{"id":4266,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/com-os-media-e-com-os-imigrantes\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"com-os-media-e-com-os-imigrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/com-os-media-e-com-os-imigrantes\/","title":{"rendered":"Com os media e com os imigrantes"},"content":{"rendered":"<p>Ao deixar h\u00e1 tr\u00eas anos o Secretariado Diocesano de Pastoral de Migra\u00e7\u00f5es, de Set\u00fabal, para assumir fun\u00e7\u00f5es na Direc\u00e7\u00e3o Nacional da OCPM, o meu relacionamento com a comunica\u00e7\u00e3o social mudou do dia para a noite. Sinto saudades do anonimato a que me tinha habituado. Permanecendo um consumidor ass\u00edduo de informa\u00e7\u00e3o, passei, por iner\u00eancia do cargo que os bispos me confiaram, a ser tamb\u00e9m actor e produtor de informa\u00e7\u00e3o, fazedor de opini\u00e3o e divulgador de ideias e ac\u00e7\u00f5es do meu pequeno mundo: a migra\u00e7\u00e3o. No in\u00edcio do meu mandato, um homem experiente nesta \u00e1rea, deixou-me sabiamente este conselho: \u201cMant\u00e9m bom relacionamento com os Media. Procura estar dispon\u00edvel. Tem tamb\u00e9m cuidado com o que dizes. O resto aprender\u00e1s com o passar do tempo\u201d. Reconhe\u00e7o que tem sido bastante dif\u00edcil esta aprendizagem porque obriga a que a minha voz, rosto, imagem, ideias e meus limites sejam expostos, de maneira fragmentada e sem possibilidade de recurso imediato, na opini\u00e3o p\u00fablica. O expor-me n\u00e3o \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o totalmente nova para mim. Desde h\u00e1 algum tempo que estou habituado a ser julgado por quem me ouve numa igreja ou numa reuni\u00e3o, mas ser julgado por todo o tipo de p\u00fablico atrav\u00e9s da r\u00e1dio, televis\u00e3o ou jornal, em directo ou em diferido, \u00e9 outra coisa, \u00e9 outra responsabilidade. Este mundo exige profissionalismo no comunicar e muito cuidado com a imagem. Parece-me n\u00e3o interessar prioritariamente a \u201crealidade real\u201d, mas a sua percep\u00e7\u00e3o. Talvez com o tempo eu&#8230; Na verdade, o tempo tem-me ensinado que a Comunica\u00e7\u00e3o social possui as suas \u201cesta\u00e7\u00f5es do ano\u201d e \u201cobsess\u00f5es informativas\u201d. Muitas vezes, n\u00f3s &#8211; sociedade civil &#8211; temos que esperar  o momento oportuno para lan\u00e7ar alguma mensagem, iniciativa ou protesto com a devida efic\u00e1cia e espa\u00e7o. Por exemplo, andando (pre)ocupados com os inc\u00eandios ou entretidos morosamente com a pedofilia, os Media deixam tudo o resto, por mais importante que seja, na penumbra de um desesperado limbo porque secund\u00e1rio \u00e9 pouco rent\u00e1vel para os editores e empresas. \u00c0 sociedade civil n\u00e3o resta mais que o sil\u00eancio e a satisfa\u00e7\u00e3o de ter sido ouvida pelo pequeno grupo. A sociedade civil (as grandes organiza\u00e7\u00f5es j\u00e1 aprenderam a fazer, mas as pequenas enfrentam maiores obst\u00e1culos) t\u00eam de ir ao encontro dos media, sejam de \u00e2mbito nacional ou regional. T\u00eam que saber seduzir e, ao mesmo tempo, saber estar dispon\u00edvel. T\u00eam que procurar captar a aten\u00e7\u00e3o, interesse e amizade de algum jornalista ou \u00f3rg\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o para que cres\u00e7a a dif\u00edcil rela\u00e7\u00e3o da sociedade civil &#8211; onde se insere a Igreja &#8211; com os poderosos meios de Comunica\u00e7\u00e3o social. Urge uma sensibiliza\u00e7\u00e3o rec\u00edproca sobre a imigra\u00e7\u00e3o. Uma alian\u00e7a de transpar\u00eancia. Ambos olhares sobre a mesma realidade tem que se encontrar e desencontrar, dialogar e desafiar pois nenhum consegue dizer toda a verdade sobre a realidade. A experi\u00eancia do rec\u00e9m Colectivo de Organiza\u00e7\u00f5es Cat\u00f3licas para a imigra\u00e7\u00e3o (CORCIM) tem procurado uma alian\u00e7a com os media. Temos \u201centregado\u201d aos media os nossos comunicados e apelos para rasgar os limites do nosso audit\u00f3rio. Queremos ser sinal de uma Igreja que \u00e9 transparente e que toma, em nome do Evangelho, posi\u00e7\u00e3o sem medo sobre as grandes quest\u00f5es ao redor da Imigra\u00e7\u00e3o. O sil\u00eancio nesta mat\u00e9ria \u00e9 altamente lesivo dos direitos humanos dos imigrantes e da coes\u00e3o social. Os media tem sido bons aliados, apesar de nunca dizerem tudo como n\u00f3s gostar\u00edamos&#8230;. Por\u00e9m, tem dado aten\u00e7\u00e3o aos nossos apelos e \u00e9 isso que, afinal, interessa. Se n\u00e3o aparece nos media parece que n\u00e3o existe! Queremos contribuir para o debate nacional e p\u00fablico sobre a Imigra\u00e7\u00e3o e os media tem enriquecido este debate com a sua pluralidade de posturas e de den\u00fancias, not\u00edcias e reportagens. Enfim, o tempo tem-me ensinado que a Imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma realidade muito medi\u00e1tica, para o bem e para o mal. As nossas organiza\u00e7\u00f5es j\u00e1 se viram desfocadas na imagem e distorcidas nos seus textos ou declara\u00e7\u00f5es. Contudo, compreendemos que este \u00e9 o risco que se tem de correr quando se quer ser voz de outros que n\u00e3o t\u00eam voz ou s\u00e3o sistematicamente silenciados por alguns Media nas m\u00e3os de alguns grupos econ\u00f3micos que querem manter os imigrantes na irregularidade e exclus\u00e3o para assim poderem, sem entraves, engrossar os seus lucros. N\u00e3o obstante tudo, quero afirmar a nossa gratid\u00e3o para com a Comunica\u00e7\u00e3o social portuguesa que se tem revelado um parceiro fundamental na divulga\u00e7\u00e3o da diversidade cultural, das den\u00fancias e na integra\u00e7\u00e3o social e religiosa das diferentes comunidades, chegando mesmo a \u201cpressionar\u201d o poder pol\u00edtico para que intervenha positivamente em favor da justi\u00e7a e da solidariedade e o \u201cpoder econ\u00f3mico\u201d para que deixe a sua atitude hip\u00f3crita assumindo, de uma vez por todas, que os \u201cindesej\u00e1veis\u201d imigrantes s\u00e3o afinal precisos por que decisivos para a sobreviv\u00eancia da economia e do \u201cmodelo social\u201d de Portugal e da Europa. No tempo questiono-me sobre o que dever\u00e1 fazer a Igreja, em sintonia com  toda a Sociedade civil, para contrariar a enraizada estigmatiza\u00e7\u00e3o dos imigrantes negros, a demoniza\u00e7\u00e3o crescente das mulheres brasileiras, a hist\u00f3rica exclus\u00e3o dos ciganos, a exalta\u00e7\u00e3o desmedida dos europeus de Leste ou mesmo a imagem desfocada que, em geral, os media apresentam da pr\u00f3pria Igreja? Algo ter\u00e1 que ser feito para a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade integrada. E se um dia toda a sociedade civil se juntasse de forma organizada e plural e realizasse uma grande manifesta\u00e7\u00e3o de rua em defesa da regulariza\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes para chamar a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds e do mundo para a actual situa\u00e7\u00e3o destes cidad\u00e3os, qual seria a atitude e interesse da Comunica\u00e7\u00e3o social? Conhecendo com apreens\u00e3o os resultados de alguns estudos sobre a percep\u00e7\u00e3o dos portugueses a respeito da Imigra\u00e7\u00e3o, seria um grande desafio ao papel formativo e pedag\u00f3gico que os media tamb\u00e9m encerram&#8230;  Pe. Rui Pedro cs <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao deixar h\u00e1 tr\u00eas anos o Secretariado Diocesano de Pastoral de Migra\u00e7\u00f5es, de Set\u00fabal, para assumir fun\u00e7\u00f5es na Direc\u00e7\u00e3o Nacional da OCPM, o meu relacionamento com a comunica\u00e7\u00e3o social mudou do dia para a noite. Sinto saudades do anonimato a que me tinha habituado. 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