{"id":425433,"date":"2026-05-17T09:30:51","date_gmt":"2026-05-17T08:30:51","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=425433"},"modified":"2026-05-14T15:45:50","modified_gmt":"2026-05-14T14:45:50","slug":"igreja-media-temos-de-criar-um-quadro-de-competencias-mediaticas-para-os-cristaos-padre-miguel-neto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-media-temos-de-criar-um-quadro-de-competencias-mediaticas-para-os-cristaos-padre-miguel-neto\/","title":{"rendered":"Igreja\/Media: \u00abTemos de criar um quadro de compet\u00eancias medi\u00e1ticas para os crist\u00e3os\u00bb &#8211; padre Miguel Neto"},"content":{"rendered":"<p><em>Neste 60\u00ba Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecl\u00e9sia o padre Miguel Neto, sacerdote da Diocese do Algarve e autor da rec\u00e9m-defendida tese de doutoramento \u201cOs Cat\u00f3licos e as Redes Sociais: compet\u00eancias digitais para uma viv\u00eancia judaico-crist\u00e3 no digital. O caso do clero portugu\u00eas\u201d<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_329388\" aria-describedby=\"caption-attachment-329388\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-329388 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1022\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg 382w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-1024x698.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-768x523.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-474x324.jpg 474w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-329388\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\">Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/p>\n<p><em>Na sua mensagem para esta jornada, o Papa alerta para os riscos da intelig\u00eancia artificial, pedindo uma comunica\u00e7\u00e3o capaz de preservar vozes e rostos humanos. H\u00e1 mesmo risco de uma certa mecaniza\u00e7\u00e3o na comunica\u00e7\u00e3o e como \u00e9 que isso se evita?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 riscos de uma certa mecaniza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 que se evita? Com uma palavra que continua o seu caminho e a ter import\u00e2ncia na Igreja, depois da chamada de aten\u00e7\u00e3o a essa caracter\u00edstica pelo Papa Francisco, que \u00e9 o discernimento. Aqui \u00e9 necess\u00e1rio o discernimento digital e o discernimento digital passa por conhecer a intelig\u00eancia artificial, olhar para essa quest\u00e3o e ver como \u00e9 que se pode usar sempre a favor do ser humano e para o an\u00fancio dos valores \u00e9ticos.<\/p>\n<p>Acho que a palavra-chave em tudo aquilo que se fala \u00e9 o discernimento digital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E com as novas tecnologias ficamos tamb\u00e9m mais vulner\u00e1veis \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o, contra a qual o Papa tamb\u00e9m escreve. Que instrumentos est\u00e3o \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o para evitar este risco?<\/em><\/p>\n<p>Neste caso, os instrumentos j\u00e1 s\u00e3o os pr\u00f3prios da intelig\u00eancia artificial. Ou seja, o que serve para fazer mal tamb\u00e9m pode servir para fazer bem. Depende da forma como n\u00f3s estamos no ambiente digital. Aquilo que est\u00e1 no nosso interior pode ser bom ou pode ser mau. Um exemplo, saindo fora deste \u00e2mbito: um carro \u00e9 uma coisa boa, mas ultimamente at\u00e9 tem havido pessoas que atropelam, atentados e tudo o mais.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 a mesma coisa. H\u00e1 uma ferramenta muito interessante a n\u00edvel de IA, de intelig\u00eancia artificial, \u2018perplexity\u2019, que \u00e9 oferecido nalguns servi\u00e7os em promo\u00e7\u00f5es de bancos ou de redes, de cadeias, de servi\u00e7os de internet.<\/p>\n<p>O \u2018perplexity pro\u2019, por exemplo, \u00e9 uma ferramenta muito \u00fatil para saber as fontes e para combater a desinforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s estamos numa fase de aprendizagem, o que \u00e9 natural, quanto \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o da IA, em particular na comunica\u00e7\u00e3o. Tem encontrado vontade em perceber os limites e as vantagens desta utiliza\u00e7\u00e3o? A Igreja Cat\u00f3lica tamb\u00e9m est\u00e1 atenta a esta problem\u00e1tica<\/em>?<\/p>\n<p>Eu tenho encontrado vontade por parte das pessoas e essa vontade manifesta-se, por exemplo, nas perguntas que me t\u00eam feito depois da tese e mesmo antes. Toda a gente me pergunta e, ultimamente, fazem as mesmas perguntas, isso \u00e9 interessante. Essa vontade tamb\u00e9m se manifesta naquilo que \u00e9 o pensamento da Igreja.<\/p>\n<p>Por exemplo, em janeiro de 2025, houve um documento \u2018Antiqua et Nova\u2019, dos Dicast\u00e9rios para a Doutrina da F\u00e9 e da Cultura e Educa\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m sobre a quest\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial. Esso manifesta essa vontade, quer na Igreja, quer fora da Igreja. Os nossos bispos, por exemplo, nas pr\u00f3ximas Jornadas Pastorais do Episcopado, v\u00e3o conversar sobre a quest\u00e3o da intelig\u00eancia artificial e sobre o lado antropol\u00f3gico e relacional de como \u00e9 que podemos usar a intelig\u00eancia artificial. Teoricamente, n\u00f3s estamos despertos para esta realidade. Na pr\u00e1tica, \u00e9 mais dif\u00edcil e temos de fazer muito caminho, ou seja, do ponto de vista te\u00f3rico, h\u00e1 muito tempo que a Igreja chama a aten\u00e7\u00e3o para o digital: que n\u00e3o \u00e9 uma ferramenta, mas um lugar, um ambiente onde o homem se relaciona. Na pr\u00e1tica, as coisas n\u00e3o s\u00e3o assim e, por isso, fiquei bastante alegre quando o Papa enalteceu a quest\u00e3o da literacia medi\u00e1tica na sua mensagem [para o LX Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais] e quando, por exemplo, a Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil editou um documento de 32 p\u00e1ginas a explicar como \u00e9 que n\u00f3s podemos estar perante o digital, inspirando-se na mensagem do Papa. S\u00e3o pequenos caminhos e que tamb\u00e9m n\u00f3s podemos fazer em Portugal, \u00e9 necess\u00e1rio fazer esse caminho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A sua investiga\u00e7\u00e3o revela que quase 72% dos padres portugueses, 71,8%, usam as redes sociais, mas regista tamb\u00e9m uma diminui\u00e7\u00e3o na intencionalidade do uso na p\u00f3s-pandemia. A que \u00e9 que se deve este recuo ou cansa\u00e7o?<\/em><\/p>\n<p>Essa pergunta at\u00e9 foi feita precisamente por um elemento do j\u00fari do doutoramento e \u00e9 uma pergunta que se explica porque em 2021 era necess\u00e1rio &#8211; e o meu trabalho incidia muito sobre isso, a quest\u00e3o da utiliza\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-pandemia &#8211; o uso do digital para o contato direto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E em 2023 diminuiu, como est\u00e1 a dizer. Porqu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p>L\u00e1 est\u00e1, pela falta de literacia medi\u00e1tica e falta de conhecimento de que \u00e9 um lugar. Ou seja, quando for necess\u00e1rio utilizamos aquela ferramenta, quando n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o usamos. E at\u00e9 achamos que aquilo \u00e9 perigoso, que pode ser manipul\u00e1vel, que pode dar-nos mal a informa\u00e7\u00e3o, que as coisas podem ser destru\u00eddas, que pode haver quest\u00f5es de \u00f3dio, desinforma\u00e7\u00e3o. Temos medo. Em vez de conhecermos, temos medo e deixamos de usar. Ou seja, usamos, mas n\u00e3o com intencionalidade. Usamos por uma quest\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos a falar de redes sociais e falava dos receios que existem. Sabemos que os algoritmos alimentados por essa intelig\u00eancia artificial recompensam muitas emo\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas e penalizam a reflex\u00e3o. Isto tamb\u00e9m tem ajudado a promover espa\u00e7os de incitamento ao \u00f3dio, a polariza\u00e7\u00e3o, \u00e0 promo\u00e7\u00e3o da indigna\u00e7\u00e3o. H\u00e1 alguma forma de travar esta l\u00f3gica?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 com forma\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o consigo travar essa l\u00f3gica sem ser com forma\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 na Igreja, mas fora da Igreja.<\/p>\n<p>O que eu noto, por exemplo, a partir do interesse no meu trabalho, mesmo antes dele ser defendido e de eu iniciar o foco na investiga\u00e7\u00e3o, \u00e9 que as pessoas que estudam isto e que se preocupam com isto fora da Igreja &#8211; mesmo quem \u00e9 indiferente \u00e0 viv\u00eancia crist\u00e3, pessoas que t\u00eam um cristianismo social ou n\u00e3o t\u00eam o sentido crist\u00e3o da vida e \u00e9tico que n\u00f3s vivemos, que a Igreja difundiu na Europa &#8211; pedem ajuda para que a Igreja transponha os seus valores para este ambiente, precisamente para combater essa quest\u00e3o. Ou seja, para os estudiosos \u00e9 necess\u00e1rio que a Igreja esteja no digital, n\u00e3o s\u00f3 para anunciar a quest\u00e3o pastoral, as suas festas, p\u00f4r as coisinhas muito religiosas nos grupos de Facebook, mas que a Igreja, sobretudo, transmita os valores que fez com a sociedade europeia. E isso \u00e9 algo em que eles pedem ajuda.<\/p>\n<p>Por exemplo, a mim, como sacerdote, pede: \u201cajudem-nos, por favor, a humanizar o digital. Ajudem-nos, por favor, a colocar \u00e9tica no digital\u201d. Porque a verdade \u00e9 essa, os valores a que agora n\u00f3s chamamos humanistas, \u00e9ticos, s\u00e3o inspirados no cristianismo, no Evangelho. E pedem-nos ajuda. A mensagem do Papa fala precisamente nisso.<\/p>\n<p>O problema aqui \u00e9 que a Igreja n\u00e3o conhece estas realidades para al\u00e9m da componente t\u00e9cnica, para al\u00e9m da componente de como usar as coisas tecnicamente, ou como fazer um v\u00eddeo, ou muitas vezes coloca imagens ou coloca v\u00eddeos que n\u00e3o \u00e9 evangelizar, \u00e9 propagar atividades da Igreja, \u00e9 explicar coisas da liturgia, n\u00e3o h\u00e1 essa quest\u00e3o do interesse.<\/p>\n<p>Por outro lado, h\u00e1 um outro problema que neste momento est\u00e1 a surgir: mesmo dentro da pr\u00f3pria Igreja, h\u00e1 desinforma\u00e7\u00e3o propagada por membros da Igreja ou por pessoas que se dizem cat\u00f3licos praticantes. E isso \u00e9 um outro problema que leva a uma fragmenta\u00e7\u00e3o, de que o Papa tamb\u00e9m fala na mensagem. \u00c9 uma outra quest\u00e3o.<\/p>\n<p>O terceiro e \u00faltimo problema que \u00e9 uma quest\u00e3o muito preocupante e que no Brasil, por exemplo, j\u00e1 desde 2024 se falam disso: a quest\u00e3o dos influencers. Os influencers fazem com que as pessoas vivem \u00e0 volta deles. E isso \u00e9 propagado pelas bolhas, pelos algoritmos, pela quest\u00e3o do tribalismo digital.<\/p>\n<p>No Brasil, e est\u00e1 a come\u00e7ar a haver tamb\u00e9m em Portugal, os influencers ditos crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o mission\u00e1rios: utilizam a parte do digital para criarem comunidades \u00e0 sua volta, em vez de anunciarem a comunidade enquanto viv\u00eancia crist\u00e3.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nos est\u00e3o a pedir ajuda para isso, para que a Igreja chame \u00e0 aten\u00e7\u00e3o dos seus influencers, para n\u00e3o criarem comunidades \u00e0 sua volta. O conceito de comunidade mudou com o digital, mas tem de haver uma passagem de influencers digitais cat\u00f3licos para mission\u00e1rios digitais. E isso \u00e9 uma quest\u00e3o que tamb\u00e9m nos preocupa muito. As pessoas que estudam a literatura medi\u00e1tica sentem que a Igreja pode ter um papel importante nisso, s\u00f3 que n\u00e3o est\u00e1 a ter, a Igreja neste momento est\u00e1 a usar o digital consoante as mesmas regras que os que n\u00e3o s\u00e3o crist\u00e3os usam. \u00c9 essa a minha quest\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>De volta \u00e0 sua tese, ela conclui que existem lacunas formativas significativas e prop\u00f5e um modelo de compet\u00eancias em literacia medi\u00e1tica, exatamente o que o Papa agora pede. O que \u00e9 urgente mudar na forma\u00e7\u00e3o dos sacerdotes e j\u00e1 agora, que conselhos d\u00e1 aos profissionais dos media na utiliza\u00e7\u00e3o das redes sociais?<\/em><\/p>\n<p>Quanto aos profissionais dos media nas redes sociais, o conselho que eu dou \u00e9 investigar antes de publicar e n\u00e3o acreditar em tudo aquilo que se v\u00ea. Investigar, fazer pesquisa cr\u00edtica, o tal discernimento, \u00e9 importante fazer pesquisa cr\u00edtica e conhecer. Na quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o dos sacerdotes, \u00e9 precisamente a forma\u00e7\u00e3o, conhecer as coisas.<\/p>\n<p>O que se passa neste momento \u00e9 que existe uma utiliza\u00e7\u00e3o acr\u00edtica do que est\u00e1 no digital, porque n\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o. Temos sacerdotes a veicular informa\u00e7\u00f5es falsas, sacerdotes que se calhar utilizam perfis falsos para propagar discursos de \u00f3dio ou criticar os seus bispos ou fazer an\u00fancios de coisas de que n\u00e3o gostam. N\u00e3o h\u00e1 forma\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1rio o conhecimento, \u00e9 necess\u00e1rio ter a experi\u00eancia e \u00e9 necess\u00e1rio conhecer a realidade, literacia medi\u00e1tica. Eu proponho na tese um modelo que fui convidado a explorar e a concretizar pelo grupo de investiga\u00e7\u00e3o de que fa\u00e7o parte: um quadro de compet\u00eancias medi\u00e1ticas para os crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Inicialmente esse grupo quis falar sobre a quest\u00e3o das compet\u00eancias medi\u00e1ticas aplicadas ao clero, aos catequistas, isso tudo, e eu achei &#8211; depois vimos que, de facto, \u00e9 verdade &#8211; que \u00e9 necess\u00e1rio partir do geral para o particular. Temos de criar um quadro de compet\u00eancias medi\u00e1ticas para os crist\u00e3os. E tudo isto parte daqueles tr\u00eas pilares de que o Papa fala na sua mensagem: primeiro, a responsabilidade. Somos respons\u00e1veis por aquilo que publicamos; temos de ser respons\u00e1veis por aquilo que dizemos, publicamos, divulgamos. A coopera\u00e7\u00e3o entre todos, cooperar, ver o que \u00e9 que o outro faz, perguntar. E a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, educar para o uso das redes. S\u00e3o esses tr\u00eas pilares.<\/p>\n<p>A Igreja pensa nas coisas do digital muito bem desde 2002. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 agora que o Papa fala da necessidade de literacia medi\u00e1tica. Pod\u00edamos usar outras palavras, mas a Igreja desde 2002 fala que o digital \u00e9 um ambiente de evangeliza\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 tudo escrito, s\u00f3 \u00e9 preciso colocar em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que os documentos da Igreja, neste \u00e2mbito, como noutros, n\u00e3o chegam a concretizar-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Temos tamb\u00e9m de refletir como \u00e9 que se comunica atualmente, em particular, as grandes pot\u00eancias, os grandes l\u00edderes, a influ\u00eancia que as novas tecnologias t\u00eam, aquilo que se designa por p\u00f3s-verdade. N\u00e3o podemos deixar de perguntar pela pol\u00e9mica que, nas \u00faltimas semanas, tem colocado o Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, a atacar o Papa Le\u00e3o XIV. Como \u00e9 que se consegue perceber isto? \u00c9 uma forma de encobrir problemas, decis\u00f5es erradas na quest\u00e3o do Ir\u00e3o? Ou \u00e9 esta a incapacidade de olhar para as consequ\u00eancias daquilo que se publica e que se diz?<\/em><\/p>\n<p>Nada \u00e9 inocente. Primeiro aspeto: nada \u00e9 inocente. Pode ser inocente no campo da Igreja, mas neste caso o Papa comunicou muito bem. Mas nada na comunica\u00e7\u00e3o, em grande escala, \u00e9 inocente. Nada.<\/p>\n<p>Uma das coisas que \u00e9 importante e que faz parte da literacia medi\u00e1tica \u00e9 conhecer quem s\u00e3o os propriet\u00e1rios destas plataformas de intelig\u00eancia artificial, destes chatbots, e as plataformas e as redes sociais. \u00c9 interessante, temos de saber quem s\u00e3o os propriet\u00e1rios, o que \u00e9 que eles pretendem, o que \u00e9 que eles buscam.<\/p>\n<p>Obviamente, h\u00e1 desvios de aten\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 uma estrat\u00e9gia comunicativa que existe, pode faltar a estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, mas neste caso n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o Ir\u00e3o, \u00e9 o Ir\u00e3o, \u00e9 o que se passa em Israel e no L\u00edbano, \u00e9 os famosos ficheiros Epstein. \u00c9 um desvio de aten\u00e7\u00e3o, sim, nitidamente. Acontece com o Trump e acontece em Portugal. Acontece em Portugal e, se n\u00f3s n\u00e3o tivermos cuidado, isto volta-se contra a Igreja, porque h\u00e1 gente que est\u00e1 aparentemente usando aquilo que \u00e9 o cristianismo para difundir uma coisa que n\u00e3o \u00e9 cristianismo.<\/p>\n<p>Quando se diz que os bispos s\u00e3o \u201ccomunistas\u201d porque querem aceitar imigrantes, \u00e9 necess\u00e1ria uma estrat\u00e9gia da Igreja. Isso \u00e9 dito, por exemplo, pela extrema-direita em Espanha. Quando a extrema-direita em Espanha diz que a Igreja est\u00e1 a favor do governo porque precisa do dinheiro que o governo d\u00e1 \u00e0 C\u00e1ritas, \u00e9 necess\u00e1rio que a Igreja mostre, numa estrat\u00e9gia de comunica\u00e7\u00e3o, como \u00e9 usado esse dinheiro. N\u00f3s n\u00e3o temos estrat\u00e9gia, mas eles t\u00eam e \u00e9 necess\u00e1rio fazer isso. H\u00e1 crist\u00e3os n\u00e3o cat\u00f3licos, neste momento, a usar o ambiente digital para propagar uma mensagem aparentemente crist\u00e3, mas que \u00e9 pouco crist\u00e3, \u00e9 pouco evang\u00e9lica e isso nada \u00e9 inocente, nada, absolutamente nada. Neste momento, em muitos casos, como a Igreja Cat\u00f3lica se est\u00e1 a voltar a chamar a aten\u00e7\u00e3o contra essas plataformas, j\u00e1 se come\u00e7a a dar mais import\u00e2ncia a grupos evang\u00e9licos ou de outras confiss\u00f5es, aparentemente seitas crist\u00e3s, que s\u00e3o menos controladas porque a Igreja ainda assim tem uma estrutura piramidal e \u00e9 mais dif\u00edcil de contornar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Na sua mensagem para este dia, o Papa diz que n\u00e3o se podem enterrar os talentos recebidos. Depois de estudar t\u00e3o a fundo a viv\u00eancia no digital, mant\u00e9m a esperan\u00e7a? Como \u00e9 que estas tecnologias podem ser colocadas, de facto, ao servi\u00e7o da evangeliza\u00e7\u00e3o e do bem comum?<\/em><\/p>\n<p>O primeiro aspeto \u00e9 difundir a verdade e atacar o que n\u00e3o \u00e9 verdade nas redes. E o seguinte: anunciar a verdade do Evangelho. H\u00e1 uma coisa boa no digital, h\u00e1 v\u00e1rias, mas uma das coisas boas \u00e9 a quest\u00e3o da difus\u00e3o de conte\u00fados quando o povo se une para pedir ajuda, e isso \u00e9 bom, que h\u00e1 espa\u00e7o para as coisas boas no digital.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1ria uma estrat\u00e9gia para anunciar a verdade, combater a mentira, a tal responsabilidade, e ter sempre presente que n\u00e3o nos interessa anunciar somente uma pessoa que esteja aqui, interessa-nos anunciar a figura de Jesus Cristo e a sua mensagem. E isso faz-se pela verdade e pela autenticidade, pelo pensamento cr\u00edtico, pelo an\u00fancio da comunidade, pelo an\u00fancio da dignidade da pessoa e do outro. Uma das coisas com que n\u00f3s temos de ter cuidado, por causa do tribalismo digital e dos algoritmos, \u00e9 que estamos a deixar de pensar nos outros e a focar-nos naqueles que pensam como n\u00f3s.<\/p>\n<p>E temos de combater isso, com a preocupa\u00e7\u00e3o pelo outro, ver que o outro, por pensar diferente de n\u00f3s, n\u00e3o \u00e9 o nosso inimigo. Simplesmente, ver as coisas de outra forma e tentar entender. Isso faz parte do tal discernimento digital e humano.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste 60\u00ba Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecl\u00e9sia o padre Miguel Neto, sacerdote da Diocese do Algarve e autor da rec\u00e9m-defendida tese de doutoramento \u201cOs Cat\u00f3licos e as Redes Sociais: compet\u00eancias digitais para uma viv\u00eancia judaico-crist\u00e3 no digital. 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