{"id":4255,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-legado-de-espinosa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-legado-de-espinosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-legado-de-espinosa\/","title":{"rendered":"O legado de Espinosa"},"content":{"rendered":"<p>O recente livro de A. Dam\u00e1sio, \u201cAo Encontro de Espinosa\u201d, discute a explica\u00e7\u00e3o tradicional de que o sentimento precede a emo\u00e7\u00e3o; e defende: os pensamentos desencadeiam as emo\u00e7\u00f5es e as simult\u00e2neas modifica\u00e7\u00f5es corporais transformam-se no que chamamos sentimentos. Aquelas, pois, \u201calinhadas com o corpo enquanto os sentimentos est\u00e3o alinhados com a mente\u201d.  No discurso de Dam\u00e1sio isto altera a nossa vis\u00e3o do problema mente-corpo e abre um panorama novo sobre o corpo e sobre a mente. Que valor pr\u00e1tico? O mesmo Autor o diz: \u201cO \u00eaxito ou o fracasso da humanidade depende em grande parte do modo como o p\u00fablico e as institui\u00e7\u00f5es que governam a vida p\u00fablica puderem incorporar essa nova perspectiva da natureza humana em princ\u00edpios, m\u00e9todos e leis\u201d. \u201cCompreender os sentimentos, a forma como funcionam e o seu significado humano, isso diz at\u00e9 respeito ao modo como os seres humanos poder\u00e3o abordar os conflitos latentes entre interpreta\u00e7\u00f5es sagradas ou seculares da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.  O paralelismo psicof\u00edsico e a sua extrapola\u00e7\u00e3o para um paralelismo individual-social, assim interpretados, equivalem e apenas repetem a interroga\u00e7\u00e3o antiga: s\u00e3o as ideias que regem o nosso comportamento ou \u00e9 a \u201cneurologia do sentir\u201d que nos determina na conduta individual e relacional?  Em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9, pois, o religioso que est\u00e1 em quest\u00e3o no livro de Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio como o estava nos livros de Espinosa, \u00c9tica \u2013 demonstrada \u00e0 maneira dos ge\u00f3metras &#8211; e Tratado Teol\u00f3gico-pol\u00edtico.  Quanto a Espinosa, o seu sistema \u00e9 uma doutrina filos\u00f3fica de salva\u00e7\u00e3o da alma por meio duma explica\u00e7\u00e3o racional do mundo. Essa problem\u00e1tica religiosa, naturalmente ligada \u00e0 problem\u00e1tica \u00e9tico-afectiva (i. \u00e9, das afec\u00e7\u00f5es, da alegria e da tristeza que condicionam a conduta humana), trouxe-lhe amargos de boca. Perguntaram-lhe se o mundo \u00e9 o corpo de Deus, se os anjos s\u00e3o alucina\u00e7\u00f5es, se a alma \u00e9 a mesma coisa que a vida, se a B\u00edblia nada diz sobre a imortalidade. As respostas tra\u00edram-no, e ent\u00e3o os judeus excomungaram-no, os crist\u00e3os condenaram-no, as autoridades proibiram-lhe os livros, a fam\u00edlia abandonou-o, a irm\u00e3 empalmou-lhe a heran\u00e7a.  \u00c9 que, por mais geom\u00e9trico que seja o m\u00e9todo expositivo que adoptou para eliminar contradi\u00e7\u00f5es, Espinosa n\u00e3o escapa a uma contradit\u00f3ria concep\u00e7\u00e3o panteista-determinista: tudo deriva de Deus visto que Deus est\u00e1 em tudo. Como conciliar isto com a liberdade que Espinosa postula de a alma poder subir ao conhecimento intuitivo de Deus e realizar a aspira\u00e7\u00e3o de imortalidade (impessoal)? Liberdade ou determinismo? Melhor se diria que esta ascese mais depende do acto volunt\u00e1rio livre do que do car\u00e1cter apod\u00edctico de qualquer corol\u00e1rio geom\u00e9trico. Quanto a Dam\u00e1sio, n\u00e3o quer \u201cneurologizar\u201d Deus, mas considera que as experi\u00eancias espirituais, religiosas ou n\u00e3o, s\u00e3o processos mentais e, por isso, biol\u00f3gicos ao mais alto n\u00edvel de complexidade; n\u00e3o ficam, assim \u201cbiologizados\u201d, diminu\u00eddos na sua dignidade nem se reduzem a pura mec\u00e2nica (como parece suceder em Espinosa); apenas, segundo Dam\u00e1sio, a sublimidade do espiritual est\u00e1 incorporada na sublimidade da biologia.  Em todo o caso, o que n\u00e3o parece razo\u00e1vel \u2013 por mais sedutor que seja \u00e0 primeira vista \u2013 \u00e9 \u201canalisar as ac\u00e7\u00f5es e os apetites do homem como se se tratasse de um problema de linhas, de planos e de s\u00f3lidos\u201d. Isso pode conhecer-se, mas a verdade tem de ser, al\u00e9m de conhecida, sobretudo amada. O pr\u00f3prio do homem \u00e9 ser inexprim\u00edvel, irredut\u00edvel a conceitos.  Ernesto Campos, in Voz Portucalense<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O recente livro de A. Dam\u00e1sio, \u201cAo Encontro de Espinosa\u201d, discute a explica\u00e7\u00e3o tradicional de que o sentimento precede a emo\u00e7\u00e3o; e defende: os pensamentos desencadeiam as emo\u00e7\u00f5es e as simult\u00e2neas modifica\u00e7\u00f5es corporais transformam-se no que chamamos sentimentos. Aquelas, pois, \u201calinhadas com o corpo enquanto os sentimentos est\u00e3o alinhados com a mente\u201d. No discurso de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[201,206],"class_list":["post-4255","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-etica","tag-familia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4255","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4255"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4255\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}