{"id":42754,"date":"2009-12-31T12:22:18","date_gmt":"2009-12-31T12:22:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/31\/nao-ao-casamento-entre-pessoas-do-mesmo-sexo-e-questao-civilizacional\/"},"modified":"2009-12-31T12:22:18","modified_gmt":"2009-12-31T12:22:18","slug":"nao-ao-casamento-entre-pessoas-do-mesmo-sexo-e-questao-civilizacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-ao-casamento-entre-pessoas-do-mesmo-sexo-e-questao-civilizacional\/","title":{"rendered":"\u00abN\u00e3o\u00bb ao  casamento entre pessoas do mesmo sexo \u00e9 quest\u00e3o civilizacional"},"content":{"rendered":"<p>Acontecimentos de 2009 analisados por D. Jos\u00e9 Policarpo <!--more--> <\/p>\n<p>Em entrevista ao Programa ECCLESIA, com transmiss&atilde;o no dia 31 de Dezembro, o Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Jos&eacute; Policarpo, comenta alguns acontecimentos que marcaram a vida da sociedade e da Igreja Cat&oacute;lica durante o ano de 2009.<\/p>\n<p>O Patriarca de Lisboa comenta o debate em torno do casamento entre pessoas do mesmo sexo, certo de que &ldquo;h&aacute; mat&eacute;rias que n&atilde;o s&atilde;o referend&aacute;veis&rdquo;. &ldquo;O referendo &eacute; um instituto pol&iacute;tico, que n&atilde;o compete sequer &agrave; Igreja pedi-lo, a meu ver&rdquo;. Mas se houver referendo, &ldquo;pela nossa palavra e pelo nosso di&aacute;logo, esclareceremos os crist&atilde;os e toda a gente que quiser ouvir-nos das nossas raz&otilde;es. No caso, de um voto n&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Nesta entrevista &agrave; ECCLESIA, D. Jos&eacute; Policarpo comenta tamb&eacute;m o actual momento da democracia portuguesa, a &ldquo;minoria do Governo&rdquo; que &ldquo;d&aacute; ao Parlamento uma interven&ccedil;&atilde;o e um poder que n&atilde;o tinha na maioria absoluta&rdquo;, desafiando os representantes do povo a &ldquo;uma responsabilidade acrescida de porem sempre o bem de Portugal acima dos interesses partid&aacute;rios&rdquo;.<\/p>\n<p>A resposta da Igreja Cat&oacute;lica, nomeadamente na diocese de Lisboa, &agrave; crise econ&oacute;mica e social, atrav&eacute;s do projecto &ldquo;Igreja Solid&aacute;ria&rdquo;, a necessidade de um estudo s&oacute;cio-pastoral do patriarcado e a visita do Papa Bento XVI a Portugal s&atilde;o temas tamb&eacute;m abordados por D. Jos&eacute; Policarpo.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><strong>Exerc&iacute;cio da democracia<\/strong><\/p>\n<p><em>Ecclesia &#8211; 2009 foi um ano com tr&ecirc;s actos eleitorais. Eles contribu&iacute;ram para fortalecer Portugal?<\/em><\/p>\n<p><em>D. Jos&eacute; da Cruz Policarpo &ndash;<\/em> Os actos democr&aacute;ticos s&atilde;o, em si mesmos, uma express&atilde;o importante da conviv&ecirc;ncia democr&aacute;tica. Penso que decorreram com boa participa&ccedil;&atilde;o, com debates de ideias.<\/p>\n<p>Pessoalmente sou sempre sens&iacute;vel ao lugar que se d&aacute; a uma certa agressividade no discurso durante as campanhas eleitorais, em desfavor de um debate muito mais sereno de ideias. Apesar de tudo ele existiu e os portugueses votaram em liberdade e com uma participa&ccedil;&atilde;o maior.<\/p>\n<p>A consequ&ecirc;ncia mais dif&iacute;cil e mais exigente dos actos eleitorais &eacute; a coer&ecirc;ncia com as exig&ecirc;ncias da vida democr&aacute;tica, tanto dos que votaram como dos votados. Todos sabemos que o contexto actual &eacute; exigente. A minoria do Governo d&aacute; ao Parlamento uma interven&ccedil;&atilde;o e um poder que n&atilde;o tinha na maioria absoluta, o que traz aos representantes do povo no na Assembleia da Rep&uacute;blica uma responsabilidade acrescida de porem sempre o bem de Portugal acima dos interesses partid&aacute;rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Percebe-se no horizonte da ac&ccedil;&atilde;o dos pol&iacute;ticos a constru&ccedil;&atilde;o do bem comum?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> N&atilde;o podemos dizer que n&atilde;o! O problema &eacute; a defini&ccedil;&atilde;o do que &eacute; o bem comum para uma comunidade, a portuguesa, no momento concreto da sua hist&oacute;ria. E a&iacute; tenho sentido que n&atilde;o h&aacute; acordos, nomeadamente na consci&ecirc;ncia do que &eacute; o melhor para Portugal. E era poss&iacute;vel dar passos maiores nesse di&aacute;logo.<\/p>\n<p>O instrumento principal da democracia &eacute; o di&aacute;logo: a negocia&ccedil;&atilde;o, o debate de ideias, o compromisso, o saber arriscar, o saber ceder em nome exactamente do bem comum e definir o que ele &eacute;. N&atilde;o dar passos nesse di&aacute;logo &eacute; uma fragilidade da nossa democracia, que espero que o futuro corrija. O povo portugu&ecirc;s, na riqueza das suas diferen&ccedil;as, merece mais!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Ser&aacute; necess&aacute;rio rever o equil&iacute;brio e a distribui&ccedil;&atilde;o dos poderes pelos &oacute;rg&atilde;os de soberania?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> A ess&ecirc;ncia dos regimes democr&aacute;ticos &eacute; a autonomia dos poderes: legislativo, executivo e judicial. A autonomia n&atilde;o significa, no entanto, que n&atilde;o haja converg&ecirc;ncia, di&aacute;logo e debate. As formas constitucionais de equilibrar estes tr&ecirc;s poderes s&atilde;o variadas e est&atilde;o relacionadas com a fisionomia dos povos, com o momento hist&oacute;rico de um quadro democr&aacute;tico da sociedade. E os modelos s&atilde;o mais parlamentaristas ou mais presidenciais.<\/p>\n<p>Entre n&oacute;s, esse &eacute; um debate que vem desde 1975. E se tenho uma opini&atilde;o sobre esta mat&eacute;ria, acho que a n&atilde;o devo dizer porque n&atilde;o &eacute; meu papel intervir a esse n&iacute;vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &#8211; O nosso sistema &eacute; &ldquo;semi-presidencialista&rdquo;&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> N&atilde;o sei se se pode verdadeiramente designar assim. &Eacute; evidente que o nosso Presidente da Rep&uacute;blica tem mais poderes do que os de outros chefes de Estado de pa&iacute;ses da Uni&atilde;o Europeia. Da&iacute; a chamar &ldquo;semi-presidencialista&rdquo; parece-me que &eacute; for&ccedil;ado.<\/p>\n<p>Ele tem um grande poder: o de criar opini&atilde;o, consensos e dinamismos com a presen&ccedil;a e o exerc&iacute;cio da sua magistratura (um chefe de Estado &eacute; um chefe de Estado!). Na realidade, os poderes do nosso Presidente da Rep&uacute;blica, constitucionalmente, s&atilde;o muito limitados. E quem aceita esse cargo sabe isso!<\/p>\n<p>N&atilde;o creio, no entanto, que essa seja a quest&atilde;o essencial. A quest&atilde;o crucial do progresso democr&aacute;tico est&aacute; na capacidade de definir o bem comum, na capacidade de di&aacute;logo, de servi&ccedil;o &agrave; Na&ccedil;&atilde;o e de compreender o pa&iacute;s que se governa, num debate que tenha mais profundidade cultural.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Contrariamente a esse objectivo, o debate pol&iacute;tico entre n&oacute;s vai acontecendo num ambiente de crispa&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> Tem per&iacute;odos&hellip; A crispa&ccedil;&atilde;o faz parte do sistema! &Eacute; humana. Mas o ambiente inter-pessoal dos pol&iacute;ticos n&atilde;o &eacute; necessariamente o que salta na crispa&ccedil;&atilde;o de uma discuss&atilde;o p&uacute;blica.<\/p>\n<p>Apesar de tudo isso se poder mitigar, n&atilde;o &eacute; da&iacute; que vem o mal ao pa&iacute;s. O problema s&eacute;rio &eacute; o do di&aacute;logo com qualidade, da lucidez para ver o caminho que Portugal precisa e as prioridades que &eacute; preciso estabelecer&hellip;<\/p>\n<p>Pessoalmente, n&atilde;o compreendo como, em momentos de grande dificuldade para Portugal, n&atilde;o sejam poss&iacute;veis consensos maiorit&aacute;rios sobre duas ou tr&ecirc;s quest&otilde;es, a concretizar independentemente dos governos serem de centro-direita ou centro-esquerda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Que quest&otilde;es?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> Em cada momento s&atilde;o variadas&hellip;<\/p>\n<p>Agora est&aacute; muito em causa o endividamento p&uacute;blico: merecia um consenso. Ou a quest&atilde;o da regionaliza&ccedil;&atilde;o, que da primeira vez foi mal resolvida&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Existem condi&ccedil;&otilde;es de di&aacute;logo para levar esta legislatura at&eacute; ao fim?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> Responder que n&atilde;o a isso significaria dizer que deixo de acreditar na democracia. E n&atilde;o &eacute; verdade! Eu acredito no sistema democr&aacute;tico, com todos os limites humanos. Acredito at&eacute; no esfor&ccedil;o e na sinceridade da maior parte daqueles senhores, alguns deles com uma vida muito sacrificada (outros menos&hellip;). Acredito na generosidade dos principais fazedores da pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Casamento entre pessoas do mesmo sexo<\/strong><\/p>\n<p><em>[[v,d,751,Cardeal Patriarca comenta poss&iacute;vel referendo ]]E &ndash; Sobre o casamento das pessoas com o mesmo sexo, a opini&atilde;o do Patriarca de Lisboa foi confirmada numa Carta &agrave;s Comunidades Crist&atilde;s, onde afirma que a Igreja &ldquo;usar&aacute; os meios e os modos consent&acirc;neos com a sua miss&atilde;o&rdquo; para travar leis que &ldquo;ferem gravemente a compreens&atilde;o crist&atilde; do homem e da sociedade&rdquo;. Que meios s&atilde;o esses?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> A grande arma da Igreja &eacute; a convic&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s da palavra. O segundo meio &eacute; o di&aacute;logo, paciente, para o qual eu estou sempre dispon&iacute;vel, como digo na Carta.<\/p>\n<p>Diante de quest&otilde;es muito &ldquo;quentes&rdquo;, &eacute;ticas, que tocam a consci&ecirc;ncia, os cat&oacute;licos que s&atilde;o muito contra correm o risco de ficar na plataforma pol&iacute;tica, de reagir s&oacute; politicamente. O que &eacute; leg&iacute;timo, no exerc&iacute;cio da democracia. Mas o meio cl&aacute;ssico de a Igreja estar na sociedade &eacute; o testemunho dos crist&atilde;os, a diferen&ccedil;a marcada pela atitude que se tem diante das realidades e o di&aacute;logo com toda a gente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O referendo n&atilde;o &eacute; um desses meios?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> N&atilde;o me compete decidir isso. O referendo &eacute; um instituto pol&iacute;tico, que n&atilde;o compete sequer &agrave; Igreja pedi-lo, a meu ver. Os crist&atilde;os t&ecirc;m direito a pedi-lo, sendo ele sempre decidido pelo Parlamento.<\/p>\n<p>Outra coisa &eacute; se houver referendo: pela nossa palavra e pelo nosso di&aacute;logo esclareceremos os crist&atilde;os e toda a gente que quiser ouvir as nossas raz&otilde;es. No caso destes, num voto &ldquo;n&atilde;o&rdquo;!<\/p>\n<p>Ainda n&atilde;o esclareci muito bem para mim, mas tenho dificuldade em aceitar referendos sobre quest&otilde;es de consci&ecirc;ncia. Recordo-me que ap&oacute;s o Conc&iacute;lio [o segundo Conc&iacute;lio do Vaticano, 1962-1965, ndr], no contexto do conselho da revista &ldquo;Concilium&rdquo;, p&ocirc;s-se a hip&oacute;tese de votar as quest&otilde;es mais delicadas no campo da teologia. E passava aquela que ganhasse. Fiquei aterrado! E comentei que se chegasse ao momento em que referend&aacute;ssemos a exist&ecirc;ncia de Deus, se o n&atilde;o&rdquo; ganhasse, Deus continuava a existir&hellip;<\/p>\n<p>H&aacute; quest&otilde;es que n&atilde;o s&atilde;o referend&aacute;veis, sobretudo se somos n&oacute;s a optar pelo referendo. Ele &eacute; uma arma leg&iacute;tima dos cidad&atilde;os para evitar uma lei que consideram injusta. Por isso, na nossa posi&ccedil;&atilde;o enquanto hierarquia, fa&ccedil;o uma distin&ccedil;&atilde;o entre um movimento que pede o referendo e a nossa decis&atilde;o se houver referendo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A&iacute; &eacute; clara?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> Se houver referendo, n&atilde;o tenho d&uacute;vidas nenhumas a esse respeito.<\/p>\n<p>Neste momento a responsabilidade &eacute; do Parlamento. A iniciativa de pedir o referendo &eacute; dos cidad&atilde;os. Sei que muitos deles s&atilde;o cat&oacute;licos. E t&ecirc;m todo o direito. Mas dei orienta&ccedil;&otilde;es para que a campanha de recolha de assinaturas n&atilde;o fosse proclamada do &ldquo;alto da igreja&rdquo;. <em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>Permanece como pano de fundo a d&uacute;vida se esta &eacute; uma mat&eacute;ria referend&aacute;vel. Porque o referendo tem este inconveniente: para muita gente, a hip&oacute;tese que ganha passa a ser a verdade. E pode n&atilde;o ser. No campo da verdade, um pode ter raz&atilde;o contra um milh&atilde;o!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>[[a,d,748,Referendo sobre casamentos entre pessoas do mesmo sexo]]E &ndash; Que coment&aacute;rio lhe merece o facto de esta iniciativa aparecer em contexto natal&iacute;cio? &Eacute; infeliz?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> Vejo mais a pressa em resolver isto rapidamente&hellip;<\/p>\n<p>Esta quest&atilde;o tem uma press&atilde;o internacional muito grande. H&aacute; um <em>lobby<\/em> muito forte, que se faz sentir no quadro da Uni&atilde;o Europeia.<\/p>\n<p>O problema que est&aacute; em quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; a homossexualidade. Se a discutirmos, o discurso tem outros par&acirc;metros. Neste momento est&aacute; em causa a natureza do casamento. Que n&atilde;o &eacute; uma quest&atilde;o religiosa, antes cultural. As culturas milenares consideram o casamento um contrato entre um homem e uma mulher, que d&aacute; lugar a uma institui&ccedil;&atilde;o, a fam&iacute;lia. Mudar esta compreens&atilde;o milenar do que &eacute; a fam&iacute;lia na humanidade pode ter consequ&ecirc;ncias grav&iacute;ssimas no futuro.<\/p>\n<p>Em conversa particular, considerei que se os homossexuais tivessem direito ao casamento eu seria o primeiro a defend&ecirc;-lo&hellip; Mas creio que n&atilde;o t&ecirc;m direito ao casamento. Chamem-lhe outra coisa!<\/p>\n<p>A natureza est&aacute; feita assim. E ainda bem!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; H&aacute; que encontrar outra formula&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &#8211;<\/em> Sobre isso, j&aacute; n&atilde;o me pronuncio. Penso que ningu&eacute;m, num quadro democr&aacute;tico, mesmo n&atilde;o estando de acordo, vai contestar o direito dessas pessoas viverem em conjunto. Se h&atilde;o-de ter ou n&atilde;o algum reconhecimento por parte do Estado, tamb&eacute;m &eacute; outra quest&atilde;o. Agora, que n&atilde;o misturem no mesmo saco a fam&iacute;lia, j&aacute; t&atilde;o fragilizada, com outras quest&otilde;es!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Falou nesse lobby internacional. As quest&otilde;es &eacute;ticas, de fronteira, v&atilde;o-se sucedendo e constituindo-se em Direito. At&eacute; onde?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> N&atilde;o sei&hellip; Hoje um dos problemas da sociedade &eacute; que deixou de reagir a longo prazo. O que s&oacute; se consegue apanhando a onda de profundidade, n&atilde;o de superf&iacute;cie.<\/p>\n<p>No mundo moderno, pelo ritmo que adquiriu e pela compara&ccedil;&atilde;o inevit&aacute;vel entre civiliza&ccedil;&otilde;es que a globaliza&ccedil;&atilde;o nos traz, as pessoas v&ecirc;em-se confrontadas com a mudan&ccedil;a r&aacute;pida. Aonde isso nos leva n&atilde;o sei. Mas acredito que haver&aacute; reac&ccedil;&otilde;es de fundo e de profundidade. E acredito que o interc&acirc;mbio de civiliza&ccedil;&otilde;es ter&aacute; influ&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>AA nossa sociedade est&aacute; assente em ci&ecirc;ncia, tecnologia e defesa dos direitos, por vezes concebidos numa compreens&atilde;o da liberdade sem responsabilidade. Tudo isto precisa de uma reflex&atilde;o, do debate pol&iacute;tico alargado ao debate cultural, onde todos temos o direito e o dever de participar.<\/p>\n<p>Se isto ser&aacute; a degeneresc&ecirc;ncia completa da sociedade, n&atilde;o sei. Espero que n&atilde;o, porque acredito nas ondas de fundo!<\/p>\n<p>Infelizmente, a hist&oacute;ria mostra-nos que as grandes mudan&ccedil;as de correc&ccedil;&atilde;o vieram com grandes crises de sofrimento, guerras ou outras. Que Deus nos d&ecirc; a sabedoria de as fazer sem ser &agrave; for&ccedil;a, provocadas por um grande sofrimento colectivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Projectos da Igreja Cat&oacute;lica no Patriarcado<\/strong><\/p>\n<p><em>E &#8211; Em tempos de crise, o projecto &ldquo;Igreja solid&aacute;ria&rdquo; atingiu os seus objectivos?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP&nbsp; &ndash;<\/em> Sim e n&atilde;o!<\/p>\n<p>Criou um esp&iacute;rito, uma vaga de fundo, que levou as institui&ccedil;&otilde;es sociais a responderem mais imediatamente. Sem querermos trazer solu&ccedil;&otilde;es para a economia, propomo-nos estar atentos aos nossos irm&atilde;os que, a um dado momento, se viram com dificuldades inesperadas. O sentido de proximidade, de vizinhan&ccedil;a &eacute; essencial. N&atilde;o conhecemos o novo sector da popula&ccedil;&atilde;o que se viu com dificuldades inesperadas, nem ele se d&aacute; facilmente a conhecer. E tem o direito disso!<\/p>\n<p>Na micro-realidade, as institui&ccedil;&otilde;es t&ecirc;m estado mais preparadas para responder ao que podem. Em macro dimens&atilde;o, numa diocese com 2,5 milh&otilde;es de habitantes, o &ecirc;xito n&atilde;o &eacute; muito grande. Os pr&oacute;prios mecanismos postos &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o, um formul&aacute;rio na internet, n&atilde;o ajudam&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Que radiografia socioreligiosa da diocese &eacute; preciso fazer-se?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> A minha intui&ccedil;&atilde;o &eacute; esta: a organiza&ccedil;&atilde;o pastoral da Igreja, nomeadamente no Ocidente, tem tradicionalmente em conta o territ&oacute;rio enquanto espa&ccedil;o onde as pessoas habitam. Mas a mobilidade e multi-perten&ccedil;a baralham esses dados: a que comunidade &eacute; que uma pessoa pertence? Onde chega &agrave; noite para dormir? Onde trabalha? A um clube onde tem os amigos?<\/p>\n<p>Por isso, a organiza&ccedil;&atilde;o pastoral tem de estar atenta &agrave;s mudan&ccedil;as que o tempo realiza.<\/p>\n<p>Ultimamente, nas minhas desloca&ccedil;&otilde;es pela diocese tenho tido a sensa&ccedil;&atilde;o de uma mudan&ccedil;a enorme. A nossa diocese est&aacute; diferente. Urbanisticamente, h&aacute; popula&ccedil;&otilde;es que vivem a 30 km de Lisboa e v&ecirc;m trabalhar &agrave; capital. Na aldeia onde nasci, &iacute;amos s&oacute; &agrave; igreja paroquial; hoje as pessoas t&ecirc;m carro e v&atilde;o tanto &agrave; igreja da sua par&oacute;quia como &agrave; da povoa&ccedil;&atilde;o vizinha ou &agrave; da cidade&#8230;<\/p>\n<p>Na nossa organiza&ccedil;&atilde;o pastoral tivemos minimamente em conta estas mudan&ccedil;as. Mas chegou o momento de olhar para a realidade humana da diocese, o que s&oacute; se consegue com a ajuda de quem sabe faz&ecirc;-lo, para a partir da&iacute; e com as for&ccedil;as que tenho &ndash; clero e leigos comprometidos com a miss&atilde;o da Igreja &ndash; perceber como estruturar a vida pastoral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; As v&aacute;rias igrejas, que recentemente inaugurou, s&atilde;o tamb&eacute;m uma resposta a essas mudan&ccedil;as?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> As igrejas que t&ecirc;m vindo a ser inauguradas pecaram por tardias: est&atilde;o em grandes realidades urban&iacute;sticas onde n&atilde;o existia templo, que &eacute; muito importante como ponto de refer&ecirc;ncia para a f&eacute; dos crist&atilde;os, nomeadamente para quem chega a Lisboa de outros pontos do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>O nosso c&aacute;lculo, feito j&aacute; no tempo do Sr. D. Manuel Falc&atilde;o [bispo auxiliar de Lisboa entre 1967 e 1974, <em>ndr<\/em>], era de uma igreja para uma m&eacute;dia de 10 mil habitantes. N&atilde;o o atingimos, at&eacute; porque houve urbaniza&ccedil;&otilde;es muito r&aacute;pidas.<\/p>\n<p>Um estudo como o que estou anunciar pode porventura dar orienta&ccedil;&otilde;es para o reequacionar destes centros de converg&ecirc;ncia e dos novos crit&eacute;rios para os construir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Projecto de Troufa Real<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>[[v,d,752,Patriarca comenta projecto de Troufa Real]]E &ndash; A&iacute; se inscreve a igreja do Restelo. Qual a sua opini&atilde;o sobre o projecto de Troufa Real?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> Para uma pessoa como eu, que fui entusiasta do movimento da renova&ccedil;&atilde;o da arte religiosa em Portugal e que tive a sorte de ter pr&oacute;ximo de mim grandes arquitectos que marcaram o que de melhor se fez na nossa diocese (Diogo Pimentel, que ainda trabalha connosco, Nuno Teot&oacute;nio Pereira, Formosinho Sanches, Ant&oacute;nio Freitas Leal, Jo&atilde;o Almeida, entre outros), e para os nossos par&acirc;metros (nessa altura tamb&eacute;m muito discutidos e muito contestados), olho para um projecto de S. Francisco Xavier e&#8230; Falta-lhe a gram&aacute;tica que eu aprendi: a inspira&ccedil;&atilde;o do Mist&eacute;rio em cada pedra que se p&otilde;e, em cada parede que se faz.<\/p>\n<p>O projecto de S. Francisco Xavier tem uma simb&oacute;lica escolhida pelo arquitecto, de acordo com a par&oacute;quia: as miss&otilde;es, ir mar al&eacute;m e da&iacute; a ideia de uma caravela.<\/p>\n<p>O que acho curioso que na contesta&ccedil;&atilde;o, que se deu quando est&aacute; tudo irremediavelmente decidido, &eacute; que este projecto &eacute; conhecido h&aacute; 15 anos. Eu fui lan&ccedil;ar a primeira pedra h&aacute; mais de 10 anos e o projecto estava exposto nessa altura. E existia um entusiasmo generalizado pela pela sua beleza&hellip; Na exposi&ccedil;&atilde;o por ocasi&atilde;o dos V Centen&aacute;rio do Nascimento de S. Francisco Xavier, na Cordoaria Nacional, estava exposta esta igreja e ningu&eacute;m se referiu a ela.<\/p>\n<p>Penso que h&aacute; muita coisa que, em di&aacute;logo com arquitecto Troufa Real &ndash; ainda n&atilde;o me encontrei com ele recentemente &ndash; pode ser melhorada. Sobretudo percebendo a igreja como casa de fam&iacute;lia, de uma comunidade crist&atilde; que ali se vai reunir.<\/p>\n<p>&Eacute; um projecto pelo qual n&atilde;o morro de amores, mas que percorreu todos os passos normais da aprova&ccedil;&atilde;o: foi aprovado pelo nosso Departamento das Novas Igrejas e pela C&acirc;mara Municipal de Lisboa. Houve um vasto di&aacute;logo com a comunidade e com o p&aacute;roco&#8230; E eu n&atilde;o posso dar o dito por n&atilde;o dito.<\/p>\n<p>De repente, talvez por ser uma caravela, entrou em tempestade&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Far-se-&atilde;o altera&ccedil;&otilde;es&#8230;<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> Vi nos jornais que ele j&aacute; tinha aceite rever aquele mastro enorme da caravela (a que j&aacute; come&ccedil;aram a chamar minarete). Na concep&ccedil;&atilde;o arquitect&oacute;nica, o mastro da caravela &eacute; a torre da igreja. &Eacute; talvez alta de mais&#8230; N&atilde;o sei se uma caravela com um mastro daqueles consegue navegar&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ecologia e visita do Papa<\/strong><\/p>\n<p><em>[[a,d,750,D. Jos&eacute; Policarpo e as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas]]E &ndash; Na Mensagem para o Dia Mundial da Paz, o Papa introduz o tema da cria&ccedil;&atilde;o no debate ecol&oacute;gico. Estar&aacute; a&iacute; o segredo do sucesso para o debate que tem marcado a actualidade?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> O conceito teol&oacute;gico de cria&ccedil;&atilde;o &eacute; dif&iacute;cil. O da natureza &eacute; espont&acirc;neo e penso que a maior parte dos habitantes do mundo actual ainda acredita nele. Mas h&aacute; muita gente que n&atilde;o acredita.<\/p>\n<p>A verdade profunda da natureza tem as suas leis. Para n&oacute;s, crist&atilde;os, o planeta Terra foi-nos dado para o habitarmos e para o melhorarmos!<\/p>\n<p>Neste debate n&atilde;o sei se h&aacute; um acordo do ponto de vista cient&iacute;fico: sim ou n&atilde;o o planeta est&aacute; amea&ccedil;ado? Eu estou confuso! Tenho ouvido opini&otilde;es contrastantes&#8230; Ser&aacute; que as teses radicais ecol&oacute;gicas s&atilde;o as &uacute;nicas? &Eacute; preciso um grande debate cient&iacute;fico para saber se o planeta est&aacute; ou n&atilde;o amea&ccedil;ado. Que vai sofrendo as suas tropelias, isso sempre sofreu!<\/p>\n<p>Esta &eacute; a primeira quest&atilde;o, que pesou sobre Copenhaga.<\/p>\n<p>Partindo do princ&iacute;pio de que o planeta est&aacute; amea&ccedil;ado, voltamos a ter uma quest&atilde;o de civiliza&ccedil;&atilde;o, onde a o problema crucial &eacute; global. Ele tem na base valores fundamentais, que implicam saber a que &eacute; preciso renunciar e o que &eacute; necess&aacute;rio transformar para termos uma conviv&ecirc;ncia de forma a salvarmos o planeta. E estamos longe ainda deste consenso!<\/p>\n<p>Eu compreendo: como &eacute; que se muda de repente uma economia dos Estados Unidos da Am&eacute;rica ou de um gigante como a China, deixando de utilizar o petr&oacute;leo como energia?<\/p>\n<p>&Eacute; uma estrada que n&atilde;o est&aacute; fechada: &eacute; preciso aprofundar a quest&atilde;o cient&iacute;fica e chegar a acordos. Depois, criemos um dinamismo, um ideal de organiza&ccedil;&atilde;o de vida, de forma a n&atilde;o estragar a casa onde habitamos. Para n&oacute;s n&atilde;o h&aacute; grandes perigos: vamos ter mais umas cheias, uns vendavais e um calor no Ver&atilde;o&#8230; O problema s&atilde;o os nossos vindouros!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Que oportunidade constituir&aacute; a visita de Bento XVI a Portugal, em Maio pr&oacute;ximo?<\/em><\/p>\n<p><em>JCP &ndash;<\/em> A visita do Papa &eacute; sempre um grande acontecimento.<\/p>\n<p>Portugal, desde a sua nacionalidade, tem uma rela&ccedil;&atilde;o cong&eacute;nita com a sede de Pedro, o que considero um dos baluartes mais significativos da nossa cultura cat&oacute;lica. Com altos e baixos, mas sem nunca romper uma componente fundamental da f&eacute; dos portugueses: uma liga&ccedil;&atilde;o muito forte &agrave; figura do Papa como sucessor de Pedro, seja ele quem for.<\/p>\n<p>Para n&oacute;s, esta visita de Bento XVI &eacute; uma &oacute;ptima oportunidade de, ele e n&oacute;s, aproveitarmos o melhor poss&iacute;vel a afirma&ccedil;&atilde;o da Igreja nesta sociedade, que ainda n&atilde;o se esqueceu dela mas n&atilde;o lhe tem o amor que j&aacute; teve!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acontecimentos de 2009 analisados por D. 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