &eacute; promessa de vida; &eacute; casa comum dos homens e, por isso, motivo de contempla&ccedil;&atilde;o, de louvor, de ac&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as e de responsabilidade.<\/p>\n<p>A B&iacute;blia apresenta-a com a bela imagem do jardim, onde Deus coloca o homem para o cultivar e guardar. O jardim &eacute; uma grande met&aacute;fora da intelig&ecirc;ncia e do amor de Deus. Esta intelig&ecirc;ncia de amor cuida da terra, mas esta &eacute; destinada aos humanos. No jardim, o homem descobre os tra&ccedil;os de um cuidado amoroso que o precedeu.<\/p>\n<p>O jardim mostra que a terra n&atilde;o &eacute; um mero dep&oacute;sito de mat&eacute;rias primas. &Eacute; um habitat para a circula&ccedil;&atilde;o das pessoas, do pensamento, da intelig&ecirc;ncia, dos afectos; &eacute; uma morada a partilhar em paz, no equil&iacute;brio entre o trabalho e o recreio, entre os bens a consumir e a beleza a salvaguardar na sua biodiversidade.<\/p>\n<p>Os homens que n&atilde;o cuidam e n&atilde;o t&ecirc;m paix&atilde;o pela guarda do jardim tornam inabit&aacute;vel e in&oacute;spita a terra inteira. A mensagem do Papa cont&eacute;m uma express&atilde;o maravilhosa e penetrante a este respeito: <em>&ldquo;H&aacute; uma esp&eacute;cie de reciprocidade: cuidando da cria&ccedil;&atilde;o, constatamos que Deus, atrav&eacute;s da cria&ccedil;&atilde;o, cuida de n&oacute;s&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p>Quanto mais olharmos a natureza como dom de Deus, tanto maior &eacute; a sua preciosidade e maior a nossa responsabilidade. O homem como criatura entre as criaturas &eacute; chamado a viver na solidariedade, numa comunh&atilde;o amorosa e de respeito com toda a cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Todos respons&aacute;veis pela cria&ccedil;&atilde;o: para uma nova cultura ecol&oacute;gica<\/strong><\/p>\n<p>&ldquo;Todos somos, pois, respons&aacute;veis pela protec&ccedil;&atilde;o e pelo cuidado da cria&ccedil;&atilde;o&rdquo;. A ci&ecirc;ncia e a t&eacute;cnica, por si s&oacute;s, n&atilde;o resolvem a crise ecol&oacute;gica. Ela tem ra&iacute;zes culturais e &eacute;ticas profundas. A falta de respeito pela natureza mostra que o homem n&atilde;o desenvolveu plenamente a sua pr&oacute;pria humanidade.<\/p>\n<p>A humanidade global tem necessidade de uma profunda renova&ccedil;&atilde;o cultural e &eacute;tica. &Eacute; indispens&aacute;vel uma mudan&ccedil;a cultural, de mentalidade, de crit&eacute;rios, de estilos de vida, que v&aacute; &agrave; raiz do problema ecol&oacute;gico como problema moral.<\/p>\n<p>&nbsp;Com efeito, trata-se de uma responsabilidade individual e colectiva. Proteger e defender o ambiente n&atilde;o pode ser deixado s&oacute; &agrave; boa vontade dos indiv&iacute;duos.<\/p>\n<p>Assim, esta crise pode ser uma <em>&ldquo;oportunidade hist&oacute;rica de discernimento e projecta&ccedil;&atilde;o de novos caminhos&rdquo;(n. 5).<\/em> Inspirando-nos na mensagem do Santo Padre podemos indicar, sumariamente, alguns pontos concretos para uma consci&ecirc;ncia ecol&oacute;gica correcta, madura e respons&aacute;vel, como caminho para paz:<\/p>\n<p><em>&nbsp;&#8211; viver<\/em> <em>a fraternidade<\/em>, <em>como atitude fundamental<\/em>, a rela&ccedil;&atilde;o amorosa com todos os seres da natureza, &agrave; boa maneira de S. Francisco;<\/p>\n<p>&nbsp;&#8211; r<em>ecuperar<\/em> a consci&ecirc;ncia da interdepend&ecirc;ncia entre homem e natureza, <em>a solidariedade com toda a cria&ccedil;&atilde;o<\/em>, &ldquo;inspirada pelos valores da caridade, da justi&ccedil;a e do bem comum&rdquo;;<\/p>\n<p><em>&nbsp;&#8211; mudar o nosso modelo de desenvolvimento<\/em> que, muitas vezes, tem em vista m&iacute;opes interesses econ&oacute;micos a qualquer custo, de modo a que economia e tecnologia fiquem enriquecidas com a componente ecol&oacute;gica;<\/p>\n<p><em>&nbsp;&#8211; considerar a natureza como casa comum<\/em> de todos os homens e de todas as gera&ccedil;&otilde;es, que implica a solidariedade com as gera&ccedil;&otilde;es vindouras de tal modo que n&atilde;o lancemos hipotecas sobre elas nem lhes leguemos em heran&ccedil;a um deserto em vez de um jardim;<\/p>\n<p><em>&nbsp;&#8211; promover uma educa&ccedil;&atilde;o ecol&oacute;gica<\/em>, uma pedagogia do ambiente, atrav&eacute;s duma alian&ccedil;a entre fam&iacute;lia, escola, universidade, organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o governamentais e meios de comunica&ccedil;&atilde;o social;<\/p>\n<p><em>&nbsp;&#8211; adoptar novos estilos de vida<\/em> mais s&oacute;brios &ldquo;nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunh&atilde;o com os outros homens, em ordem ao crescimento comum, sejam os elementos que determinam as op&ccedil;&otilde;es do consumo, da poupan&ccedil;a e do investimento&rdquo;(n. 11). O comportamento de cada pessoa tem sempre um peso e uma consequ&ecirc;ncia. Se a pessoa se deixa cair no laxismo em numerosas formas de polui&ccedil;&atilde;o ou desperd&iacute;cio, mesmo aparentemente insignificantes, contribui para uma atitude inconsciente, para o vandalismo ambiental, para a toler&acirc;ncia da destrui&ccedil;&atilde;o ou degrada&ccedil;&atilde;o;<\/p>\n<p><em>&nbsp;&#8211; cuidar e proteger, igualmente, a ecologia humana<\/em>, afirmando o respeito pela vida humana em todas as suas fases, a dignidade da pessoa e a miss&atilde;o insubstitu&iacute;vel da fam&iacute;lia fundada no casamento entre um homem e uma mulher. &ldquo;Quando a ecologia humana &eacute; respeitada dentro da sociedade, beneficia tamb&eacute;m a ecologia ambiental&rdquo;(n. 12). Como pedir o respeito pela vida ambiental se n&atilde;o se respeita a vida humana?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O testemunho de S. Francisco<\/strong><\/p>\n<p>Neste ano de 2010 ocorre o 30&ordm; anivers&aacute;rio da proclama&ccedil;&atilde;o de S. Francisco de Assis como <em>Padroeiro dos cultores da ecologia<\/em>, que nos deixou o bel&iacute;ssimo e inspirado <em>C&acirc;ntico das Criaturas<\/em>. Contemplando o seu exemplo aprendemos a amar a cria&ccedil;&atilde;o e a descobrir nela o espelho do amor infinito do Criador: <em>&ldquo;Louvado sejas, meu Senhor, com todas as Tuas criaturas; Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam pelo Teu amor; louvai e bendizei o meu Senhor e dai-lhe gra&ccedil;as e servi-O com grande humildade&rdquo;!<\/em><\/p>\n<p>Com estes sentimentos desejo a todos v&oacute;s e &agrave;s vossas fam&iacute;lias um aben&ccedil;oado Ano Novo!<\/p>\n<p>Leiria, 1 de Janeiro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>&dagger; Ant&oacute;nio Marto, Bispo de Leiria-F&aacute;tima<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cuidar da cria&ccedil;&atilde;o, caminho para a paz No in&iacute;cio do Ano Novo, a liturgia da Palavra convida-nos a come&ccedil;ar o nosso caminho e a prossegui-lo, dia ap&oacute;s dia, com a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o do Senhor: &ldquo;O Senhor te aben&ccedil;oe e te proteja. 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