{"id":42327,"date":"2009-12-09T10:52:08","date_gmt":"2009-12-09T10:52:08","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2009\/12\/09\/bela-vista-ser-sacerdote-entre-os-pobres\/"},"modified":"2009-12-09T10:52:08","modified_gmt":"2009-12-09T10:52:08","slug":"bela-vista-ser-sacerdote-entre-os-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/bela-vista-ser-sacerdote-entre-os-pobres\/","title":{"rendered":"Bela Vista: Ser sacerdote entre os pobres"},"content":{"rendered":"<p>Os bairros onde vivo a maior parte do meu tempo s&atilde;o na sua maioria habitados por gente pobre. S&atilde;o os chamados &ldquo;bairros sociais&rdquo; na &aacute;rea de Set&uacute;bal, entre eles, a Bela Vista com os seus quase sete mil habitantes, feio e degradado, o 2 de Abril, a Terroa e o 25 de Abril. A par&oacute;quia de N&ordf; Sr.&ordf; da Concei&ccedil;&atilde;o situa-se neles.<\/p>\n<p>Habitados por fam&iacute;lias trabalhadoras em que o &iacute;ndice de pobreza e exclus&atilde;o social &eacute; muito elevado. Cerca de 50% s&atilde;o pobres. O desemprego, o trabalho prec&aacute;rio, os baixos sal&aacute;rios e reformas pequenas s&atilde;o as causas directas da pobreza. A elas se associam o forte n&iacute;vel de quase analfabetismo ou a reduzida percentagem de jovens que acedem ao ensino superior, uns 5% apenas.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o tecido social &eacute; marcado por significativa interculturalidade, muitos emigrantes ou j&aacute; seus descendentes da segunda e terceira gera&ccedil;&atilde;o e a exist&ecirc;ncia de etnias, em especial a cigana, diminuem a qualidade de vida no bairro. H&aacute; dificuldades de conviv&ecirc;ncia e entrela&ccedil;amento.<\/p>\n<p>H&aacute; habita&ccedil;&otilde;es sobrelotadas, por vezes coabitam duas e tr&ecirc;s fam&iacute;lias e os magros or&ccedil;amentos n&atilde;o possibilitam o aluguer duma casa.<\/p>\n<p>Os jovens s&atilde;o a face vis&iacute;vel mais preocupante pela aus&ecirc;ncia de perspectivas de emprego garante dum futuro e duma inser&ccedil;&atilde;o social. A vulnerabilidade atravessa este povo.<\/p>\n<p>Dou comigo a pensar que sou rico entre os pobres. Mesmo privilegiado.<\/p>\n<p>Vivo sozinho numa casa. Tenho uma forma&ccedil;&atilde;o acad&eacute;mica superior e com um n&iacute;vel de intelig&ecirc;ncia e sociabilidade apreci&aacute;veis. Sal&aacute;rio garantido e a dispensa com os bens essenciais. N&atilde;o me deito com fome. Conhe&ccedil;o gente influente. Sou relativamente saud&aacute;vel. Sou escutado todos os domingos por largas centenas de pessoas nas celebra&ccedil;&otilde;es da eucaristia. Sou conhecido por muita gente que me sa&uacute;da. Tenho v&aacute;rios poderes e capacidade de intervir. Tenho fam&iacute;lia que gosta de mim e um bom n&uacute;mero de amigos. Estou ao corrente do sentido de certas transforma&ccedil;&otilde;es que perpassam o mundo, econ&oacute;micas, pol&iacute;ticas, sociais, religiosas. Muita gente confia em mim. Tenho um projecto de vida e condi&ccedil;&otilde;es para o realizar.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>Viver o minist&eacute;rio sacerdotal entre os pobres<\/em><\/p>\n<p>Lembro-me de Jesus que &ldquo;sendo rico se fez pobre&rdquo; e tenho consci&ecirc;ncia de que por mais solid&aacute;rio e dispon&iacute;vel que eu seja tenho um longo caminho de convers&atilde;o a percorrer.<\/p>\n<p>N&atilde;o posso, todavia, deitar fora os talentos que Deus me deu, mas pelo contr&aacute;rio, investi-los ao servi&ccedil;o do Reino. Anima-me e impele-me o projecto libertador de Jesus: &ldquo;O Esp&iacute;rito do Senhor enviou-me a anunciar a Boa nova aos pobres, a liberta&ccedil;&atilde;o aos oprimidos&hellip;&rdquo;.<\/p>\n<p>Vejo e sinto, ent&atilde;o, este povo que carrega ang&uacute;stias, pesos e amarras que o impede de ser feliz e de viver em dignidade.<\/p>\n<p>Uma parte do meu minist&eacute;rio sacerdotal &eacute; andar pelos bairros, contactar com as pessoas, escut&aacute;-las, anotar necessidades, entrar em casas para ver a sua degrada&ccedil;&atilde;o. Nesses momentos h&aacute; uma indigna&ccedil;&atilde;o que sobre dentro de mim contra quem a n&iacute;vel do poder poderia fazer mais por este povo e um sentimento de que os lamentos se ouvir&atilde;o por muito mais tempo. Por vezes, a&iacute; mesmo, me disponho a emprestar a minha voz, a minha intelig&ecirc;ncia, o meu &ldquo;poder&rdquo;, a minha esperan&ccedil;a e ousadia face &agrave;s v&aacute;rias solicita&ccedil;&otilde;es que me s&atilde;o feitas.<\/p>\n<p>&nbsp;S&atilde;o casas com janelas podres, &aacute;gua a correr das canaliza&ccedil;&otilde;es, fios el&eacute;ctricos pelo ch&atilde;o, ruas sem seguran&ccedil;a, lixo e fam&iacute;lias a dormir nos carros por n&atilde;o terem casa.<\/p>\n<p>S&atilde;o fam&iacute;lias que imploram apoio alimentar, pagamento de receitas m&eacute;dicas, gaz e rendas de casa ou um &ldquo;pedido&rdquo; para uma crian&ccedil;a numa creche e, assim, poderem ir trabalhar.<\/p>\n<p>Rostos degradados pelo v&iacute;cio da droga e do alcoolismo. Gente que precisa de desabafar seu sofrimento e receber uma palavra de esperan&ccedil;a e conforto.<\/p>\n<p>Lembro-me tantas vezes de Jesus a ir ao encontro da &ldquo;ovelha perdida&rdquo; e a sentir as entranhas a doer ao ver &ldquo;estas multid&otilde;es que s&atilde;o como ovelhas sem pastor.&rdquo;<\/p>\n<p>Isto me impulsiona a participar ou dinamizar algumas ac&ccedil;&otilde;es colectivas de protesto ou reivindica&ccedil;&atilde;o com as gentes do bairro.<em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>Como &eacute; linda a nossa assembleia dominical. V&aacute;rias centenas de pessoas, num entrela&ccedil;amento de idades, culturas e cores. Parece um jardim! &Eacute; gente que cresce na uni&atilde;o entre si e na busca comum da Palavra de Deus e do alimento da Eucaristia. Canta-se a esperan&ccedil;a que nasce dos gestos criadores que vamos testemunhando, reflecte-se sobre acontecimentos do povo &agrave; luz da Palavra de Deus e de Jesus ressuscitado e pede-se perd&atilde;o pela nossa infidelidade.<\/p>\n<p>Na e da Eucaristia se toma consci&ecirc;ncia das pobrezas e do compromisso solid&aacute;rio. Cresce-se na descoberta da dimens&atilde;o social do Evangelho e duma Igreja de pobres ao servi&ccedil;o dos pobres. O culto n&atilde;o &eacute; um fim em si mesmo. A igreja tem umas portas muito largas. S&atilde;o para acolher quem chega!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Alguns gestos de solidariedade<\/em><\/p>\n<p>Mensalmente a comunidade crist&atilde; partilha alimentos para distribuir pelos mais pobres numa campanha denominada &ldquo;Um quilo disto, um litro daquilo&rdquo;. Pobre ajuda pobre!<\/p>\n<p>Em parceria com outra institui&ccedil;&atilde;o civil e alguns restaurantes fazemos a entrega duma refei&ccedil;&atilde;o &agrave; noite a fam&iacute;lias necessitadas. Desde Mar&ccedil;o j&aacute; foram cerca de 20.000! &Eacute; o milagre da multiplica&ccedil;&atilde;o (ou distribui&ccedil;&atilde;o?) dos p&atilde;es!<\/p>\n<p>V&aacute;rias fam&iacute;lias s&atilde;o apoiadas com roupas.<\/p>\n<p>Estes diversos servi&ccedil;os s&atilde;o dinamizados pelo grupo Caritas paroquial.<\/p>\n<p>Temos um CLAII (Centro de Apoio &agrave; Integra&ccedil;&atilde;o de Imigrantes), um GIP (gabinete de inser&ccedil;&atilde;o profissional) e o Programa Escolhas 3&ordf; Gera&ccedil;&atilde;o para crian&ccedil;as, adolescentes e jovens. S&atilde;o meios que disponibilizamos, lembrando-me de Jesus que evangelizava por &ldquo;gestos e palavras&rdquo;.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>Este vaso de barro que Deus escolheu<\/em><\/p>\n<p>&Eacute; como um vaso de barro que Deus escolheu e que leva dentro de si um tesouro que vivo como padre. Fr&aacute;gil e pecador. Com muita sede tamb&eacute;m. Jesus, a Palavra de Deus, a Eucaristia e a ora&ccedil;&atilde;o que brota da contempla&ccedil;&atilde;o neste povo da ac&ccedil;&atilde;o de Deus me v&atilde;o alimentando e guiando. Apenas mais um ap&oacute;stolo que semeia e acredita no Reino. Na comunh&atilde;o da Igreja e no acolhimento e coopera&ccedil;&atilde;o com homens de boa vontade e que amam a paz e a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Dou gra&ccedil;as ao Pai porque me enriqueceu e me levou at&eacute; junto dos pobres.<\/p>\n<p align=\"right\"><em>Constantino Alves<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os bairros onde vivo a maior parte do meu tempo s&atilde;o na sua maioria habitados por gente pobre. S&atilde;o os chamados &ldquo;bairros sociais&rdquo; na &aacute;rea de Set&uacute;bal, entre eles, a Bela Vista com os seus quase sete mil habitantes, feio e degradado, o 2 de Abril, a Terroa e o 25 de Abril. 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