{"id":42720,"date":"2009-12-29T11:32:00","date_gmt":"2009-12-29T11:32:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/29\/communio-lanca-fasciculo-dedicado-a-accao-social-da-igreja\/"},"modified":"2009-12-29T11:32:00","modified_gmt":"2009-12-29T11:32:00","slug":"communio-lanca-fasciculo-dedicado-a-accao-social-da-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/communio-lanca-fasciculo-dedicado-a-accao-social-da-igreja\/","title":{"rendered":"\u00abCommunio\u00bb lan\u00e7a fasc\u00edculo dedicado \u00e0 ac\u00e7\u00e3o social da Igreja"},"content":{"rendered":"<p>O fasc&iacute;culo da Revista &laquo;Communio&raquo; sobre a ac&ccedil;&atilde;o social da Igreja chega aos leitores sob o signo de uma dupla oportunidade: depois da publica&ccedil;&atilde;o da recente enc&iacute;clica de Bento XVI, <em>Caritas in veritate<\/em>, que enriquece o corpus do magist&eacute;rio romano, procurando integrar a doutrina social da Igreja numa mais vasta tradi&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica, enraizando-a mais explicitamente na mensagem crist&atilde; (H. Noronha Galv&atilde;o); e no contexto de uma crise internacional, que desvelou o rosto das vulnerabilidades sociais das nossas sociedades, &#8220;novas&#8221; e &#8220;velhas&#8221; situa&ccedil;&otilde;es de car&ecirc;ncia que os acontecimentos recentes agravaram (Alfredo Bruto da Costa).<\/p>\n<p>A pertin&ecirc;ncia das quest&otilde;es sociais est&aacute; inscrita no &#8220;c&oacute;digo gen&eacute;tico&#8221; da experi&ecirc;ncia crist&atilde;. As primeiras gera&ccedil;&otilde;es de crist&atilde;os hesitaram entre a constitui&ccedil;&atilde;o de comunidades fechadas sobre si, vivendo numa l&oacute;gica de reciprocidade que antecipasse as &#8220;coisas que estavam para vir&#8221;, e a dissemina&ccedil;&atilde;o no mundo greco-romano. Numa das vias preponderantes, de que a evangeliza&ccedil;&atilde;o paulina d&aacute; testemunho, os crist&atilde;os escolheram itiner&aacute;rios de inser&ccedil;&atilde;o nas redes e capilaridades pr&oacute;prias da romanidade urbana, tendo como base social o agregado familiar (oikos). A partir dessa op&ccedil;&atilde;o, inseriram-se no tecido social de uma forma singular: a met&aacute;fora do &#8220;estrangeiro&#8221; serviu para traduzir a sua condi&ccedil;&atilde;o de cidad&atilde;os plenamente respons&aacute;veis pela cidade terrena, vivendo embora essa cidadania a partir de sentidos que ultrapassam o horizonte intra-hist&oacute;rico.<\/p>\n<p>Nesta traject&oacute;ria, gregos, romanos, judeus, et&iacute;opes, escravos e homens livres, homens e mulheres passam a identificar-se como crist&atilde;os a partir de um novo regime de solidariedade (baptismal) que ultrapassa as barreiras sociais que estruturavam as sociedades mediterr&acirc;nicas da antiguidade tardia. Esse novo paradigma encontra uma particular explicita&ccedil;&atilde;o na forma como face ao &#8220;pobre&#8221;, dir-se-ia o humano simplesmente humano, se concretiza o ethos do cuidado pr&oacute;prio do mandamento do &#8220;amor ao pr&oacute;ximo&#8221; (como Lu&iacute;sa Almendra sublinha, na sua leitura exeg&eacute;tica da c&eacute;lebre par&aacute;bola, o homem socorrido pelo Samaritano n&atilde;o &eacute; caracterizado nem pela religi&atilde;o, nem pela ra&ccedil;a ou condi&ccedil;&atilde;o social, &eacute; identificado apenas pela situa&ccedil;&atilde;o em que se encontra).<\/p>\n<p>Nas comunidades crist&atilde;s, a express&atilde;o do &#8220;cuidado&#8221; desenvolveu-se a partir de uma experi&ecirc;ncia singular: a diaconia. A reflex&atilde;o sobre a dimens&atilde;o diaconal da Igreja &eacute; essencial para que se perceber que estamos perante a articula&ccedil;&atilde;o da sua pr&oacute;pria identidade e miss&atilde;o (J. E. Borges de Pinho). As concretiza&ccedil;&otilde;es desta dimens&atilde;o v&atilde;o depender da forma como se relacionam estas duas vias de constru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da identidade crist&atilde;: as formas de solidariedade que organizam a comunidade dos crist&atilde;os e a solicitude dessas comunidades face ao &#8220;mundo&#8221; (oikoumene).<\/p>\n<p>Historicamente, o cristianismo foi reinventando as suas formas de inscri&ccedil;&atilde;o social, aprofundando as consequ&ecirc;ncias do mandamento evang&eacute;lico do &#8220;amor ao pr&oacute;ximo&#8221; (G. Laiti, J.-R. Armogathe, Y.-M. Hilaire). Neste &acirc;mbito, h&aacute; que ter em conta n&atilde;o s&oacute; os dinamismos explicitamente inscritos no campo eclesial autorizado, mas tamb&eacute;m os resultados da inscri&ccedil;&atilde;o dos crist&atilde;os nos diversos movimentos sociais &#8211; observe-se o caso das &#8220;Semanas Sociais Portuguesas&#8221; e o seu contexto (Ant&oacute;nio Almodovar). Esta dimens&atilde;o de historicidade est&aacute; presente na pr&oacute;pria constru&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica da Doutrina Social da Igreja (Domingos Vieira).<\/p>\n<p>Importa ter em conta os percursos de moderniza&ccedil;&atilde;o e seculariza&ccedil;&atilde;o destas sociedades que fizeram a experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica do cristianismo. Usando a conceptualidade de N. Luhmann, dir-se-ia que esses percursos s&atilde;o de complexifica&ccedil;&atilde;o e especializa&ccedil;&atilde;o. Neste sentido, muitos dos pap&eacute;is sociais assumidos por diferentes institui&ccedil;&otilde;es crist&atilde;s foram apropriados por outros actores sociais e, num horizonte mais amplo, a esfera religiosa v&ecirc;-se impelida a especializar o seu campo de ac&ccedil;&atilde;o e sentido, evitando o risco de colis&atilde;o com os outros subsistemas sociais. Importa sublinhar que as l&oacute;gicas de ac&ccedil;&atilde;o eclesial que visavam traduzir o impulso caritativo passaram a contar com dois factos novos: a emerg&ecirc;ncia do Estado social e o aparecimento de saberes t&eacute;cnicos no dom&iacute;nio da interven&ccedil;&atilde;o social (Alfredo Teixeira).<\/p>\n<p>As l&oacute;gicas de ac&ccedil;&atilde;o que decorrem de motiva&ccedil;&otilde;es e indicativos crist&atilde;os, as que se explicitam no quadro da estatiza&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o social e as que traduzem uma apropria&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica dos problemas sociais n&atilde;o t&ecirc;m que, necessariamente, se excluir. Mas tamb&eacute;m n&atilde;o dever&atilde;o ser niveladas. Nos &uacute;ltimos anos, com concretiza&ccedil;&otilde;es diversas consoante os contextos nacionais, assistimos a traject&oacute;rias em que, por um lado, se estatizam l&oacute;gicas de ac&ccedil;&atilde;o que tinham uma &iacute;ndole espiritual e, por outro, diferentes formas associativas e institucionais, enraizadas na tradi&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, se convertem &#8211; por vezes, sem resto &#8211; aos modelos do Estado social.<\/p>\n<p>Tal situa&ccedil;&atilde;o pode ser lida no contexto das traject&oacute;rias de seculariza&ccedil;&atilde;o da &eacute;tica da fraternidade crist&atilde;, na perspectiva interpretativa de Habermas. A autonomiza&ccedil;&atilde;o dessa &eacute;tica da fraternidade enquanto &eacute;tica comunicativa poderia explicar algumas ambiguidades: por um lado, h&aacute; dificuldades em reconhecer as marcas gen&eacute;ticas crist&atilde;s da actual consci&ecirc;ncia das quest&otilde;es sociais; por outro lado, as Igrejas caem na tenta&ccedil;&atilde;o de seguir a via de uma relegitima&ccedil;&atilde;o social por via dos seus empreendimentos neste dom&iacute;nio.<\/p>\n<p>Deve situar-se neste contexto o mal-estar que se descobre com alguma frequ&ecirc;ncia entre os actores crist&atilde;os e nos dispositivos eclesiais com responsabilidades neste dom&iacute;nio. Este mal-estar decorre da dificuldade na defini&ccedil;&atilde;o do que &eacute; pr&oacute;prio da sua ac&ccedil;&atilde;o. Essa preocupa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o deveria ser apenas crist&atilde;, uma vez que a criatividade social pr&oacute;pria da &#8220;eclesiosfera&#8221; neste dom&iacute;nio, na medida em que se potenciam as suas compet&ecirc;ncias pr&oacute;prias, pode introduzir novas vias de recomposi&ccedil;&atilde;o das l&oacute;gicas de ac&ccedil;&atilde;o social, em benef&iacute;cio do bem comum (Henrique Joaquim).<\/p>\n<p>A sec&ccedil;&atilde;o &ldquo;Perspectivas&#8221; &eacute; preenchida, neste fasc&iacute;culo, por um estudo de Marie-Fran&ccedil;oise Baslez acerca do problema da escravatura no mundo de S. Paulo e por um ensaio de Bart J. Koet que, a partir da hermen&ecirc;utica visual de um tema na pintura flamenga, procura alargar o campo de leitura da categoria &#8220;di&aacute;cono&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Alfredo Teixeira, Maria C. Branco, Carlos Salema, <a href=\"http:\/\/www.revistacommunio.com\/default.php\">Communio<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O fasc&iacute;culo da Revista &laquo;Communio&raquo; sobre a ac&ccedil;&atilde;o social da Igreja chega aos leitores sob o signo de uma dupla oportunidade: depois da publica&ccedil;&atilde;o da recente enc&iacute;clica de Bento XVI, Caritas in veritate, que enriquece o corpus do magist&eacute;rio romano, procurando integrar a doutrina social da Igreja numa mais vasta tradi&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica, enraizando-a mais explicitamente [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[120,139,314],"class_list":["post-42720","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-bento-xvi","tag-communio","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42720","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42720"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42720\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42720"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42720"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42720"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}