{"id":42462,"date":"2009-12-14T11:05:31","date_gmt":"2009-12-14T11:05:31","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/14\/o-pensamento-ecologico-de-bento-xvi\/"},"modified":"2009-12-14T11:05:31","modified_gmt":"2009-12-14T11:05:31","slug":"o-pensamento-ecologico-de-bento-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-pensamento-ecologico-de-bento-xvi\/","title":{"rendered":"O pensamento ecol\u00f3gico de Bento XVI"},"content":{"rendered":"<p>A Confer&ecirc;ncia de Copenhaga em 2009 marca o in&iacute;cio de um novo desafio para a humanidade onde ci&ecirc;ncia, pol&iacute;tica, economia e sociologia ir&atilde;o servir de base na busca de solu&ccedil;&otilde;es globais para a crise ecol&oacute;gica que enfrentamos e suas consequ&ecirc;ncias. Ser&aacute; que o amor e a caridade t&ecirc;m lugar nesta cimeira, ou s&atilde;o mesmo essenciais para o argumento? &Eacute; poss&iacute;vel encontrar essa resposta no pensamento de Bento XVI, em particular, na sua Carta Enc&iacute;clica &ldquo;Caridade na Verdade&rdquo; (CV).<\/p>\n<p>Alguns poderiam pensar que a caridade exclui o saber, o conhecimento ou a raz&atilde;o, mas, pelo contr&aacute;rio, a caridade reclama-os, promove-os e anima-os <em>a partir de dentro <\/em>(CV 30). O que significa esse &ldquo;a partir de dentro&rdquo;? Significa que um saber <em>&laquo;&hellip;&rdquo;temperado&rdquo; com o &ldquo;sal&rdquo; da caridade&raquo;<\/em> torna-se <em>sabedoria<\/em>. E qualquer um de n&oacute;s tem acesso &agrave; sabedoria. N&atilde;o &eacute; assim t&atilde;o importante ser-se inteligente porque <em>&laquo;o saber nunca &eacute; obra apenas da intelig&ecirc;ncia&raquo;<\/em>, importante sim &eacute; ter presente que <em>&laquo;a ac&ccedil;&atilde;o &eacute; cega sem o saber, e este &eacute; est&eacute;ril sem o amor&raquo;<\/em> (CV 30), logo &eacute; amando que se desenvolve o verdadeiro saber, pois, <em>&laquo;n&atilde;o aparece a intelig&ecirc;ncia e depois o amor: h&aacute; <strong>o amor rico de intelig&ecirc;ncia e a intelig&ecirc;ncia cheia de amor<\/strong>&raquo;<\/em>.<\/p>\n<p>Esta vis&atilde;o do saber como sabedoria (intelig&ecirc;ncia-amor) &eacute; muito importante no que diz respeito aos desenvolvimentos referentes ao ambiente, onde os deveres nascem do <em>&laquo;relacionamento do ser humano com o ambiente natural&raquo;<\/em> (CV 48). Importa salientar que Bento XVI n&atilde;o centra o argumento do ambiente no ser humano, ou no ambiente, mas no seu <strong>relacionamento<\/strong>. Nesse sentido torna-se objectivo <em>&laquo;refor&ccedil;ar aquela alian&ccedil;a, entre ser humano e ambiente, que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho&raquo; <\/em>(CV 50). Dito por outras palavras, o relacionamento do homem com o ambiente deveria ser o reflexo do amor criador de um Deus que &eacute; Amor (1 Jo 4, 8). Posteriormente, &eacute; sobre esse relacionamento que assenta a responsabilidade que temos perante os pobres, as gera&ccedil;&otilde;es futuras e a Humanidade inteira, bem como o reconhecimento que o crente faz da <em>maravilhosa<\/em> Cria&ccedil;&atilde;o de Deus. Assim, que vis&atilde;o crist&atilde; de natureza surge desse relacionamento? Diz Bento XVI: <em>&laquo;a natureza &eacute; express&atilde;o de um des&iacute;gnio de amor e de verdade&raquo;<\/em>.<\/p>\n<p>[[v,d,723,Ecologia de comunh&atilde;o &#8211; o conceito de Bento XVI e a an&aacute;lise de Miguel Oliveira Pan&atilde;o.]]Ali&aacute;s, <em>&laquo;&eacute; contr&aacute;rio ao verdadeiro desenvolvimento considerar a natureza mais importante do que a pr&oacute;pria pessoa humana&raquo;<\/em>. Por outro lado, <em>&laquo;o ambiente natural n&atilde;o &eacute; apenas mat&eacute;ria de que podemos dispor a nosso bel-prazer, mas obra admir&aacute;vel do Criador, contendo nela uma &ldquo;gram&aacute;tica&rdquo; que indica finalidade e crit&eacute;rios para uma utiliza&ccedil;&atilde;o sapiente, n&atilde;o instrumental nem arbitr&aacute;ria.<\/em> [Ainda, a natureza,] (&hellip;) <em>constitu&iacute;da<\/em> <em>n&atilde;o s&oacute; de mat&eacute;ria mas tamb&eacute;m de esp&iacute;rito e, como tal, rica de significados e de fins transcendentes a alcan&ccedil;ar, tem um car&aacute;cter normativo tamb&eacute;m para a cultura. <strong>O ser humano interpreta e modela o ambiente natural atrav&eacute;s da cultura<\/strong>&raquo;<\/em>. Este aspecto &eacute; importante pois salienta que a liga&ccedil;&atilde;o entre o ambiente e a cultura est&aacute; no ser humano. Em &uacute;ltima an&aacute;lise, <em>&laquo;o modo como o ser humano trata o ambiente influi sobre o modo como se trata a si mesmo, e vice-versa&raquo;<\/em> (CV 51). Da&iacute; que a forma como entendemos quem &eacute; o ser humano, possui tamb&eacute;m repercuss&otilde;es no relacionamento que este tem para com o ambiente natural. Como &eacute; visto, ent&atilde;o, o ser humano em &ldquo;Caridade na Verdade&rdquo;?<\/p>\n<p>Antes de dar uma no&ccedil;&atilde;o de ser humano, Bento XVI recorda que <em>&laquo;as pobrezas, (&#8230;) nasceram da recusa do amor de Deus, de uma origin&aacute;ria e tr&aacute;gica reclus&atilde;o do ser humano em si pr&oacute;prio, que pensa que se basta a si mesmo<\/em> [individualismo]<em> <\/em><em>ou, ent&atilde;o, que &eacute; s&oacute; um facto insignificante e passageiro <\/em>[relativismo]<em>, um &ldquo;estrangeiro&rdquo; num universo formado por acaso&raquo;<\/em> (CV 53). Ora, o ser humano n&atilde;o est&aacute; no cosmos, ele &eacute; cosmos. Por outro lado, <em>&laquo;a Humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado&raquo;<\/em> e, por isso, qual a resposta que se deve dar ao individualismo e relativismo? Observando a proximidade que sentimos entre seres humanos nesta era da comunica&ccedil;&atilde;o e globaliza&ccedil;&atilde;o, tal proximidade &ndash; diz Bento XVI &#8211; <em>&laquo;deve transformar-se em verdadeira <strong>comunh&atilde;o<\/strong>&raquo;<\/em>.<\/p>\n<p>Comunh&atilde;o: palavra que exprime o facto de sermos uma fam&iacute;lia, a fam&iacute;lia humana &agrave; imagem de Deus, cuja interac&ccedil;&atilde;o entre povos obriga a repensar o ser humano sobre a categoria da <em>rela&ccedil;&atilde;o<\/em>. Diz-nos o Papa que <em>&laquo;de natureza espiritual, a criatura humana realiza-se nas rela&ccedil;&otilde;es interpessoais&raquo;<\/em>, por isso, <em>&laquo;a unidade da fam&iacute;lia humana n&atilde;o anula em si as pessoas, os povos e as culturas, mas torna-os mais transparentes reciprocamente, mais unidos nas suas leg&iacute;timas diversidades&raquo;<\/em>. Reparemos, <em>&laquo;a Trindade &eacute; absoluta unidade, enquanto as tr&ecirc;s Pessoas divinas s&atilde;o <strong>pura rela&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/em> (&hellip;) [e] <em>Deus quer-nos associar tamb&eacute;m a esta realidade de comunh&atilde;o: &ldquo;para que sejam um como N&oacute;s somos Um&rdquo; (Jo 17, 22)&raquo;<\/em> (CV 54). Logo, em resposta &agrave; pergunta inicial sobre que vis&atilde;o do ser humano, Bento XVI constata que <em>&laquo;a revela&ccedil;&atilde;o crist&atilde; sobre a unidade do g&eacute;nero humano pressup&otilde;e uma interpreta&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica do <\/em>humanum<em> <\/em><em>na qual a <strong>rela&ccedil;&atilde;o<\/strong> seja elemento essencial&raquo;<\/em> (CnV 55). Nesta perspectiva, somos mais do que seres racionais, somos seres relacionais <em>&laquo;ao reconhecer na reciprocidade a constitui&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima do ser humano&raquo;<\/em> (CnV 57).<\/p>\n<p>Para finalizar, poder-se-ia dizer que a s&iacute;ntese entre as ecologias humana, ambiental e espiritual (ver Homilia da Vig&iacute;lia de Pentecostes de 2009) na vis&atilde;o de Bento XVI &eacute; uma Ecologia de Comunh&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Miguel Oliveira Pan&atilde;o, Investigador Universit&aacute;rio<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Confer&ecirc;ncia de Copenhaga em 2009 marca o in&iacute;cio de um novo desafio para a humanidade onde ci&ecirc;ncia, pol&iacute;tica, economia e sociologia ir&atilde;o servir de base na busca de solu&ccedil;&otilde;es globais para a crise ecol&oacute;gica que enfrentamos e suas consequ&ecirc;ncias. 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