{"id":42768,"date":"2010-01-04T11:19:07","date_gmt":"2010-01-04T11:19:07","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2010\/01\/04\/homilia-de-d-manuel-linda-no-dia-mundial-da-paz\/"},"modified":"2010-01-04T11:19:07","modified_gmt":"2010-01-04T11:19:07","slug":"homilia-de-d-manuel-linda-no-dia-mundial-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-manuel-linda-no-dia-mundial-da-paz\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Manuel Linda no Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p><strong>&#8220;O Senhor te aben&ccedil;oe e te proteja. O Senhor dirija para ti o Seu olhar E te conceda a paz&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Esta f&oacute;rmula de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, recitada sobre o povo, cada dia, no velho templo de Jerusal&eacute;m, por altura do sacrifico matinal, exprime bem o desejo mais profundo do nosso cora&ccedil;&atilde;o, neste alvorecer do ano civil de 2010. Para n&oacute;s e para os outros. Ainda que o formulemos somente com aquele prosaico &ldquo;bom ano novo&rdquo;.<\/p>\n<p>Com estas palavras e sentimentos, n&oacute;s, os crentes, fazemos uma verdadeira profiss&atilde;o de f&eacute; e de confian&ccedil;a: que precisamos da protec&ccedil;&atilde;o do nosso Deus e de caminhar &agrave; luz do Seu rosto. Que s&oacute; o Senhor do tempo e da hist&oacute;ria &eacute; o autor e a origem daqueles bens e daquela felicidade sem os quais n&atilde;o faria sentido o tempo que nos &eacute; dado viver. E ainda que o Deus Criador &eacute; tamb&eacute;m Providente, pois &eacute; Ele quem sustenta a nossa vida e a cumula de gra&ccedil;a e de bondade.<\/p>\n<p>Mesmo que fosse somente por esta invoca&ccedil;&atilde;o, j&aacute; valia a pena reunirmo-nos em assembleia orante, como agora fazemos. Mas, neste dia, a Igreja apela-nos a outras considera&ccedil;&otilde;es que concedem sentido profundo a esta liturgia: a jornada mundial da paz e Santa Maria, M&atilde;e de Deus. Imp&otilde;e-se uma palavra breve sobre cada uma delas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. Dia Mundial da Paz<\/strong><\/p>\n<p>H&aacute; quarenta e tr&ecirc;s anos que, sem interrup&ccedil;&atilde;o, os Papas t&ecirc;m chamado a aten&ccedil;&atilde;o para o valor da paz, dom divino absolutamente basilar para cada pessoa e para a inteira fam&iacute;lia humana. E fazem-no mediante uma mensagem que alerta para aspectos nevr&aacute;lgicos ou refere condi&ccedil;&otilde;es do seu desenvolvimento efectivo.<\/p>\n<p>Para este ano de 2010, pouco tempo ap&oacute;s a ineficaz Cimeira de Copenhaga sobre as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas, o Santo Padre Bento XVI formulou assim o tema: &ldquo;Se queres cultivar a paz, preserva a cria&ccedil;&atilde;o&rdquo;. E desenvolve magistralmente esta ideia-base: quer n&oacute;s, pessoas humanas, quer a natureza, somos criaturas de um Deus bom. Este Deus, que nos criou por amor e para Quem estamos a caminho, pensou em n&oacute;s desde toda a eternidade e ofereceu-nos o mundo para que, mediante uma s&aacute;bia e generosa administra&ccedil;&atilde;o, retiremos dele o necess&aacute;rio para a nossa subsist&ecirc;ncia e o entreguemos, melhorado e ajardinado, &agrave;s gera&ccedil;&otilde;es futuras. Mas o nosso ego&iacute;smo s&ocirc;frego boicoteou este plano de Deus e introduziu o por todos conhecido: degrada&ccedil;&atilde;o ambiental, explora&ccedil;&atilde;o desenfreada dos recursos naturais, elevad&iacute;ssimo consumo de energias f&oacute;sseis, contamina&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua pot&aacute;vel e m&aacute; distribui&ccedil;&atilde;o a n&iacute;vel planet&aacute;rio, altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas com consequ&ecirc;ncias devastadoras essencialmente para os mais pobres, m&aacute; gest&atilde;o das florestas, um g&eacute;nero de agricultura que compromete a qualidade dos alimentos com poss&iacute;veis repercuss&otilde;es na sa&uacute;de p&uacute;blica, etc.<\/p>\n<p>E introduziu estas enfermidades na natureza porque o homem, particularmente o ocidental, est&aacute; doente. Est&aacute; moral e existencialmente doente nos seus comportamentos insolid&aacute;rios, no estilo de vida competitivo, no modelo de consumo que despreza a no&ccedil;&atilde;o de &laquo;suficiente&raquo; para se tornar insaci&aacute;vel, enfim, na forma de produ&ccedil;&atilde;o quantitativa, insustent&aacute;vel sob o ponto de vista social, ambiental e at&eacute; econ&oacute;mico. E est&aacute; doente, fundamentalmente, na sua rela&ccedil;&atilde;o com Deus que, muitas vezes, ignora ou despreza, e na rela&ccedil;&atilde;o com os outros, a quem, na pr&aacute;tica, n&atilde;o reconhece como irm&atilde;os e membros de uma mesma fam&iacute;lia. Assim, este homem de m&aacute;s rela&ccedil;&otilde;es consigo, com os outros e com Deus, poderia manter boas rela&ccedil;&otilde;es com a natureza?<\/p>\n<p>O problema ecol&oacute;gico &eacute;, pois, um problema moral, porque problema de comportamento. E n&atilde;o somente ou primariamente um problema t&eacute;cnico ou pol&iacute;tico. Foi este erro de perspectiva que ditou o fracasso da Cimeira de Copenhaga. Imp&otilde;e-se um novo estilo de vida no qual predomine a harmonia: com Deus, a quem reconhe&ccedil;amos como Pai; com os outros, assumidos efectivamente como irm&atilde;os; e com a natureza, de quem nos sintamos respons&aacute;veis e n&atilde;o tiranos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2. Santa Maria, M&atilde;e de Deus<\/strong><\/p>\n<p>O segundo aspecto desta celebra&ccedil;&atilde;o faz-nos regressar ao pres&eacute;pio. Mas agora j&aacute; n&atilde;o para contemplarmos o encanto do Menino, &ldquo;verdadeiro homem&rdquo;, como confessamos no Credo, mas sim para professar a sua divindade de &ldquo;verdadeiro Deus&rdquo;. Quando chamamos a Santa Maria a &ldquo;M&atilde;e de Deus&rdquo;, dirigimos o nosso olhar e a nossa mente para o Verbo eterno, para a Palavra reveladora e definitiva pronunciada pelo Pai.<\/p>\n<p>&ldquo;O Verbo se fez carne e habitou entre n&oacute;s&rdquo;: eis a s&iacute;ntese &uacute;ltima do mist&eacute;rio do Natal, cuja oitava hoje se encerra. Acentuamos a no&ccedil;&atilde;o de Verbo, Palavra. &Eacute; que, por aqui, tudo come&ccedil;a. Em cristianismo, a primazia concede-se &agrave; Palavra revelada que incentiva a intelig&ecirc;ncia a procurar a verdade: &ldquo;A f&eacute; entra-nos pelo ouvido&rdquo;, diria S. Paulo. Primeiro, portanto, a mente que recebe a comunica&ccedil;&atilde;o e s&oacute; depois o sentimento que lhe concede aceita&ccedil;&atilde;o afectiva: a intelig&ecirc;ncia antecipa o cora&ccedil;&atilde;o. E esta ordem n&atilde;o pode ser alterada, sob pena de se cair na pura irracionalidade. &Eacute; por este motivo que o cristianismo preza muito a racionalidade e a intelig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Infelizmente, &eacute; tra&ccedil;o caracter&iacute;stico da nossa cultura ocidental, dita p&oacute;s-moderna, o privilegiar do mero sentimento. Tende-se a usar a intelig&ecirc;ncia apenas como pura raz&atilde;o instrumental, cient&iacute;fica e t&eacute;cnica. O que comanda a sociedade de massas &eacute; a no&ccedil;&atilde;o do &laquo;apetece-me ou n&atilde;o me apetece&raquo;, o &laquo;quero ou n&atilde;o quero&raquo;, mesmo &ndash;e quase sempre &#8211; sem raz&otilde;es nem justifica&ccedil;&otilde;es. Semelhante cultura, obviamente, n&atilde;o quer, nem sabe dialogar a respeito dos grandes temas que constituem as verdadeiras encruzilhadas da humanidade actual. &Agrave;s pessoas que a perfilham, basta-lhe o enquadramento legal, as normas das leis civis, que procuram cumprir para n&atilde;o serem incomodadas. O moral &ndash;e at&eacute; o antropol&oacute;gico &#8211; arruma-se para o s&oacute;t&atilde;o das inutilidades. E n&atilde;o faltam pol&iacute;ticos que procurem atrair as simpatias das massas, indo ao encontro da sua sensibilidade e dando-lhes o que elas reclamam, sem qualquer reflex&atilde;o, di&aacute;logo ou tentativa da procura da verdade.<\/p>\n<p>Aqui reside a dificuldade da Igreja contempor&acirc;nea, mas tamb&eacute;m a urg&ecirc;ncia de ser, agora como no passado, &ldquo;sal da terra e luz do mundo&rdquo; desta cultura do mero sentimento: o seu esfor&ccedil;o em puxar para cima, para a intelig&ecirc;ncia, o que a lei do menor esfor&ccedil;o teima em fazer baixar para o mero sentimento. &Eacute; nesta perspectiva que deve ser lida a sua tomada de posi&ccedil;&atilde;o sobre os grandes temas antropol&oacute;gicos contempor&acirc;neos: aborto, eutan&aacute;sia, despersonaliza&ccedil;&atilde;o da morte, aviltamento da sexualidade, ataques sistem&aacute;ticos &agrave; fam&iacute;lia constitu&iacute;da &agrave; base de uni&atilde;o da vida e de amor de um homem e de uma mulher abertos ao dom da vida dos poss&iacute;veis filhos como estrutura mais b&aacute;sica e mais determinante da sociedade, etc. &Eacute; nesta perspectiva &ndash; e s&oacute; por ela &#8211; que a Igreja que est&aacute; em Portugal ousa pedir que, nestes assuntos de suma import&acirc;ncia, n&atilde;o se d&ecirc;em passos sem uma ampla discuss&atilde;o esclarecedora em ordem &agrave; procura da verdade.<\/p>\n<p>Na nossa Arquidiocese, o presente Ano Pastoral estrutura-se &agrave; base da no&ccedil;&atilde;o do &ldquo;Acolher a Palavra&rdquo;. Vemos bem a urg&ecirc;ncia deste tema. Refere-se, simultaneamente, ao acolhimento do Verbo de Deus Encarnado nas nossas vidas, &agrave; assimila&ccedil;&atilde;o da Sua Revela&ccedil;&atilde;o que deve constituir como que o travejamento dos nossos pensamentos e racioc&iacute;nios, e mesmo ao dever de formarmos a intelig&ecirc;ncia tamb&eacute;m nos &acirc;mbitos da f&eacute;, para podermos dar ao mundo o testemunho de uma racionalidade amiga da verdade objectiva, como tantas vezes os crist&atilde;os souberam fazer ao longo da hist&oacute;ria. &Eacute; o que o nosso tempo reclama como muito urgente.<\/p>\n<p>&Eacute; isto tamb&eacute;m que, por interm&eacute;dio de Santa Maria, M&atilde;e de Deus, pedimos ao seu Divino Filho para o novo ano, juntamente com o dom da paz e da Sua b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>1 de Janeiro de 2010<\/p>\n<p align=\"right\"><em>+ Manuel Linda, Bispo Auxiliar<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O Senhor te aben&ccedil;oe e te proteja. O Senhor dirija para ti o Seu olhar E te conceda a paz&#8221; Esta f&oacute;rmula de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, recitada sobre o povo, cada dia, no velho templo de Jerusal&eacute;m, por altura do sacrifico matinal, exprime bem o desejo mais profundo do nosso cora&ccedil;&atilde;o, neste alvorecer do ano civil de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[93,120,165,246,267],"class_list":["post-42768","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-aborto","tag-bento-xvi","tag-dia-mundial-da-paz","tag-liturgia","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42768","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42768"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42768\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}