{"id":42680,"date":"2009-12-23T15:55:28","date_gmt":"2009-12-23T15:55:28","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/23\/natal-no-hospital-natal-pascal\/"},"modified":"2009-12-23T15:55:28","modified_gmt":"2009-12-23T15:55:28","slug":"natal-no-hospital-natal-pascal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/natal-no-hospital-natal-pascal\/","title":{"rendered":"Natal no Hospital. Natal Pascal"},"content":{"rendered":"<p>Em cada Noite de Natal, desde o ano 2000, a Capela do Hospital de S..Jo&atilde;o desce &agrave; Pediatria. Para contemplar e dar a contemplar o Mist&eacute;rio de um Deus que desceu a uma Crian&ccedil;a, assumindo, assim, a vulnerabilidade m&aacute;xima da nossa condi&ccedil;&atilde;o que em cada Crian&ccedil;a t&atilde;o claramente se manifesta. E manifesta-se, de um modo pungente, nas Crian&ccedil;as que atravessam o Natal no Hospital, atingidas pela doen&ccedil;a.<\/p>\n<p>Tinha sido no ano anterior, no Natal que inaugurava o Grande Jubileu, que a ideia surgira: fomos celebrar a Missa do Galo &agrave; Obstetr&iacute;cia. Foi maravilhoso. Tudo estava bem: rec&eacute;m-nascidos lindos e saud&aacute;veis, mam&atilde;s e pap&aacute;s embevecidos, duplamente os av&oacute;s; profissionais calmos e serenos, j&aacute; que a situa&ccedil;&atilde;o estava calma e a serenidade tomava conta do ambiente. Como h&aacute; 1999 anos, cumpriam-se nessa noite, celebr&aacute;vamos o Nascimento no s&iacute;tio em que se nasce. Mas a verdade &eacute; que, rezam as Sagradas Letras, h&aacute; 1999 anos, o Menino n&atilde;o nascera num s&iacute;tio de nascer. Nascera deslocado, relegado para a desola&ccedil;&atilde;o de um est&aacute;bulo, num lugar onde uma Crian&ccedil;a n&atilde;o devia conhecer o dia.<\/p>\n<p>No ano 2000, culminar do Jubileu, opt&aacute;mos por ir a um lugar que os nossos cora&ccedil;&otilde;es desejariam que n&atilde;o fosse necess&aacute;rio &ndash; o lugar do hospital onde se cuida das Crian&ccedil;as que sofrem. Todos desejar&iacute;amos que as Crian&ccedil;as n&atilde;o sofressem.<\/p>\n<p>Sem consci&ecirc;ncia do que estava a preparar, s&oacute; dei por ela quando me vi nela. Na minha mem&oacute;ria ainda viviam as lembran&ccedil;as doces do ano anterior. Ainda que j&aacute; percebesse que ia ser diferente, s&oacute; de facto percebi at&eacute; que ponto a diferen&ccedil;a era diferente quando vi a Assembleia a constituir-se. Confesso: suei frio, enquanto me paramentava. Diante de mim, de todos os lados do ber&ccedil;o da Pediatria que, desde essa Noite, uma vez por ano, na Noite de Natal, se torna altar, com uma simples t&aacute;bua atravessada sobre ele, diante de mim, em torno de um ber&ccedil;o que todos dias acolhe Crian&ccedil;as que sofrem, nessa Noite tornado altar, os rostos estavam tristes, havia l&aacute;grimas, Crian&ccedil;as doentes, por seu p&eacute; ou no colo da m&atilde;e ou do pai, uma, abandonada ap&oacute;s o parto, no colo de uma enfermeira, os profissionais, tensos, sempre atentos ao menor sinal sonoro, choro ou apito de m&aacute;quina, para acorrerem prontamente. Suei frio, repito. O que &eacute; que isto tem a ver com o Natal? Isto &eacute; P&aacute;scoa.&nbsp; Nunca, como nessa Noite, compreendi at&eacute; que ponto e com que radicalidade o Natal reclama a P&aacute;scoa para se dizer na sua verdade plena.<\/p>\n<p>Na introdu&ccedil;&atilde;o ao esp&iacute;rito da celebra&ccedil;&atilde;o, que havia escrito antes, j&aacute; falava destas coisas. Mas s&oacute; agora o vivia. Como viveram todos os que estiveram l&aacute;&#8230; e foram tantos! Para muitos, aquele momento pascal resgatou aquela Noite de Natal do ex&iacute;lio hospitalar, que no Natal mais como tal &eacute; sentido.<\/p>\n<p>Foi a Crian&ccedil;a abandonada ap&oacute;s o parto que, no meu colo durante a homilia &ndash; lembro que sobre a necessidade de nos tornarmos crian&ccedil;as para descobrirmos o nosso lugar no colo de Deus, assim, totalmente entregues e confiantes como ela nos meus bra&ccedil;os; e sobre o necess&aacute;rio desmascar do Natal que o consumo revestiu de artif&iacute;cio e esvaziou de ternura e presen&ccedil;a; e sobre a necessidade da P&aacute;scoa Daquele que contempl&aacute;vamos Menino para que o que os nossos olhos v&ecirc;em em Pediatria n&atilde;o nos leve ao naufr&aacute;gio nas mar&eacute;s de absurdo &ndash; encontrou o colo de uma Auxiliar de Ac&ccedil;&atilde;o M&eacute;dica, durante a Liturgia Eucar&iacute;stica, e regressou aos meus bra&ccedil;os, no final. Eu primeiro, com ela ainda no rega&ccedil;o da Auxiliar, depois todos, com a Crian&ccedil;a no meu colo, genuflectimos em venera&ccedil;&atilde;o diante de veemente Imagem de Deus Menino.<\/p>\n<p>Concluo este testemunho, com as palavras da introdu&ccedil;&atilde;o que, nesse ano jubilar, soaram, solenes e significativas, para nunca mais deixarem de soar. Este foi o convite &agrave; Celebra&ccedil;&atilde;o, em que, cada ano, mais pessoas participam, nomeadamente profissionais da Casa e familiares de Crian&ccedil;as internadas, de olhos mais brilhantes que a luz das velas e mais l&iacute;quidos que a &aacute;gua e o vinho no c&aacute;lice que diz o maternal amor de Deus pela Humanidade<\/p>\n<p><em>Reunimo-nos nesta Noite Santa para celebrar a Missa do Galo. Este &aacute;trio, onde as portas e os corredores dos v&aacute;rios Servi&ccedil;os de Pediatria se juntam formando uma cruz, torna-se templo, nesta Noite. Este lugar ajuda-nos a penetrar no Mist&eacute;rio desta Festa: h&aacute; dois mil anos, Deus fez-Se crian&ccedil;a. Deus-Crian&ccedil;a que assume a cruz da condi&ccedil;&atilde;o humana, como qualquer das muitas crian&ccedil;as que nestes Servi&ccedil;os em cruz experimentam a cruz da condi&ccedil;&atilde;o humana, ainda sem saberem o que isso &eacute;. <\/em><\/p>\n<p><em>Celebramos, neste Natal t&atilde;o singular, o Bimilen&aacute;rio da Encarna&ccedil;&atilde;o Redentora de Deus em nossa hist&oacute;ria. Se Deus-Crian&ccedil;a diz a Encarna&ccedil;&atilde;o, a cruz deste lugar diz-nos a Reden&ccedil;&atilde;o, o mist&eacute;rio da P&aacute;scoa, que &eacute; a raz&atilde;o de ser do Natal, a vinda de Deus at&eacute; n&oacute;s em Jesus Cristo. A cruz deste lugar diz-nos a nossa necessidade de sermos libertos, de sermos salvos, de recebermos do Eterno um sentido que rasgue o horizonte da morte e passe para al&eacute;m dos limites t&atilde;o curtos do tempo a que estamos sujeitos, como t&atilde;o claramente transparece neste lugar, em que o bra&ccedil;o mais longo da cruz, o que a liga &agrave; terra, descendo, d&aacute; acesso &agrave; Urg&ecirc;ncia, sinal da precariedade de cada um de n&oacute;s. <\/em><\/p>\n<p><em>Por isso, no Natal do Ano 2000, quisemos vir aqui celebrar a Eucaristia e procur&aacute;mos que o Altar fosse um ber&ccedil;o: um ber&ccedil;o no cora&ccedil;&atilde;o do lugar do sofrimento das crian&ccedil;as, do nosso sofrimento, para que a verdade deste lugar e deste sinal diga a verdade de Deus que nasce como oferta de sentido e esperan&ccedil;a e alegria ao nosso absurdo, &agrave; nossa ang&uacute;stia, &agrave; nossa dor.<\/em><\/p>\n<p>Esta Celebra&ccedil;&atilde;o, culminar do Jubileu, abre-se em convite &agrave; festa: Deus vem ao encontro de cada um. Queira cada um ir ao encontro de Deus, queira cada um acolh&ecirc;-Lo. Cantemos, jubilosamente, acolhendo a luz que brilha nesta Noite.<\/p>\n<p>No ano seguinte, volt&aacute;mos &agrave; Obstetr&iacute;cia. Mas, depois, regress&aacute;mos &agrave; Pediatria. E nunca mais troc&aacute;mos. &Eacute; ali que, mais instantemente, com uma prem&ecirc;ncia absoluta, cada Natal reclama o Memorial pascal. Porque &eacute; ali que se abre a derradeira interroga&ccedil;&atilde;o que plasma o mist&eacute;rio da nossa condi&ccedil;&atilde;o: sofrer o Inocente. Porqu&ecirc;? Onde est&aacute; Deus? A &uacute;nica possibilidade de sentido &eacute;, precisamente, a reivindica&ccedil;&atilde;o pascal do Natal, ali, no cora&ccedil;&atilde;o do hospital, no cora&ccedil;&atilde;o do mist&eacute;rio do que somos, no cora&ccedil;&atilde;o da experi&ecirc;ncia amorosa do Mist&eacute;rio que Deus &eacute;, encarnando para redimir e n&atilde;o redimindo por outra via que n&atilde;o a da encarna&ccedil;&atilde;o: Deus connosco.<\/p>\n<p>J&aacute; disse: nunca mais deix&aacute;mos de ir celebrar a Missa do Galo &agrave; Pediatria. Deus fez-se Crian&ccedil;a e &eacute; no sinal das Crian&ccedil;as &ndash; e, com que grau de interpela&ccedil;&atilde;o, no sinal das Crian&ccedil;as que sofrem &ndash; que nos aponta a via da reden&ccedil;&atilde;o &ndash; tornar-se crian&ccedil;a, capaz de Deus, livre para ele, competente para a confian&ccedil;a levada ao termo da depend&ecirc;ncia completa. Natal &eacute; P&aacute;scoa.<\/p>\n<p>Igreja, aprofunda a consci&ecirc;ncia do que deves ao Presente que vivemos e abre, este Natal, o cora&ccedil;&atilde;o ao apelo inadi&aacute;vel de presen&ccedil;a pascal que te lan&ccedil;a cada Hospital. Cada dia. Todos os dias.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Pe. J. Nuno, Capel&atilde;o do Hospital de S. Jo&atilde;o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em cada Noite de Natal, desde o ano 2000, a Capela do Hospital de S..Jo&atilde;o desce &agrave; Pediatria. Para contemplar e dar a contemplar o Mist&eacute;rio de um Deus que desceu a uma Crian&ccedil;a, assumindo, assim, a vulnerabilidade m&aacute;xima da nossa condi&ccedil;&atilde;o que em cada Crian&ccedil;a t&atilde;o claramente se manifesta. 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