{"id":42717,"date":"2009-12-30T13:03:00","date_gmt":"2009-12-30T13:03:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/30\/cultivar-a-paz-preservando-a-criacao\/"},"modified":"2009-12-30T13:03:00","modified_gmt":"2009-12-30T13:03:00","slug":"cultivar-a-paz-preservando-a-criacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cultivar-a-paz-preservando-a-criacao\/","title":{"rendered":"Cultivar a paz preservando a cria\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Tema escolhido por Bento XVI para o pr\u00f3ximo Dia Mundial da Paz ganha nova relev\u00e2ncia depois de Copenhaga <!--more--> <\/p>\n<p>A cimeira de Copenhaga terminou apenas com uma inten&ccedil;&atilde;o de ac&ccedil;&atilde;o relativa a uma quest&atilde;o moral que nos atinge a todos: a crise ecol&oacute;gica. Segundo o secret&aacute;rio da ONU para as altera&ccedil;&otilde;es clim&aacute;ticas, Yvo de Boer, apesar de n&atilde;o ter qualquer efeito vinculativo, &ldquo;tomar nota&rdquo; do acordo &eacute; <em>&laquo;uma forma <\/em>[dos pa&iacute;ses] <em>reconhecerem que algo existe, mas n&atilde;o a ponto de dizerem que se tornam parte <\/em>[dele]<em>&raquo;<\/em>. Porque n&atilde;o se atingiu consenso? A interpreta&ccedil;&atilde;o que lemos nos jornais &eacute; ter havido um bloqueio resultante de diferendos entre pa&iacute;ses desenvolvidos e em desenvolvimento. Mas, ser&aacute; este o motivo? Sugiro uma outra interpreta&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Na prepara&ccedil;&atilde;o desta cimeira foram identificados como pontos essenciais pelos organizadores: a redu&ccedil;&atilde;o das emiss&otilde;es de gases com efeito de estufa, nomeadamento o CO<sub>2<\/sub>; e as ajudas financeiras aos pa&iacute;ses mais pobres (que s&atilde;o, sem d&uacute;vida, importantes). Por&eacute;m, preocupados com os n&uacute;meros, esqueceu-se aquilo que importava reduzir verdadeiramente: o <em>d&eacute;fice relacional<\/em> entre os pa&iacute;ses, express&atilde;o que Bento XVI identifica como a <em>&laquo;necessidade de uma profunda renova&ccedil;&atilde;o cultural&raquo;<\/em>. Enquanto o ser humano n&atilde;o se der conta que a crise ecol&oacute;gica &eacute; um reflexo da crise cultural que atravessa e uma manifesta&ccedil;&atilde;o da <em>&laquo;urg&ecirc;ncia de uma solidariedade que se projecte no espa&ccedil;o e no tempo&raquo;<\/em>, o acordo ser&aacute; dif&iacute;cil. Por outro lado, &eacute; preciso que as sociedades mais avan&ccedil;adas tecnologicamente <em>&laquo;estejam dispostas a favorecer comportamentos caracterizados pela sobriedade, diminuindo as pr&oacute;prias necessidades de energia&raquo;<\/em>. Assim, existem duas palavras essenciais na mensagem do Dia Mundial da Paz escrita por Bento XVI: <em>solidariedade e sobriedade<\/em>. O resultado da cimeira n&atilde;o seria o mesmo se fossem estes os pontos essenciais identificados pelo organizadores em vez de emiss&otilde;es e dinheiro.<\/p>\n<p>Bento XVI afirma a crise ecol&oacute;gica como<em> &laquo;uma oportunidade hist&oacute;rica para elaborar uma resposta colectiva tendente a converter o modelo de desenvolvimento global segundo uma direc&ccedil;&atilde;o mais respeitadora da cria&ccedil;&atilde;o e de um desenvolvimento humano integral&raquo;<\/em>. Contudo, pode haver desenvolvimento humano integral quando existem <em>&laquo;pessoas que, por causa da degrada&ccedil;&atilde;o do ambiente onde vivem, se v&ecirc;em obrigadas a abandon&aacute;-lo &ndash; deixando l&aacute; muitas vezes tamb&eacute;m os seus bens &ndash; tendo de enfrentar os perigos e as inc&oacute;gnitas de uma desloca&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada&raquo;<\/em>, o que Bento XVI apelidou de &ldquo;refugiados ambientais&rdquo;?<em> <\/em>Como escreve na sua &uacute;ltima Enc&iacute;clica <em>&laquo;o modo como o ser humano trata o ambiente influi sobre o modo como se trata a si mesmo, e vice-versa&raquo;<\/em> (<em>Caritas in veritate<\/em>, n. 51).<em><\/em><\/p>\n<p>De facto, <em>&laquo;a degrada&ccedil;&atilde;o da natureza est&aacute; intimamente ligada &agrave; cultura que molda a conviv&ecirc;ncia humana&raquo;<\/em>, da&iacute; a liga&ccedil;&atilde;o profunda entre &ldquo;ecologia humana&rdquo; e &ldquo;ecologia ambiental&rdquo;. Essa liga&ccedil;&atilde;o d&aacute;-se, sobretudo, atrav&eacute;s da categoria da rela&ccedil;&atilde;o. Se assumirmos que somos constitu&iacute;dos na relacionalidade, reconhecemos cada ser humano como parte da mesma fam&iacute;lia humana. <em>Rela&ccedil;&atilde;o <\/em>&eacute; um conceito profundamente ecol&oacute;gico e suportado pelas ci&ecirc;ncias naturais. No mundo, tudo est&aacute; em rela&ccedil;&atilde;o com tudo, cada coisa com cada coisa. Penso que Copenhaga carecia desta vis&atilde;o familial dos relacionamentos entre na&ccedil;&otilde;es com implica&ccedil;&otilde;es para o relacionamento destas com o meio ambiente.<\/p>\n<p>Existe um &uacute;ltimo ponto na mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz que pode ser uma chave de leitura &uacute;til para o p&oacute;s-Copenhaga: o significado daquilo que Bento XVI apela de &ldquo;fun&ccedil;&atilde;o superior do homem&rdquo;. Bento XVI apela a um modelo de desenvolvimento fundado na <em>&laquo;centralidade do ser humano&raquo;<\/em>, e critica uma concep&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&atilde;o entre ser humano e natureza dita bioc&ecirc;ntrica, ou ecoc&ecirc;ntrica, pelo facto de eliminar a diferen&ccedil;a ontol&oacute;gica (natureza da exist&ecirc;ncia) e axiol&oacute;gica (ao n&iacute;vel dos valores) entre ambos, elimina tamb&eacute;m a <em>&laquo;fun&ccedil;&atilde;o superior do homem&raquo;<\/em>. Isto sugere que a vis&atilde;o de Bento XVI pode ser interpretada como antropoc&ecirc;ntrica, o que seria uma conclus&atilde;o precipitada e redutora daquela que &eacute; a &ldquo;fun&ccedil;&atilde;o superior&rdquo; que faz parte da voca&ccedil;&atilde;o do ser humano na natureza, isto &eacute;, <em>&laquo;o dever de exercer um governo respons&aacute;vel da cria&ccedil;&atilde;o, preservando-a e cultivando-a&raquo;<\/em>. Tal fun&ccedil;&atilde;o ou governo n&atilde;o parte de uma no&ccedil;&atilde;o de &ldquo;cima para baixo&rdquo; entre o homem e a natureza, mas de uma no&ccedil;&atilde;o familial do homem e da natureza como membros da &ldquo;fam&iacute;lia da cria&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Logo, neste caso, &ldquo;fun&ccedil;&atilde;o superior&rdquo; &eacute; sin&oacute;nimo de &ldquo;servi&ccedil;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Cultivar a paz, preservando a cria&ccedil;&atilde;o, depois de Copenhaga, significa reconhecer que somos todos &ldquo;fam&iacute;lia da cria&ccedil;&atilde;o&rdquo; e que o pa&iacute;s do outro &eacute; tamb&eacute;m o meu. Quando ultrapassarmos o preconceito do interesse individual, encontraremos a solu&ccedil;&atilde;o e o acordo no interesse relacional. Isto n&atilde;o cabe apenas &agrave;s na&ccedil;&otilde;es e seus l&iacute;deres, mas sobretudo, a cada um de n&oacute;s. &nbsp;<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Miguel Oliveira Pan&atilde;o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tema escolhido por Bento XVI para o pr\u00f3ximo Dia Mundial da Paz ganha nova relev\u00e2ncia depois de Copenhaga<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,165,256,291,314],"class_list":["post-42717","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-dia-mundial-da-paz","tag-meio-ambiente","tag-refugiados","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42717","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42717"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42717\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}