{"id":42374,"date":"2009-12-10T11:16:00","date_gmt":"2009-12-10T11:16:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/10\/homilia-do-arcebispo-de-evora-na-imaculada-conceicao\/"},"modified":"2009-12-10T11:16:00","modified_gmt":"2009-12-10T11:16:00","slug":"homilia-do-arcebispo-de-evora-na-imaculada-conceicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-arcebispo-de-evora-na-imaculada-conceicao\/","title":{"rendered":"Homilia do Arcebispo de \u00c9vora na Imaculada Concei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&laquo;Salve, &oacute; cheia de gra&ccedil;a, o Senhor est&aacute; contigo&raquo; (Lc1,28)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conforme nos relata o Evangelho de S. Lucas, foi com esta sauda&ccedil;&atilde;o que o anjo Gabriel se dirigiu a Maria, ao entrar em casa dela, em Nazar&eacute;. N&atilde;o se trata de uma simples sauda&ccedil;&atilde;o de cortesia. &Eacute; muito mais do que isso. Nesta sauda&ccedil;&atilde;o est&aacute; contida, em certo modo, a promessa e a profecia da salva&ccedil;&atilde;o. Compreend&ecirc;-la-emos melhor se a enquadrarmos no pano de fundo veterotestament&aacute;rio, a partir do qual adquire um sentido bem mais rico de significado salv&iacute;fico.<\/p>\n<p>A sauda&ccedil;&atilde;o, traduzida pela palavra ave ou salve, &eacute; tamb&eacute;m usada pelos profetas para convidar o Povo de Israel, simbolizado na filha de Si&atilde;o, a exteriorizar o j&uacute;bilo e a alegria, &iacute;ntima e profunda, que vem de Deus e tem poder para vencer o velho e infind&aacute;vel luto do mundo, porque o tempo da liberta&ccedil;&atilde;o se aproxima.<\/p>\n<p>Maria &eacute; a verdadeira filha de Si&atilde;o, o mais belo e sublime rebento da casa da Israel, que sintetiza todas as aspira&ccedil;&otilde;es do povo eleito e se torna instrumento d&oacute;cil nas m&atilde;os de Deus para que as promessas messi&acirc;nicas se cumpram. Por isso &eacute; convidada pelo anjo Gabriel a alegrar-se, pois chegou a plenitude dos tempos e ela foi escolhida pelo Deus Alt&iacute;ssimo para dar cumprimento &agrave; promessa anunciada aos nossos primeiros pais, de que a descend&ecirc;ncia de uma mulher havia de esmagar a cabe&ccedil;a da serpente, isto &eacute;, havia de vencer o maligno tentador que os seduziu ao pecado, pela desobedi&ecirc;ncia a Deus.<\/p>\n<p>Em Maria toda a humanidade &eacute; convidada a exteriorizar essa alegria profunda que vem de Deus e pode destruir o fundamento da tristeza enraizada na caducidade do amor humano e o predom&iacute;nio da finitude das realidades terrestres, do sofrimento, da maldade e da mentira. Na verdade, a alegria que vem de Deus p&otilde;e fim &agrave; solid&atilde;o que prolifera neste mundo repleto de contradi&ccedil;&otilde;es, onde est&aacute; presente uma vaga de laicismo agressivo que se esfor&ccedil;a por apagar os sinais da presen&ccedil;a e da bondade de Deus.<\/p>\n<p>O anjo Gabriel convidou Maria a alegrar-se e, logo de seguida, explicitou a raz&atilde;o de semelhante convite, acrescentando: o Senhor este contigo. Se os nossos primeiros pais experimentaram a tristeza por se terem afastado das ordens de Deus, Maria deve alegrar-se porque o Senhor Deus est&aacute; com ela. Passou o tempo da promessa, agora &eacute; o tempo da realidade. Tudo quanto foi simbolizado por Si&atilde;o Maria vive-o em verdade e na totalidade, pois ela n&atilde;o est&aacute; sozinha, n&atilde;o est&aacute; fechada em si mesma. Radicada na f&eacute; dos profetas, abre o seu cora&ccedil;&atilde;o &agrave; imensa amplid&atilde;o das promessas que por meio dela se tornar&atilde;o realidade. Ela &eacute; perme&aacute;vel a Deus, habitada por Deus e tornou-se um lugar de Deus, porque o Senhor est&aacute; com ela.<\/p>\n<p>Em Maria nunca existiu pecado. Ela nunca esteve sujeita aos efeitos mal&eacute;ficos do pecado que gera nos cora&ccedil;&otilde;es humanos a mentalidade ego&iacute;sta do isolamento, do individualismo e da posse avara dos bens terrenos, que contamina negativamente as rela&ccedil;&otilde;es interpessoais, dificulta a partilha altru&iacute;sta dos bens e atrofia o esp&iacute;rito de comunidade. Por isso se entregou sem reservas nas m&atilde;os de Deus, disposta a nada guardar para si e a tudo partilhar com a humanidade.<\/p>\n<p>Maria &eacute; a mulher cheia de gra&ccedil;a. E que significa a express&atilde;o cheia de gra&ccedil;a sen&atilde;o que est&aacute; em &iacute;ntima uni&atilde;o com Deus? Com efeito, a gra&ccedil;a n&atilde;o &eacute; uma coisa, n&atilde;o se pode coisificar. A gra&ccedil;a tem uma natureza relacional, n&atilde;o se refere ao eu da pessoa mas &agrave; rela&ccedil;&atilde;o que cada um estabelece com Deus. Nessa perspectiva, a express&atilde;o cheia de gra&ccedil;a poderia traduzir-se por est&aacute; cheia do Esp&iacute;rito Santo, vive em comunidade de vida com Deus. E quem vive em Deus n&atilde;o pode deixar de viver em alegria, ali&aacute;s na l&iacute;ngua grega as palavras que traduzimos por gra&ccedil;a e alegria t&ecirc;m a mesmo radical e, na realidade t&ecirc;m a mesma fonte: Deus, que &eacute; fonte de gra&ccedil;a e de alegria.<\/p>\n<p>Cheia de gra&ccedil;a quer dizer tamb&eacute;m que est&aacute; completamente aberta aos outros, que se dilatou completamente e se entregou audaciosa e ilimitadamente nas m&atilde;os de Deus. Vive inteiramente a partir da rela&ccedil;&atilde;o e no interior da rela&ccedil;&atilde;o com Deus. Vive em Deus mas ainda n&atilde;o O contempla face a face, vive na f&eacute;. Maria &eacute; uma mulher crente, dotada de uma f&eacute; que inclui a fortaleza, a dedica&ccedil;&atilde;o e a confian&ccedil;a mas n&atilde;o exclui a obscuridade, porque n&atilde;o foi abolida a dist&acirc;ncia entre o humano e o divino, entre a criatura e o Criador. Maria &eacute; crente como Abra&atilde;o. Como Abra&atilde;o acredita na promessa de um filho, suporta a escurid&atilde;o da hora que a leva a subir ao cimo do monte, aceita a interven&ccedil;&atilde;o miraculosa do Pai que salva o Filho da morte pela Ressurrei&ccedil;&atilde;o. Se para Israel e para a Igreja Abra&atilde;o &eacute; o pai dos crentes, Maria &eacute; para todos a M&atilde;e dos crentes.<\/p>\n<p>Tudo isto foi poss&iacute;vel em Maria porque nela nunca existiu pecado. Foi cheia de gra&ccedil;a e sempre irradiou &agrave; sua volta a alegria pura e bela que s&oacute; a intimidade com Deus pode fazer transparecer no rosto dos que n&rsquo;Ele confiam e a Ele se entregam sem reservas, como Maria. Esse ser&aacute; sem d&uacute;vida um dos frutos espirituais mais deliciosos que experimentam os verdadeiros devotos de Maria e com ela aprendem a viver em rela&ccedil;&atilde;o &iacute;ntima com Deus, como aconteceu com S&atilde;o Nuno de Santa Maria, devot&iacute;ssimo da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o da Virgem e, em vida, t&atilde;o profundamente ligado a esta vila ducal e ao seu santu&aacute;rio mariano. Embebido nas del&iacute;cias espirituais de Deus, depois de ter cumprido a sua miss&atilde;o de salvador da P&aacute;tria lusitana, desprendeu-se dos bens terrenos e recolheu-se no convento do Carmo que ele pr&oacute;prio mandara construir para a&iacute; se entregar &agrave; ora&ccedil;&atilde;o e &agrave;s obras de caridade para com os mais pobres.<\/p>\n<p>Infelizmente, na nossa sociedade abundam os maus exemplos dos que em vez de partilharem os pr&oacute;prios bens preferem apropriar-se dos bens dos outros, sejam eles econ&oacute;micos ou morais, sem olharem aos meios, mesmo quando est&atilde;o em causa bens t&atilde;o elevados como a dignidade da pessoa e a inoc&ecirc;ncia das crian&ccedil;as. O esquecimento dos outros e a concentra&ccedil;&atilde;o nos pr&oacute;prios interesses &eacute;, sem d&uacute;vida, um dos efeitos mais perniciosos do pecado. Ao contr&aacute;rio, a gra&ccedil;a e alegria de Deus levam &agrave; abertura aos outros e a Deus. Maria Imaculada, concebida sem pecado, cheia de gra&ccedil;a, habitada pelo Esp&iacute;rito Santo, unida espiritualmente a Deus, acolheu a mensagem do anjo, colocou-se ao servi&ccedil;o de Deus e da humanidade e, mesmo sem compreender racionalmente a proposta que lhe era feita, tudo aceitou na f&eacute;.<\/p>\n<p>Guiados pela f&eacute; e atra&iacute;dos por t&atilde;o singular exemplo da Virgem Imaculada, os valorosos chefes da P&aacute;tria lusitana, em momentos de crise, foram capazes de comprometer a pr&oacute;pria vida para salvar a p&aacute;tria e servir o povo. Nos dias de hoje e a exemplo dos nossos antepassados, tamb&eacute;m n&oacute;s que recebemos o dom da f&eacute; e fomos enriquecidos com toda a esp&eacute;cie de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;os espirituais em Cristo, como escreveu S. Paulo aos crist&atilde;os de &Eacute;feso, temos necessidade de voltar os nossos olhos para a cheia de gra&ccedil;a, a Virgem Imaculada, para implorar a sua protec&ccedil;&atilde;o maternal e aprendermos com ela a corresponder sem reservas aos dons de Deus.<\/p>\n<p>Virgem Imaculada, rogai por n&oacute;s!<\/p>\n<p>Vila Vi&ccedil;osa, 8 de Dezembro de 2009<\/p>\n<p align=\"right\"><em>+Jos&eacute;, Arcebispo de &Eacute;vora<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&laquo;Salve, &oacute; cheia de gra&ccedil;a, o Senhor est&aacute; contigo&raquo; (Lc1,28) &nbsp; Conforme nos relata o Evangelho de S. Lucas, foi com esta sauda&ccedil;&atilde;o que o anjo Gabriel se dirigiu a Maria, ao entrar em casa dela, em Nazar&eacute;. N&atilde;o se trata de uma simples sauda&ccedil;&atilde;o de cortesia. &Eacute; muito mais do que isso. Nesta sauda&ccedil;&atilde;o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,175,231],"class_list":["post-42374","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-evora","tag-imaculada-conceicao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42374","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42374"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42374\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42374"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42374"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42374"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}