{"id":42633,"date":"2009-12-21T12:58:27","date_gmt":"2009-12-21T12:58:27","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/21\/um-bispo-atento-a-quanto-ocorre\/"},"modified":"2009-12-21T12:58:27","modified_gmt":"2009-12-21T12:58:27","slug":"um-bispo-atento-a-quanto-ocorre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-bispo-atento-a-quanto-ocorre\/","title":{"rendered":"Um Bispo \u00abatento a quanto ocorre\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>D. Manuel Clemente, Pr\u00e9mio Pessoa 2009, diz qual o seu contributo para a constru\u00e7\u00e3o social e cultural que tem de ter sempre no centro a pessoa humana. Tanto numa serena entrevista como nos intensos dias como Bispo do Porto. <!--more--> <\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">Ecclesia &#8211; &ldquo;Dar um sinal p&uacute;blico da nossa aten&ccedil;&atilde;o a quando ocorre&rdquo;. &Eacute; uma determina&ccedil;&atilde;o de D. Manuel Clemente, assim formulada. Foi por esta atitude que o distinguiram com o Pr&eacute;mio Pessoa 2009?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">D. Manuel Clemente &ndash; Eu n&atilde;o sei onde chegam as minhas considera&ccedil;&otilde;es. E foi com grande surpresa que recebi o an&uacute;ncio do Pr&eacute;mio.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">Dar um sinal p&uacute;blico de que estamos atentos a tudo, isso com certeza. Essa &eacute; a miss&atilde;o da Igreja, que est&aacute; no mundo como um sinal activo de aten&ccedil;&atilde;o e de esperan&ccedil;a.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Muitas vezes a Igreja surge no debate p&uacute;blico apenas nas quest&otilde;es &ldquo;fracturantes&rdquo;&hellip;<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Geralmente. Mas n&atilde;o s&oacute; a Igreja, tamb&eacute;m todas as realidades sociais.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">N&oacute;s estamos hoje numa cultura que &eacute; dramatizada. Antigamente, sobretudo a partir do s&eacute;c. XIX, l&iacute;amos romances, ou seja, a vida transformada num drama. Hoje em dia, essa aten&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria passou-se para a vida. E n&oacute;s tratamos da vida, das sociedades, da Igreja concretamente, como se fosse um drama.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">A vida das pessoas, na sua grande maioria, &eacute; o cumprimento das obriga&ccedil;&otilde;es e dos objectivos, nas sociedades, no Estado, nas fam&iacute;lias. Mas o que aparece em termos de comunica&ccedil;&atilde;o &eacute; o que pode ser dramatizado, transformado em contraste. Somos demasiadamente teatrais.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Nesse teatro da vida, assume como um &ldquo;firme prop&oacute;sito&rdquo; &ldquo;oferecer aos circunstantes Cristo vivo&rdquo;. Esse &eacute; o objectivo da Miss&atilde;o 2010, concretamente?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Absolutamente. Porque essa &eacute; a grande realidade que faz a Igreja: nasce quando os primeiros disc&iacute;pulos descobrem que Ele est&aacute; vivo, que, atrav&eacute;s da morte, Ele continua no meio deles. Essa certeza de que a vida de Jesus Cristo &eacute; uma vida definitivamente vencedora &eacute; que faz a Igreja.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Apesar dessa matriz crist&atilde; e da &ldquo;fort&iacute;ssima heran&ccedil;a judaica&rdquo; em Portugal, &eacute; por vezes ineficaz essa oferta. Porqu&ecirc;?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; N&oacute;s temos uma certa dificuldade em avaliar&hellip;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Estaremos a dramatizar?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Estamos. Andamos &agrave; procura dos &ldquo;picos&rdquo; de afirma&ccedil;&atilde;o ou de nega&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">Na realidade, quando nos abeiramos das pessoas com disponibilidade para as ouvir, encontramos n&atilde;o apenas res&iacute;duos, mas fermentos de Evangelho que passaram e que determinaram muitas atitudes de pessoas e de vidas, sobretudo quando s&atilde;o longamente vividas. Mas nunca apareceram!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">Acontece isso tamb&eacute;m na an&aacute;lise dos acontecimentos da Igreja e do mundo. A vida passa-se como um grande rio: por vezes transborda da margem, outras afoga-se algu&eacute;m, mas o rio corre. E quer na Igreja quer na sociedade n&oacute;s temos de estar atentos a isso: o caudal &eacute; muito maior do que esses &ldquo;picos&rdquo;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"font-size: small;\">[[v,d,739,D. Manuel Clemente pr&eacute;mio pessoa 2009]]Casamento e regionaliza&ccedil;&atilde;o<\/span><\/h2>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Um caso concreto: o casamento entre pessoas do mesmo sexo. &Eacute; conhecida a sua posi&ccedil;&atilde;o. Que coment&aacute;rio lhe merece o facto da iniciativa legislativa surgir nesta quadra natal&iacute;cia?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; &Eacute; &oacute;bvio que n&atilde;o &eacute; uma coincid&ecirc;ncia feliz. N&atilde;o digo que isso tenha sido determinante da parte de quem assim decidiu, mas a coincid&ecirc;ncia epocal n&atilde;o &eacute; feliz.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">Para n&oacute;s cat&oacute;licos, o problema est&aacute; resolvido: o casamento &eacute; o sacramento do matrim&oacute;nio e est&aacute; fora de quest&atilde;o qualquer tipo de altera&ccedil;&atilde;o, porque se fundam em Jesus Cristo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">N&atilde;o est&aacute; enquanto cidad&atilde;os, numa rep&uacute;blica laica, que n&atilde;o se afirma em termos de qualquer confiss&atilde;o religiosa, mas que tem valores.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">N&oacute;s temos, desde o s&eacute;c. XIX, nas nossas leis civis, o casamento civil. E o casamento civil tem sido como sempre a humanidade o apurou: baseado na alteridade homem\/mulher, que est&aacute; na base da constru&ccedil;&atilde;o da sociedade. Alterar isto assim de &ldquo;uma penada&rdquo; &eacute; uma pena.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">Digo isto como cidad&atilde;o: h&aacute; aqui um valor estruturante da sociedade, institucional, &agrave; volta de algo que a sociedade reconheceu de muito importante e, por isso, precisava de ser salvaguardado e promovido. N&atilde;o se trata de uma quest&atilde;o acess&oacute;ria.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Quem assim o legisla f&aacute;-lo de forma distante da sociedade portuguesa?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Eu julgo que sim. At&eacute; porque se distancia, fazendo-o t&atilde;o depressa sem que tenha havido um verdadeiro debate. Porque n&atilde;o chega uma campanha eleitoral, onde o assunto n&atilde;o foi particularmente debatido. Tamb&eacute;m porque as pessoas t&ecirc;m um certo pudor em debater na pra&ccedil;a p&uacute;blica temas fundamentais, como a fam&iacute;lia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><em>E &ndash; &Eacute; uma iniciativa legislativa que acontece em ambiente de crispa&ccedil;&atilde;o e de alguma suspeita, nos &oacute;rg&atilde;os de soberania. Est&atilde;o a ser prejudiciais para a estabilidade democr&aacute;tica?<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; A estabilidade democr&aacute;tica tem tens&otilde;es. Faz parte da vida social, cultural, pol&iacute;tica haver debate, haver tens&atilde;o. Mas n&atilde;o nos esque&ccedil;amos que somos pessoas com outras pessoas. E que antes das ideias que se debatem est&atilde;o as pessoas a respeitar. &Eacute; muito saud&aacute;vel que, numa democracia, se debata tudo, se apresentem todas as argumenta&ccedil;&otilde;es, mas numa base do respeito m&uacute;tuo, porque somos pessoas. E esse &eacute; o &uacute;nico valor que n&atilde;o pode estar em causa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; E est&aacute;, entre n&oacute;s?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Quando as pessoas s&atilde;o deseducadas, quando n&atilde;o se escutam, quando ainda o outro nem sequer come&ccedil;ou a falar e j&aacute; a est&aacute; a ser quase sufocado&hellip; Isso n&atilde;o &eacute; democracia, porque isso n&atilde;o &eacute; cidadania, onde todos podem ser pelo menos ouvidos. Isso n&atilde;o quer dizer concordar, quer dizer ouvir. N&atilde;o se pode condenar antes de escutar. A&iacute; &eacute; que n&atilde;o h&aacute; democracia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Que regionaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; precisa para Portugal?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Eu sigo genericamente o princ&iacute;pio da subsidiariedade, da Doutrina Social da Igreja: que as administra&ccedil;&otilde;es de topo n&atilde;o resumam em si toda a determina&ccedil;&atilde;o social e que o que pode ser resolvido pelos corpos interm&eacute;dios &ndash; as fam&iacute;lias, as autarquias, as regi&otilde;es &ndash; n&atilde;o seja resolvido nas inst&acirc;ncias superiores que, pelo contr&aacute;rio, devem apoiar &ndash; em latim <em>subsidium<\/em> &ndash; esses corpos interm&eacute;dios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; &Eacute; assim que est&aacute; a acontecer?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Pode acontecer muito mais. H&aacute; inst&acirc;ncias de decis&atilde;o que, no caso da Regi&atilde;o do Norte, n&atilde;o est&atilde;o c&aacute;. E se estivessem, no dia-a-dia, se fossem pessoas de c&aacute; ou se c&aacute; vivessem, teriam, at&eacute; com base existencial, muito mais capacidade e acerto para resolver do que estando distantes e tendo de olhar para o todo. Isso &eacute; l&oacute;gico.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Que sintoma constitui o facto da prova Red Bull Air Race ter sido transferida para Lisboa?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Digo como sinto por muitos outros concidad&atilde;os meus desta regi&atilde;o: mais uma vez, algo que estava aqui, com muito acompanhamento das entidades locais e do p&uacute;blico, estava a resultar bem, projectava a regi&atilde;o e era mais uma ocasi&atilde;o de desenvolvimento regional e que, n&atilde;o se sabe bem por qu&ecirc;, lhes &eacute; tirada. E eu n&atilde;o posso deixar de dar alguma raz&atilde;o a esta cr&iacute;tica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"font-size: small;\">Reencontrar Portugal<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><em>E &ndash; Refere, com insist&ecirc;ncia, a necessidade de &ldquo;reencontrar a sociedade portuguesa&rdquo;. De que reencontro se trata?<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; &Eacute; um reencontro profundo e tem a ver com a necessidade de n&atilde;o sermos t&atilde;o precipitados nas an&aacute;lises, nos debates e nas crispa&ccedil;&otilde;es.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">Uma sociedade n&atilde;o se resolve no momento. No caso portugu&ecirc;s tem longu&iacute;ssimas ra&iacute;zes, tem afirma&ccedil;&otilde;es culturais multisseculares. &Eacute; por isso necess&aacute;rio conhecer melhor do ponto de vista hist&oacute;rico, saber o porqu&ecirc; das coisas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">O autoconhecimento, dos pa&iacute;ses e das pessoas, &eacute; muito importante. Trata-se da identidade: n&oacute;s para andarmos com um p&eacute; para a frente temos de ter o de tr&aacute;s assente, caso contr&aacute;rio ca&iacute;mos. E &eacute; o que muitas vezes acontece: parece que nos estamos agora a criar como se tiv&eacute;ssemos aparecido no momento. N&oacute;s estamos aqui h&aacute; quase mil anos, como sociedade!<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; &Eacute; por isso que &ldquo;&eacute; imposs&iacute;vel deixarmos de ser quem somos&rdquo;?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Absolutamente! A atitude que n&oacute;s temos, do tudo ou nada, parecendo que nos esgotamos no momento, mas rapidamente retomamos o lastro, porque ele &eacute; muito forte.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Em que medida quest&otilde;es que se extremam na sociedade afectam essa identidade?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Ressaltam uma vaga de fundo que acaba por nos reconfirmar.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">N&atilde;o posso adivinhar o que esteve na origem da atribui&ccedil;&atilde;o do Pr&eacute;mio Pessoa. Mas admito que, o olhar para uma pessoa da Igreja Cat&oacute;lica &ndash; entre tantas outras que poderiam ter olhado e certamente escolhido melhor &ndash; por parte de pessoas que n&atilde;o se apresentam nem ser&atilde;o confessionais, revela a sua aten&ccedil;&atilde;o a uma tradi&ccedil;&atilde;o cultural que importa ter presente no debate da sociedade portuguesa.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<h2><span style=\"font-size: small;\">A Pessoa no centro<\/span><\/h2>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><em>E &ndash; Que atitudes oferecem fecundidade ao di&aacute;logo que protagoniza entre Igreja e sociedade, entre religi&atilde;o e cultura, entre f&eacute; e ci&ecirc;ncia?<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; S&atilde;o perspectivas diferentes de encarar a mesma realidade: a pessoa. Trata-se de considerar que os cidad&atilde;os portugueses &#8211; os 10 milh&otilde;es aqui e os 5 milh&otilde;es pela emigra&ccedil;&atilde;o &#8211; n&atilde;o s&atilde;o indiv&iacute;duos ou abstrac&ccedil;&otilde;es num&eacute;ricas ou quantitativas. S&atilde;o antes um feixe de rela&ccedil;&otilde;es, ideias, conviv&ecirc;ncias assumidas, registos hist&oacute;ricos, mem&oacute;rias recuperadas e projectos de futuro (que na quadra natal&iacute;cia se revelam muito para al&eacute;m da fronteira confessional). Em diferentes abordagens, emp&iacute;rica, cient&iacute;fica, metaf&iacute;sica, &eacute;tica, liter&aacute;ria ou religiosa, s&atilde;o abordagens complementares da mesma realidade: a realidade humana. Esse servi&ccedil;o da pessoa humana &eacute; o lugar onde temos de nos encontrar, todos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; &Eacute; essa a atitude do Pr&eacute;mio Pessoa 2009?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; N&atilde;o gosto de me formalizar muito. Mas que &eacute; essa a minha preocupa&ccedil;&atilde;o e a minha maneira de estar &eacute;.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><em>E &ndash; O peso hier&aacute;rquico ou lit&uacute;rgico impede que, nos diferentes contextos eclesiais, a pessoa esteja no centro?<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Eu creio que, quando a pessoa ganha alguma consist&ecirc;ncia, n&atilde;o &eacute; mais ou menos paramento ou formalismo que impede de transformar qualquer ocasi&atilde;o em encontro e conviv&ecirc;ncia entre as pessoas. Sobretudo quando acontece num ambiente em que o apelo e a proximidade de Deus se transforma num factor Absoluto de conviv&ecirc;ncia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">A intensidade pessoal &eacute; que resolve as coisas, n&atilde;o a parte cenogr&aacute;fica.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><em>E &ndash; Afirmando o cristianismo como um &ldquo;laborat&oacute;rio cultural vivo&rdquo;, evoca o exemplo de Paulo de Tarso que se fez judeu com os judeus, gregos com os gregos. Hoje &eacute; poss&iacute;vel n&atilde;o ser s&oacute; romano?<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Trata-se da incultura&ccedil;&atilde;o. O que Paulo percebeu &eacute; que na ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo havia um princ&iacute;pio novo de explica&ccedil;&atilde;o e de conviv&ecirc;ncia. E que apresentado quer a judeus quer a romanos, essa mesma fermenta&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica havia de transformar culturas em torno de um princ&iacute;pio novo: a P&aacute;scoa de Jesus. Uma dimens&atilde;o pascal da exist&ecirc;ncia, que encontra o sentido das coisas, sem ser avaro delas ou explorando-as, mas dando e entregando-as, e que faz olhar os outros n&atilde;o como concorrentes mas como irm&atilde;os, este sentido pascal da exist&ecirc;ncia, o &ldquo;ser mais feliz no dar do que no receber&rdquo;, pode fermentar em qualquer cultura ou civiliza&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\"><em>E &ndash; Tudo isso n&atilde;o &eacute; proposto a partir de um &uacute;nico centro, que &eacute; Roma?<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Para n&oacute;s Roma &eacute; sobretudo a f&eacute; de Pedro e Paulo, que a Igreja de Roma conserva, e a pessoa do seu Bispo enquanto sucessor de Pedro. Porque &eacute; muito importante o que encontramos nos Evangelhos: Jesus, entre os ap&oacute;stolos, deu a um a incumb&ecirc;ncia de confirmar os irm&atilde;os na f&eacute;. Isso faz Bispo de Roma por sucess&atilde;o hist&oacute;rica, que n&oacute;s reconhecemos tamb&eacute;m como realidade teol&oacute;gica.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Ele estar&aacute; no Porto no pr&oacute;ximo dia 14 de Maio. Que oportunidade constituir&aacute;, nomeadamente para a Miss&atilde;o 2010?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; O tema que pedi ao Santo Padre para tratar aqui no Porto &eacute; &ldquo;Igreja &eacute; Miss&atilde;o&rdquo;. Porque a miss&atilde;o &eacute; uma realidade substantiva &agrave; Igreja. A dimens&atilde;o de envio para Deus e para os irm&atilde;os &eacute; a Igreja. Isso iremos activar aqui no Porto, ao longo do ano 2010, para incentivar aquilo que &eacute; uma realidade permanente. E o Papa certamente nos vir&aacute; dar uma palavra de confirma&ccedil;&atilde;o.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-size: small;\">E &ndash; Ter&aacute; uma diocese transformada, no final de 2010?<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-size: small;\">MC &ndash; Essas transforma&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o da nossa medida de aprecia&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o vagas de fundo. Essas coisas s&oacute; Deus sabe!<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. Manuel Clemente, Pr\u00e9mio Pessoa 2009, diz qual o seu contributo para a constru\u00e7\u00e3o social e cultural que tem de ter sempre no centro a pessoa humana. 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