{"id":42346,"date":"2009-12-09T13:11:49","date_gmt":"2009-12-09T13:11:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/09\/homilia-de-d-manuel-felicio-na-solenidade-da-imaculada-conceicao\/"},"modified":"2009-12-09T13:11:49","modified_gmt":"2009-12-09T13:11:49","slug":"homilia-de-d-manuel-felicio-na-solenidade-da-imaculada-conceicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-manuel-felicio-na-solenidade-da-imaculada-conceicao\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Manuel Fel\u00edcio na Solenidade da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Interrompemos hoje a semana de trabalho para celebrarmos a solenidade da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o de Nossa Senhora; para celebrarmos a Festa da Padroeira. Voltamo-nos, por isso, para a M&atilde;e do Redentor, Nosso Senhor Jesus Cristo, em tempo de Advento. Ela &eacute;, de facto, figura central do Advento, tempo que nos remete para a vinda de Jesus Cristo, o Salvador, nascido de Maria, no Pres&eacute;pio de Bel&eacute;m. E ao contemplarmos Nossa Senhora pelo &acirc;ngulo do seu privil&eacute;gio de ser concebida sem m&aacute;cula do pecado original, o nosso olhar desloca-se para a realidade dram&aacute;tica constitu&iacute;da pelo mist&eacute;rio do mal que, de facto, invadiu, desde o princ&iacute;pio, toda a cria&ccedil;&atilde;o. Mas simultaneamente a nossa esperan&ccedil;a fica fortalecida, ao contemplarmos tamb&eacute;m a sublime solu&ccedil;&atilde;o encontrada pelo amor de Deus para vencer este mal. E nossa Senhora &eacute; parte decisiva dessa solu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>De facto, o mal e o pecado invadiram o mundo e a realidade humana, em suas dimens&otilde;es individual e social, desde o in&iacute;cio. O relato do G&eacute;nesis que escut&aacute;mos &eacute; disso testemunha. O primeiro homem desiludido, a primeira mulher enganada e a serpente enganadora amea&ccedil;ada de morte constituem os autores da desordem que atingiu toda a Humanidade, com repercuss&otilde;es na natureza criada, desde o seu primeiro momento. Uma semente de esperan&ccedil;a, por&eacute;m, aparece ligada &agrave; futura nova Eva, cuja descend&ecirc;ncia esmagar&aacute; a cabe&ccedil;a da serpente, garantindo, assim, a vit&oacute;ria do bem sobre o mal, da Gra&ccedil;a sobre o pecado.<\/p>\n<p>&Eacute; por isso que o sim de Maria ao convite de Deus feito atrav&eacute;s do Anjo Gabriel para ser M&atilde;e do Salvador contrasta com o sim da primeira Eva &agrave; proposta tentadora da serpente. Com o seu sim ao convite de Deus, Maria abriu as portas de um novo futuro de esperan&ccedil;a para toda a Humanidade; esperan&ccedil;a essa fundada no Salvador Jesus Cristo que dela havia de nascer. Por sua vez, em ordem a cumprir a transcendente miss&atilde;o de acolher em seu seio o Salvador do Mundo, Maria foi esmeradamente preparada desde o primeiro momento da sua exist&ecirc;ncia com o privil&eacute;gio de ficar isenta de toda a esp&eacute;cie de pecado e, por isso, &eacute; imaculada desde a sua Concei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Hoje, ao contemplarmos este privil&eacute;gio de Maria, a nossa aten&ccedil;&atilde;o volta-se para a dignidade de todo ser humano, sujeito de direitos, mas sobretudo do direito dos direitos que &eacute; o direito &agrave; vida, desde o primeiro momento da sua concep&ccedil;&atilde;o. &Eacute; este um direito que a sociedade e as suas leis parecem querer desistir de proteger, mas de facto ele &eacute; o direito fundamental e sem ele os outros de nada valem. E pelo facto de estarmos diante de seres humanos indefesos, mais se imp&otilde;e que cuidemos deles e os protejamos por todos os meios ao nosso alcance. Por isso, todas as crian&ccedil;as, fr&aacute;geis e sem defesas, merecem que, nesta hora, por elas dirijamos a Maria Imaculada, a M&atilde;e modelo de todas as m&atilde;es, uma prece muito especial.<\/p>\n<p>Voltando ao sim de Maria, atrav&eacute;s do Anjo Gabriel, verificamos que ele, por um lado, contrasta com a atitude da primeira mulher, mas, por outro lado, &eacute; modelo do nosso sim a Deus, aquele sim que somos chamados a dar todos os dias e com verdadeira determina&ccedil;&atilde;o. Como nos lembrava o hino da Carta aos Ef&eacute;sios hoje escutado, cada um de n&oacute;s foi pensado por Deus desde toda a eternidade. Ele escolheu-nos para cumprirmos no tempo a sua santidade, para sermos seus filhos adoptivos em Jesus Cristo. A nossa voca&ccedil;&atilde;o, como diz a carta, &eacute; sermos um hino de louvor &agrave; Sua gl&oacute;ria.<\/p>\n<p>Sentimos tamb&eacute;m que a nossa miss&atilde;o, enquanto disc&iacute;pulos de Cristo, assim como a miss&atilde;o de toda a Igreja, &eacute; ajudar a Humanidade inteira a cumprir este des&iacute;gnio divino de ser &ldquo;um hino der louvor &agrave; Sua gl&oacute;ria&rdquo;. Para cumprir esta importante miss&atilde;o, a Igreja recebe do Esp&iacute;rito Santo o dom de muitos minist&eacute;rios e entre eles o dom sublime do Minist&eacute;rio Ordenado. O Ano Sacerdotal que estamos a viver &eacute; convite de Deus a todo o Seu Povo para valorizarmos e colocarmos no devido lugar o Minist&eacute;rio Ordenado; mas &eacute; igualmente convite para sabermos articular com ele e, por ele, em favor de toda a comunidade, a variedade dos minist&eacute;rios que nela s&atilde;o suscitados pelo mesmo Esp&iacute;rito.<\/p>\n<p>Por isso, escutamos o convite do Santo Padre para que, neste Ano Sacerdotal, todos n&oacute;s sacerdotes, atrav&eacute;s de uma cuidada espiritualidade centrada na renova&ccedil;&atilde;o interior, sejamos cada vez mais padres segundo o Cora&ccedil;&atilde;o de Cristo. E o Papa n&atilde;o se esquece de nos lembrar a nossa fragilidade, dizendo que trazemos connosco um precioso tesouro, mas em vasos de barro. Tem o cuidado de sublinhar o risco do cansa&ccedil;o e mesmo do des&acirc;nimo que nos espreita a cada passo e que, de facto, n&oacute;s sentimos a bater-nos &agrave; porta em variad&iacute;ssimas circunst&acirc;ncias, sobretudo quando o trabalho aumenta e as for&ccedil;as diminuem ou quando o entusiasmo da primeira hora parece arrefecer perante situa&ccedil;&otilde;es adversas e inesperadas. A resposta encontrou-a o Santo Padre na figura carism&aacute;tica do Santo Cura d&rsquo;Ars, um sacerdote que soube confiar-se por inteiro &agrave; Provid&ecirc;ncia Divina e ao Cora&ccedil;&atilde;o de Cristo, &uacute;nico Sacerdote e entregar-se generosamente aos cuidados pastorais de um povo que, de in&iacute;cio, o recebeu com muita frieza e at&eacute; desprezo, mas depois o elegeu como seu pastor e modelo de vida. O segredo deste &ecirc;xito pastoral esteve no tempo dedicado &agrave; ora&ccedil;&atilde;o e ao acolhimento das pessoas, chegando este Santo Cura a passar 16 horas di&aacute;rias na Igreja, distribu&iacute;das entre o sacr&aacute;rio, o altar e o confession&aacute;rio. E n&atilde;o fiquemos a pensar que ele vivia alheio &agrave;s necessidades materiais das pessoas, pois tamb&eacute;m criou o seu centro social paroquial, cuja gest&atilde;o soube entregar a pessoas criteriosamente escolhidas.<\/p>\n<p>Mas o Ano Sacerdotal n&atilde;o foi pensado e programado s&oacute; para os sacerdotes. Ele &eacute; dirigido, de facto, a todo o Povo de Deus, n&atilde;o s&oacute; porque todo ele &eacute; um Povo Sacerdotal, mas tamb&eacute;m porque o mesmo Esp&iacute;rito Santo que faz de n&oacute;s, pelo Sacramento da Ordem, Ministros de Cristo, Cabe&ccedil;a e Pastor do Seu Povo, faz tamb&eacute;m dos outros disc&iacute;pulos de Cristo servidores da mesma Igreja em outros minist&eacute;rios n&atilde;o ordenados e muito diferenciados. A nossa responsabilidade &eacute; agora sabermos articular bem estes minist&eacute;rios para servi&ccedil;o do bem comum de toda a Igreja. &Eacute;-nos, de facto, pedido e com mais insist&ecirc;ncia neste Ano Sacerdotal, para promovermos o corpo e a comunh&atilde;o dos minist&eacute;rios necess&aacute;rios para construir a comunh&atilde;o da Igreja nas nossas distintas comunidades. E cada vez sentimos mais que &eacute; a diferentes corpos de minist&eacute;rios presididos sempre pelo Minist&eacute;rio Ordenado que o mesmo Jesus Cristo entrega a responsabilidade conjunta e diferenciada de decidir e promover a condu&ccedil;&atilde;o da sua Igreja nas diferentes comunidades que lhe d&atilde;o rosto.<\/p>\n<p>E agora dirijo-me, de forma especial aos dois candidatos que se apresentam para serem ordenados di&aacute;conos. Lu&iacute;s Miguel Freire e Lu&iacute;s Miguel Nobre, hoje dais um passo decisivo na vossa vida pessoal, que o &eacute; tamb&eacute;m na vida da Igreja. Esse passo &eacute; a entrada na Ordem dos Di&aacute;conos com vista ao Minist&eacute;rio Sacerdotal. O que acabo de dizer sobre o Ano sacerdotal e as interpela&ccedil;&otilde;es que ele faz quer a n&oacute;s sacerdotes quer ao conjunto de todo o Povo de Deus s&atilde;o tamb&eacute;m interpela&ccedil;&otilde;es dirigidas a cada um de v&oacute;s. Os tempos presentes em que se desenrola a vida da Igreja e em particular o Minist&eacute;rio Sacerdotal n&atilde;o s&atilde;o f&aacute;ceis e n&atilde;o se adivinha futuro de mais facilidade. A cultura ambiente em que temos de viver e desenvolver o nosso Minist&eacute;rio, de facto, apresenta-se com progressiva agressividade em rela&ccedil;&atilde;o aos valores evang&eacute;licos que queremos viver e defender. &Eacute; uma cultura com variadas tend&ecirc;ncias que n&atilde;o ajudam o processo geral da humaniza&ccedil;&atilde;o e muito menos ajudam ao cumprimento do nosso Minist&eacute;rio e da nossa miss&atilde;o evangelizadora. Permito-me lembrar algumas dessas componentes da cultura ambiente que nos s&atilde;o adversas. Uma delas &eacute; o individualismo e a pretensa autonomia absoluta da consci&ecirc;ncia pessoal, que conduz ao relativismo. Acrescento-lhe a progressiva perda do sentido de perten&ccedil;a nas pessoas e nos grupos. Outra &eacute; o princ&iacute;pio indiscut&iacute;vel da satisfa&ccedil;&atilde;o dos desejos pessoais a qualquer pre&ccedil;o acompanhado da liberaliza&ccedil;&atilde;o sexual fora de qualquer regra. Destaco tamb&eacute;m a predomin&acirc;ncia de um modelo de cultura sem Deus ou pelo menos que pretende, a todo o custo, expulsar Deus do palco da vida social.<\/p>\n<p>A estas dificuldades vindas do exterior juntam-se outras que v&ecirc;m do interior das nossas comunidades crist&atilde;s ou mesmo de n&oacute;s pr&oacute;prios.<\/p>\n<p>De facto, as comunidades crist&atilde;s que temos hoje pedem-nos muito trabalho e quase sempre o mesmo trabalho que pediam quando, h&aacute; d&eacute;cadas atr&aacute;s, os sacerdotes eram o dobro daqueles s&atilde;o hoje; mas tamb&eacute;m quando os habitantes na &aacute;rea dessas mesmas comunidades eram o triplo e at&eacute; quatro e mais vezes do que hoje s&atilde;o. E com a agravante de que nos pedem com frequ&ecirc;ncia coisas que n&oacute;s n&atilde;o lhes devemos dar e n&atilde;o se empenham nas propostas que lhes fazemos e que s&atilde;o decisivas para o futuro da F&eacute; nos nossos ambientes. Refiro-me, agora, &agrave;s propostas de catequese e de forma&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, que est&atilde;o longe de ser acolhidas com o entusiasmo desej&aacute;vel. Realmente situa&ccedil;&otilde;es destas ou outras similares podem gerar em n&oacute;s a sensa&ccedil;&atilde;o de sobrecarga pastoral e at&eacute; de algum des&acirc;nimo, com repercuss&otilde;es na sa&uacute;de f&iacute;sica, psicol&oacute;gica e mesmo espiritual e sobrenatural.<\/p>\n<p>E n&atilde;o podemos esquecer-nos que n&oacute;s pr&oacute;prios tamb&eacute;m podemos ser fonte de algumas dificuldades para o exerc&iacute;cio do Minist&eacute;rio. De facto, o nosso Minsit&eacute;rio nunca se pode confundir com qualquer t&eacute;cnica de condu&ccedil;&atilde;o social. Ele &eacute; sempre e s&oacute; a interpreta&ccedil;&atilde;o vis&iacute;vel da Pessoa de Cristo Cabe&ccedil;a e Pastor do Seu Povo. Por isso, ou ele est&aacute; permanentemente ancorado na rela&ccedil;&atilde;o vital com Cristo ou se tarnsformar&aacute; em vazio e desilus&atilde;o. Por isso, a Eucaristia di&aacute;ria, a Liturgia das Horas, a confiss&atilde;o frequente e os tempos especialmente dedicados a organizar a rela&ccedil;&atilde;o com Ele, como s&atilde;o os retiros e especialmente o retiro anual, s&atilde;o factores decisivos para o entusiasmo no desempenho do nosso Minist&eacute;rio, com repercuss&otilde;es na sua componente fundamental de zelo apost&oacute;lico e mission&aacute;rio.<\/p>\n<p>Convido-vos, por isso e desde j&aacute;, a refor&ccedil;ardes a vossa preocupa&ccedil;&atilde;o por encontrar formas de darmos conjuntamente cumprimento &agrave; radical forma comunit&aacute;ria do Minist&eacute;rio Sacerdotal, assim como tamb&eacute;m &agrave; Fraternidade Sacramental que todos os Sacerdotes s&atilde;o convidados a viver em Presbit&eacute;rio.<\/p>\n<p>O facto de hoje celebrarmos tamb&eacute;m uma institui&ccedil;&atilde;o no Minist&eacute;rio de Leitor, dentro da caminhada para a Ordena&ccedil;&atilde;o Sacerdotal, ajuda-nos a retomar a consci&ecirc;ncia de que os minist&eacute;rios s&atilde;o para ser exercidos em comunh&atilde;o e num corpo sempre Presidido pelo &uacute;nico Pastor que &eacute; Cristo representado nos Ministros Ordenados.<\/p>\n<p>A terminar, desejo pedir a ajuda de Deus e a protec&ccedil;&atilde;o de Maria Imaculada para o nosso esfor&ccedil;o conjunto de darmos cumprimento &agrave;s responsabilidades que nos est&atilde;o confiadas nesta hora particular da vida da Igreja e da sociedade como tal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S&eacute; da Guarda, 8 de Dezembro 2009<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interrompemos hoje a semana de trabalho para celebrarmos a solenidade da Imaculada Concei&ccedil;&atilde;o de Nossa Senhora; para celebrarmos a Festa da Padroeira. 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